sexta-feira, agosto 26, 2011

Uma fraude? Talvez não...

É natural que alguns compradores incautos, interessados em comprar mais uma colectânea de Rod Stewart, se sintam algo defraudados com a selecção de canções que se lhes apresenta neste disco. Outros, pelo contrário, abertos a novas descobertas e pequenas surpresas, ficarão algo agradados pelas verdadeiras raridades que este disco aloja.
Isto acontece porque, na verdade, esta pequena colectânea de apenas 10 canções refere-se sobretudo a um grupo musical que, como muitos ao longo da História, lhe viu fugir a luz rigidamente selecta do sucesso e se viu enquadrado numa obscuridade, e consequente esquecimento, só muito raramente quebrada com ocasionais edições discográficas limitadas para coleccionadores e, nem sempre, nas melhores condições sonoras.



O grupo em questão respondia pelo nome de Python Lee Jackson. Quase ninguém, ainda para mais em terras portuguesas, terá ouvido falar em tal grupo musical e saberá, sequer, a sua localização espacio-temporal. Mesmo no panorama dominante da música anglo-americana, tal grupo surgirá quase como uma breve nota de fundo de página, quase ignorada, precisamente graças à acidental presença de Rod Stewart.


Na verdade, o veterano artista, que será a razão para muitos comprarem esta colectânea, é simplesmente um convidado, pois nunca foi membro dos Python Lee Jackson. Aliás, neste breve universo de 10 canções, Rod Stewart surge como vocalista em apenas 3, mais concretamente nos temas "The Blues", "Doing Fine (Cloud Nine)" e, claro está, no genial "In A Broken Dream". Nos outros 7 temas, incluindo o que dá o título a esta colectânea ("Turn The Music Down"), a parte vocal fica a cargo de um certo Dave Bentley, teclista, líder e principal compositor dos Python Lee Jackson. (em baixo) O disco é completamente desprovido de qualquer detalhe informativo, salvo nos (breves) créditos autorais dos temas seleccionados.


Como entra aqui Rod Stewart, numa banda a que ele nem sequer pertencia? A história por trás disto não é completamente clara, mas uns breves dados adicionais poderão fazer alguma luz sobre este episódio curioso.A banda Python Lee Jackson (em cima, em 1966) era originária da Austrália, mais concretamente, de Sydney. Terá iniciado as suas actividades em 1965, sob o breve nome de "Blues Breakers" em cuja formação já ponteava o elemento fundamental Dave Bentley. Era essencialmente um grupo que actuava ao vivo e chegaria a conquistar alguma popularidade em terras australianas. O seu estilo musical misturava rock, pop e, como marca distintiva, blues, que, na segunda metade dos anos 60, era um género que conquistava muitos adeptos e popularidade no panorama da música anglofona. Na Inglaterra, por exemplo, abundavam grupos de jovens cantores brancos que idolatravam a música negra e tentavam emular os seus (estes veteranos) cantores de blues. Os Yardbirds, (em baixo) com Eric Clapton e Keith Relf em destaque, eram um perfeito e bem sucedido exemplo destes numerosos bluesmen. O cantor Rod Stewart (em baixo), em início de carreira, também tentava singrar, com muito empenho e sacrifício, neste mundo peculiar do blues. A sua fama como um cantor e performer de excepção crescia a olhos vistos por entre a comunidade musical britânica, mas o seu verdadeiro reconhecimento público ainda estava para vir.




Terá sido esta popularidade verdadeiramente institucional do "Rhythm 'n Blues" nas ilhas britânicas, que terá levado Dave Bentley a regressar à sua terra natal, no ano de 1967, quando a sua banda original Python Lee Jackson, se encontrava num impasse sem futuro, ao fim de quase dois anos de actuações ao vivo. A formação original dissolveu-se por esta altura.
Por coincidência, nesse mesmo ano de 1967, os Bee Gees (em cima), vindos igualmente da Austrália para a Inglaterra, iniciavam a sua longa carreira de sucessos internacionais, mas a história destes seguirá outros rumos que não interessa aqui referir.

Chegado a Inglaterra, Dave Bentley reúne de imediato os elementos de uma nova formação dos Python Lee Jackson, onde se incluía, entre outros, um ex-membro dos Easybeats, outra banda originária da Austrália e também, por essa altura, instalada em Londres desde 1966.


A carreira dos Python em terras britânicas, acabará por se desenrolar nos mesmos moldes da sua anterior versão australiana, com sucessivas actuações ao vivo, incluindo como "grupo de suporte" em espectáculos de outros artistas mais famosos, entre eles Georgie Fame, e actuações em bares londrinos.

Com o seu estilo musical onde predominava o blues, os Python Lee Jackson eram mais um entre muitos no muito competitivo mundo musical anglo-americano e, sem contrato discográfico, o seu destino mais provavel seria o fraco sucesso e rápido esquecimento nesse panorama musical da segunda metade da década de 60, onde tudo estava a evoluir e a passar de moda com uma rapidez alucinante.
A sorte de Dave Bentley e a sua banda pareceu tomar um rumo mais favorável, em 1968, quando o mítico D.J. John Peel (em cima) lhes reconhece grande potencial e qualidade (como acontecerá com tantos outros artistas ao longo da sua vida) e decide assinar-lhes um contrato numa sua então recém-fundada editora independente ("Dandelion Label"). A possibilidade de poder gravar um disco, nem que fosse um simples single, era o sonho de qualquer grupo musical que se prezasse e de, pelo menos, a sua existência poder ficar registada para a posteridade. Muitos, nem isso conseguiriam...

Conseguido o tão almejado contrato, havia que decidir o que gravar, se teria que ser composto "de raíz" por alguém da banda ou exterior a ela, sem esquecer se teria algum potencial comercial. Para uma banda como os Python Lee Jackson, cujo repertório ao vivo assentava muito na interpretação de temas de autoria alheia, a tarefa era, ao mesmo tempo, estimulante e hercúlea. Dave Bentley, tendo já composto alguns temas préviamente, decide tomar para si a função quer de compositor principal (não excluindo alguma participação adicional de um ou mais membros da sua banda), quer de responsável pela escolha dos temas de autoria alheia.


Eventualmente, o repertório que Dave Bentley tinha disponível no momento da assinatura do contrato com John Peel, num panorama musical em permanente transformação, correria o risco de soar algo "fora de moda" ou apenas "clássico", podendo não cativar o potencial público ouvinte (e comprador).


Havia por isso que compor, quanto antes, um novo tema que, apesar de ser original, não poderia estar desenquadrado do panorama musical então em voga. Com grande mestria, Dave Bentley compõe um novo tema a que John Peel, muito acertadamente, reconhece um enorme potencial. O seu título era "In A Broken Dream". Todavia, colocou-se a Dave Bentley um problema quase incontornável: a canção era da sua autoria, mas a sua voz e forma de cantar não lhe pareciam adequadas para o resultado pretendido. O tema era muito forte e exigia uma voz com certas peculiaridades. Dave Bentley tinha em mente uma voz que tivesse o potencial e o "arranque" no género de certos cantores como Joe Cocker e Stevie Winwood.


John Peel tem então a genial ideia de entrar em contacto com seu velho amigo Rod Stewart. Havia anos que Rod Stewart vinha conquistando um importante lugar entre os vocalistas da sua geração. A sua versatilidade em interpretar os mais diversos estilos, para além do blues, tinha atingido uma notável desenvoltura nesse Outono de 1968. De referir que, por essa altura, Rod Stewart era o vocalista de uma importante banda de rock-blues denominada Jeff Beck Group.

Esta banda, constituida à volta do genial guitarrista Jeff Beck, vinha também adquirindo grande popularidade nos Estados Unidos. O próprio Rod Stewart, graças a uma série de digressões bem sucedidas, vinha adquirindo uma popularidade crescente junto do grande público, acabando por eclipsar todos os outros que com ele actuavam. Terá sido este curto mas crucial período no Jeff Beck Group, ao lado de Ronnie Wood (desde 1975 nos Rolling Stones), a plataforma de arranque fundamental para a sua nova carreira a solo, a partir do ano seguinte (1969). De referir que, excluíndo a fase do Jeff Beck Group, a carreira de Stewart anterior a 1969, é algo enigmática, com os registos sonoros nem sempre organizados com o devido cuidado e rigor e a documentação informativa anexa muito pouco clara e com algumas contradições. Um periodo de formação que, todavia, convém conhecer. Em duas postagens anteriores neste blog, faço uma breve referência a essa fase.


A sua breve relação com os Python Lee Jackson, constitui mais uma faceta dessa fase algo obscura.


Regressemos a esse proverbial telefonema de John Peel a Rod Stewart durante o Outono de 1968. Nesse período, Stewart encontrava-se "vinculado" como vocalista principal ao Jeff Beck Group (em baixo), cujo primeiro LP "Truth" havia sido há pouco lançado, e os espectáculos e digressões se estavam a tornar muito frequentes, para além de algumas mudanças de pessoal.
Pode-se afirmar que a resposta afirmativa de Rod Stewart ao telefonema de John Peel foi muito oportuna, pois a banda Python Lee Jackson, já tinha agendada no estúdio a sessão de gravação destinada ao seu novo tema e o problema da "inadequação vocal" mantinha-se em aberto. Rod Stewart aceitou fazer um verdadeiro favor ao seu amigo de longa data e, por extensão, a Dave Bentley e à sua banda, pois tinha diversas obrigações para com a sua banda Jeff Beck Group. Podia, com toda a legitimidade, não ter aceite o pedido de John Peel, alegando razões contratuais, e a história seria outra...


Combinada a hora e o local, Rod Stewart aparece no estúdio para a sessão de gravação do tema "In A Broken Dream". Após conversar com Dave Bentley e se inteirar das devidas instruções, Rod Stewart e os Python Lee Jackson decidem começar por gravar a "demo" (primeira versão de demonstração básica) da canção. A intenção original deste pequeno "favor" de Stewart, era fazer um "guide vocal", a partir do qual o vocalista Dave Bentley e o resto da banda, construiriam a master final do tema.

O que se seguiu, foi um dos momentos mais inesquecíveis da História da Música Pop. Sem qualquer preparação prévia, sendo simplesmente fiel ao seu estilo habitual de interpretação, Rod Stewart canta, com toda a naturalidade, sem dificuldade e de uma vez o tema "In A Broken Dream". John Peel, Dave Bentley e a sua banda, ao acabar a gravação "demo", perceberam ter assistido a algo memorável e irrepetível. A "demo" tornou-se a "master" final, caso raro numa gravação de estúdio. Estavam todos satisfeitos com o resultado e, desta forma, não se gravou mais nenhum "take" de "In a Broken Dream".


A gravação do tema para o qual se havia agendado a sessão acabou por durar muito menos tempo do que o previsto. O que significou que sobrou um "tempo livre" não previsto. Desta forma, aproveitando a presença bem oportuna de Rod Stewart, a banda decide gravar, à experiência, mais dois temas, ambos de autoria alheia. Stewart não se fez de rogado e, por mais uns minutos, decidiu levar avante a sua missão de "cantor convidado" dos Python Lee Jackson, com muito bons resultados. Os temas eram o muito doloroso "The Blues" e o dinâmico e descontraído "Doing Fine (Cloud Nine)".


No final daquela memorável sessão de gravação, chegou a ponderar-se a ideia de Rod Stewart ficar como vocalista adicional dos Python Lee Jackson. Acontece que, como já foi referido atrás, Stewart, nesse período, estava contratualmente obrigado ao Jeff Beck Group, havia todo um conjunto de espectáculos e digressões a cumprir, sem esquecer a ideia de, dentro de meses se proceder à gravação de um segundo LP (do Jeff Beck Group). Mais concretamente, se o single fosse lançado e resultasse num sucesso comercial, levando a que se solicitasse a realização de espectáculos e digressões (sempre essenciais!), Rod Stewart, elemento-chave, pelo menos nesse tema, não poderia participar.


Na sequência destes receios, John Peel decide cancelar o lançamento do tema, incluindo os outros dois onde Rod Stewart participava. Ficariam inéditos até ao começo da década de 70.
Dave Bentley e os Python Lee Jackson (em cima), durante o breve tempo em que estiveram na editora de John Peel, chegaram a compor e a gravar toda uma série de temas que acabaram por não ser lançados na altura inicialmente prevista. O grupo deixou a editora de John Peel durante a primeira metade de 1969.


No final de 1969, o produtor Miki Dallon, que havia lançado a editora independente "Young Blood", decide adquirir todas as gravações relacionadas com os Python Lee Jackson, com a intenção de eventualmente as editar. Lançou-as no mercado por volta de 1970/1971, na sua já referida editora, todavia, sem qualquer sucesso.

Vários meses mais tarde, aproveitando o agora indiscutível sucesso de Rod Stewart, Miki Dallon é perseverante e decide dar mais uma oportunidade ao tema "In A Broken Dream", dando, desta vez, um merecido destaque à presença do referido cantor, sem esquecer de referir o nome da banda que o havia "convidado". Desta vez o resultado foi a sua rápida ascensão aos primeiros lugares das tabelas de vendas, pelo menos, dos dois lados do Atlântico. Por apenas uma vez na vida, Dave Bentley, ainda que fora de época, tem a oportunidade de sentir o sabor do sucesso, dado que, saliente-se uma vez mais, "In A Broken Dream" é da sua exclusiva autoria. Nessa altura, em 1972, Dave Bentley tinha regressado à Austrália e os Python Lee Jackson eram uma coisa enterrada no passado. Aliás, o seu nome só é resgatado do esquecimento graças a Rod Stewart, afinal um mero "cantor convidado", que uma feliz decisão no momento certo de John Peel (em baixo), permitiu salvar uma sessão de gravação, que se julgava ser mais difícil do que acabou por acontecer.
As outras gravações ficariam à espera de melhores dias...


Desde então e, sobretudo com o advento do CD, essas gravações têm surgido dispersas e, muitas vezes sem o mínimo critério, nas mais variadas colectâneas. A colectânea "Turn The Music Down" é um exemplo acabado dessas colectâneas, onde se recorre a um estratagema de Marketing (a presença de Rod Stewart, neste caso), para se conseguir vender temas que, por si só não seriam vendáveis. Todavia, os 3 temas que Stewart interpreta nesta colectânea, como "cantor convidado", por si só, justificam muito a compra não só desta colectânea, como de qualquer outra onde eles surjam. Isto porque, entretanto, adquiriram o estatuto de verdadeiras raridades e são, devido às notórias diferenças entre si, demonstrativos da já conhecida versatilidade de Rod Stewart em se mover dentro dos mais diversos géneros musicais. Os restantes 7 temas não destoam dos outros 3 e permitem dar a conhecer um pouco da carreira do grupo Python Lee Jackson, que também é extremamente difícil de encontrar.


Apesar de esta colectânea já ter sido lançada algures nos anos 90, foram acabando por surgir, aqui e ali, outras mais recentes, exactamente com as mesmas músicas e qualidade sonora idêntica ou quase idêntica. Nas ditas zonas de "saldos e promoções" das grandes superfícies é provável que se encontre alguma coisa deste género.


Olho atento e paciência é tudo o que é preciso para se encontrar o que se realmente procura em qualquer aglomerado de discos, onde não pareça haver nada onde valha a pena investir tempo e dinheiro.


Cabe ao potencial comprador decidir se está perante uma fraude ou simplesmente uma oportunidade única de adquirir o que (já) não existe noutros lugares.