sábado, dezembro 21, 2013

Um pormenor esquecido de Portalegre

Construção original

Fachada principal desativada

Zona posterior ainda em funcionamento
Apesar do Caramulo ter sido, em tempos, um centro de cura do flagelo da tuberculose e, decerto, o que mais se destaca no nosso país, houve outros espaços que sabe bem trazer à memória. Não me estou a lembrar, neste momento, de todos eles e também seria demasiado exaustivo enumerá-los num breve post. Será mais interessante relembrá-los, de quando em quando, em textos separados. Hoje lembrei-me de mais um desses espaços, por sinal um dos mais enigmáticos e que, decerto muitos se esqueceram. Trata-se do Sanatório de Portalegre, mais conhecido como "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Sim! Ao contrário do que alguns possam julgar, Portalegre também tinha um sanatório. É dos que menos se fala, talvez precisamente por se localizar num local que muitos consideram "de província". 

Onde se localizou este espaço? 

Numa colina situada no extremo de Portalegre e que se precipita sobre uma espécie de vale. Também é enriquecida por zonas verdes e localiza-se aí a Sé de Portalegre, com as suas duas torres. Nessa mesma elevação, mais afastado para o extremo dessa colina, encontramos um edifício de formato mais ou menos rectangular cuja fachada principal dá para o vale e parece meia tapada por algumas árvores. Foi esse o "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Se estivermos no cimo da Serra de Portalegre ou se passarmos numa das estradas que circundam essa colina, não será difícil descortiná-lo. 
O edifício ainda se encontra apartado do resto do aglomerado habitacional próximo, herança dos seus "gloriosos" tempos. Tem um aspecto vagamente enigmático, mas também algo de sombrio, sobretudo se olharmos para a parte semi-coberta. A melhor altura do dia para o contemplarmos é da parte da tarde. Ao fim do dia, quando o sol se põe, adquire uma aura estranha, que parece contradizer a sua intencional discrição. Os vidros da secção posterior, um acrescento decerto à construção original, parecem brilhar, devolvendo, por momentos, qualquer coisa de vivo a um espaço que ficou enterrado num passado vagamente sinistro. 
O Sanatório Rodrigues de Gusmão, se não me falha a memória, foi inaugurado em 1909, portanto pertencia ainda àquela primeira leva de sanatórios anterior à criação da Estância do Caramulo. Todavia, pouco ou nada se fala dele. Terá tido uma existência sem sobressaltos, decerto foi sujeito algumas obras de melhoramento, que lhe acrescentaram a parte traseira e modernizaram os equipamentos. A construção que hoje lá observamos deve estar algo diferente da original de 1909, independentemente de algum restauro efectuado. 
Deu "sinais de vida" ainda durante a sua última década de vida, quando o seu diretor de então, o Dr. Emílio Moreira, decidiu empreender a realização da "Semana da Tuberculose e Doenças Pulmonares do Distrito de Portalegre", entre 1966 e 1973. Discreto como foi, discretamente cessou funções após 1974. Actualmente é aí que se localiza um centro de prevenção e tratamento para toxicodependentes. No entanto, julgo que esta instituição se encontra apenas circunscrita à parte traseira, mais recente, do antigo sanatório e que é visível para quem entra pelo parque de estacionamento. A "parte nobre" do edifício, parece estar silenciosamente devoluta. Até quando? Ninguém sabe...

A propósito do "Perfect Day" de Lou Reed


Transformer (1972) 

Magic and Loss (1992)
          
                Set The Twilight Reeling (1996)

         
       The Raven (2003)


Canção intemporal, esse "Perfect Day" de Lou Reed! Apesar de não ser um fã de Lou Reed, nem possuir a maior parte da sua discografia a solo, fui encontrando, ao longo do pouco que dele tenho, aqui e ali, vários outros momentos inesquecíveis. Os meus critérios de avaliação poder ser discutíveis para um bom conhecedor da carreira deste músico. Quanto a álbuns, considero o "Transformer" de 1972, o disco de Lou Reed que, no mínimo, se deverá ter. Eu considero o "Transformer" o primeiro "verdadeiro" disco a solo deste músico, ainda que seja de facto o segundo. 
Vinte anos depois (1992), surge outro álbum incontornável: "Magic and Loss". O que nele considero como o elemento mais valioso são as letras. Não é um disco fácil para certo tipo de ouvintes. É um disco destinado para quem "gosta de ler", para quem aprecia a profundidade de, por exemplo, uma boa conversa e não se fica pela superficialidade das coisas. É um álbum carregado de muito sentimento, muito literário. Os temas que, para mim, são mais marcantes e justificam a compra deste disco, perfazem a "sequência perfeita" do 3 ao 7. É verdade que o tema mais conhecido e que mais adesão conquista é o 2 ("What's Good"). Todavia, apesar de mostrar um "genuíno" Lou Reed, vejo-o como um tema feito para ser editado em single (tal como aconteceu) e, por isso, uma cedência ao "comercial", destinado a atrair as atenções da generalidade do público consumidor de música. Acredito que uma boa parte desse público, que aprecia mais discos onde haja ritmo e som, para não dizer irreverência e ambiente "festivo" ("borga e paródia"), tenha ficado desiludido com o "Magic and Loss"... Basta ver a forma (inicial, claro!) como grande parte da crítica recebeu os espectáculos que Lou Reed deu em Portugal na Primavera de 1992. Acharam que ele não estava a atravessar um bom momento... Que estava demasiado depressivo e mórbido "por ter chegado aos 50 anos"... Mais de 20 anos passados, verificamos que foi um disco que envelheceu bem. Aliás, foi como certo vinho de qualidade - quanto mais velho melhor! Acredito que muitos dos que denegriram e desvalorizaram esse Lou Reed da fase "Magic and Loss" já engoliram várias vezes tudo o que disseram!!! 
Sem me querer estender demasiado, faço ainda referência ao disco "Set the Twilight Reeling" de 1996, onde encontramos dois temas que eu considero essenciais não só na carreira de Lou Reed, mas também na música do Século XX: o urgente "Finish Line", que ele dedicou a Sterling Morrison, seu colega nos Velvet Underground, e o introspectivo "Trade In". Para quem tem um gosto literário mais apurado e aprecia Edgar Allan Poe, é de recomendar o seu álbum "The Raven" de 2003. As incursões literárias de Lou Reed são sempre algo a que não é possível estar indiferente!