
Trata-se do álbum "Revolution!" do grupo norte-americano Paul Revere and The Raiders, editado em Agosto de 1967. Quando este LP chegou às lojas, a banda já trazia, atrás de si, uma importante carreira musical feita de sucessos. Aliás, eram um dos mais populares grupos dos EUA, sobretudo em meados da década de 1960. "Steppin' Out" e "Just Like Me", em 1965 e "Kicks" e "Louie, Go Home", em 1966, só para citar alguns exemplos. A sua popularidade não era só devida aos êxitos discográficos. Os seus espetáculos ao vivo e, sobretudo, as suas aparições televisivas, era o que mais contribuía para o seu destaque entre os demais grupos norte-americanos, entretanto surgidos na sequência da chamada "invasão britânica". Isto para não falar na sua apresentação em uniformes que remetiam para a época das "Guerras da Independência dos Estados Unidos", onde se teria destacado um outro "Paul Revere", que se tornou, desde então, parte do vasto conjunto de figuras ilustres da história daquele país.
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| Mark Lindsay, com Paul Revere ao fundo. |
De facto, apesar de Paul Revere emprestar o seu nome e imagem à banda da qual era, oficialmente, o líder e, com a sua aparência e imagem sorridente, ser a sua suposta imagem de marca, quem era o seu verdadeiro "frontman", para além de vocalista, poli-instrumentista e principal compositor, era Mark Lindsay. Além do mais, Paul Revere era o mais velho e tinha uma visível diferença de idade em relação aos outros elementos da banda, o que o destacava, desvantajosamente, relativamente ao público jovem, que constituía a parte principal dos seus fãs. Não assumidamente, Paul Revere ter-se-ia sentido, de quando em quando, algo deslocado em relação ao resto da banda, principalmente porque era afinal Mark Lindsay quem vinha obtendo o estatuto de figura central no grupo. Aliás, era Mark quem centrava todas as atenções nos espetáculos, quer ao vivo, quer na televisão e era, desta forma, o mais mediático dos "Raiders". Inclusive, era Mark quem recebia a esmagadora maioria das cartas dos fãs. Não é de espantar que, a determinada altura, nas capas dos discos, o nome do grupo aparecesse "Paul Revere and The Raiders/ featuring Mark Lindsay".
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| Paul Revere e Mark Lindsay em 1968. |
De uma forma resumida, deve-se referir que, inicialmente, era, de facto, Paul Revere o líder da banda, quando esta era sobretudo instrumental e o seu órgão ocupava o lugar de maior destaque. Com a evolução dos gostos musicais e, sobretudo, o aparecimento, a partir de 1963, dos ecos das bandas britânicas, nomeadamente o chamado "mersey sound", onde se incluíam os Beatles, as guitarras começaram a ganhar maior destaque. Desta forma, Paul Revere passaria a ocupar uma posição mais de "background", enquanto Mark Lindsay, o principal cantor, começa a ocupar a linha da frente no novo som que começavam a adoptar. Assumiram-se como uma das "respostas" americanas à dita "invasão britânica".
Isto permitia-lhes, entre outras coisas, distinguirem-se, aparentemente, de outros grupos com uma imagem e um som mais "hard". Não aparentavam querer revoltar-se contra o "sistema", não pareciam rebeldes e, por isso, menos ameaçadores para a "moral e os bons costumes". Pareciam estar apenas a interpretar um papel de músicos que só queriam divertir-se a cantar e a dar espetáculos e proporcionar momentos de boa disposição onde as "substâncias ilícitas" não entravam.
As suas fardas também lhes davam um toque vagamente "retro" e de um certo tipo de conservadorismo simpático que, juntando aos uniformes o nome "Paul Revere", pareciam homenagear os tempos primordiais dos Estados Unidos, onde George Washington se destacava e, desta forma, reforçar as suas raízes americanas. Em suma, davam uma imagem adicional de patriotismo, temperada com condimentos de "saudável boa disposição", apesar dos penteados "um bocado compridos" para os mais conservadores. Esta imagem fora, sobretudo, cimentada durante o período em que o quinteto teve a sua formação considerada "clássica" e de maior sucesso, mais ou menos entre 1963 e 1967.
Apesar de tudo, em retrospetiva, é possível vislumbrar, nas suas fardas, uma premonição de um certo tipo de vestuário que fez furor durante os primeiros tempos do psicadelismo que se seguiria, muito por influência dos Beatles, no período "Sgt. Pepper's". Todavia, a comparação fica por aí...
De facto, em 1967, "Paul Revere and The Raiders", tal como se haviam dado a conhecer, estavam a tornar-se um grupo da "velha guarda" e a união que aparentavam já não correspondia à realidade. Dentro do grupo, as relações haviam começado a azedar. Os músicos do grupo, nomeadamente Mark Lindsay, sentiam-se cada vez mais insatisfeitos com as limitações que lhes eram impostas, em especial quanto à falta de liberdade criativa e, claro, estarem presos a uma imagem mediática da qual se estavam a fartar.
Tal como Mark Lindsay afirmou, o facto de estarem, desde há muito, vocacionados para satisfazer as supostas exigências de um público preferencialmente "teen", apesar de lhes ter proporcionado uma série de êxitos, estava-se a revelar cada vez mais limitativo. Mais concretamente, a falta de liberdade criativa e as exigências contratuais, que implicavam prazos de gravação limitados e atuações ao vivo demasiado frequentes e cansativas, que não davam espaço para compor devidamente novos temas, o que, não raras vezes, implicavam o recurso a autores exteriores à banda.
O próprio grupo, participava cada vez menos diretamente nas gravações em estúdio e mesmo na escolha dos temas, limitando-se a seguir uma espécie de "fórmula de sucesso" já previamente elaborada. Ou seja, quando gravavam, viam-se confrontados com uma espécie de facto consumado, completamente subordinados às exigências da editora, cujo principal objetivo seria simplesmente obter lucro da forma mais rápida e fácil. Sendo Mark Lindsay o elemento mais prolífico e criativo no interior da banda, ele sentia que eles se vinham transformando, como muitos outros seus contemporâneos, num mero objeto de consumo fácil, quase como "de usar e deitar fora", condenados a desaparecer logo que deixassem de ser lucrativos e, desta forma, sem perspetiva de "crescimento" futuro. Em suma, Mark Lindsay e os outros identificavam-se cada vez menos consigo próprios.
Essa aparente estagnação começou a traduzir-se num desânimo crescente. Exteriormente, o grupo ainda estava no auge, mas os sinais de queda avizinhavam-se. Tudo isto culminaria no começo de 1967, quando, num curto espaço de tempo, saem três elementos da banda, que ficaria reduzida ao núcleo básico de Mark Lindsay e Paul Revere. Este facto, associado à estagnação criativa, parecia ditar o fim de Paul Revere and The Raiders.
Como Mark Lindsay afirmou, em entrevistas recentes, tal como acontecia com o panorama musical circundante, havia uma necessidade de evolução musical, de experimentar novos estilos de composição e arranjo musical. Por outro lado, mesmo os gostos do público juvenil eram voláteis e, com as novas sonoridades que esse ano (1967) trazia, "Paul Revere and The Raiders" corria o risco de se tornar em mais uma banda obsoleta.
Com o grupo reduzido a dois elementos e com obrigações contratuais, havia que preencher quanto antes os três lugares deixados vazios, nem que fosse só para evitar o cancelamento de futuros espetáculos já agendados, o que representaria um avultado prejuízo. Todavia, Mark Lindsay compreendeu que, mesmo com o quinteto reformado, os problemas de sempre manter-se-iam e a banda não tardaria a chegar à sua dissolução definitiva. As coisas não podiam simplesmente acabar dessa forma tão abrupta. Havia ainda muito para investir, ainda que noutros moldes criativos. Desta forma, Mark Lindsay não hesitou em experimentar novos terrenos musicais.
Terry Melcher, jovem produtor e também músico, compreendeu perfeitamente a necessidade de tentar fazer algo de novo daí em diante. Desta forma, Lindsay e Melcher formarão uma parceria quer no que se refere à composição de novas canções, quer na sua concretização em estúdio, tentando não se deixar espartilhar demasiado por prazos nem orçamentos. Será, graças a este novo método de trabalho, que se concretizaria o projeto do álbum "Revolution!".
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| Hal Blaine e Glen Campbell |
Uma dessas experimentações, foi cantar os temas em "sotaque britânico". Exemplo disso é o tema "Mo'reen", onde é clara a influência de certos grupos ingleses, nomeadamente os Hollies. Outro exemplo de experimentação, é o recurso à distorção vocal no tema "Tighter", neste caso recorrendo a outra inovação técnica da época, denominada "efeito Leslie".
Um dos temas mais bem conseguidos durante as gravações do "Revolution!" foi o "Try Some Of Mine", mas que, não se sabe porquê, ficou fora do álbum final.
O disco encerra com a canção "I Hear A Voice", que constituirá uma surpresa para quem o escutar pela primeira vez. O vasto coro de vozes que aí se escuta, resultou de um "overdubbing" feito apenas às vozes de Mark Lindsay e Terry Melcher. Também foi Terry Melcher quem se ocupou da parte do piano. Sem margem para dúvidas, se "I Hear A Voice" tivesse sido gravada, na época, por qualquer outro grupo mais famoso, como os Pink Floyd, os Beach Boys, os Bee Gees ou mesmo os Buffalo Springfield (de Stephen Stills e Neil Young) e os Association, seria hoje considerada uma das grandes canções daquele tempo. Infelizmente, ficou enterrada no final do lado B de um disco de Paul Revere and The Raiders com uma capa nada apelativa e em fase descendente... É óbvio que ninguém acabou por lhe dar qualquer importância!
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| Paul Revere e Mark Lindsay em 1973 |
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| Paul Revere and The Raiders, em 1967, por alturas da saída do Lp "Revolution!". |
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| Paul Revere, numa imagem mais recente, à frente duma nova versão do grupo. |














































Isto acontece porque, na verdade, esta pequena colectânea de apenas 10 canções refere-se sobretudo a um grupo musical que, como muitos ao longo da História, lhe viu fugir a luz rigidamente selecta do sucesso e se viu enquadrado numa obscuridade, e consequente esquecimento, só muito raramente quebrada com ocasionais edições discográficas limitadas para coleccionadores e, nem sempre, nas melhores condições sonoras.
O disco é completamente desprovido de qualquer detalhe informativo, salvo nos (breves) créditos autorais dos temas seleccionados.
A banda Python Lee Jackson (em cima, em 1966) era originária da Austrália, mais concretamente, de Sydney. Terá iniciado as suas actividades em 1965, sob o breve nome de "Blues Breakers" em cuja formação já ponteava o elemento fundamental Dave Bentley. Era essencialmente um grupo que actuava ao vivo e chegaria a conquistar alguma popularidade em terras australianas. O seu estilo musical misturava rock, pop e, como marca distintiva, blues, que, na segunda metade dos anos 60, era um género que conquistava muitos adeptos e popularidade no panorama da música anglofona. Na Inglaterra, por exemplo, abundavam grupos de jovens cantores brancos que idolatravam a música negra e tentavam emular os seus (estes veteranos) cantores de blues. Os Yardbirds, (em baixo) com Eric Clapton e Keith Relf em destaque, eram um perfeito e bem sucedido exemplo destes numerosos bluesmen.
O cantor Rod Stewart (em baixo), em início de carreira, também tentava singrar, com muito empenho e sacrifício, neste mundo peculiar do blues. A sua fama como um cantor e performer de excepção crescia a olhos vistos por entre a comunidade musical britânica, mas o seu verdadeiro reconhecimento público ainda estava para vir.
Por coincidência, nesse mesmo ano de 1967, os Bee Gees (em cima), vindos igualmente da Austrália para a Inglaterra, iniciavam a sua longa carreira de sucessos internacionais, mas a história destes seguirá outros rumos que não interessa aqui referir.
A sorte de Dave Bentley e a sua banda pareceu tomar um rumo mais favorável, em 1968, quando o mítico D.J. John Peel (em cima) lhes reconhece grande potencial e qualidade (como acontecerá com tantos outros artistas ao longo da sua vida) e decide assinar-lhes um contrato numa sua então recém-fundada editora independente ("Dandelion Label"). A possibilidade de poder gravar um disco, nem que fosse um simples single, era o sonho de qualquer grupo musical que se prezasse e de, pelo menos, a sua existência poder ficar registada para a posteridade. Muitos, nem isso conseguiriam...
Todavia, colocou-se a Dave Bentley um problema quase incontornável: a canção era da sua autoria, mas a sua voz e forma de cantar não lhe pareciam adequadas para o resultado pretendido. O tema era muito forte e exigia uma voz com certas peculiaridades. Dave Bentley tinha em mente uma voz que tivesse o potencial e o "arranque" no género de certos cantores como Joe Cocker e Stevie Winwood. 
Pode-se afirmar que a resposta afirmativa de Rod Stewart ao telefonema de John Peel foi muito oportuna, pois a banda Python Lee Jackson, já tinha agendada no estúdio a sessão de gravação destinada ao seu novo tema e o problema da "inadequação vocal" mantinha-se em aberto. Rod Stewart aceitou fazer um verdadeiro favor ao seu amigo de longa data e, por extensão, a Dave Bentley e à sua banda, pois tinha diversas obrigações para com a sua banda Jeff Beck Group. Podia, com toda a legitimidade, não ter aceite o pedido de John Peel, alegando razões contratuais, e a história seria outra...
O que se seguiu, foi um dos momentos mais inesquecíveis da História da Música Pop. Sem qualquer preparação prévia, sendo simplesmente fiel ao seu estilo habitual de interpretação, Rod Stewart canta, com toda a naturalidade, sem dificuldade e de uma vez o tema "In A Broken Dream". John Peel, Dave Bentley e a sua banda, ao acabar a gravação "demo", perceberam ter assistido a algo memorável e irrepetível. A "demo" tornou-se a "master" final, caso raro numa gravação de estúdio. Estavam todos satisfeitos com o resultado e, desta forma, não se gravou mais nenhum "take" de "In a Broken Dream".
Dave Bentley e os Python Lee Jackson (em cima), durante o breve tempo em que estiveram na editora de John Peel, chegaram a compor e a gravar toda uma série de temas que acabaram por não ser lançados na altura inicialmente prevista. O grupo deixou a editora de John Peel durante a primeira metade de 1969.
Vários meses mais tarde, aproveitando o agora indiscutível sucesso de Rod Stewart, Miki Dallon é perseverante e decide dar mais uma oportunidade ao tema "In A Broken Dream", dando, desta vez, um merecido destaque à presença do referido cantor, sem esquecer de referir o nome da banda que o havia "convidado". Desta vez o resultado foi a sua rápida ascensão aos primeiros lugares das tabelas de vendas, pelo menos, dos dois lados do Atlântico. Por apenas uma vez na vida, Dave Bentley, ainda que fora de época, tem a oportunidade de sentir o sabor do sucesso, dado que, saliente-se uma vez mais, "In A Broken Dream" é da sua exclusiva autoria. Nessa altura, em 1972, Dave Bentley tinha regressado à Austrália e os Python Lee Jackson eram uma coisa enterrada no passado. Aliás, o seu nome só é resgatado do esquecimento graças a Rod Stewart, afinal um mero "cantor convidado", que uma feliz decisão no momento certo de John Peel (em baixo), permitiu salvar uma sessão de gravação, que se julgava ser mais difícil do que acabou por acontecer. 