segunda-feira, março 31, 2008

O homem que nunca existiu

A partir do Outono de 1942, as tropas aliadas acantonadas em África haviam entrado numa dinâmica de vitória sobre as antes poderosas forças militares do Eixo, representadas, maioritariamente, pelo “Afrika Korps”, este sob o comando de Erwin Rommel, a “Raposa do Deserto”.




Graças a um longo esforço táctico do Marechal Bernard Montgomery e os seus "Desert Rats" a Leste, depois auxiliado pelas forças americanas de Dwight Eisenhower, a Oeste, foi possível derrotar o exército alemão na costa Norte de África, depois de o encurralar na zona da Tunísia. A partir daqui, os altos comandos aliados puderam desviar o centro das suas atenções para a vasta Europa, então sob o domínio (decrescente) do 3º Reich.










Desde há anos que se tentavam estudar os possíveis pontos de invasão do vasto continente europeu. Agora, com apenas o estreito Mediterrâneo a separar os Aliados dos seus próximos objectivos, não foi difícil lançar sobre a mesa as várias hipóteses possíveis. Entre estas estavam o Sul de França, através da Córsega e da Sardenha, a zona costeira Sudoeste da Itália através também da Sardenha, a Grécia, que permitiria chegar aos Balcãs, e a Sicília, que seria outra porta de entrada para a península itálica.


Hitler e o seu Alto Comando temiam a criação de uma nova frente de guerra, sobretudo depois do recém-ocorrido “desastre de Estalinegrado” onde o essencial do antes glorioso “6º Exército” havia ficado encurralado e forçado à rendição. Por outro lado, haviam chegado, com cada vez mais frequência, informações de que estas zonas mais a Sul estariam um tanto quanto desguarnecidas. Desta forma, as áreas estratégicas e que pudessem ser usadas numa hipotética invasão, foram alvo de um gradual, mas lento, consolidar.


Conseguida a vitória sobre as forças do Eixo em África, os Aliados começaram a aumentar o já grande afluxo de tropas, material bélico e combustível nesta zona, com vista à preparação das próximas operações. Era mais do que sabido que Hitler e os seus oficiais não ignoravam as intenções aliadas e que todos aqueles movimentos em África se destinavam a levá-los avante. Os Aliados, por sua vez, sabiam perfeitamente que não seria fácil esconder as suas manobras preparativas do inimigo por muito tempo. Estes já sabiam que, da forma como as forças do Eixo estavam posicionadas, não seria muito difícil prever a necessidade de uma operação de elevado calibre e, sobretudo muito custosa em termos de efectivos militares e material bélico. Além do mais, da forma como a situação se lhes apresentava, era certo que a batalha poder-se-ia estender por longos meses.


Havia, por isso, de conseguir uma zona mais desanuviada em termos defensivos, que pudesse ser utilizada, sem grandes perdas, como uma porta de entrada. Ficou decidido, entretanto, que o ponto estratégico a invadir seria a Sicília. Acontece que, então, Hitler não punha de parte a hipótese de esta poder vir a ser um ponto de ataque aliado, dada a relativa proximidade com a costa africana. Diversos oficiais de alta patente no local, como Albert Kesselring (em baixo), estavam plenamente convictos de que isto podia acontecer num futuro não muito distante.


Os Aliados tinham ainda muito bem viva na memória o trágico desastre de Dieppe, ocorrido no ano anterior, que serviu de aviso para se evitar incursões demasiado prematuras e sem uma prévia preparação de retaguarda e estudo do terreno e das forças a combater. Deveria haver uma maior relação de proximidade com os serviços secretos e de espionagem. Por outro lado, qualquer adiamento na concretização dos objectivos que se seguiriam, convergentes no sentido de se abrir uma nova frente de batalha na Europa, tornaria as coisas gradualmente mais complicadas.
Uma táctica que poderia ser muito útil seria conseguir convencer as forças do Eixo que estaria planeado um ataque aliado para um ou mais alvos diferentes, do realmente escolhido. Com isto, conseguir-se-ia um desvio de importantes contingentes de tropas e material bélico e, mais importante ainda, a sua dispersão, retirando-lhes qualquer possibilidade de se reunirem de novo atempadamente.

Como conseguir isto? Como conseguir enganar a vasta e poderosa rede de espiões alemães e seus colaboradores espalhada pela Europa, mesmo incluindo os países neutros? A ideia seria fazer chegar ao conhecimento desta rede, conhecida por “Abwher”, uma série de documentos com informações falsas e convincentes os quais, por sua vez, chegariam ao conhecimento do Alto Comando alemão e de Hitler. A própria forma de os fazer chegar, não poderia deixar qualquer rasto de dúvida.



Foi na sequência destas circunstâncias que se decidiu criar a pessoa fictícia de “Major William Martin”. Este suposto “William Martin”, era galês, natural de Cardiff e tinha nascido em Março de 1907. Pertencia à Royal Navy, tinha conhecimentos profundos e de longa data em aeronáutica e também uma formação especializada, essencial para o desempenho de missões secretas e de alto-risco.




O principal autor desta magnífica proeza era o Lugar-Comandante da Marinha Ewen Montagu, visível em cima, numa fotografia tirada anos depois da guerra. Ele e a sua equipa, criaram o “Major William Martin”, que trazia consigo documentação ultra-secreta e de alta prioridade, relacionada com futuras operações a executar pelas forças aliadas estacionadas em África. Infelizmente, o avião onde ele seguia, despenhou-se no Mediterrâneo e, apesar do colete de salva-vidas, ele morreu afogado. Na sua documentação, surgiam detalhes muito expressivos e convincentes, quanto a uma operação de invasão por mar em duas frentes: uma deveria desembarcar na ilha da Sardenha e a outra na Grécia, na zona do Peloponeso. Em paralelo, far-se-ia um falso ataque de diversão na Sicília, para desviar a atenção quanto ao “verdadeiro” objectivo. Por outras palavras, segundo os documentos forjados, a Sicília havia sido posta de parte.

Quem haveria de encarnar essa trágica personagem do “Major William Martin”? À partida, a tarefa não parecia nada fácil. Ninguém seria facilmente convencido a fazer um mergulho certo para a morte, por mais patriótico que fosse. Teria de ser, por isso, alguém já morto. Por outro lado, o cadáver deveria apresentar sinais inequívocos de morte por afogamento. Para encontrar este cadáver ideal, o Comandante Ewen Montagu e a sua equipa contariam com a prestimosa colaboração do patologista de renome Sir Bernard Spilsbury.

Acabariam por encontrá-lo no cadáver de um vagabundo alcoólico, vitimado por pneumonia induzida por veneno de rato. Segundo se sabia, este indivíduo desequilibrado havia cometido suicídio, na sequência de ter sido rejeitado para o serviço militar por clara inaptidão. O líquido que se encontrava nos pulmões poderia facilmente ser confundido como uma consequência de afogamento. A pedido do Comandante Ewen Montagu, a verdadeira família acabou por autorizar a utilização do cadáver, com a condição da sua identidade não ser revelada.

Encontrado o “protagonista”, houve que criar uma nova vida e história pessoal para este “William Martin”. Para isso, arranjou-se uma farda com o seu nome gravado, em cujos bolsos seriam colocados documentos pessoais falsos, objectos pessoais que traduzissem uma vida pessoal igual a tantos outros militares em serviço, sem esquecer também o pormenor da noiva e do pai, também fictícios.

Relativamente aos documentos forjados, estes foram colocados numa pasta de couro, ligada à cintura de “William Martin” por uma correia, de forma a que não se separasse durante o “trajecto”.
Para conservar o corpo, recorreu-se a um recipiente contendo gelo seco. O objectivo agora era conseguir lançar “William Martin” no mar, de forma a que este chegasse a um local onde pudesse ser interceptado por pessoas estreitamente ligadas aos serviços de inteligência do Reich. Como se sabia da existência de alguns agentes secretos alemães no Sul de Espanha particularmente activos, decidiu-se que o corpo seria lançado com a documentação no Mediterrâneo, a várias milhas da costa espanhola de Huelva. Teoricamente, a Espanha estava na condição de país neutral, mas eram sobejamente conhecidas as suas simpatias com o 3º Reich.

Como acontecia com a generalidade das operações executadas durante este conflito bélico, foi dado a esta o nome de "Operation Mincemeat" ou seja, "Operação Carne Picada". Para o início desta operação, foi escolhida a data de 27 de Abril de 1943. Para transportar o recipiente contendo "William Martin", foi escolhido o submarido britânico P219. Quase ninguém da sua tripulação sabia verdadeiramente qual o objectivo desta estranha missão. Pensavam que, dentro do recipiente vinha "um aparelho para fins meteorológicos". Após alguns dias, chegariam ao local, sem serem detectados. À noite, a 30 de Abril de 1943, "William Martin" partiu para a sua primeira e última missão.



A partir daqui, os dados ficaram lançados. O corpo acabaria por ser descoberto por um pescador espanhol, ao largo da costa de Huelva, como era intenção dos serviços secretos ingleses. O médico que o analisou o cadáver do suposto “Major”, confirmou que a sua morte teria ocorrido, de facto, por afogamento, há poucos dias.


Quase de imediato, o cônsul inglês na Espanha tomou conhecimento da descoberta do cadáver do “Major William Martin” e logo a deu a conhecer às autoridades britânicas. Não tardou que o Comandante Montagu ficasse ao corrente de que, por enquanto, a operação “Mincemeat” estaria a resultar. Entre as suas primeiras medidas, enviou uma mensagem secreta quase codificada a Winston Churchill, de que a “Carne Picada foi engolida”. Para reforçar a ideia de que “William Martin” estaria na posse de documentos de elevada importância, logo foi exigida a restituição, o mais urgente possível da pasta que se encontrava amarrada à cintura de “William Martin”.
Agora, havia que garantir a credibilidade quanto ao falecimento “em missão” do “Major William Martin” e que este havia sido particularmente inesperado e lesivo para as forças aliadas. Desta forma, no dia 4 de Maio de 1943, “William Martin” foi enterrado no cemitério de Huelva com honras militares. Durante alguns dias a campa do falecido “Major”, foi alvo de frequentes visitas tanto por parte de militares aliados, como por elementos dos respectivos consulados, como forma de dissuadir eventuais tentativas de profanação por parte gente ligada ou simplesmente simpatizante com as forças do Eixo.



O problema agora, para o Comandante Montagu e outros responsáveis dos serviços secretos britânicos, seria obter a confirmação de se os serviços secretos alemães e, posteriormente, o Alto Comando Alemão e sobretudo Hitler, haviam tomado conhecimento da documentação forjada que vinha no interior da pasta e se o “isco” havia sido de facto “engolido” pelas altas esferas germânicas.

O Comandante Montagu não obteria, até ao dia 8 de Maio de 1945, quando se deu a vitória final na Europa, uma confirmação evidente da extensão do resultado desta manobra de desinformação. No entanto, uma análise detalhada dos peritos dos serviços de inteligência britânicos, confirmou que, apesar de não faltar um único elemento da documentação forjada, esta havia sido cuidadosamente examinada pelos serviços secretos germânicos e, muito provavelmente, fotografada e as fotografias teriam chegado a Berlim. Foi o que de facto aconteceu.

Por outro lado, nas semanas subsequentes à descoberta do cadáver do “Major William Martin”, chegaram às autoridades militares aliadas, informações de um monumental movimento de tropas e armamento de todo o tipo da Wehrmacht e da Luftwaffe em direcção a regiões como a Grécia, a Sardenha e a Córsega, tendo sido muitas destas valiosas forças militares desviadas da Sicília. De facto, Hitler havia ordenado um reforço importante das defesas terrestres das zonas referidas nos documentos forjados na posse do “Major William Martin”. Desguarneceria a Sicília da maior parte das forças antes aí acantonadas, na convicção de que qualquer ataque que aí se registasse não seria mais do que um engodo. Chegou mesmo a desviar uma parte do armamento que se destinava a guarnecer a frente Leste, nomeadamente, diversos tanques e blindados, inicialmente destinados à preparação de uma outra operação denominada “Citadela”, que resultaria na famosa “Batalha de Kursk”, que ocorreria daí a mais ou menos dois meses.


Foi também, dois meses depois, a 9 de Julho de 1943, que os Aliados lançaram a prevista “Operação Husky”, que não era mais do que o nome de código para a invasão da Sicília. Plenamente confiantes na pouca concentração de forças bélicas nesse ponto estratégico, os Aliados efectuam uma deslocação de homens e material, espectacular do ponto de vista numérico, num ataque concentrado à Sicília. Encontrariam uma fraca resistência por parte das forças aí acantonadas e demorariam apenas mais ou menos um mês a conquistar esta ilha. Esta invasão de surpresa, precipitaria a “queda” de Benito Mussolini pouco depois e a formação da tão temida por Hitler “segunda frente” de combate.


O impacto real desta operação “Mincemeat”, acabaria por se fazer sentir ainda muito para além da bem sucedida “Missão Husky”. Isto verificar-se-ia, por exemplo, no próprio sucesso da “Missão Overlord” que culminaria no histórico desembarque na Normandia, o “Dia D”, em 1944. As forças germânicas haviam sido, com sucesso, convencidas de que o desembarque seria em Pas-de-Calais, mais a Nordeste da França, o que, mais uma vez, originou um novo desvio e dispersão de homens e material bélico para longe de onde era necessário. Numa ou noutra ocasião, cometeu-se o erro, quase fatal, de deixar documentação onde surgia, inequivocamente e com algum detalhe, que o desembarque real seria na Normandia. Os responsáveis tanto da inteligência como do exército germânicos, tomaram-nos como sendo antes mais uma tentativa de desinformação, na mesma linha da “Operação Carne Picada”. Acabariam por ficar ainda mais convictos de que o real desembarque seria em Pas-de-Calais, que foi fundamental para o sucesso no desembarque nas praias da Normandia.

segunda-feira, março 24, 2008

Uma realidade esquecida


Antes do aparecimento dos antibióticos, a realidade do tratamento da tuberculose era feita, muitas vezes, de esperanças goradas. Na prática, esta doença não tinha cura ou, pelo menos, não se dispunha de um medicamento que atacasse directamente o micróbio que a provocava. É verdade que já existia, desde a década de 20, a denominada vacina de B.C.G., mas esta era de carácter meramente preventivo, de eficácia nem sempre total. Por outras palavras, havia contribuído para um decréscimo no aparecimento de novos casos, mas de nada servia numa situação de doença efectiva diagnosticada.

Nesses tempos, em que a tuberculose era um grave problema de saúde pública, pelo menos no que se refere aos países dos chamados "1º e 2º mundos", devido à contagiosidade desta enfermidade, adoptava-se, como regra fundamental, a separação dos afectados dos sãos, de forma a não agravar a sua já grande disseminação. Começou-se por recorrer às zonas de isolamento dos hospitais. Para além disto, como se sabia que, em certas zonas geográficas, sobretudo junto ao mar e a grande altitude, a qualidade do ar, associada à exposição solar, tinha efeitos particularmente benéficos na evolução da doença, essas zonas foram excolhidas como as ideais para a construção de hospitais de isolamento especializados, a que se deu o nome de "sanatórios". Desta forma, um pouco por todo o mundo, surgiriam, desde os últimos anos do século XIX até meados do século XX, tanto sanatórios de altitude, como marítimos. Estes últimos tinham a particularidade adicional de serem os ideais para o tratamento de uma variedade de tuberculose, a que era dado o nome de "mal de Pott". Era a tuberculose óssea, que deixava sequelas incapacitantes e afectava muitas crianças e jovens. Fotografias antigas ainda mostram pessoas convalescentes com partes do corpo envoltas em ligaduras. Dois dos exemplos em terras portuguesas, foram o Sanatório Marítimo do Outão e o da Parede.


No entanto, foram os maioritários sanatórios de altitude, ou em zonas remotas densamente arborizadas, aqueles que mais fama conquistaram e os que representam melhor o imaginário de toda uma realidade, felizmente passada, mas com qualquer coisa de mítico, que muitos das novas gerações nunca hão de compreender porque nunca a conheceram. Por outro lado, como é natural, muitos dos que contactaram directamente com essa realidade, acabariam por remeter para os seus herméticos baús de memórias que, só a muito custo, são abertos. Foi um tempo de histórias e muitos dramas pessoais, só compreensíveis por quem os viveu de perto. Aqueles que tinham o grande azar de contraír essa doença iniciavam um longo calvário feito de incertezas, mas com determinação mantida a todo o custo. Tudo começava com um internamento hospitalar destinado, entre outras coisas, a fazer um diagnóstico mais preciso da situação e a preparar o encaminhamento para o tratamento sanatorial. Muitos só apareciam perante os médicos já numa fase em que a enfermidade caminhava em pleno, apesar de tantas vezes ser aconselhada uma detecção precoce, aos primeiros sintomas. Alguns ficavam mais algum tempo internados no hospital público, a fazer uma breve tentativa de fortalecimento para depois transitarem em definitivo para a sanatorização.

A partir daqui, iniciava-se uma verdadeira odisseia virtual em busca da cura, que podia durar vários anos e não surtir os resultados pretendidos. Não raras vezes, iam vários membros de uma mesma família. Do outro lado, ficavam os familiares e amigos numa permanente angústia, sempre aguardando notícias mais positivas. O tratamento era muito longo e, não raras vezes, dispendioso. Os enfermos eram obrigados a respeitar todo um esquema de tratamento rígido, não só em termos de horários, onde o grosso do tempo era ocupado na posição de deitado, quer nos respectivos quartos, quer nas galerias arejadas a contemplar a paisagem pretensamente relaxante. Apesar de tudo, era quase sempre um dia-a-dia algo duro de suportar, sobretudo por gente antes habituada a uma vida activa. Os tratamentos não eram também pêra doce. A medicação disponível não era muitas vezes nada agradável, em especial quando uma parte substancial desta era administrada através de injecções dolorosas. Para encimar todo este quotidiano algo monótono havia a parte da alimentação. Esta deveria ser substancial, o que, em muitos casos, podia ser sinónimo de lautas refeições várias vezes por dia. Este detalhe era especialmente penoso para os enfermos atacados pelo muito frequente fastio, habitual numa doença consumptiva como era a tuberculose, também conhecida por tísica. Para tornar as coisas mais duras, havia os diversos desarranjos orgânicos, quer provocados pelas oscilações da doença, quer pelos efeitos secundários das terapêuticas, sem falar na componente psíquica que, quase sempre, estava negativamente afectada.

As “armas” de que se dispunha para lidar com esta enfermidade consistiam essencialmente em medicamentos sintomáticos, isto é, destinados a atenuar as manifestações físicas da doença e minorar os seus efeitos nefastos na qualidade de vida dos doentes. De qualquer forma, grosso dos medicamentos e elixires a que se recorria durante esses lentos e morosos meses ou anos de tratamento, eram destinados a fortalecer o organismo, tentando aumentar-lhe as resistências imunológicas, de forma a que este, por si, pudesse debelar gradualmente a doença. Entre estes suplementos, existiam as injecções vitamínicas e os "licores de carne", estes últimos fortemente ricos em proteínas e ferro, que eram os antepassados dos actuais suplementos proteicos de vários sabores. Havia ainda um tipo de injecções complementares, à parte, de preparados à base de cálcio, com o intuito, tanto de suprimir as frequentes perdas deste mineral essencial, como de acelerar a calcificação ou cicatrização das lesões tuberculosas. Quando o repouso, a alimentação e os “bons ares”, complementados pela terapêutica medicamentosa disponível, não estivessem a dar o resultado pretendido, havia que recorrer a outros métodos mais drásticos. Estes recursos adicionais eram bastante complicados, dolorosos e não isentos de perigo. Alguns deles eram mesmo mutiladores e deixavam marcas físicas para toda a vida. E claro, para quem tinha de lidar com estas situações de perto, quer do lado dos médicos, quer do lado dos pacientes, também eram assustadores. O menos impressionante destes métodos físicos, era uma prodigiosa descoberta médico-tecnológica, descoberta na segunda metade do século XIX: o pneumotorax artificial ou terapêutico.

Este tratamento baseava-se na ideia fundamental de que uma das razões porque a tuberculose pulmonar era tão difícil de tratar e tão frequente, se devia ao facto de o sistema pulmonar estar permanentemente em movimento e, desta forma, o órgão doente não conseguir o repouso necessário para as lesões se curarem por elas próprias.

Desta forma, o pneumotorax terapêutico consistia em injectar um gás entre a pleura e o pulmão própriamente dito, de forma a colapsá-lo, ficando este mais encolhido e estático. Ficaria, de facto, provado que este método auxiliava as lesões cavitárias a fecharem e a cicatrizar por elas mesmas, reduzindo-se as áreas afectadas e propiciando-se o tão desejado processo de cura. No entanto, mesmo facilitado, este podia ainda chegar a durar alguns anos.


O aparelho destinado a administrar este tratamento, fora o resultado de uma prodigiosa criação do médico italiano Carlo Forlanini (1847-1918), nome pelo qual os primeiros protótipos deste aparelho ficaram conhecidos. O ano da sua invenção foi exactamente o mesmo em que Robert Koch descobriu o bacilo da tuberculose: 1882. Os exemplos acima visíveis resultaram dos diversos aperfeiçoamentos que este invento foi tendo ao longo dos anos com o intuito de se tornarem mais portáteis, resistentes e fáceis de manusear. O seu funcionamento básico manteve-se mais ou menos inalterado. As insuflações eram controladas por um manómetro, por sua vez regulado por água. Estas eram induzidas por uma pêra de borracha e introduzidas no tórax do paciente, através de uma grande agulha devidamente esterilizada.
Tratava-se de uma operação algo delicada e que necessitava de ser executada por médicos com larga experiência e perfeito conhecimento da morfologia do aparelho respiratório. Era também essencial o acompanhamento de uma rádiografia do paciente. Mesmo assim, não era totalmente isento de riscos e tinha os seus detractores. Mas era, de todos os métodos de colapsoterapia, o menos invasivo.
Quando esta terapêutica, apesar de mais algo morosa, não apresentasse os resultados desejados, havia outros métodos mais radicais, sempre com a intenção de tentar colapsar o órgão afectado. Era aqui que entravam os métodos cirúrgicos.
Uma das principais razões que comprometia a eficácia do pneumotorax, residia num dos efeitos secundários da própria tuberculose: a pleurisia. Esta provocava derrames na pleura, que originavam a formação de aderências ao pulmão, que anulavam qualquer tentativa de o comprimir. Desta forma, haveria a hipótese de se recorrer ao corte de aderências. Caso não fosse possível eliminar as aderências ou quando estas eram muito disseminadas, só existiria uma solução absolutamente radical: a toracoplastia. Consistia esta na remoção cirurgica de costelas, para obrigar o lado afectado a ficar comprimido definitivamente. Em suma, retiravam-se algumas partes, para salvar a vida de todo um organismo. De qualquer forma, deixava marcas físicas (e mesmo psíquicas) para toda a vida futura do paciente. Contudo, para que estes dois exemplos de operações fossem possíveis, havia que tomar em conta a resistência e o estado físico do doente. Senão seria pior a emenda que o soneto... No entanto, mesmo quando se pensava que os pacientes estariam preparados para tais operações de alto risco, não eram raros os casos em que estes faleciam tanto durante as longas horas de cirurgia contínua, como no pós-operatório. Também a própria doença se podia agravar e nada mais a deteria no seu caminhar para o temido desfecho final...

Também havia outras formas, algo originais, para tentar imobilizar, quer parcial, quer totalmente, o órgão afectado, como a introdução na cavidade pleural de óleo, bolas de parafina sólida e mesmo bolas de ping-pong, como atesta esta imagem radiográfica.


Com a chegada gradual dos antibióticos, a partir da segunda metade dos anos 40, estes métodos algo temíveis de tratamento começaram a ser abandonados. Os tratamentos básicos de repouso, alimentação, terapêutica reconstituinte e bons ares, eram cada vez mais complementados com os novos medicamentos tuberculostáticos, primeiro a estreptomicina, depois o P.A.S. e a izoniazida. Com este primeiro trio descoberto, estava constituida a primeira grande frente de ataque contra o bacilo de Koch. As estadias sanatoriais começaram a ser cada vez mais curtas, mas também a ser menos necessárias, pois esta nova terapia antibiótica também contribuía para tornar os casos declarados de tuberculose muito menos contagiosos.
Foi também o iniciar de uma lenta decadência do domínio dos sanatórios, que começaria a ganhar força com o seu progressivo encerramento a partir dos anos 50. Portugal também não escaparia a esta onda muito positiva. Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, praticamente todos os sanatórios que ainda existiam, muitos deles quase sem nenhum doente internado, acabariam por encerrar. Alguns seriam reconvertidos em novas unidades hospitalares, como o Hospital da Guarda e o Hospital dos Covões, em Coimbra. A maioria, sobretudo os que estavam longe dos grandes centros, seríam votados a um completo abandono, que ainda hoje se arrasta.