segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Os Sudetas e a invasão da Checoslováquia



A Checoslováquia foi uma das novas nações criadas no século vinte na sequência do desmantelamento dos grandes impérios europeus, após a Primeira Guerra Mundial. Esta era constituída por regiões antes integrantes do desaparecido Império Austro-Húngaro dos Habsburgos: Boémia, Morávia, Eslováquia e a Ruténia Carpatiana.
As novas fronteiras haviam sido criadas englobando, com alguma precisão, a vasta área geográfica ocupada por estas zonas.
O problema começou a surgir, desde logo, devido ao facto das populações englobadas nestas regiões não serem completamente homogéneas, pelo menos a nível étnico. Havia séculos que existiam aglomerados populacionais, minoritários no computo geral, de gentes provenientes de outras etnias, em especial germânica e húngara, que se haviam integrado, mais ou menos, no seio dos povos que iriam constituir a Checoslováquia. A importância destes dois grupos étnicos, com língua própria, havia crescido, inclusive em número, sobretudo durante a constituição definitiva do Império Austro-Húngaro.
Devido ao facto de estarem intimamente ligados às duas facções então dominantes, era certo que usufruíssem de algum privilégio e consideração por parte dos respectivos poderes. Devido à grande extensão, sem delimitações internas definidas, do Império Austro-Húngaro, nunca tinha havido nenhuma questão quanto à localização das várias etnias dentro dos seus limites. No entanto, desde já há várias décadas que surgiam movimentos autonomistas, severamente reprimidos pelas forças imperiais, dentro dos povos de diversas zonas etnicamente predominantes. Entre estes incluíam-se os Checos e os Eslovacos. Estes movimentos autonomistas foram uma das razões que desencadearam a Primeira Grande Guerra Mundial.
Terminada a Primeira Guerra Mundial, e sendo a Áustria-Hungria um dos principais derrotados, logo os seus antigos domínios são fragmentados em novas nações independentes. Decide-se privilegiar os povos e etnias antes subjugadas em detrimento, claro está, das, agora separadas, Áustria e Hungria. Devido à natural irregularidade no interior de um vasto império, é certo que os limites físicos reais de uma região onde predominasse uma etnia, não estavam linearmente definidos. Desta forma, era certo que existiriam dentro de uma região especificada, indivíduos unidos por laços étnicos a outra região diferente.
Dado que os indivíduos de origem germânica e húngara haviam sido os dominantes e mais poderosos no interior deste império, era certo que teriam mais facilidades em se disseminar no interior dos seus limites, usando apenas os recursos naturais como o seu principal critério de distribuição populacional.
Como era de esperar, a nova nação da Checoslováquia teria, no seu interior, um número apreciável de gentes de origem étnica húngara e, sobretudo, germânica, em especial junto às suas recém-criadas fronteiras. Desta forma, nas zonas Sul e Sueste, mais perto da Hungria, predominavam populações húngaras, enquanto que a Norte e Noroeste, mais perto da Áustria, havia um forte contingente germânico.
Os povos de língua e etnia germânica, que se localizavam na região montanhosa dos Sudetas, constituíam um grupo particularmente forte, não só em termos numéricos, como por, desde logo, terem tido uma vocação claramente nacionalista, dificultando sistematicamente as decisões da nova república que os governava e recusando a maior parte dos acordos que o poder central ia tentando com eles elaborar. A vasta minoria germânica dos Sudetas, entre outros aspectos, sentia-se discriminada pelo poder central, tendo. Muitos dos seus elementos, alegavam terem sido vítimas de acções arbitrárias e violentas por parte das autoridades checoslovacas, embora não seja possível confirmar até que ponto isto seria verdadeiro. A região dos Sudetas era de particular importância para a Checoslováquia, não só devido ao seu valor estratégico, situando-se aí o essencial das suas defesas fronteiriças ocidentais, como também por ser uma zona fortemente industrializada.
O precário equilíbrio que existia entre esta comunidade germânica e o poder central foi definitivamente destruído com a Grande Depressão, iniciada em 1929. A percentagem de desempregados entre os “Alemães dos Sudetas”, era visivelmente mais alta do que no resto da população da Checoslováquia, o que aumentou ainda mais o seu descontentamento e desencadeou, de tempos a tempos, diversas revoltas e greves. Paralelamente, o Partido Nazi, liderado por Adolf Hitler, havia conquistado o poder, no final de Janeiro de 1933. Uma das suas premissas, desde logo era dar apoio, até certo ponto moral, a todas as comunidades germânicas que se sentissem oprimidas pelos governos dos países onde estivessem localizadas. Logo de seguida, nestas comunidades, constituem-se forças políticas abertamente de tendência nazi, que tentavam dar voz às aspirações de há muito. A comunidade germânica dos Sudetas, foi das mais activas neste campo, assumindo-se, agora mais do que antes, em praticamente “guerra aberta” com o governo central checoslovaco. Como era natural, a sua atitude declaradamente hostil, encontrava, da parte deste, respostas cada vez mais violentas, mas menos eficazes.



Ao tomar conhecimento dos projectos expansionistas do governo alemão nazi, o governo central de Praga começa a ponderar seriamente em enviar e instalar a título permanente forças militares e policiais para a região dos Sudetas. A intenção é não só para reforçar a segurança da zona fronteiriça, como também para melhor poder controlar a comunidade germânica aí existente, cuja ebulição separatista e nacionalista havia chegado ao rubro. Os receios de Praga começaram a ganhar mais força sobretudo a partir da entrada da recém-criada “Whermacht” na Renânia, até então desmilitarizada e da intervenção aberta na Guerra Civil de Espanha, para apoiar os revoltosos nacionalistas, tudo isto em 1936.









Neste ano, ocupava o cargo de Presidente da República Checoslovaca Edvard Benès. Seria este mesmo presidente a assistir às cedências afrontosas das principais potências europeias face às exigências territoriais de Adolf Hitler.








Este já havia anexado a Áustria na “Grande Alemanha” e pretendia, nesse mesmo ano de 1938, incluir também a zona dos Sudetas. Foi na sequência disto que se agendou a Conferência de Munique, onde a Checoslováquia seria obrigada a ceder ao 3º Reich a sua zona fronteiriça dos Sudetas, para grande júbilo dos aqui residentes.



















Não aceitando compactuar com esta situação, Edvard Benès ver-se-ia obrigado a abdicar do poder em Outubro de 1938, partindo para o exílio em Inglaterra, juntamente com a família e vários antigos elementos do seu staff. Suceder-lhe-ia Emil Hácha, por ser católico e não ter qualquer relação directa com esta perda territorial, a qual se esperava ficar por aí. Para além de visivelmente mais velho do que o seu antecessor, Emil Hacha era um homem enfraquecido pela falta de saúde e com pouca firmeza. Será esta falta de firmeza que o levará a integrar à força, até 1945, um governo-fantoche sob a alçada da Alemanha nazi. Logo no ano de 1939, não se conseguirá opor à declaração de independência por parte da Eslováquia, incentivada decerto pelas potências do Eixo, do qual a Hungria era um aliado.






Logo em meados de Março de 1939, na sequência de uma conversa com Adolf Hitler, em que este o ameaçou, inclusive, de bombardear Praga, Emil Hácha, decide não se opor à entrada das tropas hitlerianas no que restava do território da Checoslováquia, que, até 1945, se passaria a designar por “Protectorado da Boémia e da Morávia”. Emil Hácha manteria o cargo de presidente, mas apenas na aparência, pois fora obrigado a ser totalmente fiel aos sucessivos governadores alemães desse “protectorado”, até ao final da Segunda Guerra Mundial. Desta forma, a região antes designada por Checoslováquia seria, a par de muitas outras, sujeita ao domínio totalitarista e às leis do 3º Reich, com todas as consequências negativas, já longamente conhecidas, para a sua população e economia.



Nos meses seguintes ao final da Segunda Grande Guerra, houve, da parte dos antigos dominados, todo um conjunto de violentas acções no sentido de expulsar todos os indivíduos de etnia germânica, com especial destaque para todos aqueles que haviam colaborado com os invasores nazis. Muitas delas foram executadas espontaneamente pelas populações, desejosas tanto de legítima vingança, como de recuperar antigas posses confiscadas quer pelo 3º Reich invasor, quer pelos residentes de etnia germânica que foram muito privilegiados durante estes quase seis anos de usurpação territorial. Para impulsionar esta regularização territorial da Checoslováquia, foram postos em prática os “Decretos Benès”, elaborados desde alguns anos antes pelo governo democrático, exilado em Inglaterra desde 1938, encabeçado pelo ex-presidente Edvard Benès.
Estes decretos continham directivas muito específicas acerca da nova redistribuição do território checoslovaco, com especial destaque para a expulsão não só dos cidadãos de etnia germânica, muitos deles residentes até então muito problemática zona dos Sudetas, mas também dos da minoria húngara, estes mais predominantes na zona sueste da Checoslováquia. É preciso também não esquecer os diversos indivíduos provenientes destas duas etnias que viviam espalhados por todo o território checoslovaco, não raras vezes em casamentos mistos.
Os decretos elaborados pelo governo, até então exilado, foram aplicados em toda a sua extensão possível pelas novas autoridades checoslovacas, fortemente apoiadas pelo seu povo em geral. Houve, como é natural, situações algo polémicas durante estes processos de expulsão, nomeadamente através das previstas represálias contra estas populações que, durante séculos, haviam estado mais ou menos bem integradas nesta sociedade. Houve mesmo relatos de casos de violência extrema, incluindo tortura e homicídios, praticados indiscriminadamente contra estas minorias agora indesejáveis, independentemente da idade das vítimas. Como acontece sempre nestes casos, houve tentativas tanto para exagerar os factos, da parte de quem agora estava do lado dos escorraçados, como para reduzir a sua importância, senão abafar, da parte dos que agora pretendiam livrar a sua nação de quaisquer elementos que pudessem causar instabilidades futuras a nível do país, agora livre do jugo nazi.
Foi, sobretudo, a nível da população de língua e etnia germânica em que mais incidiram estas medidas de expulsão, que resultaram no êxodo forçado de, aproximadamente, 90% ou mais dos seus integrantes. Mesmo assim, ficariam alguns devido, entre outros aspectos, ao facto de estarem inseridos em casamentos e famílias mistas e também por nunca terem apoiado os invasores nem abdicado da sua nacionalidade checoslovaca e, dentro destes últimos, poderem ter um papel importante na futura recuperação da Checoslováquia. Edvard Benès regressaria de novo ao seu país logo em 1945, assumindo o seu lugar de dirigente máximo da sua nação, até Fevereiro de 1948, na sequência da tomada de poder por parte de uma força comunista de influência soviética, que o leva à resignação, tendo falecido em Setembro desse ano.De qualquer forma, todos estes processos de expulsão e expropriação, rodeados, muitas vezes, por atitudes de extrema violência, ainda que compreensíveis, provocariam alguns ressentimentos que, ainda hoje, perduram por entre diversos sectores da população quer da Alemanha, quer da Hungria. Em ambos os países, ainda existem associações, cada vez mais constituídas pelos descendentes dos espoliados originais, que reclamam, tanto ao actual governo da República Checa, como ao da Eslováquia, reparações pelas perdas e danos sofridos.

Bee Gees

Em Janeiro de 1968, era editado o álbum “Horizontal” dos Bee Gees. Na carreira deste grupo, este disco é geralmente considerado o segundo, depois de um que teve precisamente o título “Bee Gees’ First” ou simplesmente “First”. Esta informação não é totalmente correcta e tem induzido muita gente em erro. Na verdade, os dois álbuns referidos são simplesmente os dois primeiros da sua fase britânica ou carreira na Europa Ocidental, que, em virtude do sucesso obtido, se prolongou, como uma linha contínua, até muito recentemente, devido à morte de Maurice Gibb em Janeiro de 2003, com alguns interregnos e fases menos bem sucedidas pelo meio.
Na verdade, a sua carreira não se iniciou só em 1967. Tendo nascido em Inglaterra, de um casal de músicos, os irmãos Barry, Robin and Maurice Gibb, haviam emigrado, no ano de 1958, para a Austrália. De referir que, por volta desta altura, nasceria um quarto irmão, Andy Gibb, que nunca fez parte do grupo musical “Bee Gees” e que morreria, prematuramente, aos 30 anos, em 1988, depois de uma carreira a solo muito instável.
Desde muito novos, revelaram um talento inato para a música, tendo começado, desde logo, a cantar e a tocar. No começo da década de 60, ganharam, por mais do que uma vez, concursos locais de novos talentos. Do seu repertório faziam parte diversos êxitos então muito em voga. Aliás, existem diversos documentos filmados de algumas das suas actuações ao vivo, inclusive, transmitidas na televisão australiana. Apesar de ainda adolescentes, não deixaram de despertar interesse nas editoras discográficas locais. O irmão mais velho, Barry Gibb, começaria, desde logo, a escrever canções e foi a partir daqui que eles obtiveram o seu primeiro contrato discográfico, em 1963, com a editora “Festival”. Daí que, em rigor, se pode afirmar que a sua carreira musical começou neste preciso ano, pelo menos a nível discográfico.
Gravariam, até 1966, toda uma série de canções, na sua esmagadora maioria escritas pelo irmão Barry Gibb, distribuídas por mais de uma dezena de singles e dois LPs, o que não deixa de ser notável. Foi nesta fase crucial que eles desenvolveram o estilo vocal e de composição musical que caracterizaria muita da sua vasta carreira futura. Acontece que, durante estes quase quatro anos, eles eram praticamente só conhecidos a nível local e correriam o risco de não ser mais do que uma das muitas bandas que tentavam, nessa época, singrar no mundo da música, quase sem sucesso, se não fosse a sua decisão ousada de regressar ao seu país de origem.
Desembarcariam nas Ilhas Britânicas, no começo de 1967, trazendo na bagagem as muitas gravações editadas até então. Nessa fase tinham como grande referência musical os “Beatles”. Aliás, o próprio Maurice Gibb afirmaria, mais tarde, que, na sua fase australiana, eles se caracterizavam como um grupo de jovens músicos tentando ser como os seus ídolos. De facto, se se reparar nos temas gravados em 1965 e 1966, é quase possível considerá-los uma espécie de “Beatles australianos”. Estando já, decerto, previamente informados de que o manager dos “Beatles” era Brian Epstein, vai ser precisamente à porta deste que eles irão bater.
A sua intenção era, sem dúvida, apostar numa carreira no mercado discográfico anglo-americano, que já era muito poderoso nessa época. Pode-se afirmar que muitos dos cantores e grupos musicais cuja obra não circulasse neste vastíssimo e dominante mercado editorial, acabavam por ser como que “virtualmente inexistentes” ou apenas localmente divulgados.
Após escutar muitas das suas gravações da fase australiana, Brian Epstein reconheceu-lhes uma grande qualidade e potencial sucesso. Acabou por encaminhá-los para um seu amigo, também produtor, Robert Stigwood, o qual também os reconheceu como um grupo de grande valor, em todos os aspectos. Este Robert Stigwood seria, a partir de então e por muitos anos, o seu produtor por excelência. Curiosamente, Stigwood era australiano de nascença.
Paralelamente, os irmãos Gibb haviam tomado conhecimento com dois outros músicos australianos e, como eles, a viver em Inglaterra, embora de nacionalidade efectivamente australiana. Eles eram Vince Melouney, guitarrista, e Colin Petersen, baterista, ambos já com alguma experiência musical noutros grupos.
Desde logo, começam a escrever e a gravar as canções que iriam constituir o material incluído no seu LP “Bee Gees’ First”, o qual não era, em rigor, o seu primeiro. Acontece que os “Bee Gees” agora moviam-se dentro de um outro circuito discográfico, que os daria a conhecer a um público mais vasto e a promovê-los devidamente, através de, nomeadamente, um maior número de actuações ao vivo mais frequentes. Numa certa perspectiva, pode-se afirmar que a sua carreira levaria o impulso necessário a partir do momento em que as suas canções começam a ser gravadas e editadas no mercado anglo-americano, porque foi aqui que os “Bee Gees” começaram a ser, efectivamente, famosos. Aliás, a sua fase australiana só ganhou importância posterior, em virtude do sucesso mundial obtido logo a partir de 1967.
Como se veio a verificar, o seu LP "Bee Gees' First" tornou-se num sucesso à escala mundial. Não só devido à qualidade das canções, mas também devido a uma eficiente campanha de divulgação, que incluía espectáculos ao vivo e na televisão. O efeito da "novidade" também teve aqui o seu papel importante. Mesmo assim há que compreender que, quando um grupo musical grava o seu primeiro disco ou, como aqui acontecia, relançava a sua carreira num contexto e em moldes diferentes, era sempre um "tiro no escuro".
A sua experiência de gravação em estúdio era, de igual modo, bastante superior à de muitos cantores e músicos da sua faixa etária. Ao contrário do que muitos, ainda hoje, julgam, o "Bee Gees' First" foi, de facto, o seu terceiro LP gravado. Acontece que, no universo das reedições em CD, este "primeiro" trabalho surge como o mais antigo que se conhece dos Bee Gees, o que tem continuado a induzir muita gente, incluindo fãs, em erro. Desta forma, "Horizontal", o disco que se lhe seguiu, foi, na verdade, o seu quarto LP.
O "Horizontal", gravado nos últimos meses de 1967, e editado em Janeiro de 1968, foi já criado num contexto de êxito confirmado e foi a sua verdadeira primeira consagração mundial.  Essa crescente confiança em si mesmos, reflectiu-se no próprio LP, mais conciso e ambicioso do que o anterior. Quase todos os seus temas, talvez exceptuando "Harry Braff" e, de certa forma, "The Earnest Of Being George", merecem destaque pela qualidade e elaboração, tanto em termos de música como de letras. No entanto, mesmo os dois fillers atrás referidos, conseguem a sua "tábua de salvação" nos sólidos arranjos instrumentais.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

A carreira descendente de Tony Jackson


Nascido em 1938, Tony Jackson era o vocalista e baixista original dos “Searchers”. Esta banda pertencia a toda aquela nova onda musical, que se seguiu ao aparecimento dos Beatles, a que se deu o nome, sobretudo em terras americanas, de “invasão britânica”. Os “Searchers” não eram mais do que um grupo musical, entre muitos outros seus conterrâneos. A maioria não teve, claro está, qualquer êxito de assinalar, muitos não tendo editado mais do que um ou dois singles, mas os “Searchers”, a par de outros como “Gerry and The Pacemakers”, pertenciam àquele núcleo, muito restrito, dos que, numa fase inicial, podiam ser considerados “potenciais rivais” dos Beatles, estes, tal como eles, fundados em Liverpool. O seu breve período de glória começaria logo em 1963, com o lançamento, quase em seguida, de dois singles, “Sweets For My Sweet” e “Sugar And Spice”. Em ambos surgia, em grande destaque, a voz de timbre muito forte e sonoro de Tony Jackson. Muito comerciais e ligeiros, seriam logo um êxito estrondoso. Devido ao facto de surgirem como uma banda de sucesso garantido, logo têm a oportunidade, reservada não a muitos, de gravar vários álbuns, entrecortados por novos singles, que confirmavam de novo a aposta que neles havia sido feita.
Tony Jackson era visto, por grande parte do público apreciador dos “Searchers”, como a principal figura no grupo. Muitos atribuíam, à sua voz poderosa, a razão do seu sucesso. No entanto, desde logo, começam a surgir sinais de que algo poderia, muito em breve, mudar. Como forma de evitar uma repetição de estilo que, a partir de determinada altura, poderia cansar o público ouvinte e de revelar algum amadurecimento no som da banda, no interior dos álbuns e nos singles seguintes, foram surgindo temas com um som diferente, alguns mais complexos na sua construção.
Na sequência disto, a voz de Tony Jackson começou a surgir com cada vez menos destaque. Salvo alguns temas, começou a dar-se uma crescente primazia à voz de outro elemento do grupo, o guitarrista Mike Pender (em baixo), que se ouvia em harmonia com a voz dos outros, quando não a solo. O som conseguido nos temas onde a voz de Tony Jackson surgia menos destacada era algo mais “suave” e isto pareceu agradar aos produtores que eram quem, afinal, acabava por ter a palavra final na escolha das canções a editar.
De facto, em êxitos posteriores, como “Neddles And Pins” e “Don’t Throw Your Love Away”, a voz de Tony Jackson aparecia mergulhada nas harmonias vocais, como se estivesse a ser relegada para segundo plano. Isto contribuiu para que o próprio Tony Jackson se sentisse a perder protagonismo no interior dos “Searchers”, o que lhe desagradava de sobremaneira. Isto contribuiu para azedar as suas relações com os outros elementos do grupo, em especial com o baterista Chris Curtis (em baixo), cuja voz surgia muito proeminente nas harmonias vocais. Aliás, segundo a opinião de muitos, este Chris Curtis (nascido Christopher Crummy), era o líder original desta banda, apesar de, inicialmente, tal não parecer muito notório, talvez devido precisamente ao facto de ocupar a posição de baterista. Contudo, em diversas atuações do grupo ao vivo, Chris Curtis conseguia surpreender tudo e todos quando saía da habitual posição discreta, normalmente associada aos bateristas, e tornava-se no centro das atenções. Nessas ocasiões, não era raro colocar-se de pé, por trás da sua bateria, e assumir uma posição de liderança e fazer uma interpretação ousada e inesquecível, quase secundarizando os outros membros da banda que tocavam mais à frente. Para além disto, havia diversos temas gravados em que ele era o vocalista principal. Entre estes estavam "Ain't That Just Like Me" e "This Empty Place". Isto parecia também aumentar a tensão que foi crescendo entre Chris Curtis e Tony Jackson. Devido a estas fricções no interior do grupo, Tony Jackson acabou por sair no Verão de 1964, embora ele tenha, na altura, alegado razões de saúde, sem que isso tenha ficado devidamente clarificado. Nesse momento, o grupo encontrava-se a atravessar uma fase de grande êxito discográfico e no som que se estava a tornar a sua imagem de marca, muito baseado em harmonias vocais, a voz de Tony Jackson não parecia fazer falta.

Quando Tony Jackson abandonou o grupo, muitos se interrogaram sobre o futuro dos “Searchers”, visto que, segundo até então parecia, ele era a principal razão do seu êxito e, aparentemente, o frontman. Para muitos fãs e críticos, Tony Jackson parecia insubstituível. Pensava-se que seria o fim anunciado dos “Searchers” e para Tony Jackson, o início de uma carreira promissora.

Por ironia, o futuro provaria exactamente o contrário. Logo de seguida, encontraram um substituto para o baixo, de nome Frank Allen (em baixo, à direita), com o qual as relações pareciam ser mais fáceis. Segundo alguns, a escolha de Frank Allen, que era conhecido dos "Searchers" já há algum tempo, teve o fundamental contributo de Chris Curtis (à esquerda). Este novo membro, mais jovem do que os outros "Searchers", vinha de um outro grupo, "Cliff Bennett And The Rebel Rousers", que também teve alguns sucessos em meados dos anos 60. Mais "low-profile", Frank Allen encaixará bem nos "Searchers" e revelar-se-á, pelo menos, segundo os produtores, uma boa escolha. De facto, ao fim de mais de cinco décadas, Frank Allen ocupa ainda um lugar de destaque nos "Searchers" do século XXI. Ao lado do guitarrista John McNally (à direita), é um dos dois elementos mais antigos do grupo.

Após uma breve pausa, Tony Jackson decide constituir o seu novo grupo sob o nome "The Vibrations". Logo nesse ano, 1964, lançam o seu primeiro single, "Bye Bye Baby", que, apesar de ter sido um êxito moderado, parecia augurar uma carreira promissora. Contráriamente ao que muitos previam, os singles lançados posteriormente, não tiveram qualquer êxito de assinalar. Em contrapartida, o seu grupo antigo, "The Searchers", continuava a somar sucessos. Por ironia ou não, o seu segundo single "You Beat Me To The Punch", saído em Dezembro de 1964, soava muito ao cruzamento de dois êxitos, desse mesmo ano, do seu antigo grupo "Searchers": o já referido "Needles And Pins" e "When You Walk In The Room", este último também lançado no final desse ano, com muito maior sucesso. Uma sugestão do seu produtor Larry Page, no sentido de tentar criar uma "leve semelhança" com a sua anterior banda, que não se revelaria, afinal, bem sucedida.

Mesmo com as mudanças de editoras e produtores, passando pela mudança de nome do grupo para um lacónico "Tony Jackson Group" e alguns singles lançados sob o seu nome individual, a sorte parecia fugir a Tony Jackson. Por diversas vezes, ele teve de engolir o seu orgulho e aceitar alguns convites da sua antiga banda "Searchers", para actuar com eles ao vivo, quando planeavam interpretar temas de quando ele era o vocalista principal. Não raras vezes, as digressões de ambos os grupos coincidiam, muitas vezes para difundir a ideia de que já não existiam eventuais ressentimentos mútuos.

Desiludido com a falta de sucesso discográfico e com o panorama da indústria musical anglo-americana, Tony Jackson e o seu grupo, a partir do final de 1966, decidem entrar em digressão por outros países, nomeadamente França e Espanha. Curiosamente, acabarão por vir a Portugal com maior frequência durante esse ano de 1967. Esta presença em terras lusitanas, acabará por lhes proporcionar a edição de um EP numa editora nacional de então, a "Estúdio". Apesar da qualidade dos temas interpretados, o último trabalho do "Tony Jackson Group", será acolhido pelo público e pela crítica com indiferença.
Sem mais nenhum sucesso discográfico, nem o vislumbre de um novo contrato por parte de uma editora à vista, Tony Jackson decide extinguir o seu grupo por volta de 1968. A partir daí, iniciará uma vida pautada por diversas actividades, desde apresentador de televisão a vendedor, parecendo ter deixado para trás, definitivamente, a sua carreira de músico. Devido a razões diversas, nunca esteve muito tempo nessas profissões.

Uma breve previsão de regresso ao mundo da música aconteceu por volta de 1985. O antigo colega dos “Searchers” Mike Pender decide sair do seu grupo original, onde se mantinha como líder há muitos anos, e criar a sua própria banda “rival”, com o nome "Mike Pender's Searchers". Mike Pender convida então Tony Jackson a entrar nesse novo projecto musical, ocupando, de novo, o posto de baixista. Pouco depois, Tony Jackson desiste desta ideia, ao verificar que a sua condição era a de apenas “músico assalariado” e não de co-líder, como ele pretendia. Mesmo assim, não houve desta vez mais nenhum corte de relações entre ambos, visto que ambos chegariam a actuar juntos ao vivo, esporádicamente.
Neste período de finais da década de 80 e começo de 90, provavelmente sob o incentivo, oportuno, das reedições digitais em CD do catálogo musical de muitas bandas da década de 60, surge, em paralelo com a música da moda de então, uma onda de revivalismo. Para a satisfação de muitos fãs, bandas e cantores de outros tempos regressam, ainda que temporariamente, à ribalta. É neste contexto que Tony Jackson pondera formar um novo grupo musical, assente, em grande parte, na memória dos seus velhos tempos de cantor de sucesso. Deveria ser um grupo de cariz revivalista, assente, pelo menos numa fase inicial, em espectáculos ao vivo a decorrer no circuito britânico, sem pôr de parte a hipótese de poder ser extensível ao público americano. Muito sintomático, foi a escolha inicial do nome para o seu novo grupo: “Tony Jackson’s Re-Searchers”. No entanto, ele foi antes aconselhado a retomar a memória do seu grupo posterior “The Vibrations”, o que ele acabaria por reconhecer como a hipótese mais sensata, devido ao facto de já existirem os referidos "Mike Pender's Searchers" e os próprios "Searchers", estes com o guitarrista e membro fundador John McNally (em baixo) à frente e Frank Allen no baixo, a percorrerem o mesmo circuito de público pretendido.
De facto, em 1991, Tony Jackson chegou a formar uma espécie de “New Vibrations”, reforçado pela presença de, pelo menos, um elemento da banda original, o baterista Paul Francis. No entanto, devido à dificuldade em conquistar um público numericamente convincente, para assistir aos seus espectáculos em agenda, Tony Jackson decide, num curto espaço de tempo, dissolver o seu recém-criado grupo. A partir de então, regressa de novo ao anonimato, só voltando a ser notícia em 1996, desta vez por razões negativas. É detido na sequência de ter ameaçado uma mulher, numa cabine telefónica pública, com uma arma falsa. A vítima só lhe havia pedido para ele a deixar usar o telefone… Apesar de não se tratar de uma arma verdadeira, Tony Jackson ficaria detido por 18 meses.
A verdade é que, já há algum tempo, a vida de Tony Jackson havia entrado numa espiral de queda. As dificuldades económicas, associadas a problemas de saúde, como a diabetes e a artrite, agravadas pelo alcoolismo, haviam tomado conta da sua existência. Depois de 1997, após ser-lhe devolvida a liberdade, as suas dificuldades de vida e os seus problemas de saúde não pararam de se agravar. Nem mesmo o apoio dos seus antigos amigos do tempo dos “Searchers”, como John McNally, já era suficiente para minorar a sua decadência física.

No seu último ano de vida, em 2003, Tony Jackson já apresentava grandes dificuldades de locomoção, a que não seria alheia a sua incurável dependência da bebida. Faleceria na sua casa, quase isolado do mundo, na sequência de mais uma crise cardíaca, em meados de Agosto desse mesmo ano. Tinha apenas 65 anos e estava desiludido com a vida. Um ano depois, é editada uma colectânea, abrangendo a sua carreira musical entre 1964 e 1967, que procura fazer alguma justiça ao seu verdadeiro talento.

De referir que, dois anos depois, em Fevereiro de 2005, também faleceu Chris Curtis, outro elemento fundador dos "Searchers". Apesar da sua liderança, tendo também contribuído para a escolha dos temas interpretados e mesmo composto alguns, Chris Curtis já havia deixado os "Searchers" em 1966
Se a saída de Tony Jackson, em 1964, significou uma visível mudança de estilo, a desistência abrupta de Chris Curtis foi bastante inoportuna, principalmente num momento em que a qualidade das suas composições, em parceria com o resto da banda, atingira um nível de qualidade e maturidade que parecia anunciar um futuro interessante.  Basta fazer uma audição do interessante LP "Take Me For What I'm Worth", lançado no final de 1965, onde surgem vários temas creditados aos quatro elementos que, então, integravam o grupo. Esses temas estão entre o que de melhor se produziu nesse ano. Bastou uma sequência de maus momentos numa digressão à Austrália, que correu particularmente mal, para fazer Chris Curtis ficar determinado a abandonar os Searchers. Nada nem ninguém conseguiu fazê-lo mudar de ideias. A partir daqui, nada mais foi como dantes...
Tal como Tony Jackson, tentará, sem sucesso, uma carreira a solo (com o single "Aggravation", lançado em Junho de 1966), tendo depois se mantido no anonimato e afastado do mundo da música durante mais de 20 anos. Também sofrerá de problemas de saúde incapacitantes que o levarão a uma reforma prematura. Mesmo assim, Chris Curtis tentará, nos seus últimos anos de vida, um tímido regresso à música, através de breves reencontros e actuações ocasionais com outros músicos britânicos da sua geração, de preferência residentes em Liverpool, cidade onde ele havia passado a residir e com um grande historial de bandas durante a década de 1960, com destaque, claro está, para os Beatles, sem esquecer os "Searchers". Um destes grupos revivalistas é conhecido pelo nome de "Merseycats".

domingo, fevereiro 17, 2008

Os museus no passado e no presente - duas perspectivas

Durante muito tempo, os museus eram instituições vocacionadas para o armazenamento e conservação dos bens legados do passado. Eram em número relativamente reduzido e preferencialmente situados em localidades com maior área e importância geopolítica. Geralmente eram espaços de grande volumetria, pouco apelativos para o público em geral, excepto para os curiosos e eruditos, o que vinha ao encontro de uma política muito disseminada de “porta fechada”. Isto é, os museus viam-se como guardiões de bens de valor incalculável e, muitas vezes, únicos e raros, para quem os visitantes eram vistos como invasores de um espaço quase sagrado, se não mesmo potenciais ladrões ou causadores de danos. Quanto mais selecto fosse o público visitante, mais os directores dos museus se sentiam seguros de estar a cumprir o seu dever.
Os objectivos de um museu centravam-se mais à volta dos objectos e da melhor maneira de os arrumar, proteger e, quando necessário, proceder aos necessários restauros. Muitas vezes, a forma de os dispor no espaço expositivo, não obedecia a nenhum critério específico de ordenamento. Quando muito, as peças eram ordenadas em função da sua proveniência ou dos seus autores e inventariadas de uma forma sumária, de acordo com a sua ordem de aquisição por parte das instituições museológicas.
Para além disso, a própria forma de as expor não facilitava muito a sua compreensão por parte dos visitantes, dado que era frequente a saturação dos espaços visíveis, ou seja, em cada espaço, fosse um recanto, um corredor ou uma divisão, eram colocadas várias peças em simultâneo, mesmo que fossem de natureza diferente.
A intenção da generalidade dos museus, ao exporem as suas peças e colecções, era mais a de mostrar a riqueza do seu espólio, como que pretendendo rivalizar entre si, do que facilitar a quem as observava, uma verdadeira compreensão lógica das exposições que se iam fazendo. Além do mais, quase não havia qualquer preocupação em tornar agradáveis as exposições ao olhar dos visitantes. Estes eram levados a observar tudo o que fosse possível durante o período de visita mas, muitas vezes, saíam sem nada compreender do que os seus olhos haviam apreendido.

Hoje em dia, pelo contrário, o grosso da sua actividade é orientada em função dos visitantes, ainda que exista, como é fundamental, uma necessidade de especialização e actualização permanente dos seus funcionários relativamente aos métodos de conservação e restauro.
São os visitantes verdadeira força motriz da actividade museológica. Foi graças ao seu crescente interesse pelo património e pela memória que nele surge representada, que houve, ao longo do séc. XX, um aumento exponencial da oferta e variedade de museus. A generalidade dos museus actualmente existentes dá uma importância primordial ao que se denomina de “feedback”, ou seja, a opinião da parte de quem os frequenta, como um elemento regulador das suas iniciativas.
Por outro lado, é cada vez mais reconhecida a importância do museu enquanto agente transmissor de educação, essencial na formação integral dos cidadãos. Uma educação, ao mesmo tempo, distinta e complementar da que é fornecida a nível escolar. Os seus visitantes, ao circularem pelos corredores e divisões dos museus são despertados para diversas realidades e perspectivas que o seu quotidiano geralmente não oferece.
Para muitos, será a única oportunidade que têm de apreciar ao vivo um número significativo de obras de arte e outros artefactos caídos em desuso. Esta sua interacção com os objectos observados, ajuda-os a desenvolver o seu gosto estético e a tomar conhecimento com a diversidade da produção cultural, quer seja da sua localidade ou da sua nação, quer seja proveniente de outras regiões do mundo com culturas mais ou menos distintas. Os visitantes ao serem confrontados com realidades muito distintas da sua, são levados directa ou indirectamente a desenvolver um espírito mais tolerante em face das disparidades culturais e mesmo religiosas que caracterizam o nosso planeta.
Por outro lado, ao entrarem em contacto com bens legados de outros tempos, de outras civilizações, enriquecem o seu conhecimento histórico, que não raras vezes é muito superficial e descontextualizado. Igualmente ajuda-os a consolidar e a memorizar, os conhecimentos já adquiridos. Para além disto, a cada vez maior utilização das novas tecnologias, por parte dos museus pode levar os seus visitantes a visualizar ou mesmo reviver vários aspectos de realidades já passadas, de uma forma passiva ou activa, o que, na verdade, lhes vai acabar por fornecer um nível de conhecimento por vezes superior ao que conseguiram obter em anos de formação escolar.
Esta faceta do museu, como instituição que presta um serviço educativo, posiciona-o, com grande destaque, no grupo restrito das instituições de reconhecida utilidade pública. No entanto, o investimento dos museus no campo didáctico e pedagógico é algo relativamente recente e é ainda um terreno com muito para explorar.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

A primeira reunião dos Zombies






Os Zombies foram um dos grupos mais importantes da “invasão britânica” que se seguiu ao aparecimento e êxito dos Beatles, a partir de 1963. No entanto, não oficialmente, o grupo já se havia formado em 1961, a partir da reunião de alguns estudantes da zona de St. Albans, com gostos musicais próximos. O grupo, na sua formação definitiva, era constituído por Colin Blunstone na voz principal, Rod Argent nos teclados e coros, Chris White no baixo, viola acústica e coros, Paul Atkinson nas guitarras e Hugh Grundy na bateria e percussão.


Só se afirmariam discográficamente a partir de 1964, quando lançam o tema “She’s not there”, que é êxito em vários países. Tiveram, nos anos seguintes alguns outros êxitos, ainda que gradualmente menores, mas foi sobretudo devido àquela canção que eles são relembrados por muitos. De qualquer forma, os “Zombies” arriscar-se-iam a não ser mais do que um entre muitos outros seus contemporâneos, que não tiveram mais do que um ou outro êxito assinalável, se não fosse um álbum que eles gravaram quando a sua separação já era mais do que certa.
O nome desse álbum era “Odessey And Oracle”, saído em Março de 1968. Era o segundo álbum deste grupo e fora gravado durante os últimos meses de 1967. Apesar de, no momento do seu lançamento, não ter vendido muito, este disco acabaria por inscrever, posteriormente o nome dos “Zombies” entre os grandes grupos da década de 60. O álbum “Odessey And Oracle” não causou grande impacto nessa Primavera de 1968, em grande parte porque o grupo já se havia dissolvido, não havendo a promoção necessária. Só os anos que se seguiriam acabariam por trazer o devido reconhecimento a esta obra discográfica.
Pode-se afirmar que todo o interesse à volta dos “Zombies”, só cresceu verdadeiramente quando estes já tinham acabado. De facto, a partir de 1968, os elementos do grupo dispersaram-se por projectos de vida muito diferentes. Colin Blunstone iniciou uma carreira a solo, com êxito muito moderado, mantendo-se um cantor de primeiro nível, apesar de não devidamente reconhecido. Rod Argent, apoiado por Chris White, formou o seu próprio grupo, “Argent”, que teria algum sucesso durante os anos 70. Chris White, tornar-se-ia produtor de diversas bandas e cantores, participando, muito casualmente, em gravações de estúdio de alguns deles. Paul Atkinson trabalharia com computadores, antes de, tal como Chris White, enveredar pela produção de cantores e grupos, entre os quais os “ABBA”, participando, ocasionalmente, como músico de estúdio. Hugh Grundy também exerceria, durante algum tempo, actividades inseridas em estúdios de gravação e editoras discográficas passaria a viver para a sua família, participando em diversos negócios, nomeadamente a gestão de um bar local, só muito ocasionalmente retomando a bateria.



Como aconteceu com muitos dos grupos extintos ao longo das últimas décadas, a comunicação social e o público, com destaque para os fãs, têm vindo a alimentar o sonho, muitas vezes utópico, de ver os “Zombies” reunificados, nem que seja por uma breve ocasião, sempre longamente recordada. Devido às diversas actividades absorventes, fora ou dentro da indústria musical, dos seus antigos membros, sem esquecer as eventuais mudanças de país de residência, tal situação esteve, durante muitos anos, longe de estar sequer prometida. Outro argumento para a recusa em se voltarem a reunir, corroborado por outros, residia no facto de poderem ser considerados anacrónicos e, desta forma, poder não contribuir muito positivamente para a respectiva imagem mediática. No entanto, uma reunião em estúdio já poderia ser mais consensual.
Foi o que aconteceu em 1990 quando, por iniciativa de Chris White, decidiram voltar a gravar canções em mais de vinte anos de separação. Uma das razões para esta súbita tentativa de reavivar da chama dos “Zombies”, residia, segundo Chris White, no facto de, desde a sua separação, em 1968, terem surgido diversas bandas com o mesmo nome.



Não é uma situação muito usual, mas no caso dos “Zombies”, houve, em terras britânicas e norte-americanas, bandas que tentaram capitalizar o seu sucesso, assumindo-se como os “verdadeiros Zombies”. Eram situações de usurpação de nome, que foram sendo mais ou menos resolvidas judicialmente.
O problema era o facto de serem algo recorrentes. Movido por este momentâneo desejo de legitimação, Chris White entra em contacto com outros produtores seus conhecidos, numa forma de obter apoio financeiro para pôr em marcha o seu projecto de gravar um novo trabalho discográfico.




Logo de seguida, entrou em contacto com os outros seus antigos colegas de grupo. Obteve imediata aceitação por parte do baterista Hugh Grundy (em cima), logo seguida da total disponibilidade do antigo vocalista Colin Blunstone. Já não foi tão bem sucedido com os outros dois elementos. Paul Atkinson estava a viver e a trabalhar em full-time numa editora discográfica nos Estados Unidos e Rod Argent estava submerso em diversas actividades de estúdio, para além de, mais uma vez, ter argumentado não fazer sentido reviver um grupo musical muito datado.



Uma vez que os teclados de Rod Argent eram uma peça fundamental no som dos “Zombies”, Chris White teve de procurar um músico específico que reunisse as qualidades necessárias para ocupar um lugar quase insubstituível. Esse músico foi encontrado na pessoa de Sebastian Santa Maria (em cima), músico chileno nascido em 1959, e um verdadeiro mago dos teclados. Na realidade, os teclados eram apenas um dos diversos tipos de instrumentos musicais em que ele era exímio.



A partir daqui, estavam reunidas todas as condições para se iniciarem as gravações dos temas que iriam constituir o primeiro álbum dos verdadeiros “Zombies”, gravado, com mais de duas décadas de distância, desde a obra-prima “Odessey And Oracle”. O seu título inicial era "The Return Of The Zombies", mas acabou por ser escolhido o título de uma das suas canções: "New World". Ao contrário do que, inicialmente se pretendia, o álbum não foi editado nos Estados Unidos. Tendo sido, primeiro, lançado na Alemanha.



Contráriamente ao que muitos poderão pensar, não se trata de um disco revivalista, pelo menos no que respeita à música em si. O seu som é muito actual (para a época em que foi lançado), apontando, por isso, para novas direcções. Muito deste som "mais contemporâneo", deve-se, sem dúvida, à proeminência dos teclados de Sebastian Santa Maria, o que faz deste disco uma demonstração muito expressiva do talento deste músico e, talvez, uma iniciação no seu vasto e muito peculiar mundo musical. Para além de "novo Zombie", Sebastian revelou também um pouco do seu talento de compositor em alguns dos temas deste álbum, com especial destaque para "I Can't Be Wrong" e "Moonday Morning Dance". Neste dois temas, somos levados a reconhecer o à-vontade de Sebastian tanto nas baladas como em temas mais uptempo e a destapar um pouco do véu sobre o seu ecletismo e versatilidade. Com a sua morte prematura em 1996, vítima de uma rara doença genética, este disco acabou, de certa forma, por ser um muito expressivo tributo a Sebastian Santa Maria, músico, cantor e compositor.



O vocalista Colin Blunstone (em baixo) surge, mais uma vez, no seu melhor, revelando-se perfeitamente adaptado a novas correntes musicais, não desiludindo quem se habituou a considerá-lo uma das melhores vozes da música contemporânea.



Uma feliz surpresa para muitos fãs de longa data dos "Zombies", foram as duas participações, como músicos convidados, dos antigos membros-fundadores originais Rod Argent e Paul Atkinson. Cada um deles participou num tema diferente.



Rod Argent (em cima) havia, pouco antes, regravado uma série de êxitos do seu antigo grupo. Um desses temas era "Time Of The Season", que ele aceitou ver incluído no alinhamento de "New World". De facto, Rod Argent não havia participado, directamente, nas gravações deste novo disco dos "Zombies", mas teve a oportunidade de assistir a algumas delas, tendo ficado bem impressionado com a qualidade das canções interpretadas.



Paul Atkinson (em cima), pelo contrário, teve a rápida oportunidade de participar no tema principal do disco "New World", enquanto um dos guitarristas, apesar de não ser possível distinguir qual o som da sua guitarra no meio dos outros. Decerto, acabaria esta por ser uma das suas últimas raras participações como músico em gravações de estúdio, antes da sua morte prematura em 1 de Abril de 2004, aos 58 anos, na sequência de complicações derivadas do cancro.