segunda-feira, novembro 26, 2007

O primeiro Teatro Académico de Coimbra - o berço da A.A.C.

Um grupo de estudantes dissidentes da Academia Dramática, cujos estatutos haviam sido aprovados em 1837, decide criar, no ano seguinte (1838), a Nova Academia Dramática, a qual, desde logo, ficará instalada no edifício do antigo Colégio de S. Paulo, o Apóstolo. Este grande edifício, encontrava-se instalado no mesmo espaço onde, mais tarde se construirá a Faculdade de Letras, tendo esta, por sua vez, dado lugar à actual Biblioteca Geral da Universidade.
O Colégio Real de S. Paulo, o Apóstolo, fora inaugurado em 1563, tendo sofrido os efeitos do terramoto de 1755, e foi extinto por decreto em 1834, para ser, em 1836, entregue à Universidade.
Não existem, actualmente, muitas fotografias deste antigo colégio universitário, mas sabe-se que, já quando a Nova Academia Dramática nele se instalou, o edifício se apresentava num estado de degradação algo notório. De qualquer forma, a nova localização oferecia grandes vantagens logísticas, dado que foi possível construir no pátio do antigo colégio o Teatro Académico, que foi fundado por José de Serpa em 1838 e teve, no ano seguinte, a 24 de Junho de 1839, as duas primeiras representações inaugurais. No entanto, o usufruto pleno das novas instalações, só foi concedido em 15 de Setembro de 1841, tendo a sua posse oficial ocorrido a 8 de Março de 1842. Esta sala de espectáculos teve, durante o quase meio século seguinte, uma grande influência na vida cultural universitária de então. Entre outros aspectos, basta referir que se havia tornado praxe realizar as récitas de despedida no Teatro Académico e que, quando aí havia espectáculo, não ser formavam trupes para perseguir caloiros.
Vale a pena referir que, até 1857, só haviam representado estudantes neste teatro, tendo, neste preciso ano, a situação mudado para sempre, ao ser aí permitida a actuação de artistas profissionais. O primeiro destes foi um então muito popular actor, Francisco Alves da Silva, mais conhecido como Taborda. Aí regressaria mais vezes. O próprio rei D. Pedro V chegou a assistir a espectáculos do Teatro Académico mais do que uma vez. Em 1859, os estatutos da Academia Dramática de Coimbra foram alterados, de forma a permitir de igual modo a actuação de artistas e companhias tanto nacionais como estrangeiras.
Foi neste Teatro Académico que o Orfeon Académico de Coimbra deu, no dia 7 de Dezembro de 1880, a sua primeira representação pública, na sequência das Comemorações do Tricentenário da Morte de Luís de Camões.





Foi então que, no ano de 1887, na sequência de uma nova reforma de estatutos, a Academia Dramática passar-se-á a designar de Associação Académica de Coimbra, tendo obtido alvará em 3 de Novembro desse ano. O seu primeiro presidente foi o Doutor António Luís Gomes (na foto de cima), então estudante de Direito, e que permanecerá no cargo até 1890, ano da sua formatura. De referir que este mesmo antigo estudante seria Reitor da Universidade de Coimbra entre 1921 e 1924.
Foi durante ainda a presidência de António Luís Gomes que a sede da A.A.C., se viu obrigada a ser transferida para o antigo Colégio da Trindade, devido ao facto de o Teatro Académico ter sido encerrado, para posteriormente ser demolido, nesse ano de 1889. A razão para esta súbita mudança, deveu-se ao facto do velho edifício se encontrar perigosamente degradado e poder pôr em risco a vida de quem aí se encontrasse, apesar de já terem sido efectuadas algumas obras de manutenção poucos anos antes.
A demolição do velho Teatro Académico foi particularmente lesiva para a Academia de Coimbra, pois representou o quase total apagamento das actividades culturais estudantis, dado que as novas instalações do Colégio da Trindade não eram propícias à realização de espectáculos, os quais, nesse tempo, seriam a sua principal fonte de receitas. Chegou a prometer-se a posterior edificação de um novo teatro no mesmo local, o que tal nunca veio a acontecer. Acabaria por aqui se construir, de raiz, um edifício de traça neoclássica (foto de baixo), destinado à Faculdade de Letras.

domingo, novembro 25, 2007

Igreja de S. Bento





A Igreja do Colégio de S. Bento, fundado por Fr. Diogo de Murça em 1555 constituía no conjunto de todas as outras antes associadas aos edifícios das Ordens Religiosas uma das mais interessantes. Os seus trabalhos de construção iniciaram-se em 1575 e a sua sagração veio a ter lugar em 19 de Março de 1634. A sua localização era à esquerda de quem hoje sobe a Calçada Martim de Freitas, estando quase encostada a fachada mais visível do Colégio de S. Bento, do lado onde se encontra actualmente a entrada para o Museu de Antropologia. A fachada da Igreja ficava mesmo em frente ao penúltimo (hoje último) arco do Aqueduto de S. Sebastião. À sua direita, começava, algo entalada, entre um gradeamento, instalado já no século XX, e um longo muro que terá pertencido à antiga muralha de Coimbra, a antiga Rua do Arco da Traição, então empedrada e com uma só via possível de circulação.
Após a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, o Colégio de S. Bento e a sua Igreja, foram entregues à Universidade de Coimbra, tendo-se perdido muitos dos seus bens, inclusive a sua grande biblioteca.
Este edifício, apesar da sua crescente degradação tivera, ao longo de quase 100 anos, várias utilizações interessantes. De assinalar o facto de ter sido utilizada como sala de ensaios do Orfeon Académico e como sala de ginástica dos alunos do Liceu José Falcão, onde dava aulas um certo professor Costa Martins, distinto bibliófilo. Esta igreja fora ainda referenciada em diversas publicações de arte, como é exemplo a Arquitectura da Renascença em Portugal, onde é salientada sua interessante abóbada, pejada de elementos quadrangulares.
A sua demolição, já prevista havia algum tempo, iniciou-se em Janeiro de 1932, constituindo-se, segundo a opinião crescente de muitos, um grave atentado ao património de Coimbra, devido ao seu estilo arquitectónico único. Muitos elementos das suas paredes e cantarias, andariam dispersas por vários locais da cidade, tendo sido o último dos quais a cerca do Liceu D. João III. Acabou também por se revelar uma situação premonitória de outra de maior vastidão, a demolição do centro da Velha Alta, cujas destruições começariam daí a 11 anos, na Primavera de 1943. Já em 1932, a eliminação da Igreja de S. Bento, havia levantado vozes de protesto, que foram, aos poucos silenciadas pelas autoridades vigentes, apesar de muitos afirmarem que isso dotaria o Liceu José Falcão, então instalado no Colégio de S. Bento, de uma fachada mais grandiosa e de mais salas bem iluminadas. Apesar de ser uma situação irreversível, a discussão foi-se mantendo acesa a nível de bastidores, nos anos que se seguiriam, tendo levado um novo impulso com as obras da “Cidade Universitária”.

segunda-feira, novembro 19, 2007

O Hospital dos Lázaros







Localizado no lado Sul do desaparecido Largo do Castelo, onde se iniciava a Rua de Alvaiázere, que se prolongava depois pela Couraça de Lisboa e junto ao Castelo de Coimbra, foi criado o Colégio das Ordens Militares de S. Tiago e S. Bento de Avis, cuja primeira pedra foi assente a 25 de Julho de 1615. Na sequência disto, a Rua de Alvaiázere passou a ser definitivamente conhecida como Rua dos Militares.
No entanto, tal como acontecera com a generalidade dos colégios universitários religiosos, a instituição do Colégio dos Militares foi extinta na sequência do decreto de 1834 que determinou a dissolução das Ordens Religiosas, ficando este edifício devoluto e à disposição da Universidade de Coimbra. A partir daqui, seria alvo de sucessivas obras que descaracterizarão muito do seu aspecto original.
Havia ainda um conjunto de edificações, por trás da Rua dos Militares, logo abaixo do edifício principal, cujas traseiras eram visíveis da Rua do Arco da Traição. Esta rua era então uma via exterior à Alta de Coimbra, nela se entrava por um arco do Aqueduto que já não existe e seguia rente a um muro rebocado, que terá pertencido ao antigo Castelo de Coimbra. Estas casas haviam sido residências dos religiosos do Colégio dos Militares. Depois da extinção do Colégio foram destinadas a moradias particulares.
A partir de Dezembro de 1853, o edifício do antigo Colégio das Ordens Militares, seria destinado a alojar os antigos doentes do extinto Hospital de S. Lázaro, depois destes terem permanecido no edifício do Colégio de S. José dos Marianos, actual Hospital Militar, e depois no de S. Jerónimo.
Com vista a melhor cumprir a sua nova função clínica, o edifício seria sujeito a profundas obras de remodelação, tanto a nível externo como interno. A partir daqui, adquiriria o nome de Hospital dos Lázaros, em virtude da sua nova função de gafaria, muito embora, na prática, viesse a alojar futuramente vários serviços em simultâneo, com a gradual diminuição do flagelo da lepra. Seria, apesar de tudo, uma secção permanentemente vocacionada para o tratamento de doenças infecto-contagiosas.
Devido a necessidades de melhor ventilação, as janelas são aumentadas em tamanho, perdendo completamente o seu aspecto original com empenas, sobretudo no alçado sudeste, cuja fachada principal ficaria dentro do mesmo estilo da do edifício de S. Jerónimo, que se pode, actualmente, ainda observar. Nesta fachada, só o desenho dos arcos se manterá intacto. Para melhor organização do funcionamento das enfermarias, muitas das suas divisões seriam ainda alargadas.
Na década de 1930, o edifício do antigo Colégio dos Militares sofrerá mais uma e profunda modificação, que lhe dará o aspecto definitivo. Será demolido todo o conjunto irregular de anexos ainda existentes, tornando-se, assim visíveis os elementos arquitectónicos originais que ainda restavam, de certa forma, no lado nascente da ala defronte do Largo do Castelo. Em compensação pela demolição dos anexos, será acrescentado aqui um novo corpo, que levará a um alargamento da fachada do começo da Rua dos Militares. Na outra ala, em complemento das galerias originais, será construída uma nova galeria em betão. De notar ainda a remoção dos envidraçados que antes tapavam as antigas galerias do desaparecido claustro, o que tornará visíveis os frisos de azulejos que as preenchiam a todo o comprimento, para além de contribuir para um aspecto mais arejado e saudável do edifício. Como complemento, a nova galeria de betão da outra ala, será, nos dois últimos andares, revestida de frisos de azulejos.
O novo espaço conseguido com a demolição dos anexos, foi convertido em jardim, para além de se fazer, junto à lavandaria, uma rampa que permitiria a entrada de veículos de todo o tipo, com vista a um melhor e mais rápido abastecimento do hospital, bem como facilitar o transporte dos doentes. Para além disto, foi colocado um gradeamento em ferro forjado, que se prolongava desde o Largo do Castelo até ao inicio da Rua dos Militares e que seria, decerto a melhor obra aí executada durante este período, para além de embelezar todo um recanto antes menosprezado.
Por esta altura, este edifício passará a ser designado oficialmente como Hospital do Castelo, apesar de a população em geral o continuar a designar por Hospital dos Lázaros.
A ala mais afastada permanecia destinada às doenças infecto-contagiosas. Nos andares superiores, encontravam-se internados os doentes infecto-contagiosos, incluindo os casos de lepra, embora estes tivessem vindo a diminuir ao longo dos anos. Com a criação do Hospital-Colónia de Rovisco Pais, perto da Tocha, os últimos “lázaros” que ainda permaneciam no Hospital do Castelo foram transferidos e os novos casos que aí chegavam eram imediatamente encaminhados para a nova e moderna instituição.
No piso inferior, como complemento das enfermarias de internamento, funcionavam dois dispensários: de um lado um anti-sifilítico e do outro um anti-tuberculoso. Entre outros aspectos, os doentes com tuberculose, que para aqui se dirigiam, ficavam temporariamente internados antes de serem encaminhados para um sanatório.
Na outra ala, direccionada para montante, ficava toda uma série de serviços de consulta externa, incluindo o de Oftalmologia e um serviço de despistagem de doenças do foro venéreo.

Por ironia do destino, este edifício acabou por ser condenado ao camartelo no princípio dos anos 60, na sequência das polémicas obras da Cidade Universitária que, já desde 1943, vinham delapidando muito do património da Alta coimbrã. No seu lugar encontra-se, actualmente, o edifício do Departamento de Matemática
Felizmente, um dos seus elementos arquitectónicos mais relevantes, o seu magnífico gradeamento de ferro forjado, foi parcialmente conservado. Uma parte foi utilizada no arranjo de um pequeno muro junto à portaria do antigo Hospital da Universidade. Hoje, apesar de tudo, poucos lhe prestam a devida atenção e já apresenta sinais muito visíveis de degradação. A outra parte conhecida e mais importante, o seu portão onde se pode ler “Hospitaes da Universidade”, encontra-se junto à escola de Medicina Dentária, na Avenida Bissaya Barreto, do lado oposto a uma das entradas do Hospital Novo.

O primeiro bairro operário de Portugal




O ano de 1895, foi assinalado pela proposta da criação de um bairro para famílias carenciadas economicamente, tendo-se a sua construção iniciado a em 11 de Novembro de 1897, ficando localizado, a meio da actual Rua António José de Almeida, entre o Matadouro Municipal e o antigo caminho de Montarroio e Montes Claros. Já no ano seguinte, 1898, foi publicado um anúncio de arrendamento das casas do bairro e, estando concluídas as primeiras doze casas, procedeu-se a sorteio no dia de Natal do mesmo ano de 1898, no próprio bairro, para distribuição das habitações prontas a receber os seus moradores. Em Fevereiro de 1899, foram entretanto arrendadas as restantes três casas. Desta forma, a construção do Bairro Operário “Bispo-Conde” constituiria, na época, uma obra pioneira de cariz social nesta cidade.
O Bispo fundador, D. Manuel Bastos Pina, falece a 19 de Novembro de 1913, passando este núcleo habitacional para a posse e administração da Câmara Municipal. Como consequência da sua deficiente construção e o pouco cuidado na sua conservação, em breves anos começou a necessitar de frequentes consertos, dispendiosos em relação ao valor das rendas, uma vez haver-se alterado o original objectivo caritativo, por motivo de transferência da propriedade plena. Com passar dos anos, as casas foram-se degradando muito rapidamente, ao mesmo tempo que o progresso da cidade exigia um melhor aproveitamento urbano do local, de tal forma que, a partir de Outubro de 1955, iniciam-se as demolições, de uma forma gradual, das casas deste modesto bairro.
Neste bairro localizava-se igualmente a Capela de Nossa Senhora de Lourdes original, que aqui permaneceria isolada até finais da década de 60, altura em que seria demolida. A actual Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, encontra-se localizada no sítio onde antes estivera o antigo Matadouro Municipal. Durante décadas, o quarteirão antes ocupado pelo bairro operário de Montes Claros, permaneceu inexplicávelmente deserto, transformado num recanto ermo utilizado, não raras vezes, como lixeira ocasional e parque de estacionamento alternativo. Mais recentemente, sobretudo a partir de finais de 2005, foi, finalmente dada luz verde para a realização de obras de embelezamento deste espaço.

sábado, novembro 10, 2007

O Castelo de Coimbra




Muitas das principais localidades do nosso país tiveram, sobretudo no período medieval, “direito” ao seu castelo. Relíquia majestosa de um tempo de batalhas, com avanços e recuos territoriais, onde era essencial defender a todo o custo o espaço físico que já, ou ainda, se possuía, tanto do ponto de vista real como do simbólico, para além de ser uma afirmação de autoridade dos governantes sobre os seus súbditos. A cidade de Coimbra não fugiu à regra. Mas, decerto, muitos perguntarão hoje, onde estará esse castelo?
A verdade é que o castelo de Coimbra já não existe. Localizava-se na zona mais elevada da cidade, como aconteceu com os outros. Mais concretamente, situava-se no então cume da Alta de Coimbra, vários metros adiante do Paço Real, onde se veio a instalar a Universidade. Aliás, a vasta colina encimada pelo Pátio da Universidade, compreendia a cidade muralhada, da qual ainda se conservam alguns vestígios aqui e ali.
O castelo propriamente dito, com o seu núcleo de torres, ficava mais ou menos na área onde actualmente se localiza o perímetro da Praça D.Dinis. Esta construção datava ainda dos tempos da Reconquista Cristã, mais concretamente desde o reinado de D. Afonso Henriques. Era igualmente a mais viva recordação de um tempo em que Coimbra foi capital do então novo Reino de Portugal, antes de perder este estatuto para Lisboa. Com o passar do tempo, tanto a muralha como o castelo foram sofrendo, aqui e ali, alguns acrescentos e reparações, em virtude, não só do crescimento da população que aí se albergava, bem como de episódicos reforços da sua capacidade defensiva. Por exemplo, sabe-se que o rei D.Sancho I construiu uma larga torre, próxima da já existente Torre de Menagem, que ficaria conhecida como a Torre Quinaria ou Torre de Hércules, a qual seria utilizada em diversos períodos como prisão. Devido à consequente degradação das muralhas, estas seriam sujeitas a novos reforços durante o reinado de D. Fernando.
Como consequência da pressão urbanística, devido, nomeadamente, à construção de novos edifícios, seja adossados às muralhas, seja implicando demolições em diversos pontos, tudo isto auxiliado pelo inevitável processo de ruína das mesmas, a estrutura antes defensiva, começou a descaracterizar-se. Isto começou-se, sobretudo, a notar a partir do século XVI, coincidindo com a construção de parte substancial dos grandes colégios das ordens religiosas. Por outro lado, com a inexistência de novas batalhas nesta região, a cidade havia-se começado a expandir para “fora de portas”, secundarizando por completo a função dos muros defensivos. O próprio castelo foi apresentando crescentes sinais de ruína, para além de ser alvo do roubo de pedras, nomeadamente na Torre de Hércules. Apesar da degradação e da gradual demolição de algumas paredes circundantes, o núcleo essencial do castelo, onde se destacavam as já referidas Torre de Menagem e Torre Quinaria ou de Hércules, foi-se mantendo.
Tudo mudou com a chegada da Reforma Pombalina a Coimbra, na década de 1770. Apesar de, para além de outros aspectos, esta ter sido fundamental na modernização dos espaços destinados ao ensino, construindo novos edifícios e beneficiando outros, não o acabou por ser para o seu castelo. Quando se projectou a construção de um moderno e bem equipado observatório astronómico, segundo os moldes mais inovadores de então, foi precisamente escolhida a área ocupada pelo castelo medieval. Adicionalmente, devido ao facto de este espaço estar rodeado por vários edifícios, convinha que fosse alto e tivesse vários pisos. Projectado, juntamente com outros, no ano de 1772, as suas obras iniciaram-se em 1773. No entanto, acabou por se revelar um completo fracasso. Para começar, todo o custo da obra revelou-se, de facto, astronómico. Apesar dos sinais de ruína, a demolição do castelo, nomeadamente das suas robustas torres, estava-se a revelar muito demorada e difícil, para além de francamente dispendiosa. Uma das medidas para tentar contornar este ónus, foi não demolir a parte de baixo da Torre de Menagem, de forma quadrangular, integrando-a no interior da obra. Por outro lado, descobriu-se, muito tardiamente que, afinal, a sua localização não seria a mais indicada. O futuro Observatório Astronómico tornar-se-ia, muito provavelmente, num “elefante branco”. Desta forma, as obras foram suspensas em 1775, quando só estavam erguidas as paredes do andar térreo. Na sequência disto, optou-se por uma solução menos dispendiosa e de conclusão mais célere, que ficou localizada ao fundo do Pátio da Universidade, entre o Colégio de S. Pedro e a Biblioteca Joanina. Aí ficou o novo Observatório Astronómico, até ser demolido em 1951.
Quanto ao resultado da obra inacabada que implicou o sacrifício do velho castelo de Coimbra, este permaneceria assim por mais ou menos uma centúria, à ruína e ao abandono. Foi então que, na sequência da concretização, na segunda metade do século XIX, de diversos projectos de reforma dos Hospitais da Universidade de Coimbra, que o Observatório inacabado foi destinado a lavandaria e rouparia hospitalar. Paralelamente, foi rearranjado um terreno que lhe era adjacente, para a instalação de estendais de secagem de roupa.
Até à concretização das obras da Cidade Universitária, que implicaram o arrasamento de parte substancial da Velha Alta de Coimbra, permaneceriam aqui e ali, alguns vestígios do castelo e paredes circundantes, como a seteira que se pode observar na fotografia de cima. Por volta de 1944, o edifício rectangular da lavandaria é demolido, expondo, uma única vez, o que restava da torre afonsina de Menagem, visível na fotografia de baixo. Logo de seguida seriam efectuadas novas terraplanagens e escavações que ditariam o desaparecimento definitivo do castelo de Coimbra.

O Hospital de S. Lázaro - primeiro hospital de Coimbra








A localização precisa e a extensão do espaço ocupado pela antiga gafaria de Coimbra sempre foi algo envolta num certo mistério. Sabia-se que, como era hábito em estabelecimentos desta ordem, estaria localizada fora da cidade aí permanecendo durante séculos, até que o crescimento urbano durante o século XIX, levou o casario a se estender para lá da zona da Rua da Sofia, tornando esse local demasiado exposto. Por outro lado, a criação de unidades fabris próximas desse local terá sido um dos factores que terá contribuído para a desocupação desse lugar.
É natural que este espaço tivesse sofrido diversas modificações estruturais no que respeita às construções e edifícios que o formavam, pois o processo de degradação dos mesmos era cíclico. No entanto, uma planta elaborada no principio do século XIX, vem ajudar a compreender qual a organização deste espaço tão pouco convidativo a estudiosos.
A planta permite que se tenha uma ideia do local preciso do Hospital de S. Lázaro, da sua dimensão e do estado de conservação dos edifícios que o integravam. O estado de degradação de muitos era notório. Não raras vezes cabia aos próprios doentes a manutenção deste espaço. De referir que, apesar da tutela da Universidade, eles cultivavam muitas vezes os seus alimentos.

Alguns dados cronológicos acerca do Hospital de S. Lázaro de Coimbra :

1209 - No seu testamento, D Sancho I lega a quantia de 10.000 morabitinos para que se fizesse uma gafaria em Coimbra. O abade de Alcobaça fica como o principal responsável pelo cumprimento desta ordem real. D. Sancho I decidiu ainda legar todo o seu espólio aos leprosos conimbricenses.
1210 - Institui-se a gafaria de Coimbra.
1329 - Regulamentação da gafaria de Coimbra.
1452 - Elevação da gafaria de Coimbra a “Hospital”, a partir de uma “declaração” de Afonso V.
1774 - O Hospital de S. Lázaro é entregue à tutela da Universidade, por decreto do rei D. José e intervenção do Marquês de Pombal.
1836/1837 - Desocupação definitiva das instalações do Hospital de S. Lázaro e transferência dos gafos para o edifício recém-desocupado de S. José dos Narianos, junto ao Jardim Botânico. Este, após nova saída dos lázaros, será entregue às Ursulinas, sendo, já neste século, destinado a hospital militar.
1851 - Nova transferência, desta vez para o antigo Colégio de S. Jerónimo, para onde seria depois ampliado o então Hospital Geral, criado no antigo Colégio das Artes.
1853 - Os doentes são transferidos definitivamente para o antigo Colégio das Ordens Militares, que passará a ser conhecido por “Hospital dos Lázaros”.

Depois que foi abandonado, o antigo Hospital de S. Lázaro entrou num processo de degradação lenta. Foi negligenciado em todos os aspectos, tornando-se num espaço insalubre, perigoso e habitado clandestinamente por pessoas das mais variadas proveniências, o que só veio contribuir para um longo desprezo por parte das autoridades sanitárias. O facto de ter permanecido durante séculos como um local “fora de portas”, fez com que a vigilância policial aí fosse praticamente nula. A situação só mudou gradualmente a partir de meados do século XX, quando foi prolongada a Avenida Fernão de Magalhães, que iria atravessar os antigos terrenos da Ínsua dos Lázaros, tornando-se numa saída alternativa à Rua da Figueira da Foz.
O egrégio Hospital de S. Lázaro foi permanecendo numa morte lenta que dura ainda hoje. Como já foi referido atrás, muito pouco resta das construções originais e o que é ainda possível observar, encontra-se descaracterizado ou num estado próximo do irrecuperável.
Apesar de tudo, vão surgindo aqui e ali vozes a defender a revitalização deste espaço há muito votado ao abandono e à habitação clandestina. O seu valor vê-se francamente aumentado, se pensarmos que se trata do único sobrevivente de entre os hospitais da sua geração, de um tempo em que um hospital pouco ou nada tinha a ver com o que habitualmente se designa de “hospital”.
Nesse tempo, a noção que se tinha de o que seria um hospital diferia em muito da actual. Era geralmente um espaço destinado a alojar todos aqueles que fossem portadores de moléstias graves, principalmente cujos sintomas visíveis causassem uma impressão desagradável e se desconfiasse da possibilidade de transmissão às pessoas sãs. Eram locais destinados mais a isolar do que a tratar quem tivesse a infelicidade de ser aí alojado.
A aplicação de toda uma série de ordens camarárias, auxiliada pela terraplanagem do espaço em frente, com vista à instalação polémica de um parque de estacionamento para os funcionários das instituições sediadas nos edifícios próximos, levou à remoção das barracas que por lá existiam. No entanto, o espaço continua ao abandono e a degradar-se progressivamente, à espera de que lhe seja dado algum fim.
As opiniões dividem-se entre os que defendem há muito a demolição definitiva das construções restantes e os que insistem na recuperação daquele espaço com fins muselógicos.

sábado, novembro 03, 2007

Gesualdo Bufalino - uma descoberta tardia



Gesualdo Bufalino foi um dos poucos exemplos de uma afirmação bem sucedida no mundo da literatura depois dos 60 anos. Nasceu em Comiso, povoação localizada na Sicília em 15 de Novembro de 1920, numa modesta família operária. A sua paixão pela literatura, foi-lhe incutida pelo próprio pai, o qual, apesar da sua baixa instrução, era um apaixonado pela cultura, incluindo o teatro e a música. Depois de viver confinado à sua região natal, durante a infância e os primeiros anos de juventude, Bufalino inscreve-se na Faculdade de Letras da Universidade da Catânia, no ano de 1940. No entanto, devido ao facto de a Itália, então sob o poder de Mussolini, ter entrado para a Guerra do lado da Alemanha Nazi, acaba por não frequentar as aulas assiduamente, sendo chamado para o exército dois anos depois. Em Setembro de 1943, após a Itália ter assinado o armistício com os Aliados e, dessa forma, estar virtualmente do lado destes, é feito prisioneiro pelos alemães. Graças à ajuda de uma rapariga amiga, consegue fugir e, depois de alguns meses de viver na clandestinidade e sem um abrigo fixo, consegue, em 1944, encontrar-se com um grupo de conterrâneos seus e obter alguma segurança. Infelizmente, em consequência daqueles longos meses de cativeiro e fuga sem protecção, a sua saúde deteriorou-se muito. Com a chegada do Outono de 1944, adoece com tuberculose, indo convalescer para o sanatório de Scandino. Neste local tem acesso a uma rica biblioteca, facultada pelo médico-director Biancheri, homem de grande cultura e proveniente de uma família com tradição humanista. Graças a esta rica biblioteca e às longas horas de silêncio e quietude que a doença exige, tem finalmente a possibilidade de retomar, ao fim de vários anos, a sua paixão pelos livros. Entre outras obras, tem a oportunidade de ler, pela primeira vez, a obra de Proust em Francês. Em Maio de 1946, consegue uma transferência para um outro sanatório, desta vez localizado em Conca d’Oro, perto de Palermo. Em Março de 1947 obtém a cura e iniciará uma longa carreira de professor em Vitoria.
O seu drama pessoal, a doença que o manteve refém entre 1944 e 1947, será a inspiração para a sua obra prima, “A Dança da Morte”, para a qual começa a escrever as primeiras páginas em 1950. No entanto, só a concluiu em 1971, seguindo-se mais ou menos uma década de revisões. Finalmente, em 1981, sob o incentivo de um seu amigo e escritor Leonardo Sciascia, decide finalmente publicar este pequeno livro, com o qual receberá o Prémio Campielo.
A partir daí, encorajado por este prémio, virão a lume, com grande regularidade, publicações da mais diversa natureza, desde romances à crítica literária, passando pela fotografia. Nos seus últimos anos de vida, sob um novo impulso produtivo, publicará um romance por ano, o que fazia prometer ainda uma produção literária apreciável. No entanto, tal não acabaria por acontecer.
Morre a 14 de Julho de 1996, vítima de um acidente de viação ocorrido perto de Comiso, sua terra natal com 76 anos incompletos.

Lee Mallory





Lee Mallory nasceu em Berkeley, na Califórnia, em 10 de Janeiro de 1945, foi cantor, compositor e guitarrista, tendo participado, sobretudo, em diversas colaborações com outros artistas.
O seu êxito mais conhecido foi uma canção gravada no Verão de 1966, denominada “That’s The Way It’s Gonna Be”, que foi um dos temas cimeiros de um género musical a que se deu o nome de “Sunshine Pop”, cujo período de maior êxito foi na segunda metade da década de 1960 e foi um dos sons que constituíram o pano de fundo do psicadelismo, do “Flower Power” e da onda “hippie”. O seu ritmo cativante, a sua letra descaradamente optimista e o seu sentimento muito positivo, reforçado pela sonoridade das vozes, tornou esta canção num dos primeiros temas a anunciar os novos tempos que aí viriam, não só em termos musicais, mas também sociais. Apesar de, nesse ano de 1966, ter atingido 86º lugar nas tabelas de vendas, foi nº1 em Amsterdão e nº2 em Seattle.
Para o efeito que este tema teve em muito público jovem de então, principalmente da West Coast dos E.U.A., muito terá contribuído a produção e participação como cantor e como músico de Curt Boettcher. Terá sido ele também a “apresentar” o tema a Lee Mallory, a que logo este aderiu. Aliás, a versão final que ficou conhecida na voz de Mallory, seguia com grande fidelidade as sugestões de Curt Boettcher. A “demo” por este gravada, já apresentava todas as características para, por si só, ter êxito. Basta referir que o grande talento musical de Curt Boettcher, fazia com que as canções que ele compunha e demonstrava para outros cantores e grupos, já tivessem praticamente a qualidade de um produto final, sem precisar, portanto, de arranjos de assinalar para estar em condições de ser editadas em disco.
A colaboração entre Lee Mallory e Curt Boettcher, produziria mais uma série de temas gravados e editados entre 1966 e 1967, bem como diversas gravações que ficariam inéditas por muitos anos. Apesar de, na carreira posterior de Lee Mallory , não ter surgido mais nenhum êxito equiparável a “That’s The Way It’s Gonna Be”, a qualidade dos seus temas, salvo alguma experiência menos feliz, manteve-se quase inalterada. Em paralelo, Lee Mallory, em colaboração com Curt Boettcher e Gary Usher, será um dos elementos mais essenciais de um projecto musical de grande qualidade denominado “Sagittarius”, do qual sairia um disco homónimo em 1968.
Ainda em 1968, Lee Mallory, novamente com Curt Boettcher e vários membros da sua banda, dão início a um novo grupo ou melhor, projecto musical, denominado Millennium. Mais uma vez, a presença de Curt Boettcher far-se-á notar como músico, compositor e cantor (com a sua voz em grande destaque), para além de ter sido o seu principal produtor. Logo neste ano este projecto dará os seus primeiros frutos, materializados sob a forma de um álbum de seu nome "Begin". No entanto, apesar do que o seu nome prometia, acabou por ser também este o último disco oficial desta banda. Houve igualmente todo um conjunto apreciável de gravações que acabariam por ficar inéditas durante muitos anos. Devido ao facto de, entre outras razões, os Millennium serem uma banda sem formação fixa e terem sido constituídos a pensar só no trabalho de estúdio, o seu êxito no seu tempo foi quase nulo, o que levou a determinar a sua curta existência. Para além do mais, o único álbum que os Millennium lançaram durante a sua curta existência, foi particularmente dispendioso, o que fez a respectiva editora não disponibilizar quaisquer recursos para a sua promoção, que seria essencial para a sua divulgação junto do público. Só no final dos anos 90, os Millennium seriam resgatados do esquecimento, graças às várias reedições em CD, tendo a sua qualidade, incluindo o talento de Lee Mallory, recebido o reconhecimento devido.
Posteriormente a este projecto, vale a pena assinalar a participação de Lee no musical emblemático “Hair”, quer como músico da respectiva banda, onde ocupava o lugar de guitarrista principal, quer como membro da companhia que actuava ao vivo.
A partir deste final de 60, e com as mudanças no panorama musical, a carreira de Lee Mallory dispersou-se entre participações em diversos grupos e projectos musicais, como músico, cantor e compositor, muitos deles de curta duração e só divulgados a nível praticamente local, para além de actuações ao vivo, incluindo ao ar livre e em bares. Apesar de tudo, é quase unânime para todos aqueles que com ele conviviam ou simplesmente assistiam às suas actuações em ambientes quase intimistas, as grandes qualidades artísticas e humanas de Lee Mallory.
De qualquer forma, tal como acontecera com muitos outros artistas seus contemporâneos, a vida de Lee Mallory, também foi palco dos mais diversos excessos, nomeadamente no que diz respeito ao abuso de drogas e estupefacientes, o que acabaria por deixar sequelas irreversíveis na sua saúde. Os seus últimos anos de vida, foram, em grande parte vividos a tentar minimizar os seus efeitos e, ao mesmo tempo, promover e participar em diversas iniciativas de cariz social e artístico, na zona de San Francisco, onde ele havia passado a residir. Muitos dos participantes nestas iniciativas eram francamente mais jovens do que ele, o que, de alguma forma, servia de constante estímulo para ele levar avante a sua carreira de artista e promover o apoio a outros músicos que residiam e actuavam na sua zona. Em complemento desta sua muito activa vida social, Lee Mallory colaborava com regularidade em diversos periódicos locais.
O seu envelhecimento físico algo prematuro, que se traduzia numa saúde em declínio, havia-o tornado numa pessoa algo zelosa com a forma como levava a sua vida. Aliás, já em 1995, ele havia sobrevivido a um coma, o que, entre outros aspectos, muito contribuiu para a sua, ainda que muito tardia, vitória sob os vícios do tabaco e da droga, da qual ele fez grande divulgação e chegou a receber um certificado.
Foi na sequência desta sua regeneração pessoal e do seu empenhamento artístico e humano, no seio da sua comunidade, que o San Francisco Board of Supervisors, decidiu proclamar o dia 10 de Janeiro de 2005, como o primeiro “Lee Mallory Day” (algo como “Dia de Lee Mallory”), em homenagem não só ao músico em questão, como a todos os cantores-autores. Este dia foi escolhido também por ser o aniversário de Lee Mallory, em que ele completou 60 anos de vida.
Por outro lado, sabia-se que ele atravessava, mais uma vez, sérios problemas de saúde, sob a forma de um cancro no fígado, o que decerto, contribuiu para toda a atenção que amigos e conhecidos lhe dispensavam. Mallory contava ser sujeito, proximamente, a um transplante de fígado, o que nunca veio a acontecer. Em paralelo, teve um papel activo na consciencialização do público relativamente à Hepatite C, para além de desejar que a história da sua vida pessoal, devido aos excessos do passado, funcionasse como um aviso para os jovens músicos levarem uma vida mais cuidada.
A 18 de Março de 2005, Lee Mallory fez as últimas gravações para o seu derradeiro álbum, que constituía também o seu primeiro trabalho de estúdio após vários anos de ausência, bem como aquele onde finalmente teve o controle completo de toda a parte criativa, depois de décadas de trabalho sempre sob a direcção tanto de outros tantos músicos e produtores. Sucumbiria, por fim, à doença no dia 21 de Março de 2005, em San Francisco.