segunda-feira, dezembro 31, 2007

A Leitaria Académica


Entre as muitas “vítimas” das demolições da Velha Alta de Coimbra, uma das mais simbólicas e lamentadas pela academia coimbrã, foi a Leitaria Académica, mais conhecida pelo nome do seu fundador e proprietário, Joaquim Inácio, vulgo Joaquim “Pirata”. Figura sempre lembrada pelos estudantes que passaram por Coimbra nas décadas de 1920, 1930, 1940 e mesmo 1950, este Joaquim “Pirata”, tinha o seu estabelecimento bem na desaparecida Rua Larga, a fazer esquina para a Rua de S. João, esta última (ainda?) hoje existente, mas numa versão que nada tem a ver com a original.
A origem da alcunha do seu proprietário, é desconhecida, mas era este o nome por que todos os estudantes lembravam esse homem de figura muito peculiar, sempre envergando um impecável casaco branco.
Este estabelecimento era um espaço algo exíguo, só ocupando duas portas que davam para a Rua Larga, tanto que em dias de festa, os seus frequentadores tinham de ir consumir para a rua, não havendo, para mais, esplanada. Mais frequentemente, era utilizado pelos estudantes quando iam tomar o pequeno-almoço, apressadamente, antes de irem para as aulas. Era precisamente na relação deste Joaquim “Pirata” com os seus clientes, que residia um dos seus aspectos mais peculiares, e que se revelou uma estratégia de negócio algo bem sucedida.
O cliente entrava, consumia, mas não era obrigado a pagar a pronto. No entanto, tinha de deixar o seu nome num de dois ou três grossos livros, sebosos pelo uso, que existiam bem à vista no balcão. Estes livros eram conhecidos pelos “canis”, derivado da expressão “ferrar o cão”, sinónimo de ficar a dever, não pagar a conta. Esta sua atitude aparentemente permissiva conquistou a simpatia da sua clientela, predominantemente estudante, que muito frequentava este espaço. O senhor sabia que, mais cedo ou mais tarde, as dívidas iam ser saldadas, o que quase sempre acontecia. Muitas vezes, o antigo estudante, num rebate de consciência, só lá regressava alguns anos depois do fim da sua licenciatura e, finalmente, o seu nome era riscado. Não raras vezes, esta dívida era motivo de celebrações bem regadas à porta do estabelecimento.
A Leitaria Académica, aberta desde por volta de 1923, tinha como outra característica distintiva um grande azulejo com o símbolo da Associação Académica de Coimbra, colocado entre as suas duas portas de entrada. Terá sido um dos primeiros estabelecimentos de Coimbra a ter esse símbolo, criado pelo então jovem estudante Fernando Pimentel, no ano de 1927. Entretanto, em Maio de 1944, com o inexorável avanço das demolições, iniciadas no ano anterior, para a construção da nova “Cidade Universitária”, o “Pirata” vê-se obrigado a encerrar as portas.

Transferiu-se para a Rua dos Estudos, onde permaneceria até Outubro de 1949, na sequência do desmoronamento do edifício onde se localizava, incidente a que não foram alheias as demolições que decorriam já nas suas imediações. Na sequência disto, é obrigado a nova mudança, desta vez para um prédio situado junto aos Arcos do Jardim, o primeiro à esquerda, que seria demolido em Outubro de 1959. A partir daqui, não mais se soube do paradeiro do espólio que dentro dele existia.




Gram Parsons e os Byrds




Gram Parsons nasceu, na Florida, no Sul dos Estados Unidos da América em Novembro de 1946 numa família mais ou menos abastada, pelo menos por via materna. O seu nome de baptismo era Ingram Cecil Connor, mas decidiu, pelo menos a nível artístico, adoptar o apelido do seu padrasto. Tendo desde muito cedo manifestado um grande talento musical, Gram Parsons aprendeu logo na infância a tocar vários instrumentos, nomeadamente o piano. Após um período de alguma estabilidade familiar, a sua família começou a desagregar-se em grande parte devido ao alcoolismo da mãe, que já havia ficado viúva na sequência do suicídio do seu primeiro marido.
Na sequência destas vicissitudes, Gram Parsons começou a dedicar-se ao aperfeiçoamento dos seus dotes musicais. Tal como aconteceu com outros jovens americanos nessa segunda metade dos anos 50, ele desenvolveu um forte interesse pelo rock and roll, então uma novidade em todos os campos. Tendo este género musical como referência, participou em diversas bandas com pouco mais de 10 anos de idade, actuando em bares e clubes que eram propriedade do seu padrasto. Em paralelo, rendeu-se igualmente à música folk, com uma tradição muito marcada na zona onde cresceu, sem esquecer a componente fundamental da música negra. Ainda no final da adolescência, acabou dar a primazia a este género musical, claramente mais consensual do que os novos ritmos que a década de 1960 começava a trazer, nomeadamente provenientes do outro lado do Atlântico, por via de grupos como os Shadows e os Beatles.
Foi sob a influência de outros grupos, já consagrados como o Kingston Trio e os Journeyman, que Gram Parsons constituiu a sua primeira banda profissional, os Shilos, em 1963. Esta banda actuava, com grande êxito, nos mais diversos locais, desde bares a auditórios de liceu. Entretanto, após uma breve permanência na Universidade, decide aprofundar a sua grande paixão pelo country, reunindo-se com outros músicos da zona de Boston. Seria com alguns destes, que Parsons formaria uma nova banda, desta vez com maior destaque, denominada "International Submarine Band". Por volta de 1967, esta banda transfere-se para Los Angeles tendo, no ano a seguir, lançado o álbum, Safe at Home.
Ainda que a música country constituísse o seu género de eleição, Gram Parsons não era um músico de horizontes restritos a este género de regras muito próprias. Cultivava um interesse paralelo pelas novas correntes em que a música rock se havia ramificado e estava profundamente aberto a tentar combiná-las com um género musical aparentemente avesso a grandes mudanças como era o country. O cantor e compositor Gram Parsons interpretava uma música onde as sonoridades e as temáticas eram claramente do universo do Country, mas a sua atitude, apresentação e instrumentação devia muito mais ao rock. Aliás foi com ele que se começou a popularizar um, então, novo género, denominado “country rock”.
O próprio Gram Parsons personificou esta aparente dissonância country/rock: por um lado a sua música soava a uma versão electrificada do country e as suas actuações estavam a ter uma aceitação e sucesso crescentes em círculos e zonas desde sempre seu terreno privilegiado, nomeadamente na região de Nashville; por outro, a sua forma de vestir, círculos de amizades, fãs e estilo de vida eram semelhantes, senão comuns, às estrelas do rock de então, incluindo mesmo nos aspectos negativos, como por exemplo, o uso de drogas cada vez mais pesadas.
Em 1968, Gram Parsons integrou, temporariamente, os Byrds, por via de um dos seus membros, Chris Hillman. Neste período, o grupo não atravessava propriamente um período muito feliz.
Tendo atingido uma rápida consagração em 1965, então apadrinhados por Bob Dylan e sob os auspícios de um êxito imediato com uma muito bem conseguida versão de um tema da autoria deste, Mr. Tambourine Man, os Byrds estavam lentamente a decair. Esta situação arrastava-se desde a saída de Gene Clark, um dos seus elementos fundadores, no ano de 1966, após dois álbuns consistentes. Nessa altura, Jim Roger McGuinn, o cantor principal, decide assumir a liderança do grupo, embora esta tenha vindo a ser cada vez mais contestada pelos outros membros. Neste ano de 1966, Roger McGuinn tomando as rédeas da direcção musical do grupo, decide dar um passo ousado tentando criar aquilo que ele designava de “space rock”. Mantendo a sonoridade básica, os temas das suas canções começam a versar a conquista do espaço, a existência de outras galáxias e o futuro da tecnologia, ainda que a criação de muito destas outras “dimensões”, tenham tido por trás o crescente apoio de certas “substâncias”, como por exemplo, os alucinogénios, então muito em uso. Associado a isto, os Byrds aproximam-se, como outros grupos, do psicadelismo e dos encantos orientais, em especial pelos sons indianos.
Foi um período interessante, em que eles produziram uma das suas maiores obras-primas, Younger Than Yesterday, álbum saído no começo de 1967. Por outro lado, as relações entre os seus membros deixavam transparecer uma certa conflitualidade, nomeadamente no que respeita à direcção artística. Foi na sequência disto que se deu o despedimento de David Crosby, outro elemento-chave dos Byrds, o que deixaria Roger McGuinn cada vez mais isolado na liderança do agora “seu” grupo, em paralelo com a progressiva frustração e subsequente afastamento dos outros elementos. Foi após o ousado e excêntrico Notorious Byrd Brothers, lançado nos primeiros dias de 1968, que o grupo se viu num impasse e sem futuro definido, sem falar na saída do baterista Michael Clarke, outro elemento fundador. Reduzido ao magro núcleo Roger McGuinn-Chris Hillman, houve necessidade de encontrar novos elementos. Foi aqui que entrou Gram Parsons.
Com a banda mais ou menos composta, Roger McGuinn decide enveredar por mais um projecto musical para um novo disco, que pretendia ser uma reunião de vários estilos musicais, incluindo o Country. Era um novo renascimento dos Byrds. No entanto, ao tomar contacto com o background musical de Gram Parsons, Roger McGuinn decidiu reformular totalmente o seu projecto musical. O álbum seria dominado predominantemente pelo Country, ou melhor, por esse género musical que então surgia e que se designou, em definitivo, por “Country-Rock”. Numa fase de exploração de novos géneros musicais, McGuinn empenha-se a fundo em assumir o papel de um dos primeiros divulgadores dessa inovadora corrente musical, ao lado do seu “mentor” Gram Parsons. O próprio nome do álbum era descaradamente Country: Sweetheart Of The Rodeo.

Originalmente, Roger McGuinn pretendeu dar a liderança vocal à sua nova “aquisição” Gram Parsons, tarefa que este cumpriu magistralmente em quase todos os temas da maquete projectada. De facto, Sweetheart Of The Rodeo, foi o disco que verdadeiramente lançou a popularidade de Gram Parsons e onde este teve muitos dos seus melhores temas de toda a sua carreira, precisamente por se encontrar na sua melhor fase, em termos pessoais e criativos. O problema surgiu no final das sessões de gravação quando vêm acima razões contratuais, que impediam Gram Parsons de surgir como o “lead singer” neste disco. Na verdade, Gram Parsons nunca foi verdadeiramente membro dos Byrds, era apenas um músico convidado “assalariado”.


Desta forma, as partes vocais de Gram Parsons tiveram de ser regravadas por Roger McGuinn que, apesar de tudo, conseguiu, discretamente, imitar o estilo vocal e o sotaque sulista daquele. Felizmente, que novas edições recentes em CD, conseguiram recuperar as gravações que, de pleno direito, deveriam estar incluídas no álbum original, apesar de surgirem como "temas bónus".
Este disco é o único que documenta a breve passagem e a influência de Gram Parsons nos Byrds e o primeiro verdadeiro de Country-Rock a obter grande popularidade. Representou também um novo fôlego para os Byrds, apesar de se tratar de um caso à parte na discografia deste grupo.
Logo depois do lançamento deste disco, Gram Parsons saiu do grupo, seguido, no espaço de alguns meses, por Chris Hillman, com o qual formaria o grupo Country Rock “The Flying Burritto Brothers”. Depois desta nova experiência de grupo, Gram Parsons iniciou verdadeiramente uma carreira a solo, intervalada aqui e ali pela sua participação em gravações de estúdio e espectáculos ao vivo com outros grupos. No entanto, o momentum e a espontaneidade que foram conseguidos durante as gravações de Sweetheart Of The Rodeo não mais se repetiriam. Basta referir que, nesta fase, Gram Parsons retomara uma vida pessoal algo errática, cada vez mais plena em doses astronómicas de álcool e drogas duras. Nesta fase, conviveu, com regularidade, com membros de outros grupos, nomeadamente Keith Richards dos Rolling Stones. Ainda lançaria alguns trabalhos a solo, para além de incessantes digressões, numa espiral cada vez mais perigosa, que terminaria, abruptamente e em condições misteriosas, fala-se em overdose, em Setembro de 1973, quando se encontrava num processo de divórcio algo agitado. Em suma, basta referir que Gram Parsons e outros artistas como Emmylou Harris, contribuíram para a renovação da country music e por despertar o interesse das gerações mais jovens por um género que, em tempos, parecia algo parado no tempo.

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Sir Arthur Harris - parte 2

Sir Arthur Harris no seu gabinete.
Arthur Harris assumiu o seu lugar à frente do Comando de Bombardeiros da R.A.F. no final de Fevereiro de 1942. Tal como muitos outros oficiais e membros do Parlamento Britânico, sem falar no próprio Primeiro-Ministro Churchill, Harris estava profundamente desiludido com as tácticas de bombardeamento, até então, utilizadas sobre o território do 3º Reich. Fazia, por isso, parte de um vasto grupo de opinião que defendia a necessidade de uma mudança radical de atitude e estratégia.
Havia muito que os ataques aéreos eram efectuados de noite e a grande altitude, como forma de dificultar a intercepção por parte das defesas do inimigo. Isto tornava impossível qualquer tentativa de precisão dos alvos, tanto mais que a prática obrigatória dos “black-outs” nocturnos anulava praticamente qualquer vestígio de visibilidade dos mesmos. Os meios de navegação quase sempre se baseavam em coordenadas aproximadas quanto à localização de este ou aquele alvo, apesar de já se utilizar alguns meios de detecção por radar, mas que eram muito pouco precisos. Em suma, as missões eram, em grande parte, efectuadas às cegas, caindo grande parte das bombas fora do alvo pretendido. Do lado germânico, os meios de detecção das esquadrilhas invasoras estavam a conseguir cada vez maior precisão, o que agravava o risco de vida dos pilotos e ainda mais se tentassem reduzir a altitude de forma a precisar um pouco melhor os alvos.
Por outro lado, o povo britânico, tanto os civis como os militares, acabava de atravessar uma fase em que a evolução do conflito não lhes fora favorável, apesar de alguns reveses obtidos pelas forças do Eixo. Era certo que o inimigo tinha os seus pontos fracos e não era tão temível, a nível bélico, claro, como havia sido propalado ainda havia dois anos. Mesmo assim havia sempre um sentimento forte de insegurança em relação ao futuro: resistiam bem, mas até quando? Não havia dúvida que o optimismo pendia, então, mais para o lado do Eixo. Sem falar nas vias marítimas infestadas de submarinos “U-Boat” germânicos, apesar de já se lhes estar a dar uma melhor “resposta” e o temível couraçado “Bismark” ter já ido ao fundo no ano anterior.

Imagem famosa do "Blitz" sobre Londres, em 1940. O efeito de luz sobre a St. Paul's Cathedral, foi conseguido no momento em que o sol despontava sobre a cidade, depois de mais uma noite de bombardeamento.

Exemplo paradigmático da destruição em diversos sítios de Londres.
Para além disto havia “contas a ajustar” com o inimigo germânico pelo inferno do "Blitz", sofrido ainda há relativamente pouco tempo e pelos bombardeamentos, mais fracos e esporádicos, que ainda iam ocorrendo aqui e ali, apesar de muito das forças atacantes da Luftwaffe estar agora a ser canalizado para a “frente” Leste. Existia uma grande animosidade por parte da opinião pública aliada relativamente ao inimigo germânico, sem falar em sentimentos muito fortes de vingança por parte daqueles que haviam sofrido directamente as consequências dos ataques a nível de perdas materiais e humanas. Os seus dirigentes, tanto por razões de patriotismo e solidariedade, como de prestígio social e político, afirmavam-se plenamente do seu lado, através de discursos cada vez mais duros relativamente à sorte que esperaria os seus inimigos, principalmente a Alemanha, cujas cidades deveriam ser atacadas, se não, “arrasadas até aos alicerces”. Os alemães eram designados por “boches” e a sua nação representava, para os aliados, uma espécie de “Grande Satã”.


Foi neste contexto que o Marechal Arthur Harris, se sentiu encorajado a delinear as novas estratégias de ataque aéreo que já vinham sendo advogadas há algum tempo. Basicamente, estas tinham por trás as ideias básicas de que, por um lado, era irrealista qualquer tentativa para se distinguir alvos militares e civis a tão grande altitude e com visibilidade muito reduzida, por outro, a área de cada cidade em si, era o único alvo observável. Para além disto, havia a intenção de reduzir ao mínimo o número de perdas humanas e materiais entre as esquadrilhas enviadas para as missões de ataque. Se a reposição dos aviões perdidos, a determinada altura, já não seria pacífica em termos de custos, a perda de pilotos, muitos deles experientes e insubstituíveis, que levavam tempo a serem preparados e a ganhar a prática necessária, ainda menos.

Por outro lado, o Marechal Arthur Harris havia conquistado muito rapidamente um elevado carisma, se não adoração, junto dos seus “rapazes”. Ser piloto de guerra era, muitas vezes, entrar em missões quase suicidas e Arthur Harris, preocupava-se com a segurança dos pilotos do seu Comando de Bombardeiros. Esta atitude de proximidade só contribuiria para aumentar o respeito tanto por parte dos pilotos, como de outros oficiais da R.A.F.


Para além disto, muito da opinião pública britânica tinha-o, pelo menos durante aqueles anos de guerra, em conta muito elevada, para o que contribuía a sua imagem de homem de família extremoso.
Ainda que não tivesse sido ele o autor exclusivo da nova política de bombardeamento dos territórios inimigos, ele tomou para si a missão de a pôr em prática com grande afinco e determinação, de tal forma que, por vezes, roçava o fanatismo.
Por mais do que uma vez, ele utilizara a expressão de que a Alemanha nazi havia “semeado ventos” e, por isso, iria “colher tempestades”. Arthur Harris defendia que os ataques aéreos, se deveriam concentrar nas grandes zonas urbanas, pretendendo, com isso, afectar em simultâneo a sua economia e, sobretudo, o moral das respectivas populações. Os alvos militares ou de importância estratégica, como zonas industriais, estações e linhas de caminho de ferro, aquartelamentos, aeródromos e zonas portuárias poderiam ser destruídos no decorrer dessas operações de bombardeamento em massa ou, por vezes, serem deixados para depois, quase como se fossem secundários. Inclusive, o facto de uma cidade incluir esses alvos na sua cintura urbana ou de estar simplesmente situada nas proximidades, havendo nesta situação várias em simultâneo, seria apenas um pretexto para as colocar na linha da frente das que iriam “experimentar” estas novas tácticas de bombardeamento.
Por outro lado, havia algum fundamento na escolha, ainda que criticável, pelas zonas habitacionais das cidades germânicas pois era certo que os trabalhadores das fábricas de material bélico e os militares teriam aí os seus lares e famílias. A perda dos respectivos bens e membros familiares teria decerto um efeito muito negativo tanto na capacidade produtiva dos indivíduos, como na sua vontade de combater. Para além disso, era certo e sabido que tanto a Luftwaffe como os seus exércitos no terreno haviam provocado, muitas vezes intencionalmente, vítimas civis, independentemente da sua faixa etária. Havia por isso um elemento, de certa forma, justificativo em incluir as populações civis germânicas no conjunto de alvos seleccionados. É preciso não esquecer, ainda, que a descoberta e confirmação da existência dos campos de extermínio, por parte das tropas aliadas, só ocorreria nos últimos meses da guerra.
Acima de tudo, antes da invasão da Normandia em 1944, a força aérea britânica e a sua aliada americana, eram praticamente as únicas forças bélicas que lutavam directamente contra o 3º Reich. Dessa forma, as populações aliadas e aquelas que haviam sido subjugadas pelas forças do Eixo, depositavam muitas esperanças na sua capacidade de enfrentar a Alemanha nazi.
Antes de Sir Arthur Harris assumir o seu lugar à frente do Comando de Bombardeiros da R.A.F., de forma a conseguir implementar as novas técnicas de bombardeamento que já então preconizava, os resultados das operações de bombardeamento sobre a Alemanha, estavam, muitas vezes, longe de ser satisfatórios. Muitas das bombas caíam fora da área pretendida e as que caíam dentro ou próximo das zonas-alvo, só provocavam danos aqui e ali. Aliás, quando um ou outro edifício duma cidade era atingido por uma ou mais bombas, tal chegava a ser a grande notícia do dia da imprensa local, concentrando toda a atenção das populações residentes. A fotografia acima mostra um recanto da cidade de Dortmund antes da guerra e a de baixo, o mesmo local, após um dos primeiros bombardeamentos sobre esta cidade do Ruhr, em 1940 ou 1941. Cenas como a da fotografia em baixo eram muito comuns nesses primeiros tempos. Um edifício é atingido e, na manhã seguinte, a população concentra-se no local, como se de um vulgar acidente se tratasse... Havia quem recolhesse e exibisse orgulhosamente "troféus", como partes das bombas detonadas e dos aviões que eram abatidos...
A partir de 1942, começa a ser cada vez mais frequente, o bombardeamento concentrado sobre uma ou mais áreas pré-definidas, ou "bombardeamento de saturação", tal como Sir Arthur Harris preconizava. A regra básica para se conseguir um tal resultado, seria, antes de mais, organizar os bombardeiros em formações compactas sobre os alvos selecionados. Cenas como esta em Dortmund e noutras cidades, aconteceriam com cada vez menor frequência... 
Extensas zonas arruinadas, onde chegava a ser quase impossível distinguir onde existia este ou aquele edifício, passariam, até ao final da guerra, a fazer parte das "paisagens" de muitas cidades germânicas. A imagem, em baixo, igualmente da cidade de Dortmund, numa fase mais avançada da guerra, é mais do que elucidativa, dos resultados das novas técnicas de bombardeamento. Já ninguém parava para observar...

Em termos técnicos, as novas directivas tanto apostavam nos novos progressos tecnológicos e científicos, como exigiriam a construção de diversos componentes que já existiam no papel. Por outro lado, o seu aperfeiçoamento dependeria muito dos resultados empíricos no terreno. As tácticas de ataque do inimigo germânico, bem como os diversos erros cometidos e a descoberta das suas múltiplas fragilidades, constituíram uma fonte de estudo muito importante na construção de novas aeronaves e no aproveitamento das existentes, sem esquecer o componente fundamental das bombas a utilizar e na forma de as lançar sobre o território inimigo. Neste último aspecto, houve mesmo uma perfeita aliança com a Ciência, que, durante aqueles anos, teria muito da sua “massa cinzenta” a colaborar no esforço de guerra.

Seria necessário ter à disposição uma força de bombardeiros progressivamente mais numerosa, investindo, preferencialmente, em aviões com capacidade de transportar cargas explosivas cada vez maiores, e reservatórios de combustível maiores, de forma a provocar num relativamente curto espaço de tempo uma maior e mais concentrada destruição e também a conseguirem aguentar viagens mais longas, de forma a alcançar alvos mais distantes. As novas séries de grandes aviões quadrimotores e de grossa blindagem, com destaque para os “Avro Lancasters”, eram os que melhor satisfaziam os requisitos exigidos. Basta referir que a Alemanha nazi, muito agarrada às linhas de montagem há muito seguidas, não chegou a fabricar aviões com quatro motores, apesar de estes e mais outros de maior calibre já existirem no papel.
O avião de transporte germânico Messerschmitt Me 323 "Gigant". Quando carregado na sua capacidade máxima, era necessário recorrer a um veículo para o auxiliar na descolagem, tal como mostra esta imagem.
Este avião da Luftwaffe podia transportar algo como: até à volta de 200 tropas equipadas ou um carro de combate e uma peça de artilharia. Também podia ser utilizado para o transporte de feridos.
Os seus aviões de bombardeamento eram bimotores e só alguns de transporte eram trimotores. Acima deste calibre, só foi utilizado pela Luftwaffe um avião de transporte de grande tamanho e com seis motores: o Messerschmitt Me 323 "Gigant". Era, literalmente, um caso à parte. O seu valor era indispensável para as tropas germânicas, devido à sua inédita capacidade de carga. Todavia, devido ao seu grande tamanho e pouca rapidez de vôo, logo se revelou um alvo fácil para as esquadrilhas de caças aliados, mais pequenos e rápidos, mesmo quando escoltado. De facto, nenhum "Gigant", dos quase 200 construídos para a Luftwaffe, sobreviveu intacto à Guerra. A determinada altura, o investimento da indústria aeronáutica alemã foi, em grande parte, canalizado para a construção de aeronaves sem piloto, a que, mais tarde, seria dado o nome de V.

Por outro lado, contrariamente ao que até então se pensava, entre uma carga maciça de bombas explosivas e a mesma quantidade de bombas incendiárias, descobriu-se que a destruição seria maior e mais medonha no segundo caso, principalmente em áreas urbanas. Estas já eram utilizadas em simultâneo, pelas duas facções beligerantes desde o começo da guerra, mas dava-se a primazia às bombas explosivas, como era clássico, surgindo as incendiárias como um complemento destruidor. A partir de agora, seria cada vez mais frequente uma nova proporção de bombas a transportar para os alvos seleccionados, nomeadamente, 1/3 de explosivas e 2/3 de incendiárias.
Pormenor da parte inferior de um avião quadrimotor britânico Avro Lancaster, com a sua "bomb bay" aberta. Muitos dos aviões britânicos que participaram nas missões de bombardeamento, a partir de 1942, transportavam esta carga combinada de bombas. A grande bomba de formato cilíndrico colocada no centro da "bomb bay", era uma mina aérea, também conhecida pelo expressivo nome de "blockbuster". Este tipo de bomba maior, tinha uma cobertura metálica mais fina do que as clássicas bombas "G.P.", estas de formato pontiagudo, menor tamanho, mais precisas e que penetravam mais, mas aquele tipo de bomba, o "blockbuster", tinha um efeito explosivo, em termos de raio de acção, muito superior e continha (proporcionalmente à parte metálica) mais matéria explosiva (esta geralmente à base de "amatol"). Um "blockbuster" era suficiente para transformar um prédio de vários andares, por vezes incluindo os imediatamente próximos, numa massa de escombros, logo no primeiro impacto. À sua volta, são visíveis "packs" carregados de bombas incendiárias conhecidas pelo nome de "stick bombs". Estas últimas "choveriam" aos milhões sobre quase todos os alvos atingidos, ao longo da Guerra. Lançadas de grande altitude, estas bombas de formato esguio conseguiam atingir grandes velocidades, podendo penetrar os telhados dos edifícios. As bombas "blockbuster" e as "stick bombs", muitas vezes, complementavam-se nos seus efeitos. As primeiras provocavam uma larga onda de choque, suficiente para provocar uma imediata derrocada no ponto onde caiam, levantando os telhados dos edifícios circundantes facilitando, assim, o acesso aos interiores inflamáveis para as "stick bombs". As bombas "blockbuster" também podiam rebentar as portas e as janelas das áreas mais próximas ou apenas estilhaçar os vidros, facilitando a propagação dos incêndios. Outros aviões transportavam, complementarmente, outros tipos de bombas, nomeadamente incendiárias de maior calibre, que podiam penetrar vários pisos de seguida, e bombas de fósforo, estas extremamente difíceis de extinguir, bem como as clássicas "G.P.".
É preciso ainda não esquecer que, no que respeita à utilização de radares, a Grã-Bretanha, era já desde antes da 2ª Guerra pioneira nesta matéria, tanto a nível de meios à disposição no terreno, como de especialistas, os quais, desde o começo das hostilidades, haviam acelerado o ritmo das suas investigações, trabalhando dia e noite. Aliás, foi graças a este precioso avanço tecnológico, que a R.A.F. conseguiu sair vitoriosa da “Batalha de Inglaterra”. Era verdade que, do lado alemão também existia uma cobertura de estações de radar junto às zonas calculadas como estrategicamente importantes, algumas delas instaladas em ilhotas no Mar do Norte, como Helgoland, e muitas outras na zona Noroeste da Alemanha, que tinham a função de lançar os avisos prévios de ataque, de forma a dar tempo às defesas de se organizarem. Podia-se afirmar que, aparentemente, havia uma muito satisfatória cobertura de radar em solo germânico. O problema é que muitas das suas investigações neste campo, há pouco que tinham deixado a fase experimental. Comparado relativamente à Grã-Bretanha, o seu potencial de radar era, na verdade, muito fraco e facilmente ultrapassável. Mesmo assim, as autoridades alemãs tinham uma confiança absoluta nas informações que as suas estações de radar lhes forneciam. A linha de defesa aérea "Kammhuber", parecia preencher quase todos os requisitos necessários a uma boa cobertura do seu espaço aéreo, segundo os especialistas e estrategas da Luftwaffe. Não contavam era que fossem, ainda nesse ano de 1942, tão rapidamente ultrapassados pelos técnicos e cientistas britânicos.


Ao fim de mais ou menos um mês de ter tomado posse do seu novo cargo, Arthur Harris sentiu ter chegado a altura ideal para, senão pôr em prática as suas novas tácticas de bombardeamento, pelo menos experimentá-las. É então que lança a missão de bombardear a cidade portuária de Lübeck, na zona de Holstein, no Norte da Alemanha, na noite de 28 para 29 de Março de 1942. Esta antiga cidade hanseática, não se podia considerar de grande valor estratégico, apesar de ser algo famosa e dotada de um porto bem situado. A sua fama residia no facto de ser uma cidade portuária, muito rica em monumentos datados da Idade Média e com um centro medieval muito bem conservado, pejado de habitações pitorescas, onde se utilizavam muitos elementos em madeira. Para além disto, o núcleo da sua cidade inseria-se numa rede de ruas estreitas, como era próprio das povoações construídas na época medieval. Esta descrição poder-se-ia aplicar como o paradigma da maioria das cidades velhas alemãs.
Vista geral do centro histórico de Lübeck, antes da Guerra.
A Igreja de Santa Maria de Lübeck (Marienkirche) no seu estado original, ex-libris desta cidade.
A Marienkirche, à esquerda, e a Igreja St. Petrikirche, à direita.
A Sandstrasse original.
Dois leões de bronze em Klingenberg, que hoje se encontram perto da Holstentor.

A Catedral de Lübeck, com o Museu em 1º plano.
Arthur Harris escolheu esta cidade em primeiro lugar, porque era mais fácil de localizar, dado encontrar-se junto à zona costeira, cujos contornos poderiam servir de orientação para o voo nocturno das suas esquadrilhas de bombardeiros; em segundo lugar, por ser facilmente permeável aos incêndios e, por fim, dada a sua, teoricamente, pouca importância estratégica, era certo que estaria fracamente defendida. Arthur Harris tinha já exposto os seus planos estratégicos de bombardeamento por área aos seus superiores e ao Primeiro-Ministro Churchill. Muitos, no início mostraram-se cépticos quanto ao sucesso destas novas tácticas para o seu Comando de Bombardeiros. Desta forma, Sir Arthur Harris, tinha ainda sobre si a pressão de conseguir comprovar a validade das suas propostas, consideradas muito arrojadas.
O resultado foi um “sucesso” bem maior do que o esperado. A formação compacta de mais ou menos 200 bombardeiros, concentrou o seu ataque bem no coração da sua zona histórica, mais concretamente, numa área urbana situada entre dois braços de rio. Tratava-se de uma “ilha” urbana onde se situavam muitos dos principais monumentos e casas que eram a imagem de marca de Lübeck. As duas altas torres góticas da Marienkirche, também serviram como ponto de orientação para os bombardeiros. Logo no começo do bombardeamento, começaram a surgir aqui e ali incêndios isolados, que não pareciam gerar ainda grande problema. No entanto, as ligações de água tinham sido danificadas, a própria água chegaria, às vezes, a congelar com o frio e os acessos aos bombeiros foram muito dificultados pelos destroços que já então, se acumulavam em diversas ruas e vielas. O facto foi que no espaço de mais ou menos vinte minutos, os fogos começaram a unir-se uns aos outros, dando origem a uma conflagração que se espalhou, quase incontrolavelmente, pelas ruas estreitas da zona medieval de Lübeck.


A sequência de 3 fotos acima, mostra a Igreja de Santa Maria (Marienkirche) a ser atingida pelas violentas lebaredas dos incêndios que a cercavam. Segundo alguns testemunhos, conta-se que os sinos que existiam nas duas torres, chegaram a tocar por si só, uma última vez, num carrilhão desconcertado, devido à intensidade das chamas, antes de se despenharem no chão da igreja. Hoje em dia, permanecem no mesmo local onde caíram, à maneira de um memorial de guerra. As temperaturas eram tão elevadas que os sinos quase se derreteram...
Sinos originais destruídos da Marienkirche, na actualidade.


Mesmo a Catedral de Lübeck não escaparia às chamas, que ainda lavravam no dia seguinte.

Zona arrasada de Lübeck, com as ruínas da Marienkirche, ao fundo.

Só na manhã seguinte se conseguiu controlar e extinguir o grande incêndio. O resultado, segundo fotografias aéreas tiradas algum tempo depois, foi a destruição da maior parte da área urbana desse centro histórico de Lübeck. Dias mais tarde, foi a vez de se executar uma missão idêntica em Rostock, cidade portuária situada na mesma linha costeira, mas mais a Leste. As razões de escolha deste alvo foram semelhantes ao anteriormente referido e os resultados do ataque aéreo foram similares, reforçados pela ocorrência de mais outros durante o mês de Abril de 1942.

Rostock na década de 1930. A imponência da igreja Marienkirche, em pano de fundo.
Perspectiva sobre Rostock, com os telhados da Marienkirche em primeiro plano, antes de 1942.

O Neumarkt de Rostock, com um monumento, hoje desaparecido, em primeiro plano.
Aspecto do Neumarkt de Rostock, à noite, com a Marienkirche em pano de fundo, antes de 1942.
Bombardeamento nocturno, onde se vê a silhueta da Nikolaikirche, em 1942. Muito danificada, esta igreja ficaria muitos anos em ruínas, depois da Guerra, antes de ser reconstruída, num estilo mais simplificado.
Um aspecto do centro de Rostock, depois dos bombardeamentos.
Perspectiva sobre o Neumarkt de Rostock, onde é possível observar a Câmara Municipal (Rathaus), em 1945.
Como outro argumento para a escolha destas localidades, Arthur Harris afirmou que era preferível ter sucesso a bombardear uma cidade de pouca importância estratégica, do que fracassar no ataque a uma de grande importância. A acrescentar, salientou a necessidade de treinar as suas esquadrilhas nestas novas tácticas de incursão. Os resultados que se observaram comprovaram as suas teorias e deram-lhe coragem para empreender novas missões do mesmo género, para além de um forte apoio por parte de diversos sectores da sociedade inglesa. Afirmava-se, então, que o povo britânico, tal como os outros defensores da causa aliada, estava farto de tantos insucessos nesse começo de conflito e que qualquer resultado favorável ou, pelo menos, de consequências visíveis, teria um efeito muito positivo no seu moral. Nessa fase da guerra, era o que estava a acontecer, graças à nova política de bombardeamento, encabeçada por Arthur Harris que cumpria a promessa de uma resposta suficientemente dura para o inimigo, tal como os dirigentes haviam prometido para as suas nações.

Vista geral sobre Colónia, obtida a partir de Deutz, na margem direita do Reno, antes de 1940.
Perspectiva sobre a "Cidade Velha" de Colónia, antes de 1940, com destaque para a igreja Gross St. Martin (à esquerda) e a Catedral (à direita).
A Catedral de Colónia, antes da Guerra.

O interior da Catedral de Colónia antes da Guerra.
Perspectiva sobre a Catedral de Colónia e a Ponte de Hohenzollern (Hohenzollernbrücke), tal como era originalmente, antes da Guerra.

Centro de Colónia, antes de 1940.
                            
                                         A antiga Ópera de Colónia (Opernhaus) e o Restaurante anexo, antes da Guerra.

A igreja Gross St. Martin, vista a partir da "Cidade Velha" de Colónia, antes da Guerra.
Um dos muitos bombardeamentos nocturnos sobre Colónia.

         A igreja Gross St. Martin de Colónia depois da Guerra.
A antiga Ópera de Colónia (Opernhaus) e o que restava do Restaurante anexo logo depois da Guerra.
A cidade de Colónia no final da Guerra, em 1945. A Catedral de Colónia parece ser o único edifício intacto. Logo abaixo do rio, à direita, as ruínas da igreja Gross St. Martin, são quase invisíveis no meio da devastação geral. 
O interior da Catedral de Colónia logo depois da Guerra.  Apesar de permanecer estruturalmente intacta, sofreu alguns danos provocados por explosões ocorridas nas imediações. O chão estava coberto de fragmentos de pedras.
Foi na sequência disto que, com cada vez maior regularidade, as principais cidades da Alemanha, entre estas Colónia (em cima) e Frankfurt (em baixo), foram sujeitas a bombardeamentos cada vez mais destruidores, que arrasaram quase por completo os seus centros históricos. Inicialmente, os bombardeamentos eram preferencialmente nocturnos, mas com a progressiva conquista do domínio aéreo, sobretudo a partir de 1944, estes começam a não ter uma fase do dia definida, complicando ainda mais as tácticas defensivas das zonas atacadas. Para além disto, é preciso não esquecer o apoio cada vez mais regular, já a partir de 1942, por parte da força aérea dos E.U.A. Inicialmente, esta encarregou-se de efectuar os bombardeamentos diurnos, mais precisos, sobre alvos exclusivamente militares e industriais, enquanto a R.A.F. concentrava os seus esforços no bombardeamento nocturno dos principais centros urbanos. No último ano de guerra, com a Luftwaffe alemã desorganizada e em clara desvantagem, ambas as forças aéreas atacavam de dia e de noite, por vezes associadas. Por outro lado, os bombardeamentos que, no início da Guerra, eram algo imprecisos, duravam por vezes mais do que uma hora, eram executados em vagas sucessivas e, muitas vezes, chegavam a falhar os alvos, foram-se tornando cada vez mais precisos e de curta duração. Isto deveu-se, em simultâneo, à utilização do radar para orientar os aviões em direcção  aos alvos e à constituição, a partir de Agosto de 1942, de uma força avançada de aviões ligeiros "Mosquito", denominada "Pathfinders", que iluminavam os alvos, aumentando a capacidade de detecção dos bombardeiros que vinham logo atrás.
Perspectiva sobre Frankfurt, a partir do rio, antes da Guerra. A Catedral, à direita, era o edifício mais alto. No extremo esquerdo, vê-se a torre da "Nova" Câmara Municipal ("Neues Rathaus").
Perspectiva sobre a "Cidade Velha" (Altstadt) de Frankfurt, tal como era antes de 1944. Obtida a partir da Catedral. À direita, é possível observar um dos muitos recantos históricos dessa "Cidade Velha", neste caso, uma praceta conhecida pelo nome de "Roseneck", onde havia vários restaurantes pitorescos. Mais acima, vê-se um pedaço do rio.
A "Cidade Velha" ( Altstadt ) de Frankfurt, com o Römerberg no centro, vista a partir da Catedral, antes de 1944. Ao fundo, à direita, surge em destaque a torre da "Nova" Câmara Municipal ("Neues Rathaus").

Perspectiva do Römerberg, antes da Guerra. Destaque para os três edifícios da Antiga Câmara Municipal de Frankfurt ("Altes Rathaus"), à direita, e a "Casa Lichtenstein" ("Haus Lichtenstein"), à esquerda. No extremo direito da fotografia e ligeiramente cortada, observa-se a "Casa Frauenstein" ("Haus Frauenstein").

Perspectiva do Römerberg, de um outro ângulo, antes da Guerra. No seguimento das duas casas, mais à esquerda, estavam os três edifícios da "Altes Rathaus" de Frankfurt. A primeira casa, a contar da esquerda, era a "Casa Frauenstein" ("Haus Frauenstein"), cuja fachada era guarnecida de elementos decorativos coloridos.  A segunda casa, a contar da esquerda, era a "Salzhaus" original, cuja fachada tinha elementos em madeira talhada.

O Römerberg visto a partir da esquina da "Salzhaus" original, antes da Guerra. Ao fundo, à esquerda a "Haus Lichtenstein" e, bem no centro, os três edifícios da "Altes Rathaus" de Frankfurt, em parte não visíveis nesta perspectiva.
Um recanto da "Cidade Velha" ( Altstadt ) de Frankfurt, antes de 1944. Até então, esta continha a maior área de "cidade medieval" bem conservada da Alemanha. Talvez até da Europa...

Vista aérea sobre uma parte da, então, "Cidade Nova" ( Neustadt ) de Frankfurt, antes da Guerra. Destaque para o "Hauptwache" (ao centro) e para a igreja Katharinenkirche (à direita). À direita da foto, observa-se o começo da antiga avenida do "Zeil", zona comercial histórica, tal como era originalmente.

Perspectiva, de inícios do Século XX, sobre a zona  do "Hauptwache" (ao centro) e os edifícios próximos, com destaque para o "Alemannia Haus", onde existia um cine-teatro, um estúdio fotográfico e alguns restaurantes, (à esquerda) antes da Guerra. Ao fundo, à direita, observa-se o começo de outra zona central, conhecida há muito por "Zeil", onde se destacava a Estação Central dos Correios (Hauptpost), cujo telhado é possível descortinar.

Pormenores do "Hauptwache", uma antiga "casa da guarda" depois convertida num café emblemático de Frankfurt e, ao fundo, do edifício comercial "Alemannia Haus", numa fotografia a cores, obtida pouco antes da Guerra.

Fotografia colorida, onde se observa outra parte da antiga "Cidade Nova" ( Neustadt ) de Frankfurt, antes de 1944. No centro da imagem destaca-se a praça do Rossmarkt. À direita, a cúpula e parte do edifício comercial "Germania".
Bombardeamento nocturno de Frankfurt, com os holofotes em baixo e os "marcadores de alvo", lançados pelos "Pathfinders", a cair por cima.

O Römerberg em 1944. No centro da imagem, vêm-se os três edifícios da Antiga Câmara Municipal (Altes Rathaus) de Frankfurt em ruínas. À esquerda, vê-se parte da fachada da "Haus Lichtenstein" em ruínas. Mais atrás e à esquerda, observa-se a torre da igreja Paulskirche, igualmente arruinada.

Perspectiva sobre parte do Römerberg em 1944, vendo-se, em grande plano, o que então restava da "Salzhaus".

Ruínas do "Hauptwache", à esquerda e da Katharinenkirche, à direita, em 1945. Posteriormente, só foram reconstruídos estes dois edifícios originais nesta zona da antiga "Cidade Nova" ( Neustadt ) de Frankfurt.

O edifício do "Alemannia Haus", por trás do "Hauptwache" em 1945.
Vista aérea da grande devastação de Frankfurt, em 1945, com destaque para a zona da "Cidade Velha" ( Altstadt ), que havia sido obliterada em 1944.  Em destaque e de cor escura, as ruínas da Catedral. 

De referir que, depois da rendição da Itália e da sua passagem para o lado aliado, em 1943, a aviação aliada ocidental passou a dispôr de aeródromos adicionais, para além dos já existentes na Grã-Bretanha. Desta forma, as zonas da Alemanha nazi e dos seus aliados do Eixo, que antes haviam estado situados a uma distância proibitiva das esquadrilhas de bombardeiros aliados ocidentais, fazendo com que as missões de bombardeamento, destas forças aéreas para essas zonas tivessem sido, até então, muito esporádicas, ineficazes, para não dizer inexistentes, passariam agora a estar a um muito fácil alcance. Por outras palavras, deixaria de haver zonas consideradas "mais ao abrigo" dos ataques aéreos aliados, não só em solo germânico.
Cidades como Koenigsberg, na Prússia Oriental, passaram a estar mais ao alcance das esquadrilhas aéreas aliadas.
Koenigsberg em ruínas, depois de conquistada pelo Exército Vermelho soviético, em 1945. Depois da Guerra, Koenigsberg passaria a chamar-se Kaliningrad, tornando-se território da Rússia, tal como é hoje.

Com o passar do tempo, apesar das criticas que, mais para o final do conflito, foram chegando da parte de alguns sectores da sociedade, como, por exemplo, a Igreja, Arthur Harris, em face dos resultados e da conjuntura já claramente favorável para os aliados, manteve uma crescente convicção nos seus métodos de ataque aéreo. Chegava mesmo a protestar com veemência, quando lhe era pedido que a sua força de bombardeiros, se desviasse das áreas urbanas inimigas, para ir apoiar outras missões essenciais para o avanço dos Aliados. Exemplo disto, foram os bombardeamentos tanto diurnos como nocturnos, das vias de comunicação necessárias à deslocação da Wehrmacht e suas linhas de abastecimento, quer na fase preparatória do “Dia D”, quer no posterior apoio aéreo necessário para uma mais rápida progressão no terreno.

Logo a partir de Setembro de 1944, com o seu Comando de Bombardeiros a ser menos requisitado para missões de apoio aos avanços no terreno, Arthur Harris retomou a sua política de ataques aéreos maciços e sistemáticos, sobre cidades germânicas. Uma das primeiras a ser alvo dessa nova vaga de bombardeamentos, foi a cidade de Darmstadt. Na noite de 11 para 12 de Setembro de 1944, esta cidade é alvo de um concentrado e muito preciso ataque aéreo. As bombas utilizadas eram maioritariamente incendiárias e de vários formatos, tendo-se originado um fenómeno denominado "tempestade de fogo", resultante de uma grande concentração de incêndios simultâneos numa vasta área. Só nessa noite houve 12.000 vítimas. Já tinham ocorrido outras "tempestades de fogo" antes e depois de Darmstadt, com destaque para o que havia acontecido em Hamburgo e Kassel em 1943. As técnicas de bombardeamento do Comando de Bombardeiros da R.A.F. estavam a atingir o seu zénite em termos de precisão e eficácia. Por outro lado, a Força Aérea Alemã (Luftwaffe), estava com escassez de caças defensivos e a entrar em queda livre. Os aliados, em 1944, dominavam os céus sobre a Alemanha Nazi.
O centro de Darmstadt antes de Setembro de 1944.
O centro de Darmstadt depois de Setembro de 1944.

Muitos consideraram e, ainda mais hoje consideram, a continuação desta política de bombardeamentos por área nesta fase do conflito como algo discutível. Isto porque a Alemanha estava numa situação de eminente derrota, já não tinha praticamente condições de executar contra-ataques, estava apenas na defensiva, com muito das suas linhas de comunicação inoperacionais e a sua produção industrial havia caído para níveis mínimos. Para além disto havia falta de combustível e, também associado a isto, a sua força aérea estava desorganizada e derrotada pelas esquadrilhas aliadas que podiam alcançar qualquer ponto do seu território. Para além disto, os aliados haviam conseguido aperfeiçoar as suas técnicas de interferência nos radares germânicos, quer simulando "falsos bombardeamentos" fora dos alvos reais, quer recorrendo a uma contra-medida muito eficaz, conhecida pelo nome "Window". Esta contra-medida, consistia em lançar películas de alumínio e papel brilhante, quando se aproximavam dos alvos a bombardear. Nos radares alemães, modelo "Würzburg", essas núvens de "Window", eram detectadas como se fossem formações reais de bombardeiros. Os caças defensivos eram orientados para essas localizações... e nada encontravam, sendo assim desviados das formações reais dos bombardeiros, que podiam sobrevoar os seus alvos sofrendo menos baixas.

Nos meses subsequentes aos desembarques na Normandia e aproveitando esta descoordenação generalizada das defesas germânicas, as forças aéreas britânica e americana, começaram a apoiar directamente os avanços das tropas no terreno. Tinham agora a possibilidade de utilizar os aeródromos existentes em França e as suas linhas de abastecimento estavam cada vez mais próximas e consolidadas. Várias operações em zonas estratégicas, que podiam implicar o bombardeamento de diversas localidades, num único dia e mesmo em simultâneo, eram organizadas para facilitar o avanço das tropas aliadas no terreno. Um exemplo paradigmático destas cidades bombardeadas de forma simultânea e muito concentrada, foi a cidade de Düren, no dia 16 de Novembro de 1944. Esta cidade ficou destruída a 97%. Não foi a única. Quase toda a sua população foi evacuada nos dias seguintes.
Vista aérea de Düren, na zona da Wasserturm, antes da Guerra.

Vista sobre a Wasserturm, depois dos bombardeamentos.

Exemplo de uma rua de Düren, antes da Guerra.

Aspecto paradigmático de uma rua de Düren, depois da Guerra.

Um recanto de Düren, antes de Novembro de 1944. Destaque para a estátua em bronze, à esquerda.

O mesmo recanto da imagem anterior, após Novembro de 1944.
A estátua de bronze, que existia no recanto acima referido, após os bombardeamentos de Novembro de 1944.

A zona do Markt de Düren, com a fachada da Câmara Municipal (Rathaus) à esquerda, antes da Guerra.
A zona do Markt de Düren depois da Guerra. Presume-se que a ruína mais à direita, seja da Câmara Municipal (Rathaus).
O centro de Düren, transformado em "terra de ninguém". Diversas cidades, inicialmente de "média importância" enquanto alvos estratégicos, ficariam neste estado durante esse período final de 1944-45. Os seus habitantes, durante algum tempo, julgavam que nunca iriam ser bombardeados. Logo depois, a ideia passou a ser exactamente a oposta, isto é, qualquer localidade na Alemanha, incluindo vilas e aldeias, poderia ser alvo de bombardeamentos, de um momento para o outro e sem nenhuma hora específica.

Por outro lado, na maior parte das cidades mais importantes, já estava destruída a maior parte das suas áreas centrais e limítrofes. Isto produziu a estranha situação de o Comando de Bombardeiros, já escoltado por formações adicionais de caças, começasse a ter escassez de alvos importantes intactos, ou seja, cidades importantes em tamanho e situação estratégica. Foi desta forma que, com mais vigor do que nunca, cidades de tamanho médio ou pequeno, antes não consideradas alvos seleccionáveis, começam a ser bombardeadas num relativamente pequeno espaço de tempo.

Nesta fase do conflito, a Alemanha só ripostava através das recentemente desenvolvidas armas V1 e V2, o que já não tinha qualquer impacto na mudança do curso dos acontecimentos. Muitas falham os alvos pretendidos, mas as que acertam, principalmente no que se refere às V2, precursoras dos futuros foguetões balísticos, causam estragos de salientar. Dentro da Alemanha circulava ainda a promessa da criação de "novas armas" ainda mais destruidoras. Estas absurdas retaliações associadas à descoberta sucessiva dos campos de concentração, constituirão, para todos aqueles que, por múltiplas razões, incentivavam a política de bombardeamentos maciços de Arthur Harris, uma motivação para se continuar a proceder assim quase até ao final da guerra.

No entanto, será necessário também frisar que toda aquela vaga inédita de bombardeamentos, quase incessantes, sobre a Alemanha entre o Verão de 1944 e a rendição desta em Maio de 1945, foi uma consequência também da ideia desesperada de transformar diversas cidades ou aglomerados populacionais próximos, de menor dimensão, em "fortalezas" que deveriam resistir "até ao último homem", preconizada por Hitler e seguida por diversos chefes militares, muitas vezes com fanatismo evidente. Esta medida revelou-se 100% fútil e só contribuiu para a sua transformação em vastas áreas de destroços, onde não se via um único edifício de pé. Por outro lado, quaisquer tentativas de negociar uma rendição, ainda que local, com as forças aliadas, que progrediam invencíveis, mostrando bandeiras brancas, eram consideradas actos de deserção, derrotismo e traição, que eram quase sempre punidos pelo regime nazi com execução sumária. Foram, por isso, actos de grande coragem as diversas rendições que houve aqui e ali em solo germânico e que evitaram mais mortes e destruições de património desnecessárias. Daí se poderá, sem dúvida, atribuir a culpa de muito do sofrimento do povo alemão, nesses longos e penosos meses finais da guerra, ao próprio Hitler e seus subalternos e seguidores.

Vista sobre o centro histórico de Dresden, antes de 1945.
Vista sobre o centro histórico de Dresden, após os bombardeamentos de Fevereiro de 1945.
Vista sobre Dresden, com a Frauenkirche, ao centro.
A Frauenkirche ficaria em ruínas durante décadas, como um memorial de guerra. Seria reconstruída já neste século XXI. 
No entanto, principalmente depois da destruição da cidade de Dresden, entre 13 e 15 de Fevereiro, sem defesas aéreas e submergida em refugiados vindos do Leste, para escapar ao Exército Vermelho soviético, e também por outros que a julgavam segura por, nesse começo de 1945, ser a maior cidade alemã virtualmente intocada, as atitudes começaram a mudar radicalmente, tanto da parte dos dirigentes aliados como de muita imprensa mundial. Mas as destruições de cidades alemãs, apesar do seu menor tamanho, ainda continuariam a suceder-se. Pouco mais de uma semana depois de Dresden, a 23 de Fevereiro, foi a vez da cidade de Pforzheim (em baixo) ficar destruída em mais de 80%, num único bombardeamento, que durou à volta de 20 minutos. A cidade de Würzburg (em baixo, ao centro), originalmente um pequeno aglomerado de edifícios barrocos e religiosos, foi detectada com precisão graças ao radar, ao entardecer do dia 16 de Março, pouco mais de um mês depois de Dresden, tendo ficado destruída a mais de 90%, com um bombardeamento também de muito curta duração, onde foram utilizadas, maioritariamente, bombas incendiárias. Potsdam (mais em baixo) também seria "visitada" a 14 de Abril, ou seja, menos de um mês antes da rendição da Alemanha Nazi. Houve muitos outros bombardeamentos nestes últimos meses que precederam a queda do 3º Reich de Hitler.
Pforzheim antes.
Pforzheim depois.


Würzburg antes da Guerra.

Würzburg em 1945.
Potsdam com a igreja St. Nikolaikirche, ao centro, e o Palácio da Cidade, à direita, antes da Guerra.
Pormenor do Centro ("Altmarkt"), de Potsdam, onde é possível observar, à direita, parte do Palácio da Cidade, com destaque para o seu emblemático portal, o "Fortunaportal". Ao fundo, à esquerda, surge a parte central da fachada principal do Palácio Barberini, um dos muitos edifícios históricos de Potsdam antes de 1945.
Aspecto de uma rua de Potsdam, que passava junto a uma das fachadas laterais do Palácio da Cidade, antes de 1945. Ao fundo, por cima do Palácio da Cidade, a alta cúpula da igreja St. Nicolaikirche.                 
A mesma rua da imagem anterior, depois da Guerra. À esquerda, surge o Palácio da Cidade destruído. Ao fundo, à direita, é possível descortinar parte do edifício da Antiga Câmara Municipal (Altes Rathaus) de Potsdam, que também ficou muito danificado. 
Exemplo de uma rua de Potsdam antes de 1945. A cúpula da igreja St. Nicolaikirche surge em pano de fundo. Actualmente, estes edifícios já não existirão.
Potsdam no final da Guerra. Ruínas do Palácio da Cidade em primeiro plano. À direita, por trás do que restava do "Fortunaportal", surge a igreja St. Nicolaikirche, que sofreu grandes danos. As ruínas da generalidade dos edifícios destruídos na fase final do conflito seriam removidas, sem qualquer critério, nas décadas seguintes. A maioria deles não foi reconstruída.
Um edifício de Potsdam , localizado próximo do Centro ("Altmarkt") antes de 1945.

O mesmo edifício anterior depois de 1945. Não seria reconstruído.
             
Um aspecto de Potsdam, após o bombardeamento de 14 de Abril de 1945. Ao fundo, emerge a cúpula da Antiga Câmara Municipal ("Altes Rathaus").
Outra vista geral das ruínas de Potsdam, após o final da Guerra. À esquerda, reconhece-se parte do edifício da Antiga Câmara Municipal ("Altes Rathaus").

Começou-se a considerar como excessiva a destruição sistemática das povoações germânicas, senão desnecessária. Mesmo o próprio Primeiro-Ministro Winston Churchill que havia dado carta branca e toda a liberdade de acção ao seu fiel amigo Arthur Harris, começou a mostrar preocupação relativamente às dificuldades que se iriam encontrar na tentativa de gerir uma nação virtualmente reduzida a escombros e com a sua população atingida pela miséria e pela doença. Desta forma, muitos dos que, assumida ou secretamente, haviam apoiado a política de desmoralizar o inimigo germânico através dos bombardeamentos aéreos sistemáticos e cada vez mais frequentes, começaram a tentar desligar-se dessa questão. No entanto, as consequências estavam bem à vista, no final do conflito bélico na Europa. Começava-se a olhar com compaixão para os alemães agora libertos do jugo nazi, ao mesmo tempo que se começava a iniciar uma política de aproximação dos aliados ocidentais aos seus anteriores inimigos, contrariamente ao que ao que estava a acontecer ao seu antigo aliado soviético, encarado agora como uma ameaça para o resto do Mundo. A nova Alemanha deveria servir de “nação-escudo” para deter o “avanço do Comunismo”, por isso, logo após 1945, a Alemanha seria também incluída no “Plano Marshall” de recuperação e ajuda económica.
Foi nesta conjuntura que houve a necessidade dos países aliados, em especial a Grã-Bretanha, limparem a sua imagem perante o resto do Mundo. Era quase urgente encontrar um “bode expiatório”, para as consequências dramáticas da guerra aérea contra a Alemanha e seus aliados. Não foi difícil fazer cair a quase totalidade das eventuais culpas sobre Sir Arthur Harris e o seu antes considerado tão heróico e sacrificado Comando de Bombardeiros. A consequência imediata desta autêntica campanha de desacreditação de Arthur Harris foi nem ele nem ninguém do seu comando receberem, no final da guerra, qualquer condecoração, ao contrário de todas as outras secções e respectivos oficiais. Podia-se dizer que Arthur Harris havia caído em desgraça e havia mesmo quem o considerasse um criminoso de guerra com direito a julgamento em Tribunal.
Até ao fim da vida, como comprovam alguns escritos pessoais e entrevistas que lhe foram feitas quando já tinha passado a barreira dos 80 anos, Sir Arthur Harris nunca mostrou quaisquer sinais de eventual arrependimento por acções bélicas cometidas no seu passado de oficial da R.A.F. Com um poder de argumentação quase imbatível, sempre encontrou razões para ter tomado as medidas que tomou. Apesar de ter sido apenas a ponta de lança de um grande, poderoso, multifacetado, transnacional e bem colocado lobby que defendia a utilização sem limites de todos os meios possíveis, mesmo que injustificáveis, para levar à derrota absoluta o seu inimigo bélico de 1939-45, Sir Arthur Harris, apesar de não se considerar o único a quem se poderá apontar o dedo, procurou nunca implicar ninguém. Isto porque ele, até ao fim, nunca admitiu que, durante a sua liderança do Comando de Bombardeiros da R.A.F., alguma vez se tivesse cometido algum erro de assinalar, quanto mais algum crime de guerra. Apesar de tudo, foi coerente na sua conduta pessoal: estava-se em guerra, o inimigo tinha de ser combatido até ao fim, sem dó nem piedade. Não existem “guerras limpas”, ponto final.

Depois do seu falecimento, em 1984, foi-lhe erigida uma estátua em bronze. De diversos locais, não só na Alemanha ou da parte de muitos dos seus residentes em terras de Sua Majestade, levantaram-se vozes indignadas contra esta última homenagem a esta figura da história bélica do Séc. XX, tão polémica quanto interessante. A verdade é que nos tempos que se seguiram à sua inauguração, com relativa frequência, o memorial do “Bomber” Harris, foi pichado e coberto de tinta vermelha. Na sequência disto, a estátua passou a ter “segurança pessoal” 24 horas por dia.