quarta-feira, abril 16, 2008

A Batalha de Kursk








O ano de 1943 havia começado mal para as forças do Eixo, principalmente para o lado germânico. A sua tão empenhada e dispendiosa campanha de África, protagonizada pelo então mítico exército “Afrika Korps” de Erwin Rommel ficou definitivamente perdida. Para além disto, a que se julgava “gloriosa” Batalha de Estalinegrado, terminou numa derrota absolutamente humilhante, com o cerco e captura de um grande e valioso exército inteiro, o “6º Exército” e a rendição do seu principal comandante, o General Von Paulus. Este fora promovido a “Marechal de Campo” por Hitler, quando a luta já caminhava para o seu desfecho final e, desta forma, acabou por ser o primeiro oficial germânico desta patente a apresentar a rendição. Esta derrota acabaria por deitar completamente por terra a ideia de invencibilidade da Wehrmacht e marcaria o início de uma nova fase na luta do Exército Vermelho, que, a partir daqui, foi ganhando iniciativa crescente, mantendo o seu inimigo germânico numa posição defensiva e em permanente retirada.



Para agravar mais as coisas, realiza-se a Conferência de Casablanca, onde os Aliados decidem que todos os seus esforços militares, daí em diante, teriam como objectivo principal a “rendição incondicional” da Alemanha nazi. Um dos sinais mais visíveis destas novas decisões foi o progressivo aumento da frequência e da intensidade dos bombardeamentos aéreos, por parte das forças aéreas britânica e americana. Tanto as cidades principais, como as fábricas essenciais ao esforço de guerra começariam desde logo a sentir os seus efeitos. É preciso não ignorar ainda o crescente receio, por parte de Hitler e dos seus generais, relativamente aos indícios de que se poderia abrir uma nova frente de guerra mais a Sul, derivada do crescente domínio aliado no Mediterrâneo.







Foi numa tentativa de recuperar a iniciativa de ataque, e fazer subir o moral tanto das suas forças militares como do povo alemão, que Hitler decidiu dar ouvidos aos seus altos oficiais que repudiavam a ideia humilhante de efectuar uma retirada generalizada de diversas zonas conquistadas a Leste.




Desta forma, logo na Primavera de 1943, Hitler e o seu Alto Comando decidem delinear os planos de uma nova missão de ataque: a “Operação Cidadela”. Esta consistia, basicamente, na concentração de forças militares na zona de Kursk, de forma a conseguir quebrar a frente de ataque do Exército Vermelho onde este parecia mais vulnerável, e desorganizar as suas forças. Por outro lado, havia a intenção clara de conseguir atacar o Exército Vermelho desprevenido. Aliás, este aspecto era mais do que fundamental para que a “Operação Cidadela” fosse bem sucedida. Para isto, havia que fazer os planos da forma mais sigilosa possível. O problema foi que, logo desde o início, este requisito saiu gorado.



Havia já algum tempo que os serviços secretos britânicos estavam a conseguir, com crescente sucesso, decifrar as mensagens encriptadas produzidas nas máquinas alemãs “Enigma”. Graças a um outro prodígio tecnológico, as máquinas “Ultra”, era-lhes quase possível, com cada vez maior fidelidade, tomar conhecimento das decisões militares e estratégicas dos alemães. Só algum tempo depois da guerra é que os alemães souberam que o seu código “Enigma” havia sido quebrado há muito. Por outro lado, havia uma rede de espiões alemães ao serviço dos Aliados, que, de quando em quando, conseguia obter informações secretas de “primeira água”, essenciais para estes decidirem quais os passos a dar. Entre estes estava o antinazi Rudolph Roessler que, para além de ter revelado os planos de Hitler aos Aliados ocidentais, teve a proeza de conseguir avisar os soviéticos com grande antecipação.



Desde o começo, Hitler e os seus oficiais haviam feito todos os possíveis para tentar se antecipar a uma possível contra-ofensiva soviética. De facto, a sua concentração de forças na região de Kursk era muito importante: mais ou menos 900 mil homens, apoiados por 2.700 tanques e carros de assalto, 10 mil peças de artilharia e 2.500 caças e bombardeiros. Hitler sabia que muito da sorte futura das forças germânicas seria comprometida pelo resultado de mais esta operação, para além de que ele queria mostrar ao mundo de que a Alemanha nazi não estava derrotada.
No entanto, quando a Wehrmacht iniciou o ataque, já os soviéticos tinham minado toda a área, recuado as tropas e instalado baterias de canhões, com o intuito de impedir a acção dos sapadores alemães na retirada das minas. Por sua vez, do lado soviético, havia concentrados na área de Kursk cerca de 1,3 milhões de homens, 20.200 peças de artilharia, 3.306 tanques e 2.650 aviões.






O ataque estava inicialmente previsto para o início da Primavera, mas houve toda uma série de hesitações, adiamentos e lentidão na execução dos planos, que arrastariam a data para 5 de Julho de 1943. Entre as razões para isto, estava a o conhecimento de alguns avanços tecnológicos que os soviéticos estavam a revelar, nomeadamente a nível dos tanques. Estes haviam produzido em massa um tanque ligeiro, de sólida fuselagem e munido de um potente canhão, que o tornava muito difícil de vencer num embate directo e, por isso, temível: o “T-34”.











Desta forma, os alemães sentiram-se na necessidade de ganhar mais algum tempo, para conseguir que as suas sobrecarregadas fábricas de armamento produzissem um número de tanques, de um novo modelo, em número suficiente para compensar as eventuais fragilidades dos restantes. Entre estes estavam os “Panther”, os “Tiger” e um modelo de tanque super-pesado conhecido por “Elephant”. Este último foi um exemplo de diversos erros de cálculo cometidos pelos alemães responsáveis pela produção de armamento pesado: era dotado de um potente canhão a que nenhuma fuselagem conhecida conseguia resistir, mas era extremamente lento e difícil de manusear, o que o tornava facilmente subjugável quer por veículos mais ligeiros, quer pela própria infantaria.Os dados seriam lançados, então, a 5 de Julho de 1943. Iniciou-se aquele que foi o maior combate de tanques da História. O que acabou por acontecer foi um verdadeiro desastre para a Wehrmacht. Apesar do imenso número de homens e material soviéticos perdidos, as forças germânicas tiveram extrema dificuldade em penetrar nas muito bem preparadas defesas soviéticas. As tropas e divisões Panzer que foram conseguindo avançar, para além das “incómodas” minas anti-pessoais e anti-carro, eram alvo de ataques rápidos e insistentes de surpresa, que iam gradualmente enfraquecendo a sua frente de ataque. O campo de batalha foi-se gradualmente enchendo de destroços e veículos incendiados, cujo fumo, associado às constantes nuvens de poeira sob um sol inclemente, foram dificultando a visão, principalmente do lado germânico. Do lado soviético, o espírito patriótico fazia as tropas defender cada metro quadrado a um preço muito elevado, em especial para o inimigo. A determinada altura, chegaram a haver lutas de tanques quase frente-a-frente, com um número de baixas altíssimo. Acontece que, do lado dos soviéticos, os abastecimentos, reparações e reposição de material, tal como o socorro aos feridos, eram muito mais fáceis de conseguir, enquanto do lado germânico estes tornavam-se muito mais difíceis de conseguir, consoante iam avançando para dentro das linhas inimigas. O ataque, devido à ausência do factor-surpresa, acabaria por se prolongar para além do previsto. As frentes de ataque germânicas, devido às constantes perdas de homens e material, começaram a dar sinais de claudicar, a tal ponto que houve, mais do que uma vez, necessidade de desviar forças de um lado para compensar outro.



A desorganização começou logo a fazer-se sentir por entre as forças atacantes. A situação estava-se a revelar um autêntico beco sem saída para estes, quase semelhante ao que acontecera meses antes em Estalinegrado. Devido ao quadro nada animador, Hitler decidiria suspender a “Operação Cidadela”, oito dias depois de iniciar o ataque, contrariamente a todas as expectativas. No entanto, os combates no terreno prolongaram-se quase até ao fim de Agosto de 1943, mas as forças germânicas já estavam numa posição claramente defensiva e em visível desvantagem. Por esta altura, já as atenções estavam desviadas para um novo teatro de guerra em Itália.



Depois desta Batalha de Kursk, a Wehrmacht não mais conseguiu recuperar uma posição ofensiva na “frente Leste” e perdeu toda a sua iniciativa de ataque. A iniciativa passaria, em definitivo, para o Exército Vermelho que não mais pararia daí em diante. Formou-se o famoso “rolo compressor russo”, que nada conseguiria deter até conquistar Berlim, no começo de Maio de 1945, precipitando a rendição incondicional de todas as forças militares germânicas.
Foi na sequência desta vitória tão importante para a União Soviética, que o nome “Kursk” passou a constituir um sinónimo de valentia, coragem, ousadia, sorte e, acima de tudo, invencibilidade. Não admira que um dos seus melhores e, então, sofisticados submarinos de sempre tivesse sido baptizado com este nome: “K-141 Kursk”. Foi dos primeiros submarinos modernos concebidos e construídos após o fim da União Soviética. Talvez uma tentativa de augurar um bom futuro para os novos tempos que se avizinhavam.



Começou-se a trabalhar na construção deste novo submarino logo em 1992, tendo esta ficado concluída no final de 1994. Com um comprimento de 154 metros e quatro pisos, foi o maior submarino de guerra alguma vez construído. O seu potencial e versatilidade eram quase inultrapassáveis e, de facto, confirmou-se um aparelho muito bem sucedido nas diversas missões para que havia sido destinado. Isto fez aumentar ainda mais as expectativas em relação ao “K-141 Kursk” e a marinha da Rússia via-o como um símbolo do seu ressurgimento enquanto potência beligerante.



Acontece que, derivado dos diversos problemas sociais e económicos que a nação russa havia atravessado após a queda do regime soviético, houve uma necessidade de fazer cortes generalizados no financiamento de muitas instituições essenciais. A sua marinha acabaria por ser uma delas. Por um lado a qualidade dos materiais utilizados no fabrico dos novos aparelhos era inferior ao recomendado, por outro, a manutenção desses aparelhos que deveria ser periódica, só foi feita muito esporadicamente aos que eram considerados de primeira necessidade, tendo os restantes ficado sujeitos à lenta deterioração provocada tanto pelo uso, como pelo contacto prolongado com a água do mar, que é sobejamente conhecida como lesiva para os metais, em especial para o aço e o ferro. Aliás, muitos dos trabalhos de manutenção que se foram fazendo, não foram devidamente remunerados.



Não seria de espantar que este clima de negligência, algo camuflado, começasse a produzir consequências nefastas para a segurança mais básica dos marinheiros que passavam dias, quando não meses, a fio no interior destes vasos de guerra. Foi o que acabou por acontecer a 12 de Agosto de 2000, quando na sequência de uma missão de treino em alto-mar, o submarino “Kursk” sofreu um dano fatal, devido à explosão fora do tempo de um dos seus torpedos. De seguida, o imenso aparelho afundou-se pesadamente até uma profundidade de quase 110 metros, com toda a sua tripulação de 118 elementos. Uma segunda explosão, mais forte, ocorrida alguns minutos depois, ditaria o fim deste magnífico submarino.






Durante dias não foi possível ter um conhecimento da situação real da tripulação do “Kursk”, pois este encontrava-se numa zona onde era difícil executar missões de salvamento e não havia quaisquer comunicações possíveis. As piores expectativas começaram a confirmar-se logo quando se observou um imenso rombo na parte da frente do submarino. Apesar de todos os esforços efectuados, mesmo com ajuda internacional, não sobreviveu nenhum elemento da tripulação do “K-141 Kursk”.







Desta forma, paradoxalmente, o nome “Kursk”, ainda que continue evocando uma gloriosa vitória, passaria também a ser sinónimo de uma das maiores tragédias de sempre, a par de outros como o “Titanic”.

terça-feira, abril 15, 2008

Um couraçado vivo



Um dos animais mais curiosos da actualidade é o tatu ou armadilho, mamífero proveniente da América do Sul. Tem como característica peculiar o facto de se poder enrolar sobre si, quando ameaçado, muito à maneira dos insectos conhecidos como bichos-de-conta. As diversas placas que revestem o topo da sua cabeça e o seu dorso, bem como os anéis que protegem a sua cauda, são designadas como osteodérmicos.


Pertence a um ramo dos mamíferos designado por xenartas ou “desdentados”. Na verdade, estes animais não são desprovidos de dentição. O que acontece é que os seus dentes reduzem-se a duas simples fileiras homogéneas, uma superior e outra inferior, onde não é possível distinguir tipos diferentes de dentes, como normalmente acontece com a maioria dos restantes mamíferos. Incluem-se neste grupo, as actuais preguiças arborícolas.


No entanto, este grupo é dos mais antigos de entre os mamíferos, remontando os seus primeiros fósseis conhecidos ao período Paleoceno, que marcou o início da afirmação dos mamíferos enquanto animais terrestres dominantes. Muitas das ramificações que deram origem aos actuais mamíferos conhecidos, deram-se logo no início deste período geológico, que é o primeiro da era Quaternária. O Paleoceno foi imediatamente precedido pelo período do Cretáceo, em cujo fim se deu a grande e ainda hoje misteriosa extinção dos dinossauros.


Durante o período geológico Pleistoceno, onde surgiram muitas das formas actuais de seres vivos conhecidos, o ramo dos xenartas incluía, pelo menos, mais um parente, este muito próximo do tatu ou armadilho: o gliptodonte. Tal como o seu parente sobrevivente, este animal ainda mais peculiar, vivia na América do Sul. No entanto, o maior tatu actualmente existente parece bem minúsculo, em comparação com este animal algo parecido com uma tartaruga terrestre.

A maior parte do seu imenso corpo era protegido por uma pesada couraça semelhante a uma cúpula. Ao contrário do tatu, não se enrolava sobre si mesmo por esta pesada carapaça ser um bloco único, apesar de ter o topo da sua cabeça igualmente protegida. A sua cauda, também completamente revestida, era uma importante arma de defesa. Toda esta poderosa armadura era sustentada por patas curtas e robustas, cujos dedos terminavam em sólidos cascos. Como é fácil presumir, este animal era de locomoção lenta e, devido a isso, nunca atacava por iniciativa própria, permanecendo sempre na defensiva.


Os seus vestígios que até nós chegaram, referem que não existia apenas uma espécie de gliptodonte. Havia uma maior de todas, que media perto de 4 metros de comprimento e a sua cauda terminava num aglomerado de espinhos acerados, que fazia lembrar as maças dos antigos guerreiros medievais. Havia outra que, em termos de comprimento, media à volta de 2 metros, apesar da sua carapaça ser a maior em termos de altura. A sua cauda, simplesmente protegida por anéis e alguns tubérculos, dava-lhe um aspecto menos ameaçador do que a anterior.
No meio destas duas espécies conhecidas, havia uma outra com um comprimento que podia ultrapassar os 3 metros de comprimento, mas que tinha a cauda completamente revestida de espinhos. Esta espécie foi, segundo alguns estudos, a representante final destes mamíferos antes da sua extinção.


Este animal, pelas suas dimensões e silhueta, fazia lembrar um automóvel Wolkswagen clássico. Devido a toda a sua armadura óssea, estava, logo à partida, protegido dos ataques de grande parte dos predadores então existentes. Estes, só o podiam atingir caso fossem bem sucedidos quanto a virá-los de pernas para o ar, podendo, desta forma, expor as partes mais frágeis do seu corpo. Esta sua profusa defesa óssea, associada às grandes dimensões, trazia-lhe a grande desvantagem da lentidão ao deslocar-se.


Presume-se que, avaliando pela época dos seus vestígios encontrados, este animal ainda tivesse sido contemporâneo dos primeiros homens, mas, o que é certo, é que, dada a longa conservação das suas partes ósseas, em especial da couraça principal, estas tenham sido aproveitadas por aqueles. Quando o tempo era inclemente, as suas carapaças seriam usadas como abrigo mais ou menos temporário, como se prova pela existência de vestígios de fogueiras no seu interior. Admitindo que o Homem moderno tenha sido contemporâneo destes “carros de assalto” vivos, é muito provável que tenha sido o seu predador mais bem sucedido, dado que, evitando as suas mortíferas caudas, bastaria virá-los de ventre para cima para os caçar. De qualquer forma, não é possível comprovar se os primeiros seres humanos existentes tivessem tido alguma responsabilidade na sua misteriosa extinção.

terça-feira, abril 08, 2008

O maior anfíbio de sempre






O Eryops constituía, no campo dos anfíbios, o topo da cadeia alimentar. Era um predador carnívoro muito voraz, embora de lenta locomoção em terra, mas um caçador muito ágil e temível dentro de água. Foi, decerto, o maior anfíbio que sempre existiu sobre a Terra. Era o verdadeiro símbolo de um período em que os anfíbios dominavam a superfície terrestre e representava um ponto máximo em termos de evolução.



Desenvolvera um crânio sólido e de grandes dimensões, com umas mandíbulas poderosas e só hoje comparáveis aos maiores crocodilos. As suas patas eram curtas, mas fortemente robustas e faziam do Eryops um nadador tão eficiente como as outras criaturas aquáticas. A sua pele tornou-se dura e quase couraçada, a ponto de lhe permitir percorrer grandes distâncias em terra sem precisar de temer a desidratação.





De qualquer forma, dependia grandemente da existência de cursos de água próximos para se poder reproduzir e desenvolver. Isto porque os seus ovos eram apenas envolvidos por uma leve e quase transparente película que facilmente ressequia fora de água. Para além disto, tal como ainda hoje acontece com os anfíbios conhecidos, tinha uma existência totalmente aquática até atingir o estado adulto, quando já estaria capacitado para se aventurar em terra firme.


Apesar de tudo os exemplares existentes, no seu estado adulto, podiam ultrapassar os 2,50 metros e quase não tinham predadores a temer. Neste caso, a excepção poder-se-ia abrir para um ou outro peixe carnívoro de maiores dimensões, mas o facto de ele passar longos períodos tanto em terra como em zonas pantanosas, onde aqueles não podiam penetrar, tornava estes encontros letais algo esporádicos.



A determinada altura, sobretudo nas fases finais do período Permiano, havia também que contar com o número crescente de répteis primitivos, tendo alguns atingido já então dimensões consideráveis e podendo constituir um perigo para o próprio Eryops. Entre estes últimos, encontrava-se o Dimetrodon, pertencente a um ramo extremamente avançado dos répteis, dotado de uma capacidade de retenção de calor e que, desta forma, anunciava já os futuros mamíferos. Deslocava-se agilmente nas suas quatro patas e tinha como característica mais notável a enorme “vela” sobre o dorso. Devido ao facto de estar mais bem equipado para viver e deslocar-se em terra firme, constituía um predador temível para os, então ainda predominantes, anfíbios que se deslocavam muito lentamente fora da água. Por outro lado, tal como acontecia com os restantes répteis, era muito maior a sua capacidade para percorrer longas distâncias e mesmo os seus ovos não precisavam de ser postos na água para a sua gestação, por já serem providos de uma sólida casca, o que lhes permitiria resistir sem problemas aos maiores períodos de seca.



Devido a esta crescente proliferação de répteis cada vez mais sofisticados e versáteis, associada a períodos cada vez mais longos de seca e altas temperaturas, o Eryops foi perdendo o seu domínio até se extinguir no final do período Permiano. A partir daqui, os anfíbios, até então senhores da Terra, foram definitivamente suplantados pelos emergentes répteis.

segunda-feira, abril 07, 2008

Arte Minimalista


Uma cadeira com uma perna maior do que a outra, uma sobreposição de traves de madeira de uma forma aparentemente comum, a louça de um lavatório colocado de baixo para cima, uma pintura sem título com duas zonas pintadas de cor diferente, um conjunto de lâmpadas fluorescentes dispostas em fila indiana e a representação de um quadrado amarelo gigante feito de alcatifa. Eis um conjunto mínimo de exemplos do que poderia ser incluído numa exposição de arte designada “minimalista”.

Este movimento artístico, que ainda possui muitos seguidores em todo o mundo, teve o seu grande período de afirmação nas décadas de 60 e 70. No entanto, poder-se-ão detectar diversos sinais antecessores nas décadas de 40 e, sobretudo, de 50. O seu principal centro de divulgação, por essa altura, encontrava-se nos Estados Unidos da América, com especial destaque para as cidades de Nova Iorque e Los Angeles, onde um número apreciável de artistas começou a produzir uma série de trabalhos artísticos, que iam definitivamente contra tudo aquilo que havia sido estipulado durante séculos como obra de arte.

Estes artistas pretendiam reagir não só a então novas correntes artísticas, como o Expressionismo Abstracto e a Arte Pop, como a todas as ideias que defendiam a arte como algo profusamente elaborado e, sobretudo, feita para agradar os sentidos através da complexidade de cores e formas. A arte minimalista preza a simplicidade, o completo despojamento e não se esquiva a recorrer a objectos e materiais durante muito tempo inconcebíveis de ser utilizados em arte. No entanto, o tamanho e a dimensão das suas obras varia desde um simples objecto que cabe na mão ou uma pequena gravura, até uma construção geométrica em mais do que uma secção e que ocupa várias salas ou um imenso painel ocupando uma vasta parede de 30 metros por 15.

Sem dúvida, que esta corrente artística terá chocado tanto a generalidade dos críticos de arte, muito confortáveis nas suas concepções adquiridas e julgada sapiência, como muitos dos visitantes dos museus e galerias de arte onde as suas obras conseguiram ver-se expostas. Como colocar no mesmo plano uma pintura de Jeronimus Bosch representando o juízo final e o urinol de porcelana de Marcel Duchamp?

terça-feira, abril 01, 2008

Um jogo lógico de acasos

Há situações em que genes perfeitos podem resultar na morte de um novo ser, devido apenas à forma como surgem combinados. Todos os seres vivos possuem uma determinada porção de genes dominantes e recessivos. Relativamente às mais variadas características, por exemplo, no que se refere ao seu fenótipo ou aspecto exterior e ao seu comportamento. Estes podem surgir em homozigose (combinação de genes idênticos) ou em heterozigose (combinação de genes distintos). Para melhor se exemplificar isto, basta olhar para a figura embaixo.

Temos dois progenitores, pertencentes a uma certa espécie de rato de pelagem amarela, em que ambos, no que respeita à cor do seu pêlo, possuem um gene dominante e um recessivo. O dominante (Ay) é o que produz a cor amarela e o recessivo (a) produz outra cor não-amarela, neste caso, o preto ou cinzento-escuro. São por isso, no que respeita à cor da sua pelagem, heterozigóticos (Ay a). O gene recessivo (a) nunca se manifestaria em heterozigose nestes dois exemplares, mas continuará sempre presente nas gerações futuras.

Ao acasalarem, estes dois exemplares podem gerar uma prole numericamente variável, em que se esperarão outros novos exemplares em que a combinação dos genes da cor do pelo surge em heterozigose (Ay a), ou seja, semelhantes aos progenitores. No entanto, é de esperar que entre essa prole surjam alguns, em que a combinação dos genes tenda para a homozigose (a a). No exemplo tomado como referência, estes elementos da ninhada surgem com uma cor de pelagem diferente, neste caso, escura. Aparentemente, parecem não ter nada que ver com os respectivos progenitores, mas o que na verdade aconteceu foi uma combinação do gene recessivo em homozigose. Aliás, quase só em homozigose se poderão manifestar os genes recessivos. No entanto, a combinação de genes, tanto recessivos como dominantes em homozigose, pode inviabilizar o desenvolvimento de novos seres.

No caso aqui exemplificado, isto acontece com o gene dominante que produz a cor da pelagem amarela. Se este surgir em homozigose (Ay Ay), será uma combinação letal. Desta forma, em diversas experiências laboratoriais, verificou-se a morte de diversos exemplares, muitos deles na fase ainda embrionária. Curiosamente, quando se combinavam progenitores com um esquema genético diferente, ou seja, um heterozigótico (Ay a) e o outro homozigótico (a a), as ninhadas resultantes eram aproximadamente 25% mais numerosas, do que no caso acima exemplificado.

A razão aqui talvez se devesse ao facto de terem surgido mais descendentes com os genes dominante (Ay) e recessivo (a) combinados em heterozigose (Ay a) e também um número mais vasto de espécimes com o gene recessivo em homozigose (a a). Paralelamente, ocorreriam menos casos de homozigose do gene dominante da cor amarela (Ay Ay), o que significaria menos mortes durante a fase de gestação e, em consequência, ninhadas maiores.