sexta-feira, abril 17, 2009

Guggenheim em Bilbao

Este Museu Guggenheim de Bilbao é um dos cinco museus existentes no mundo (foram, entretanto, projectados mais alguns), que pertencem à Fundação Solomon R. Guggenheim, criada em 1937, por iniciativa do filantropo norte-americano e coleccionador de arte Solomon Robert Guggenheim, com o apoio da artista Hilla von Rebay. O primeiro museu desta fundação, fora criado em Mannhattan em 1939 e ficou, durante algum tempo, instalado num centro de exposições originalmente vocacionado para exibir automóveis. No entanto, o seu mentor, Solomon Guggenheim, desde o início que havia idealizado um espaço definitivo para esta instituição, que pudesse ir ao encontro do seu desejo de criar algo inovador e arrojado e que proporcionasse aos visitantes uma nova forma de olhar as obras de arte.
Dado que a colecção de Solomon Guggenheim se centrava em obras de arte moderna e contemporânea, seria de esperar que o novo e definitivo espaço do museu, em cujo projecto se começaria a trabalhar ainda na década de 40, fosse ele próprio de uma arquitectura pertencente às correntes mais inovadoras. Após um breve período de sondagens e contactos, Solomon Guggenheim encontraria o arquitecto ideal para o seu projecto na pessoa do já muito famoso, e nem sempre consensual, Frank Lloyd Wright. Este agarra então nas ideias ainda um tanto inseguras de Solomon Guggenheim e decide conceber um espaço museológico que ele próprio definiria como um “templo do espírito”. As ideias que o fundador S. Guggenheim preconizava, nomeadamente a de as exposições de arte poderem ser também grandes instalações onde o visitante circulasse livremente, vivendo-as e sentindo-as de perto e (porque não?) delas pudesse fazer parte, eram extremamente difíceis de concretizar arquitectonicamente. O arquitecto Frank L. Wright, destemido e empreendedor, aceita o desafio que lhe foi proposto por S. Guggenheim, acabando por transformar o desenho e construção deste novo museu, como um dos seus maiores e mais pessoais projectos de vida. É preciso não esquecer que a construção, propriamente dita, do novo museu só se iniciaria em 1956 e a sua inauguração deu-se, por fim, em 1959, meses depois do falecimento de Frank Lloyd Wright. O resultado final, foi um edifício de grandes dimensões e de características pioneiras e com uma arquitectura que, então, fugia aos modelos tradicionais, mas que, a partir daqui, iria servir de modelo a edifícios de todos os géneros e finalidades, construídos um pouco por todo o mundo. Frank Lloyd Wright quis que este novo museu fosse completamente diferente de qualquer outro, até então conhecido e, refira-se desde já, que este arquitecto assumiu a dianteira de todo o projecto, a partir do falecimento de S. Guggenheim, no ano de 1949. As ideias concebidas por um, converteram-se numa missão de vida para o outro. Durante décadas, o Museu Guggenheim de Nova York foi o único do seu nome e um dos locais mais importantes onde se albergava uma das maiores colecções de arte moderna e contemporânea no mundo, para além do modelo inovador de concepção de museu a que os especialistas na matéria, daí em diante, já não podiam ficar indiferentes, apesar de alguma polémica surgida aquando da sua inauguração. Era também um novo modelo de edifício que iria influenciar mesmo a própria Arquitectura em geral.
A partir dos anos 80, a Fundação Guggenheim, graças à fama que o seu museu de Nova York granjeava um pouco por todo o mundo, decidiu implementar uma politica de expansão, encabeçada, entre outros, pelo seu director Thomas Krens.
Esta nova politica de expansão da Fundação Guggenheim de forma a se dar a conhecer ainda mais além fronteiras, levou a que se iniciasse a elaboração de diversos projectos destinados à construção de novos museus noutros locais do globo. Foi na sequencia disto que se começou a trabalhar na construção do seu “representante” em Bilbau. O arquitecto escolhido para projectar este novo edifício foi Frank Owen Gehry, nascido em 1929 em Toronto no Canadá.
Tratou-se de um projecto muito ambicioso e algo complexo, mas sem deixar de ser bastante original e imaginativo, em cuja elaboração estiveram envolvidas duas equipas, uma em Bilbau, outra em Los Angeles. A construção do edifício, extendeu-se de 1992 a 1997, ano da sua abertura. Foram anos de trabalho atento e rigoroso, onde se elaboraram e desfizeram maquetes reais e virtuais para cada uma das partes que formariam o conjunto final, com recurso a tecnologia informática de topo. Durante vários anos, muitos especialistas puseram em causa a possibilidade da execução real do edifício devido à complexidade das suas formas. Para além disto, a sua construção revelar-se-ia algo dispendiosa, o que reforçaria as críticas de todos aqueles que achavam quase experimentais as inovações utilizadas na sua construção que, para além disto, têm tornado os seus custos de manutenção e limpeza algo elevados.
Apesar disto, o Guggenheim de Bilbau, sem esquecer o espaço físico circundante, é um museu de vanguarda e, segundo muitas opiniões, o seu edifício chega a ser mais atraente do que as próprias obras expostas. Há quem defenda que o seu carácter de vanguarda só é visível no exterior, devido ao facto da sua função básica, enquanto museu, ser conservar e expor obras, tal como a generalidade de todos os outros museus do mundo. No entanto, mesmo cingindo-se a estas funções básicas, é difícil não reconhecer uma grande originalidade na organização do seu espaço interior, nomeadamente na proximidade com que as obras surgem defronte do olhar dos visitantes, a utilização profusa e estrutural de elementos multimédia, um aproveitamento quase total da luz natural onde é possível, o jogo de contrastes conseguido ao fazer coexistir colecções tão distintas e uma sensação de movimento permanente contrastando com a generalidade dos museus mais clássicos.
Por outro lado, este museu inovador e original, devido ao seu carácter desconstrutivista e algo inimigo das clássicas barreiras físicas e visuais, é um digno herdeiro de muitas das obras e do espírito de Frank Lloyd Wright. Para além disto, este museu ajudou a assinalar no mapa cultural mundial a cidade de Bilbau, cujo governo local tudo fez, desde o início, para ser a escolhida para albergar uma instituição com tal gabarito, para além de ter financiado a sua construção, bem como se insere, com justiça, num mais vasto plano de revitalização urbana local e de interacção entre esta cidade e o seu rio. Menos consensual será, talvez, a existência de uma via rápida superior que passa por cima do museu e não parece ser muito do agrado de quem reside perto dela. Mesmo assim, parece que a própria zona onde se insere o Guggenheim, viu ser "dourada a pílula" com a construção de uma escada de acesso directo à via superior, inserida numa torre que segue os mesmos moldes, tanto materiais quanto estéticos, do próprio museu, parecendo mesmo dele fazer parte.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Dresden - Um mero erro estratégico?

Desde há séculos que Dresden é referida como a “Florença do Elba”. Não é uma comparação vã, se bem que, na actualidade, esta se confine mais à memória do que à realidade. Florença é o que é pela sua riqueza arquitectónica, que se mantém há séculos. A cidade de Dresden, contrariamente, vive desde à anos em busca do seu passado tentando aqui e ali recuperar o pouco que ainda é possível. Esse passado ficou irremediavelmente perdido algures em 1945. Mais concretamente na noite de 13 para 14 de Fevereiro de 1945. Nessa altura estava-se a alguns meses do fim da 2ª Guerra Mundial e a derrota da Alemanha era mais do que evidente. No entanto, o regime nazi, então vigente, instituiu como regra o fuzilamento sumário de quem quer que pretendesse sugerir a rendição aos aliados que já tinham entrado em solo germânico. Berlim era agora o ponto que importava conquistar para a deposição do governo de Hitler. No entanto, as suas ordens estendiam-se ainda pelo resto do território da Alemanha não conquistada. A ordem principal era resistir até ao último homem.
Tinham decorrido quase cinco anos e meio desde o início das hostilidades e a Alemanha, que havia dado o tiro inicial, estava agora a sofrer as consequências. Grande parte das cidades estavam reduzidas a escombros. Não só as mais importantes, que se previa serem alvos óbvios nos primeiros tempos da guerra (Hamburgo, Nuremberga, Essen, Münster, Colónia e Düsseldorf, entre outras), como também uma série de povoações menos conhecidas, e, por vezes, de pouca importância estratégica (Darmstadt, Saarbrücken, Magdeburg, Heilbronn, Remscheid, Lübeck e Koblenz, entre outras). Desta forma, a situação de Dresden podia parecer irónica. Era a quarta maior cidade da Alemanha e não havia sofrido nenhum bombardeamento. A razão desta situação especial, devia-se ao facto de ser já então considerada de valor patrimonial incalculável. Tinha sido, inclusivamente, estabelecido no início do conflito um acordo entre a Grã-Bretanha e a Alemanha de que esta cidade não seria alvo de nenhum bombardeamento caso Oxford também o não fosse. Hoje em dia, o património desta cidade universitária inglesa pode ser apreciado em toda a sua plenitude. O de Dresden que fazia dela a “Florença do Elba” não. Tratou-se apesar de tudo de um acordo feito no começo da guerra e os anos que se seguiram com toda a sua sucessão de acontecimentos, bem como a descoberta do verdadeiro modo de actuar do exército alemão nos territórios ocupados e, sem dúvida, a descoberta dos campos de concentração, contribuíram para tornar duvidoso qualquer acordo “de cavalheiros” que fosse feito com a Alemanha.
Por outro lado, desde 1943 que a única resposta que os aliados pretendiam da parte do inimigo era a “rendição incondicional”. Desta forma, tudo o que pudesse contribuir para a derrota da Alemanha nazi era justificável. Uma das formas era o bombardeamento sistemático das suas cidades. Aliás, havia a forte crença da parte do mais alto membro do Comando de Bombardeiros britânico Sir Arthur Harris, de que a guerra podia ser ganha desta forma. No entanto, ao bombardearem-se zonas residenciais, estava-se a provocar vítimas civis, o que, sem dúvida, é eticamente inaceitável. A justificação para esta atitude da parte dos aliados, durante o tempo de guerra, era o facto de terem sido os bombardeiros alemães a iniciar esta situação, o que era verdade. De facto, tal como diversas vezes foi dito durante o conflito, eram “eles ou nós”.
No entanto, muitos são unânimes em afirmar que o bombardeamento de Dresden foi injustificado. De facto, a Alemanha estava já derrotada e o seu povo farto da guerra, apesar dos seus governantes desumanos quererem resistir “até ao ultimo homem”. Pode-se afirmar que foram Hitler e os seus acólitos, ainda que indirectamente, os principais responsáveis pelo sofrimento infligido ao povo alemão no último ano e meio de guerra.
A cidade de Dresden não tinha qualquer importância estratégica e estava sem defesas antiaéreas operacionais, que tinham sido canalizadas para outras zonas, para além de nela se encontrarem meio milhão de refugiados. Dado que a cidade não tinha sido bombardeada, havia essa sensação de “porto seguro” da parte das pessoas que chegavam em vagas sucessivas. Dizia-se, inclusive, que estaria lá a residir uma familiar de algum alto dirigente britânico. Pura fantasia afinal.
A ideia que agora corria por entre as forças aliadas era a de que o exército alemão estaria a passar por Dresden para se abastecer e aí estabelecer uma nova plataforma de ataque. Provou-se, tardiamente, que não era bem assim... Foi baseado nesta crença que se ordenou um ataque aéreo cerrado sobre a capital da Saxónia. Devido ao facto de as comunicações, bem como os sistemas de radar e defesa antiaérea se encontrarem ou destruídos ou sob o efeito de interferências deliberadamente provocadas, quem se encontrava em Dresden não fora prevenido relativamente ao que estava para acontecer. Desta forma, foi com surpresa que na noite de 13 para 14 de Fevereiro de 1945, os seus habitantes e refugiados souberam que uma importante formação de bombardeiros se aproximava a grande velocidade. Inclusive, festejava-se o Carnaval e estava a decorrer na cidade um espectáculo de circo... Muitos só se deram conta do que acontecia quando começaram a cair as primeiras bombas. As sirenes de alarme começaram só então a soar. Quase não houve tempo para procurar abrigo. As cenas que se seguiram foram indescritíveis. Os aviões puderam bombardear sem obter qualquer resistência de baixo, o que nunca antes acontecera, o que levou a que, na época fosse considerado um “bombardeamento perfeito”. A maior parte da carga mortífera lançada consistia em bombas incendiárias de fósforo e tal foi a sua concentração, que se gerou um fenómeno medonho conhecido como “tempestade de fogo”. Não no sentido metafórico do termo! Muitos membros das tripulações dos aviões que sobrevoavam a cidade afirmaram que, devido à intensidade dos incêndios por baixo deles, havia luz suficiente para ler, quase "como se fosse de dia". Da parte dos britânicos, houve dois bombardeamentos nocturnos no espaço de algumas horas, tendo, no segundo, ficado destruído o que, inicialmente se pensava ter ficado a salvo.
Houve ainda, na manhã seguinte, um bombardeamento adicional, com a cidade já em chamas, da parte dos americanos, que tiveram visibilidade muito reduzida sobre o "alvo" devido à grande quantidade de fumo que atingia uma grande altitude. O resultado foi um nível de destruição provocado num tão curto espaço de tempo, que só seria ultrapassado pela explosão das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasaqui, meses depois. Os incêndios duraram 7 dias (!). 80% da cidade ficou irreconhecível. Um campo imenso de ruínas até perder de vista... O número de mortos foi então inédito: entre 50 mil a 135 mil, a maior parte mulheres, crianças e idosos. Hoje em dia há ainda quem se refira a este bombardeamento como um verdadeiro "crime de guerra" e considere Sir Arthur Harris como não merecedor das homenagens que lhe foram feitas quer em vida, quer póstumamente. Aliás, no final da guerra, contráriamente ao que muitos então esperavam, o Comando de Bombardeiros não recebeu qualquer condecoração de assinalar, ao contrário das outras forças militares aliadas, facto que ainda hoje gera polémica.