segunda-feira, maio 05, 2008

Uma obra polémica

A principal razão que torna este livro tão polémico é antes uma faca de dois gumes. Por um lado, trata-se de uma visão por dentro da realidade dos bombardeamentos das zonas urbanas alemãs, indo desde a visão mais geral até a um conjunto de pormenores seleccionados entre muitos, com uma fluidez própria de quem teve acesso a uma vastidão de documentos. Jörg Friedrich consegue, graças a uma expressão escrita de grande qualidade, fazer desenhar na mente dos leitores as realidades que vem trazendo ao de cima. Associe-se a isto o aspecto, fundamental, de o autor ser alemão e ter uma longa experiência de jornalista que lhe permitiu chegar a fontes onde muito poucos, mesmo seus compatriotas, conseguiriam chegar. Encimando tudo isto, o envolvimento e a carga emocional que ele revela relativamente ao tomar o partido quase exclusivo da sua nação germânica, enquanto vítima de destruições maciças no seu território. Esta perspectiva enraizadamente parcial relativamente a um importante episódio ocorrido ao longo da Segunda Grande Guerra torna, decerto, este livro uma obra sui generis relativamente a outras do mesmo género. Torna-o, igualmente, um elemento de estudo adicional, a não ignorar para qualquer historiador ou simplesmente curioso acerca do maior conflito bélico do século XX. Relativamente a qualquer guerra, batalha ou simplesmente contenda, é sempre de todo o interesse conhecer o maior número de perspectivas, provenientes das várias facções envolvidas, por mais discutíveis e criticáveis que estas possam ser.
É precisamente no que se refere a este último aspecto, que se começa a desenhar o outro “gume” da faca. O livro traz à tona informações e dados essenciais e pouco ou nunca explorados, mas surge, mesmo assim, incompleto, devido à sua visão declaradamente parcial.
Deve ser lido em conjunto com outras obras acerca do vasto e multifacetado tema da Segunda Guerra Mundial. Aprofunda, como deve ser, uma das suas facetas mais impressionantes, mas passa muito ao de leve pelas outras. Apesar de ser um livro essencial e bem escrito é, todavia, complementar e não se basta a si mesmo.
Se este livro for lido por gente que não tenha um conhecimento básico acerca da história da Segunda Guerra Mundial (e não há poucos nos dias que correm), podem-se gerar mal-entendidos. Pode-se ficar com a estranha sensação de que os alemães, pelo menos os civis, é que foram as grandes vítimas deste conflito bélico desencadeado pelos seus próprios líderes de então.

O começo e o fim

Numa tentativa de obterem o êxito que lhes escapava, Gary Usher e Curt Boettcher decidem pôr de novo a funcionar o seu projecto musical Sagittarius. De referir que este Sagittarius não era representado por uma banda concreta e os seus únicos elementos fixos eram apenas aqueles dois. Todas as outras vozes e partes instrumentais eram executadas por cantores convidados e músicos de estúdio, que eram igualmente solicitados para outros projectos musicais paralelos. Esta impossibilidade de conseguir criar uma road band, tornava este Sagittarius enigmático e misterioso, mas também impossibilitava os espectáculos ao vivo e a promoção mediática, tão essenciais para um grupo ou cantor se dar a conhecer ao grande público.


Desta forma, Gary Usher e Curt Boettcher tinham em mãos uma tarefa hercúlea, que consistia em conseguir finalmente captar o público médio ouvinte para o seu som, destacando-se de entre os demais num mercado já de si muito competitivo e saturado, mas também em procurar manter, senão ultrapassar, a criatividade e a qualidade do primeiro álbum “Present Tense”, lançado a 3 de Julho de 1968. Isto porque, já nessa altura, havia um núcleo de fiéis ouvintes e críticos musicais que reconheciam a qualidade suprema deste disco, que merecia uma melhor sorte. Apesar de tudo, as expectativas ainda eram muito elevadas.


Assim, surge o disco “The Blue Marble”, uma homenagem inequívoca ao planeta Terra, bem visível na capa, num ano assinalado pela primeira viagem e chegada à Lua. Este disco surge como o primeiro álbum e, actualmente, o principal “sobrevivente” de uma editora discográfica que só durou pouco mais de meio ano: a Together Records. Esta fora fundada em 1969, sob a iniciativa de Gary Usher, na sequência do seu despedimento da Columbia Records onde, apesar de tudo, tinha deixado nome e conseguido um palmarés muito considerável. Basta referir que o seu trabalho de produtor se cruzou com grandes nomes da música popular moderna, tais como os “Byrds” e os “Beach Boys”. Relativamente a este último grupo, Gary Usher também emprestaria um pouco dos seus dotes de compositor, tendo escrito várias canções em parceria com Brian Wilson, inclusive o famoso “In My Room”, que seria reutilizado para tema de abertura do álbum “The Blue Marble”. De referir que esta versão superproduzida de “In My Room”, seria o único êxito (menor), extraído do segundo e último álbum dos Sagittarius.
Ao contrário do primeiro trabalho, “Present Tense”, que era dominado, pelo menos a nível das vozes, pela figura de Curt Boettcher, “The Blue Marble” dá um especial predomínio a Gary Usher. Neste segundo disco, Gary Usher decidiu tomar as rédeas da sua produção, apesar de, em dois temas, ele a partilhar com o seu colega Curt Boettcher e com Keith Olsen no tema de abertura.


Gary Usher assumiu também o papel de compositor principal, exceptuando no tema-título, “The Blue Marble”, que era da autoria do seu conhecido Lee Mallory, e participou quase sempre nas partes vocais, se não mesmo como vocalista principal, da maioria dos temas, apesar de ele próprio não se considerar muito dotado em termos vocais. Ironicamente, a voz que Gary Usher consegue mostrar nos temas onde é o vocalista principal, deve muito a Curt Boettcher, este um cantor de excelência.

Apesar de ainda se encontrar presente durante as gravações deste disco, enquanto co-fundador dos Sagittarius, Curt Boetcher aparece relegado para um plano quase secundário. A sua voz só surge a solo no tema “Will You Ever See Me” e em harmonia no tema “In My Room”. Dá a clara impressão de, na prática, ele ser quase apenas mais um simples convidado, tal como os outros session singers que iam aparecendo de quando em quando.

Esta participação quase superficial de Boettcher encontrará explicação no facto de ele se encontrar, por essa altura, à frente de um outro projecto musical muito ambicioso, representado pelo grupo Millennium. Em 1968 estes Millennium haviam gravado, para a antiga editora de Gary Usher – a Columbia Records – um dos álbuns mais caros de sempre: “Begin”. Curt Boettcher e os outros elementos dos Millennium, entre os quais Lee Mallory, contavam que este disco fosse o começo de uma nova fase nas suas carreiras, onde o sucesso poderia começar finalmente a brilhar sobre as suas cabeças. Eles haviam utilizado ao máximo as suas capacidades individuais e tudo aquilo que a tecnologia existente em estúdio lhes pudesse oferecer, julgando ter produzido a obra-prima das suas carreiras musicais.


O que acabou por acontecer, foi que, devido a uma promoção deficiente, associada a espectáculos ao vivo que não conseguiam reproduzir a qualidade do trabalho de estúdio, o álbum “Begin”, revelou-se um fracasso de vendas logo nas cruciais primeiras semanas. Os donos da Columbia Records já haviam ficado um tanto quanto agastados com os avultados custos de produção que o álbum “Begin” havia implicado. O insucesso nas vendas foi a gota de água para não renovarem o contrato discográfico dos Millennium.

O despedimento dos Millennium coincidiu mais ou menos com a saída abrupta de Gary Usher da Columbia Records. Foi na sequência disto que Curt Boettcher decidiu acolher a sua nova banda na Together Records, a então nova editora “independente” que ele havia fundado juntamente com Gary Usher e Keith Olsen, com o apoio de uma companhia de distribuição discográfica de Mike Curb.

Acontece que, apesar do grande espírito de iniciativa, que era a principal força motriz da Together Records, ter permitido a produção de um grande número de projectos musicais, esta começou a revelar-se um poço sem fundo, onde eram investidas verbas sem o devido retorno. Desta forma, a Together Records começou a entrar em decadência passados apenas alguns meses. A retirada do apoio por parte de Mike Curb e outros investidores, ditou o fim desta editora no começo de 1970. Muitas das gravações produzidas para esta editora ficariam inéditas por um longo tempo. Entre estas estavam diversas gravações do outro grupo principal desta editora, os Millennium, acabando, desta forma, o seu primeiro álbum, “Begin” (trad.:começo/começar), por ser também o seu único e último.


Após o fiasco da Together Records, tanto Gary Usher como Curt Boettcher viram as suas carreiras entrar numa longa fase de incerteza, com muitos períodos de interregno criativo, sendo apenas solicitados de quando em quando. Praticamente esquecidos do grande público, acabariam, no entanto, por continuar a ser altamente considerados por todos aqueles que os conheciam de perto e os haviam acompanhado ao longo das suas curtas vidas e carreiras.