Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

A Leitaria Académica


Entre as muitas “vítimas” das demolições da Velha Alta de Coimbra, uma das mais simbólicas e lamentadas pela academia coimbrã, foi a Leitaria Académica, mais conhecida pelo nome do seu fundador e proprietário, Joaquim Inácio, vulgo Joaquim “Pirata”. Figura sempre lembrada pelos estudantes que passaram por Coimbra nas décadas de 1920, 1930, 1940 e mesmo 1950, este Joaquim “Pirata”, tinha o seu estabelecimento bem na desaparecida Rua Larga, a fazer esquina para a Rua de S. João, esta última (ainda?) hoje existente, mas numa versão que nada tem a ver com a original.
A origem da alcunha do seu proprietário, é desconhecida, mas era este o nome por que todos os estudantes lembravam esse homem de figura muito peculiar, sempre envergando um impecável casaco branco.
Este estabelecimento era um espaço algo exíguo, só ocupando duas portas que davam para a Rua Larga, tanto que em dias de festa, os seus frequentadores tinham de ir consumir para a rua, não havendo, para mais, esplanada. Mais frequentemente, era utilizado pelos estudantes quando iam tomar o pequeno-almoço, apressadamente, antes de irem para as aulas. Era precisamente na relação deste Joaquim “Pirata” com os seus clientes, que residia um dos seus aspectos mais peculiares, e que se revelou uma estratégia de negócio algo bem sucedida.
O cliente entrava, consumia, mas não era obrigado a pagar a pronto. No entanto, tinha de deixar o seu nome num de dois ou três grossos livros, sebosos pelo uso, que existiam bem à vista no balcão. Estes livros eram conhecidos pelos “canis”, derivado da expressão “ferrar o cão”, sinónimo de ficar a dever, não pagar a conta. Esta sua atitude aparentemente permissiva conquistou a simpatia da sua clientela, predominantemente estudante, que muito frequentava este espaço. O senhor sabia que, mais cedo ou mais tarde, as dívidas iam ser saldadas, o que quase sempre acontecia. Muitas vezes, o antigo estudante, num rebate de consciência, só lá regressava alguns anos depois do fim da sua licenciatura e, finalmente, o seu nome era riscado. Não raras vezes, esta dívida era motivo de celebrações bem regadas à porta do estabelecimento.
A Leitaria Académica, aberta desde por volta de 1923, tinha como outra característica distintiva um grande azulejo com o símbolo da Associação Académica de Coimbra, colocado entre as suas duas portas de entrada. Terá sido um dos primeiros estabelecimentos de Coimbra a ter esse símbolo, criado pelo então jovem estudante Fernando Pimentel, no ano de 1927. Entretanto, em Maio de 1944, com o inexorável avanço das demolições, iniciadas no ano anterior, para a construção da nova “Cidade Universitária”, o “Pirata” vê-se obrigado a encerrar as portas.
Transferiu-se para a Rua dos Estudos, onde permaneceria até Outubro de 1949, na sequência do desmoronamento do edifício onde se localizava, incidente a que não foram alheias as demolições que decorriam já nas suas imediações. Na sequência disto, é obrigado a nova mudança, desta vez para um prédio situado junto aos Arcos do Jardim, o primeiro à esquerda, que seria demolido em Outubro de 1959. A partir daqui, não mais se soube do paradeiro do espólio que dentro dele existia.

Gram Parsons e os Byrds



Gram Parsons nasceu, na Florida, no Sul dos Estados Unidos da América em Novembro de 1946 numa família mais ou menos abastada, pelo menos por via materna. O seu nome de baptismo era Ingram Cecil Connor, mas decidiu, pelo menos a nível artístico, adoptar o apelido do seu padrasto. Tendo desde muito cedo manifestado um grande talento musical, Gram Parsons aprendeu logo na infância a tocar vários instrumentos, nomeadamente o piano. Após um período de alguma estabilidade familiar, a sua família começou a desagregar-se em grande parte devido ao alcoolismo da mãe, que já havia ficado viúva na sequência do suicídio do seu primeiro marido.
Na sequência destas vicissitudes, Gram Parsons começou a dedicar-se ao aperfeiçoamento dos seus dotes musicais. Tal como aconteceu com outros jovens americanos nessa segunda metade dos anos 50, ele desenvolveu um forte interesse pelo rock and roll, então uma novidade em todos os campos. Tendo este género musical como referência, participou em diversas bandas com pouco mais de 10 anos de idade, actuando em bares e clubes que eram propriedade do seu padrasto. Em paralelo, rendeu-se igualmente à música folk, com uma tradição muito marcada na zona onde cresceu, sem esquecer a componente fundamental da música negra. Ainda no final da adolescência, acabou dar a primazia a este género musical, claramente mais consensual do que os novos ritmos que a década de 1960 começava a trazer, nomeadamente provenientes do outro lado do Atlântico, por via de grupos como os Shadows e os Beatles.
Foi sob a influência de outros grupos, já consagrados como o Kingston Trio e os Journeyman, que Gram Parsons constituiu a sua primeira banda profissional, os Shilos, em 1963. Esta banda actuava, com grande êxito, nos mais diversos locais, desde bares a auditórios de liceu. Entretanto, após uma breve permanência na Universidade, decide aprofundar a sua grande paixão pelo country, reunindo-se com outros músicos da zona de Boston. Seria com alguns destes, que Parsons formaria uma nova banda, desta vez com maior destaque, denominada "International Submarine Band". Por volta de 1967, esta banda transfere-se para Los Angeles tendo, no ano a seguir, lançado o álbum, Safe at Home.
Ainda que a música country constituísse o seu género de eleição, Gram Parsons não era um músico de horizontes restritos a este género de regras muito próprias. Cultivava um interesse paralelo pelas novas correntes em que a música rock se havia ramificado e estava profundamente aberto a tentar combiná-las com um género musical aparentemente avesso a grandes mudanças como era o country. O cantor e compositor Gram Parsons interpretava uma música onde as sonoridades e as temáticas eram claramente do universo do Country, mas a sua atitude, apresentação e instrumentação devia muito mais ao rock. Aliás foi com ele que se começou a popularizar um, então, novo género, denominado “country rock”.
O próprio Gram Parsons personificou esta aparente dissonância country/rock: por um lado a sua música soava a uma versão electrificada do country e as suas actuações estavam a ter uma aceitação e sucesso crescentes em círculos e zonas desde sempre seu terreno privilegiado, nomeadamente na região de Nashville; por outro, a sua forma de vestir, círculos de amizades, fãs e estilo de vida eram semelhantes, senão comuns, às estrelas do rock de então, incluindo mesmo nos aspectos negativos, como por exemplo, o uso de drogas cada vez mais pesadas.
Em 1968, Gram Parsons integrou, temporariamente, os Byrds, por via de um dos seus membros, Chris Hillman. Neste período, o grupo não atravessava propriamente um período muito feliz.
Tendo atingido uma rápida consagração em 1965, então apadrinhados por Bob Dylan e sob os auspícios de um êxito imediato com uma muito bem conseguida versão de um tema da autoria deste, Mr. Tambourine Man, os Byrds estavam lentamente a decair. Esta situação arrastava-se desde a saída de Gene Clark, um dos seus elementos fundadores, no ano de 1966, após dois álbuns consistentes. Nessa altura, Jim Roger McGuinn, o cantor principal, decide assumir a liderança do grupo, embora esta tenha vindo a ser cada vez mais contestada pelos outros membros. Neste ano de 1966, Roger McGuinn tomando as rédeas da direcção musical do grupo, decide dar um passo ousado tentando criar aquilo que ele designava de “space rock”. Mantendo a sonoridade básica, os temas das suas canções começam a versar a conquista do espaço, a existência de outras galáxias e o futuro da tecnologia, ainda que a criação de muito destas outras “dimensões”, tenham tido por trás o crescente apoio de certas “substâncias”, como por exemplo, os alucinogénios, então muito em uso. Associado a isto, os Byrds aproximam-se, como outros grupos, do psicadelismo e dos encantos orientais, em especial pelos sons indianos.
Foi um período interessante, em que eles produziram uma das suas maiores obras-primas, Younger Than Yesterday, álbum saído no começo de 1967. Por outro lado, as relações entre os seus membros deixavam transparecer uma certa conflitualidade, nomeadamente no que respeita à direcção artística. Foi na sequência disto que se deu o despedimento de David Crosby, outro elemento-chave dos Byrds, o que deixaria Roger McGuinn cada vez mais isolado na liderança do agora “seu” grupo, em paralelo com a progressiva frustração e subsequente afastamento dos outros elementos. Foi após o ousado e excêntrico Notorious Byrd Brothers, lançado nos primeiros dias de 1968, que o grupo se viu num impasse e sem futuro definido, sem falar na saída do baterista Michael Clarke, outro elemento fundador. Reduzido ao magro núcleo Roger McGuinn-Chris Hillman, houve necessidade de encontrar novos elementos. Foi aqui que entrou Gram Parsons.
Com a banda mais ou menos composta, Roger McGuinn decide enveredar por mais um projecto musical para um novo disco, que pretendia ser uma reunião de vários estilos musicais, incluindo o Country. Era um novo renascimento dos Byrds. No entanto, ao tomar contacto com o background musical de Gram Parsons, Roger McGuinn decidiu reformular totalmente o seu projecto musical. O álbum seria dominado predominantemente pelo Country, ou melhor, por esse género musical que então surgia e que se designou, em definitivo, por “Country-Rock”. Numa fase de exploração de novos géneros musicais, McGuinn empenha-se a fundo em assumir o papel de um dos primeiros divulgadores dessa inovadora corrente musical, ao lado do seu “mentor” Gram Parsons. O próprio nome do álbum era descaradamente Country: Sweetheart Of The Rodeo.
Originalmente, Roger McGuinn pretendeu dar a liderança vocal à sua nova “aquisição” Gram Parsons, tarefa que este cumpriu magistralmente em quase todos os temas da maquete projectada. De facto, Sweetheart Of The Rodeo, foi o disco que verdadeiramente lançou a popularidade de Gram Parsons e onde este teve muitos dos seus melhores temas de toda a sua carreira, precisamente por se encontrar na sua melhor fase, em termos pessoais e criativos. O problema surgiu no final das sessões de gravação quando vêm acima razões contratuais, que impediam Gram Parsons de surgir como o “lead singer” neste disco. Na verdade, Gram Parsons nunca foi verdadeiramente membro dos Byrds, era apenas um músico convidado “assalariado”.
Desta forma, as partes vocais de Gram Parsons tiveram de ser regravadas por Roger McGuinn que, apesar de tudo, conseguiu, discretamente, imitar o estilo vocal e o sotaque sulista daquele. Felizmente, que novas edições recentes em CD, conseguiram recuperar as gravações que, de pleno direito, deveriam estar incluídas no álbum original, apesar de surgirem como "temas bónus".
Este disco é o único que documenta a breve passagem e a influência de Gram Parsons nos Byrds e o primeiro verdadeiro de Country-Rock a obter grande popularidade. Representou também um novo fôlego para os Byrds, apesar de se tratar de um caso à parte na discografia deste grupo.
Logo depois do lançamento deste disco, Gram Parsons saiu do grupo, seguido, no espaço de alguns meses, por Chris Hillman, com o qual formaria o grupo Country Rock “The Flying Burritto Brothers”. Depois desta nova experiência de grupo, Gram Parsons iniciou verdadeiramente uma carreira a solo, intervalada aqui e ali pela sua participação em gravações de estúdio e espectáculos ao vivo com outros grupos. No entanto, o momentum e a espontaneidade que foram conseguidos durante as gravações de Sweetheart Of The Rodeo não mais se repetiriam. Basta referir que, nesta fase, Gram Parsons retomara uma vida pessoal algo errática, cada vez mais plena em doses astronómicas de álcool e drogas duras. Nesta fase, conviveu, com regularidade, com membros de outros grupos, nomeadamente Keith Richards dos Rolling Stones. Ainda lançaria alguns trabalhos a solo, para além de incessantes digressões, numa espiral cada vez mais perigosa, que terminaria, abruptamente e em condições misteriosas, fala-se em overdose, em Setembro de 1973, quando se encontrava num processo de divórcio algo agitado. Em suma, basta referir que Gram Parsons e outros artistas como Emmylou Harris, contribuíram para a renovação da country music e por despertar o interesse das gerações mais jovens por um género que, em tempos, parecia algo parado no tempo.

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

Sir Arthur Harris - parte 2


Arthur Harris assumiu o seu lugar à frente do Comando de Bombardeiros da R.A.F. no final de Fevereiro de 1942. Tal como muitos outros oficiais e membros do Parlamento Britânico, sem falar no próprio Primeiro-Ministro Churchill, Harris estava profundamente desiludido com as tácticas de bombardeamento, até então, utilizadas sobre o território do 3º Reich. Fazia, por isso, parte de um vasto grupo de opinião que defendia a necessidade de uma mudança radical de atitude e estratégia.
Havia muito que os ataques aéreos eram efectuados de noite e a grande altitude, como forma de dificultar a intercepção por parte das defesas do inimigo. Isto tornava impossível qualquer tentativa de precisão dos alvos, tanto mais que a prática obrigatória dos “black-outs” nocturnos anulava praticamente qualquer vestígio de visibilidade dos mesmos. Os meios de navegação quase sempre se baseavam em coordenadas aproximadas quanto à localização de este ou aquele alvo, apesar de já se utilizar alguns meios de detecção por radar, mas que eram muito pouco precisos. Em suma, as missões eram, em grande parte, efectuadas às cegas, caindo grande parte das bombas fora do alvo pretendido. Do lado germânico, os meios de detecção das esquadrilhas invasoras estavam a conseguir cada vez maior precisão, o que agravava o risco de vida dos pilotos e ainda mais se tentassem reduzir a altitude de forma a precisar um pouco melhor os alvos.
Por outro lado, o povo britânico, tanto os civis como os militares, acabava de atravessar uma fase em que a evolução do conflito não lhes fora favorável, apesar de alguns reveses obtidos pelas forças do Eixo. Era certo que o inimigo tinha os seus pontos fracos e não era tão temível, a nível bélico, claro, como havia sido propalado ainda havia dois anos. Mesmo assim havia sempre um sentimento forte de insegurança em relação ao futuro: resistiam bem, mas até quando? Não havia dúvida que o optimismo pendia, então, mais para o lado do Eixo. Sem falar nas vias marítimas infestadas de submarinos “U-Boat” germânicos, apesar de já se lhes estar a dar uma melhor “resposta” e o temível couraçado “Bismark” ter já ido ao fundo no ano anterior.


Para além disto havia “contas a ajustar” com o inimigo germânico pelo inferno do Blitz, sofrido ainda há relativamente pouco tempo e pelos bombardeamentos, mais fracos e esporádicos, que ainda iam ocorrendo aqui e ali, apesar de muito das forças atacantes da Luftwaffe estar agora a ser canalizado para a “frente” Leste. Existia uma grande animosidade por parte da opinião pública aliada relativamente ao inimigo germânico, sem falar em sentimentos muito fortes de vingança por parte daqueles que haviam sofrido directamente as consequências dos ataques a nível de perdas materiais e humanas. Os seus dirigentes, tanto por razões de patriotismo e solidariedade, como de prestígio social e político, afirmavam-se plenamente do seu lado, através de discursos cada vez mais duros relativamente à sorte que esperaria os seus inimigos, principalmente a Alemanha, cujas cidades deveriam ser atacadas, se não, “arrasadas até aos alicerces”. Os alemães eram designados por “boches” e a sua nação representava, para os aliados, uma espécie de “Grande Satã”.



Foi neste contexto que o Marechal Arthur Harris, se sentiu encorajado a delinear as novas estratégias de ataque aéreo que já vinham sendo advogadas há algum tempo. Basicamente, estas tinham por trás as ideias básicas de que, por um lado, era irrealista qualquer tentativa para se distinguir alvos militares e civis a tão grande altitude e com visibilidade muito reduzida, por outro, a área de cada cidade em si, era o único alvo observável. Para além disto, havia a intenção de reduzir ao mínimo o número de perdas humanas e materiais entre as esquadrilhas enviadas para as missões de ataque. Se a reposição dos aviões perdidos, a determinada altura, já não seria pacífica em termos de custos, a perda de pilotos, muitos deles experientes e insubstituíveis, que levavam tempo a serem preparados e a ganhar a prática necessária, ainda menos.

Por outro lado, o Marechal Arthur Harris havia conquistado muito rapidamente um elevado carisma, se não adoração, junto dos seus “rapazes”. Ser piloto de guerra era, muitas vezes, entrar em missões quase suicidas e Arthur Harris, preocupava-se com a segurança dos pilotos do seu Comando de Bombardeiros. Esta atitude de proximidade só contribuiria para aumentar o respeito tanto por parte dos pilotos, como de outros oficiais da R.A.F.


Para além disto, muito da opinião pública britânica tinha-o, pelo menos durante aqueles anos de guerra, em conta muito elevada, para o que contribuía a sua imagem de homem de família extremoso.
Ainda que não tivesse sido ele o autor exclusivo da nova política de bombardeamento dos territórios inimigos, ele tomou para si a missão de a pôr em prática com grande afinco e determinação, de tal forma que, por vezes, roçava o fanatismo. Por mais do que uma vez, ele utilizara a expressão de que a Alemanha nazi havia “semeado ventos” e, por isso, iria “colher tempestades”. Arthur Harris defendia que os ataques aéreos, se deveriam concentrar nas grandes zonas urbanas, pretendendo, com isso, afectar em simultâneo a sua economia e, sobretudo, o moral das respectivas populações. Os alvos militares ou de importância estratégica, como zonas industriais, estações e linhas de caminho de ferro, aquartelamentos, aeródromos e zonas portuárias poderiam ser destruídos no decorrer dessas operações de bombardeamento em massa ou, por vezes, serem deixados para depois, quase como se fossem secundários. Inclusive, o facto de uma cidade incluir esses alvos na sua cintura urbana ou de estar simplesmente situada nas proximidades, havendo nesta situação várias em simultâneo, seria apenas um pretexto para as colocar na linha da frente das que iriam “experimentar” estas novas tácticas de bombardeamento.
Por outro lado, havia algum fundamento na escolha, ainda que criticável, pelas zonas habitacionais das cidades germânicas pois era certo que os trabalhadores das fábricas de material bélico e os militares teriam aí os seus lares e famílias. A perda dos respectivos bens e membros familiares teria decerto um efeito muito negativo tanto na capacidade produtiva dos indivíduos, como na sua vontade de combater. Para além disso, era certo e sabido que tanto a Luftwaffe como os seus exércitos no terreno haviam provocado, muitas vezes intencionalmente, vítimas civis, independentemente da sua faixa etária. Havia por isso um elemento, de certa forma, justificativo em incluir as populações civis germânicas no conjunto de alvos seleccionados. É preciso não esquecer, ainda, que a descoberta e confirmação da existência dos campos de extermínio, por parte das tropas aliadas, só ocorreria nos últimos meses da guerra.
Acima de tudo, antes da invasão da Normandia em 1944, a força aérea britânica e a sua aliada americana, eram praticamente as únicas forças bélicas que lutavam directamente contra o 3º Reich. Dessa forma, as populações aliadas e aquelas que haviam sido subjugadas pelas forças do Eixo, depositavam muitas esperanças na sua capacidade de enfrentar a Alemanha nazi.
Em termos técnicos, as novas directivas tanto apostavam nos novos progressos tecnológicos e científicos, como exigiriam a construção de diversos componentes que já existiam no papel. Por outro lado, o seu aperfeiçoamento dependeria muito dos resultados empíricos no terreno. As tácticas de ataque do inimigo germânico, bem como os diversos erros cometidos e a descoberta das suas múltiplas fragilidades, constituíram uma fonte de estudo muito importante na construção de novas aeronaves e no aproveitamento das existentes, sem esquecer o componente fundamental das bombas a utilizar e na forma de as lançar sobre o território inimigo. Neste último aspecto, houve mesmo uma perfeita aliança com a Ciência, que, durante aqueles anos, teria muito da sua “massa cinzenta” a colaborar no esforço de guerra.
Seria necessário ter à disposição uma força de bombardeiros progressivamente mais numerosa, investindo, preferencialmente, em aviões com capacidade de transportar cargas explosivas cada vez maiores, e reservatórios de combustível maiores, de forma a provocar num relativamente curto espaço de tempo uma maior e mais concentrada destruição e também a conseguirem aguentar viagens mais longas, de forma a alcançar alvos mais distantes. As novas séries de aviões quadrimotores e de grossa blindagem, com destaque para os “Avro Lancasters”, eram os que melhor satisfaziam os requisitos exigidos. Basta referir que a Alemanha nazi, muito agarrada às linhas de montagem há muito seguidas, não chegou a fabricar aviões com quatro motores, apesar de estes e mais outros de maior calibre já existirem no papel. Os seus aviões de bombardeamento eram bimotores e só alguns de transporte eram trimotores. A determinada altura o seu investimento fora canalizado para a construção de aeronaves sem piloto, a que, mais tarde, seria dado o nome de V.
Por outro lado, contrariamente ao que até então se pensava, entre uma carga maciça de bombas explosivas e a mesma quantidade de bombas incendiárias, descobriu-se que a destruição seria maior e mais medonha no segundo caso, principalmente em áreas urbanas. Estas já eram utilizadas em simultâneo, pelas duas facções beligerantes desde o começo da guerra, mas dava-se a primazia às bombas explosivas, como era clássico, surgindo as incendiárias como um complemento destruidor. A partir de agora, seria cada vez mais frequente uma nova proporção de bombas a transportar para os alvos seleccionados, nomeadamente, 1/3 de explosivas e 2/3 de incendiárias.
É preciso ainda não esquecer que, no que respeita à utilização de radares, a Grã-Bretanha, era já desde antes da 2ª Guerra pioneira nesta matéria, tanto a nível de meios à disposição no terreno, como de especialistas, os quais, desde o começo das hostilidades, haviam acelerado o ritmo das suas investigações, trabalhando dia e noite. Aliás, foi graças a este precioso avanço tecnológico, que a R.A.F. conseguiu sair vitoriosa da “Batalha de Inglaterra”. Era verdade que, do lado alemão também existia uma cobertura de estações de radar junto às zonas calculadas como estrategicamente importantes, algumas delas instaladas em ilhotas no Mar do Norte, que tinham a função de lançar os avisos prévios de ataque, de forma a dar tempo às defesas de se organizarem. Podia-se afirmar que, aparentemente, havia uma muito satisfatória cobertura de radar em solo germânico. O problema é que muitas das suas investigações neste campo, há pouco que tinham deixado a fase experimental. Relativamente à Grã-Bretanha, o seu potencial de radar era, na verdade, muito fraco e facilmente ultrapassável. Mesmo assim, as autoridades alemãs tinham uma confiança absoluta nas informações que aqueles lhes ofereciam. Não contavam era que fossem, ainda nesse ano de 1942, tão rapidamente ultrapassados pelos técnicos e cientistas britânicos.



Ao fim de mais ou menos um mês de ter tomado posse do seu novo cargo, Arthur Harris sentiu ter chegado a altura ideal para, senão pôr em prática as suas novas tácticas de bombardeamento, pelo menos experimentá-las. É então que lança a missão de bombardear a cidade portuária de Lubeck, na zona de Holstein, no Norte da Alemanha, na noite de 28 para 29 de Março de 1942. Esta antiga cidade hanseática, não se podia considerar de grande valor estratégico, apesar de ser algo famosa e dotada de um porto bem situado. A sua fama residia no facto de ser uma cidade portuária, muito rica em monumentos datados da Idade Média e com um centro medieval muito bem conservado, pejado de habitações pitorescas, onde se utilizavam muitos elementos em madeira. Para além disto, o núcleo da sua cidade inseria-se numa rede de ruas estreitas, como era próprio das povoações construídas na época medieval. Esta descrição poder-se-ia aplicar como o paradigma da maioria das cidades velhas alemãs.






Arthur Harris escolheu esta cidade em primeiro lugar, porque era mais fácil de localizar, dado encontrar-se junto à zona costeira, cujos contornos poderiam servir de orientação o voo nocturno das suas esquadrilhas de bombardeiros; em segundo lugar, por ser facilmente permeável aos incêndios e, por fim, dada a sua, teoricamente, pouca importância estratégica, era certo que estaria fracamente defendida. Arthur Harris tinha já exposto os seus planos estratégicos de bombardeamento por área aos seus superiores e ao Primeiro-Ministro Churchill. Muitos, no início mostraram-se cépticos quanto ao sucesso destas novas tácticas para o seu Comando de Bombardeiros. Desta forma, Sir Arthur Harris, tinha ainda sobre si a pressão de conseguir comprovar a validade das suas propostas, consideradas muito arrojadas.
O resultado foi um “sucesso” bem maior do que o esperado. A formação compacta de mais ou menos 200 bombardeiros, concentrou o seu ataque bem no coração da sua zona histórica, mais concretamente, numa área urbana situada entre dois braços de rio. Tratava-se de uma “ilha” urbana onde se situavam muitos dos principais monumentos e casas que eram a imagem de marca de Lubeck. Logo no começo do bombardeamento, começaram a surgir aqui e ali incêndios isolados, que não pareciam gerar ainda grande problema. O facto foi que no espaço de mais ou menos vinte minutos, os fogos começaram a unir-se uns aos outros, dando origem a uma conflagração que se espalhou, quase incontrolavelmente, pelas ruas estreitas da zona medieval de Lubeck.


Só na manhã seguinte se conseguiu controlar e extinguir o grande incêndio. O resultado, segundo fotografias aéreas tiradas algum tempo depois, foi a destruição da maior parte da área urbana desse centro histórico de Lubeck. Dias mais tarde, foi a vez de se executar uma missão idêntica em Rostock, cidade portuária situada na mesma linha costeira, mas mais a Leste. As razões de escolha deste alvo foram semelhantes ao anteriormente referido e os resultados do ataque aéreo foram similares, reforçados pela ocorrência de outros durante o mês de Abril de 1942.






Como outro argumento para a escolha destas localidades, Arthur Harris afirmou que era preferível ter sucesso a bombardear uma cidade de pouca importância estratégica, do que fracassar no ataque a uma de grande importância. A acrescentar, salientou a necessidade de treinar as suas esquadrilhas nestas novas tácticas de incursão. Os resultados que se observaram comprovaram as suas teorias e deram-lhe coragem para empreender novas missões do mesmo género, para além de um forte apoio por parte de diversos sectores da sociedade inglesa. Afirmava-se, então, que o povo britânico, tal como os outros defensores da causa aliada, estava farto de tantos insucessos nesse começo de conflito e que qualquer resultado favorável ou, pelo menos, de consequências visíveis, teria um efeito muito positivo no seu moral. Nessa fase da guerra, era o que estava a acontecer, graças à nova política de bombardeamento, encabeçada por Arthur Harris que cumpria a promessa de uma resposta suficientemente dura para o inimigo, tal como os dirigentes haviam prometido para as suas nações.



Foi na sequência disto que, com cada vez maior regularidade, as principais cidades da Alemanha, entre estas Colónia (em cima) e Frankfurt (em baixo), foram sujeitas a bombardeamentos cada vez mais destruidores, que arrasaram quase por completo os seus centros históricos. Inicialmente, os bombardeamentos eram preferencialmente nocturnos, mas com a progressiva conquista do domínio aéreo, sobretudo a partir de 1944, estes começam a não ter uma fase do dia definida, complicando ainda mais as tácticas defensivas das zonas atacadas. Para além disto, é preciso não esquecer o apoio cada vez mais regular, já a partir de 1942, por parte da força aérea dos E.U.A. Inicialmente, esta encarregou-se de efectuar os bombardeamentos diurnos, mais precisos, sobre alvos exclusivamente militares e industriais, enquanto a R.A.F. concentrava os seus esforços no bombardeamento nocturno dos principais centros urbanos. No último ano de guerra, com a Luftwaffe alemã desorganizada e em clara desvantagem, ambas as forças aérias atacavam de dia e de noite, por vezes associadas.




Com o passar do tempo, apesar das criticas que, mais para o final do conflito, foram chegando da parte de alguns sectores da sociedade, como, por exemplo, a Igreja, Arthur Harris, em face dos resultados e da conjuntura já claramente favorável para os aliados, manteve uma crescente convicção nos seus métodos de ataque aéreo. Chegava mesmo a protestar com veemência, quando lhe era pedido que a sua força de bombardeiros, se desviasse das áreas urbanas inimigas, para ir apoiar outras missões essenciais para o avanço dos Aliados. Exemplo disto, foram os bombardeamentos tanto diurnos como nocturnos, das vias de comunicação necessárias à deslocação da Wehrmacht e suas linhas de abastecimento, quer na fase preparatória do “Dia D”, quer no posterior apoio aéreo necessário para uma mais rápida progressão no terreno.
Logo a partir do Outono de 1944, com o seu Comando de Bombardeiros a ser menos requisitado para missões de apoio aos avanços no terreno, Arthur Harris retomou a sua política de ataques aéreos maciços e sistemáticos, sobre cidades germânicas. Muitos consideraram e, ainda mais hoje consideram, a continuação desta política nesta fase do conflito como algo discutível. Isto porque a Alemanha estava numa situação de eminente derrota, já não tinha praticamente condições de executar contra-ataques, estava apenas na defensiva, com muito das suas linhas de comunicação inoperacionais e a sua produção industrial havia caído para níveis mínimos. Para além disto havia falta de combustível e, também associado a isto, a sua força aérea estava desorganizada e derrotada pelas esquadrilhas aliadas que podiam alcançar qualquer ponto do seu território.
Por outro lado, na maior parte das cidades mais importantes, já estava destruída a maior parte das suas áreas centrais e limítrofes. Isto produziu a estranha situação de o Comando de Bombardeiros, já escoltado por formações adicionais de caças, começasse a ter escassez de alvos importantes intactos, ou seja, cidades importantes em tamanho e situação estratégica. Foi desta forma que, com mais vigor do que nunca, cidades de tamanho médio ou pequeno, antes não consideradas alvos seleccionáveis, começam a ser bombardeadas num relativamente pequeno espaço de tempo.
Nesta fase do conflito, a Alemanha só ripostava através das recentemente desenvolvidas armas V1 e V2, o que já não tinha qualquer impacto na mudança do curso dos acontecimentos. Muitas falham os alvos pretendidos, mas as que acertam, principalmente no que se refere às V2, precursoras dos futuros foguetões balísticos, causam estragos de salientar. Estas absurdas retaliações associadas à descoberta sucessiva dos campos de concentração, constituirão, para todos aqueles que, por múltiplas razões, incentivavam a política de bombardeamentos maciços de Arthur Harris, uma motivação para se continuar a proceder assim quase até ao final da guerra.









No entanto, principalmente depois da destruição da cidade de Dresden, sem defesas aéreas e submergida em refugiados vindos do Leste, para escapar ao Exército Vermelho soviético, e também por outros que a julgavam segura por, nesse começo de 1945, ser a maior cidade alemã virtualmente intocada, as atitudes começaram a mudar radicalmente, tanto da parte dos dirigentes aliados como de muita imprensa mundial. Começou-se a considerar como excessiva a destruição sistemática das povoações germânicas, senão desnecessária. Mesmo o próprio Primeiro-Ministro Winston Churchill que havia dado carta branca e toda a liberdade de acção ao seu fiel amigo Arthur Harris, começou a mostrar preocupação relativamente às dificuldades que se iriam encontrar na tentativa de gerir uma nação virtualmente reduzida a escombros e com a sua população atingida pela miséria e pela doença. Desta forma, muitos dos que, assumida ou secretamente, haviam apoiado a política de desmoralizar o inimigo germânico através dos bombardeamentos aéreos sistemáticos e cada vez mais frequentes, começaram a tentar desligar-se dessa questão. No entanto, as consequências estavam bem à vista, no final do conflito bélico na Europa. Começava-se a olhar com compaixão para os alemães agora libertos do jugo nazi, ao mesmo tempo que se começava a iniciar uma política de aproximação dos aliados ocidentais aos seus anteriores inimigos, contrariamente ao que ao que estava a acontecer ao seu antigo aliado soviético, encarado agora como uma ameaça para o resto do Mundo. A nova Alemanha deveria servir de “nação-escudo” para deter o “avanço do Comunismo”, por isso, logo após 1945, a Alemanha seria também incluída no “Plano Marshall” de recuperação e ajuda económica.
Foi nesta conjuntura que houve a necessidade dos países aliados, em especial a Grã-Bretanha, limparem a sua imagem perante o resto do Mundo. Era quase urgente encontrar um “bode expiatório”, para as consequências dramáticas da guerra aérea contra a Alemanha e seus aliados. Não foi difícil fazer cair a quase totalidade das eventuais culpas sobre Sir Arthur Harris e o seu antes considerado tão heróico e sacrificado Comando de Bombardeiros. A consequência imediata desta autêntica campanha de desacreditação de Arthur Harris foi nem ele nem ninguém do seu comando receberem, no final da guerra, qualquer condecoração, ao contrário de todas as outras secções e respectivos oficiais. Podia-se dizer que Arthur Harris havia caído em desgraça e havia mesmo quem o considerasse um criminoso de guerra com direito a julgamento em Tribunal.
Até ao fim da vida, como comprovam alguns escritos pessoais e entrevistas que lhe foram feitas quando já tinha passado a barreira dos 80 anos, Sir Arthur Harris nunca mostrou quaisquer sinais de eventual arrependimento por acções bélicas cometidas no seu passado de oficial da R.A.F. Com um poder de argumentação quase imbatível, sempre encontrou razões para ter tomado as medidas que tomou. Apesar de ter sido apenas a ponta de lança de um grande, poderoso, multifacetado, transnacional e bem colocado lobby que defendia a utilização sem limites de todos os meios possíveis, mesmo que injustificáveis, para levar à derrota absoluta o seu inimigo bélico de 1939-45, Sir Arthur Harris, apesar de não se considerar o único a quem se poderá apontar o dedo, procurou nunca implicar ninguém. Isto porque ele, até ao fim, nunca admitiu que, durante a sua liderança do Comando de Bombardeiros da R.A.F., alguma vez se tivesse cometido algum erro de assinalar, quanto mais algum crime de guerra. Apesar de tudo, foi coerente na sua conduta pessoal: estava-se em guerra, o inimigo tinha de ser combatido até ao fim, sem dó nem piedade. Não existem “guerras limpas”, ponto final.

Depois do seu falecimento, em 1984, foi-lhe erigida uma estátua em bronze. De diversos locais, não só na Alemanha ou da parte de muitos dos seus residentes em terras de Sua Majestade, levantaram-se vozes indignadas contra esta última homenagem a figura da história bélica do Séc. XX, tão polémica quanto interessante. A verdade é que nos tempos que se seguiram à sua inauguração, com relativa frequência, o memorial do “Bomber” Harris, foi pichado e coberto de tinta vermelha. Na sequência disto, a estátua passou a ter “segurança pessoal” 24 horas por dia.

Sir Arthur Harris - parte 1

Arthur Harris, nascido em Cheltenham no ano de 1892, foi uma das personalidades militares mais polémicas do século XX. Foi marechal do Comando de Bombardeiros britânico durante a maior parte da Segunda Guerra Mundial. Este comando era uma secção da Royal Air Force, com a principal função de executar operações de bombardeamento aéreo nos territórios sob o domínio do 3º Reich de Hitler, quer se tratasse da própria “Grande Alemanha”, como dos seus países aliados ou conquistados. Na teoria, o papel de qualquer força aérea seria o de apoiar as missões terrestres, graças à sua maior capacidade de avanço que lhe permitia alcançar as zonas a atacar mais rapidamente ou a dar uma resposta mais eficaz aos ataques dos inimigos, quando não era possível alcançá-los por via terrestre. Ao atacar o inimigo, a força aérea reduzia-lhe a capacidade de defesa e de ataque, tornando muito mais fácil o avanço das tropas terrestres. Podia-lhe causar mesmo, com maior ou menor sucesso, danos na sua zona de retaguarda, que estaria, em princípio, a salvo das investidas dos exércitos, e onde estariam as suas reservas tanto de homens como de materiais, chegando mesmo a ser um perigo sempre constante para as suas essenciais linhas de abastecimento.

Graças aos avanços tecnológicos conseguidos desde o final da Primeira Guerra Mundial, os aviões foram-se transformando em máquinas cada vez mais sofisticadas, dotadas de maior velocidade, maior zona de alcance e maior capacidade destrutiva. Um outro aspecto fundamental, foi a sua maior autonomia, que lhe permitiria executar as suas missões com uma antecedência muito significativa, relativamente aos progressos conseguidos a nível terrestre. Por um lado, poderia quase levar à derrota as forças inimigas, fazendo com que os exércitos terrestres convencionais quase não tivessem que sofrer baixas significativas ao alcançar os seus alvos, por outro, poderia, em situação defensiva, atrasar o avanço dos atacantes, mesmo que não existisse uma força terrestre devidamente organizada. Aliás, aos olhos mesmo dos próprios civis, as forças aéreas haviam começado a surgir como muito mais temíveis do que os próprios exércitos convencionais, por poderem levar a destruição e a morte muito mais longe, quase independentemente da distância real a que os seus inimigos se encontrassem.

A década de 1930 foi profícua em demonstrações da crescente capacidade do avião enquanto máquina de guerra. Dois exemplos dessas demonstrações foram a invasão da Manchúria pelo Japão imperialista no começo dessa década e a Guerra Civil Espanhola de 1936-39, onde se bombardearam indiscriminadamente populações civis, como forma de as aterrorizar, afectando-se negativamente o seu moral.
Conscientes dos efeitos destruidores e mortíferos dessa então moderna arma de combate, diversos países, nomeadamente a Grã-Bretanha e os EUA, haviam prometido, em caso de guerra, fazer os possíveis por não atacar alvos civis e procurar sempre centrar os ataques no que tivesse valor militar, estratégico e, quando muito, industrial. Isto implicaria, desde logo, a necessidade de aumentar a precisão dos ataques e tal só seria possível vendo bem esses alvos, através de voos a não muito grande altitude e de preferência diurnos e sem grande nebulosidade. No entanto, a partir do estalar da 2ª Guerra Mundial, em 1939, estas premissas começaram a ser postas em causa. Isto porque uma boa e precisa visibilidade dos alvos, implicaria, também ficar ao muito fácil alcance dos meios de defesa anti-aérea, o que tornaria, decerto, qualquer ataque aéreo num perfeito suicídio para os seus pilotos, para além de se revelar extremamente dispendioso em termos materiais para a força atacante.
De facto, os acontecimentos logo nos primeiros anos do conflito bélico, não fizeram mais do que comprovar estas evidências. A Royal Air Force, depois da capitulação da França e da evacuação de Dunquerque, era a única força militar que, na prática, se mantinha em combate contra o surpreendentemente rápido avanço das tropas do 3º Reich nazi, excluindo alguns corpos expedicionários que defendiam os seus territórios coloniais e foram chegando, quase a conta-gotas, ao continente africano. Nos primeiros anos do conflito mundial, a Grã-Bretanha só dispunha com capacidade de resposta imediata, as suas R.A.F. e marinha Royal Navy. De facto, só esta última, no começo, podia fazer verdadeiramente frente às forças bélicas de Hitler. A Royal Air Force ainda não dispunha de uma capacidade material e, sobretudo, numérica para superar o então superior poderio aéreo da Luftwaffe.
Por outro lado, os ataques aéreos que a Luftwaffe estava a efectuar sobre os territórios que invadia, bem como as informações dos seus danos, estavam a provocar um sentimento de crescente receio nas populações dos países aliados e neutros. Muitas vezes optava-se por quase não oferecer grande resistência aos invasores, por se temer as represálias destes. Isto também contribuiu para criar uma imagem de invencibilidade das forças do 3º Reich, que já havia de certa forma, sido fomentada nos anos imediatamente anteriores à 2ª Guerra Mundial, graças, em grande parte, ao enorme esforço propagandístico por parte dos seus governantes nacional-socialistas.

Era, de facto, verdade que os meios materiais à disponibilidade da Alemanha nazi, no começo do conflito, eram modernos e sofisticados, se comparados com muito do que, na prática, existia à disposição dos outros países. Tanto no que se referia aos muito utilizados veículos motorizados pela Wehrmacht, como à sua aviação e força naval, destacando-se, neste último caso, o predomínio dos submarinos. A sua frota de superfície, era visivelmente inferior à da Grã-Bretanha, mas mostrava uma crescente tendência para aumentar de poder, nomeadamente com a construção de alguns imponentes couraçados, com destaque para o famoso Bismark. No entanto, muitos destes vastos meios bélicos resultavam de projectos concebidos na década de 1930 e que ainda não haviam sido experimentados em combate. Havia, como é claro, a tendência para fabricar em série vários exemplares dos mesmos modelos, de forma a se conseguir um bom contingente numérico e, se não se havia descoberto nenhuma falha, mesmo que mínima, havia que seguir em frente nesse mesmo caminho. Dessa forma, foi com esta capacidade material, nunca testada numa guerra real, que a Alemanha nazi, partiu à conquista do mundo.

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

A "Bastilha"


Um dos acontecimentos mais marcantes da história de Coimbra e da sua Academia é a “Tomada da Bastilha”. É ainda hoje festejado pelos estudantes, todos os anos, a 25 de Novembro. Foi na madrugada deste preciso dia, no já distante ano de 1920, que, pela primeira vez desde havia mais de três décadas, os estudantes de Coimbra conquistariam para a sua Associação Académica uma sede digna desse nome. Depois de ter sido forçada a abandonar o edifício do antigo Colégio Real, vulgo Teatro Académico, demolido em 1889, a sede da Associação Académica esteve instalada em diversos locais, entre estes o Colégio da Trindade, nem sempre nas melhores condições.
Em 1913, a sede da AAC acabou por se fixar no andar térreo de um grande edifício localizado na Rua Larga, por decisão do Senado Universitário. No andar nobre deste edifício, incluindo a mansarda, estava instalado o Instituto de Coimbra, vulgarmente designado por “Clube dos Lentes”. Durante anos, os estudantes viram-se confrontados com instalações acanhadas e com fracas condições de higiene e comodidade, para além das relações nem sempre pacíficas com os vizinhos de cima. Por fim, na madrugada do dia 25 de Novembro de 1920, um grupo de estudantes decide tomar de assalto as instalações do referido instituto. A partir de então, todo o edifício ficou destinado para a Associação Académica de Coimbra, e passou a ser designado por “Bastilha”, em memória daquela demonstração de ousadia e arrojo por parte da Academia.
Originalmente, este edifício fora construído para albergar o Colégio de S. Paulo, o Eremita, fundado em 1779, também designado por Colégio dos Paulistas. Tinha um portal nobre encimado por uma igualmente majestosa varanda e a particularidade da sua construção nunca ter sido definitivamente concluída, por não ter sido edificada a parte a nascente, daí a sua entrada aparecer à esquerda. Mesmo assim, tinha frente para três ruas diferentes, a Rua Larga, onde estava a sua entrada principal, a Rua do Borralho e a Rua do Guedes, onde ficavam as traseiras. Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, este edifício foi entregue à Universidade. Foi destinado a diversas funções ao longo dos mais de cem anos que se seguiriam, tendo nos seus últimos anos de existência albergado, como já foi referido atrás, a sede da AAC.
Por fim, em Agosto de 1949, a Academia é obrigada a deixar definitivamente a sua velha sede da Rua Larga, devido às implacáveis demolições para a “Cidade Universitária” que, então, já haviam destruído muito da Velha Alta. O fim deste antigo Colégio dos Paulistas já havia sido anunciado pelo Reitor em Março de 1948. Logo antes de se iniciar a sua demolição, que decorreria de Setembro a Dezembro de 1949, os estudantes fizeram uma récita de despedida à sua “Bastilha”.

Um cadáver adiado?



O Museu Nacional da Ciência e da Técnica, criado em 1971, mas só oficialmente inaugurado em 1976, constituía, na época uma instituição quase pioneira em terras portuguesas. Resultou do amor pela divulgação científica e do génio empreendedor do Professor Mário Silva e foi o corolário de toda uma vida de dedicação à Ciência, tantas vezes dificultada por razões de natureza política. Basta recordar que o Professor Mário Silva, tendo nascido em 1901, viveu os seus anos intelectualmente mais produtivos, ou seja, a maior parte da sua vida, debaixo do jugo ditatorial do Estado Novo. Devido ao seu espírito inconformista e interventivo, nomeadamente ao participar activamente nos movimentos políticos de oposição que se seguiram a 1945, seria alvo, mais do que uma vez, de detenções por parte da PIDE, tendo sido a primeira em 1946. Na sequência desta situação, encabeçou, no ano de 1947, uma vasta lista nacional de professores expulsos ou “aposentados compulsivamente” do ensino universitário. Só seria integrado em 1976, quase dois anos depois do 25 de Abril. Seria então, nesse ano de 1976, que, após cinco longos anos de trabalhos de investigação e escolha criteriosa de peças a expor, se inauguraria o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, cuja sede e edifício principal ficaria, a partir daí, instalada no Palácio Saccadura Botte, sito na Rua dos Coutinhos, em Coimbra. Mário Silva seria o seu primeiro director, mas só teria pouco mais de um ano para exercer o seu cargo, pois faleceria em Julho de 1977. Pretendia-se ainda que este Museu tivesse, em diversos pontos do país, várias secções, destinadas à realização de diferentes exposições. Tal não se chegou a concretizar, tendo os poucos espaços adicionais conseguidos, ficado destinados a armazenar, com as condições possíveis, as reservas do Museu.
Como forma de aumentar os espaços expositivos disponíveis, foi cedido, a partir de 1993, uma série de divisões de um piso do antigo Hospital do Colégio das Artes, onde, actualmente, se encontra o grosso do espólio do agora designado Museu Nacional da Ciência e da Técnica Mário Silva. No entanto, parece que desde o falecimento do seu criador e primeiro director, a instituição entrou num estado de progressiva letargia, quebrado, de quando em quando, por alguma iniciativa temporária e sem a divulgação devida.
Numa tentativa de revitalizar o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, foi criado, em 1999, o Instituto de História da Ciência e da Técnica, instituição pública e directamente financiada pelo Ministério da Ciência. Aliás o MNCT, e este instituto público estiveram, na prática, fundidos num só. O seu director, durante este infelizmente muito curto período, foi o Professor Doutor Paulo Trincão, que exerceu o seu cargo com a dedicação máxima e como uma das maiores missões da sua vida. Muitas expectativas foram criadas para este novo período que então se iniciava, nomeadamente a nível de projectos de investigação, muitos deles directamente financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). O Museu, sob a alçada do promissor Instituto de História da Ciência e da Tecnologia, pareceu entrar numa fase há muito esperada de dinamização. Entre as medidas de maior monta, estavam a informatização de todo aquele espaço, associada à sua pretendida inserção na Rede Portuguesa de Museus (RPM), bem como (finalmente) uma cuidadosa inventariação e tratamento das peças que constituem o seu vasto e multifacetado espólio. No entanto, devido em grande parte a questões de financiamento, o processo de constituição de um museu científico segundo os moldes mais actuais e praticados noutros países, não foi correndo com a celeridade pretendida. De qualquer forma, as expectativas mantinham-se altas.
Esta pretendida nova fase, encontraria o seu fim prematuro na sequência de uma imprevista mudança de Governo, ocorrida em 2002. O recém-criado Ministério da Ciência e do Ensino Superior, sob o pretexto de uma necessidade de contenção de gastos para reduzir o já tão falado “défice”, decidiu-se por suspender o financiamento de uma série de institutos públicos, muitos deles criados nas imediatamente anteriores legislaturas, considerados “supérfluos”. Sem financiamento, acabava-se o oxigénio que lhes permitiria viver ou, apenas, sobreviver. Entre estes institutos, acabou por se ver, incompreensivelmente, incluído o Instituto de História da Ciência e da Técnica, sob a alçada do qual estava o Museu Nacional da Ciência e da Técnica. Em Maio de 2002, começa o processo de extinção daquele instituto de investigação público e o seu director, Paulo Renato Trincão, decide apresentar a sua demissão.
Na sequência disto, para além do respectivo pessoal trabalhador e diversos bolseiros com investigação em curso ou acabada de iniciar, temeu-se pela sorte do Museu criado pelo Professor Mário Silva. Chegou a ser sugerida a sua transferência para outra localidade, em alternativa à irremediável perda que constituiria a sua quase previsível extinção. Muitos pugnaram, com sucesso, até ver, pela permanência deste Museu Nacional em Coimbra. Apenas se conseguiu isto, o que já não foi nada mau, mas a sua situação tem continuado, até agora, sem um rumo definido. Considerado como “salvo” da má sina e sob os auspícios de uma nova direcção, decidiu-se renomear a instituição como Museu Nacional da Ciência e da Técnica Mário Silva, destinado a ser integrado num projecto futuro, mais vasto e abrangente, designado como “Museu do Conhecimento”, que pretende englobar as instituições museológicas da Universidade de Coimbra. Foi no sentido de se concretizar esta ambiciosa rede museológica, que foi projectado e construído, ao longo de vários anos, o actual Museu da Ciência, inaugurado a 5 de Dezembro de 2006, no antigo Laboratório Químico da época pombalina e que constituiu uma obra notável.
Não se pode considerar o Museu da Ciência um verdadeiro sucessor do quase extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica. São duas instituições criadas autonomamente e que foram concebidas em contextos diferentes. Devido à sua localização muito próxima relativamente ao MNCT, o Museu da Ciência, numa situação ideal, seria uma extensão daquele, ou melhor dizendo, o “cartão de visita” através do qual aquele (MNCT) melhor se apresentaria ao público e o corolário de todas as actividades aí desenvolvidas. Não sendo o que na presente situação acontece, o Museu da Ciência poderá talvez ser uma forma de todos, inclusive os sucessivos Governos, terem sempre presente o valor da outra instituição que ali existe e que corre sérios riscos de morrer de esquecimento. Em suma, o novo Museu da Ciência deveria ser a tábua de salvação de uma instituição carregada de História e construída ao longo de anos com o suor e o empenho de tantos e que contribuiria, verdadeiramente, para recolocar a cidade de Coimbra no mapa das instituições de investigação científica mundiais.

Sábado, Dezembro 08, 2007

Ultimate Spinach



Ultimate Spinach consistiu numa banda originária de Boston, inserida no vasto conjunto de grupos musicais surgidos pela América fora no final dos anos 60, com especial destaque para a West Coast, mais concretamente Califórnia e a sua cidade S. Francisco. Pode-se afirmar que cada cidade norte-americana viu nascer uma multidão de conjuntos musicais, tentando conquistar o seu lugar ao sol e, igualmente, desaparecer muitos deles num curto espaço de tempo. Isto já havia, de certa forma, acontecido em solo britânico anos antes, na sequência do êxito estrondoso de grupos como os Beatles e outros. Uma grande parte desses grupos teve vida curta, quase sempre associada a fraco êxito. Isto acontecia devido não só devido à eventual falta de talento musical dos seus elementos, mas também à rápida saturação do mercado, o que fazia com que o público ouvinte não desse vazão a toda a oferta que lhes era oferecida. Por outro lado, as editoras e os produtores existentes teriam de escolher apenas alguns em que investir o tempo e o capital necessário, pondo de parte todos os outros, onde até poderia haver muitos talentos desperdiçados. Nesta escolha intervinham, não só razões de natureza logística e financeira, mas também os critérios de gosto pessoais dos grandes magnatas e coisas tão comezinhas como a maior ou menor simpatia que estes nutriam por aqueles que a eles recorriam como uma possível porta para o êxito.
É preciso não esquecer que os responsáveis pelas editoras, os produtores com algum poder e nome na praça e todos os outros que teriam o poder de decidir acerca da sorte dos artistas, eram muitas vezes de uma geração anterior à destes, não raras vezes pais de família e com filhos da mesma idade. Isto sem referir os que não tinham afinal grande sensibilidade musical. Nos anos 60 os grupos musicais das novas correntes, na generalidade, ainda eram olhados como maus exemplos pelas gerações mais velhas como um mau exemplo para os mais jovens, que eram atraídos pelo seu som e estilo revolucionários. Desta forma, terá havido projectos musicais, de real qualidade, que não tiveram o reconhecimento devido e, muitas vezes, o êxito merecido durante os seus breves anos de existência. Muitos só tiveram oportunidade de deixar obra gravada, graças precisamente ao apoio empenhado de produtores e managers da mesma geração e com poucos meios disponíveis.
Entre estes grupos estavam os Ultimate Spinach. Este grupo foi fundado em 1967 e só gravaria 3 álbuns entre 1968 e 1969. Não é possível definir com clareza o estilo em que estes se inseriam, mas há quem classifique, muito genericamente, este grupo de “alternativo”, devido, entre outros aspectos, ao facto de não estarem inseridos em nenhuma das principais editoras e o seu êxito ter sido muito reduzido. Aliás, esta banda só foi verdadeiramente conhecida nos E.U.A., onde, mesmo hoje, é considerada uma curiosidade do seu tempo e algo obscura.
O seu primeiro álbum, "Ultimate Spinach" , teve uma recepção algo moderada por parte do público e o interesse que suscitou, nesse começo de 1968, deveu-se, em grande parte, ao efeito da novidade e ao facto do seu som e das suas letras "combinarem bem" com o cenário onde a moda hippie estava no auge e os movimentos de contra-cultura proliferavam. O ponto forte destas canções residia essencialmente na música, onde se privilegiava o virtuosismo e a capacidade inventiva de Ian Bruce-Douglas, o vocalista e poli-instrumentista do grupo, que era também o principal compositor. As suas qualidades de letrista e cantor eram, no entanto, muito limitadas. No que respeita às capacidades vocais, estas eram incontestáveis no que se refere a outro membro fundador do grupo, a cantora Barbara Hudson. Aliás, seria ela o único elemento do grupo que permaneceria na formação ao longo das suas constantes entradas e saídas de músicos. Esta inconsistência no que respeita aos elementos do grupo, seria também um factor determinante na sua curta existência.
Após a dissolução da formação que havia participado na gravação do primeiro disco, Ian Bruce-Douglas e Barbara Hudson decidem reformar os Ultimate Spinach recrutando, desta vez, artistas escolhidos a dedo e com experiência comprovada, incluindo o baterista Russ Levin. É desta forma que começam as muito exigentes sessões de gravação para o álbum seguinte "Behold and See" . Mais uma vez, Ian Bruce-Douglas escreve a totalidade das canções e encarrega-se dos arranjos até ao pormenor, para além de tocar diversos instrumentos. O facto de ser ele, de novo, o principal vocalista, constitui, para diversos críticos, um elemento desvalorizador da qualidade das canções. Consciente ou não disto, decide convidar uma outra cantora, uma certa Carol Lee-Britt, a qual, estranhamente, não surge como um elemento "oficial" do grupo. No entanto, esta revela-se uma vocalista de muito maior qualidade nos dois temas apenas onde participa. Ian Bruce-Douglas pretendia fazer deste álbum a sua grande obra-prima e daí o seu maior investimento em tempo, dinheiro e saúde. O álbum consistia em oito canções, seis delas de duração muito superior a 5 minutos, onde, mais uma vez, a temática versará à volta dos mais diversos temas, com especial destaque para a sociedade, relações humanas e a imaginação. Como acontece com a generalidade dos álbuns, nunca foi posta de parte a ideia de retirar um ou dois singles, que poderiam ser potenciais êxitos em novos públicos. Desta forma, surgem dois temas "Behold & See (Gilded Lamp of The Cosmos)" e "Where you're at", menos complexos e com uma duração à volta dos 3, que são onde, precisamente, os temas onde a cantora convidada Carol Lee-Britt tem a oportunidade de brilhar.
No seu todo, pode-se dizer que o resultado foi um álbum mais amadurecido e uniforme, se comparado com o primeiro, embora surjam dois ou três temas a que é difícil aderir se escutados fora do contexto do álbum. O seu ponto forte situa-se, precisamente, no seu tema mais longo "Genesis of Beauty Suite (in four parts)". Não é decerto um álbum que conquiste nem fácil nem imediata adesão por parte da generalidade dos ouvintes comuns: este álbum destina-se a ser apreciado por ouvidos mais exigentes, os mesmos que consigam apreciar a mais elaborada e menos usual peça de música clássica e não se guiem pelas recomendações das estações de rádio.
Esgotado pelas gravações e desencantado com a fraca recepção que o álbum então teve, tanto por parte do público como da crítica, Ian Bruce-Douglas decide abandonar o grupo. No ano a seguir sai um terceiro álbum, "Ultimate Spinach III" que foi recebido pelo público e pela crítica com ainda maior indiferença. Da formação original, só restava Barbara Hudson.
"Behold and See" foi gravado e lançado nos últimos meses de 1968 e constituiu, decerto, um dos muitos elementos musicais do vasto pano de fundo onde, entre outros eventos, seria acolhido, no Verão do ano a seguir, o famoso espectáculo de Woodstock.
Um elemento adicional que contribui para o valor deste álbum é a sua original capa, muito expressiva e difícil de ignorar, a qual foi considerada também uma das melhores capas de LP de todos os tempos. A sua beleza exerce um efeito complementar da qualidade da música que se pode encontrar neste disco, compensando os momentos menos felizes que, uma vez por outra, aqui se detectam. Mesmo antes de se ouvir, já se tem o prazer de tomar contacto com este disco.

O Museu da Ciência (Coimbra)

Fez no dia 5 de Dezembro um ano que o Museu da Ciência foi oficialmente inaugurado em Coimbra. Neste espaço de tempo, este museu revelou-se uma instituição que há muito tempo fazia falta nesta cidade. Trata-se verdadeiramente de um museu dos novos tempos, pelo menos no que se refere aos requisitos hoje que devem ser atribuídos a uma instituição museológica científica. Na sua grande sala de exposições o visitante observa de perto e quase que vive algumas das múltiplas facetas do vasto mundo da investigação científica, desde os mistérios da Natureza desvendados ao longo de séculos de investigação até aos produtos dessa mesma investigação e o impacto que terão exercido nos progressos da Humanidade, sem esquecer as “ferramentas” a que foi necessário recorrer para executar essa investigação e ser (mais ou menos) bem sucedido. Neste último aspecto, entra também uma outra faceta desta instituição, onde o elemento museológico é reforçado. Trata-se do vasto espólio de materiais de laboratório e de experimentação, alguns deles com vários séculos de História e de diversas proveniências. Associado a isto, vale a pena referir que, apesar da grande tónica colocada na experimentação, o elemento teórico que ajuda o visitante a compreender melhor o que tem à sua frente, não foi descurado, como é bem visível na informação detalhada mas sucinta que é possível obter junto aos diversos elementos em exposição.
Por outro lado, é preciso não esquecer o espaço em que se insere este Museu da Ciência. O próprio edifício é um elemento museológico. É um dos não muitos frequentes exemplos de situação de espaço que não se construiu de raiz para o efeito, mas que surge plenamente vocacionado para as novas funções. Trata-se do antigo Laboratório Químico da Universidade de Coimbra da Reforma Pombalina, cujo edifício foi desenhado por William Elsden, arquitecto inglês muito cotado na época. Foi construído de raiz sob o espaço antes ocupado pelas cozinhas e refeitório do antigo Colégio das Onze Mil Virgens, pertencente aos Jesuítas que haviam então sido despojados dos seus bens por iniciativa do Marquês de Pombal. Durante os seus mais de 200 anos de utilização, este edifício foi sujeito aqui e ali a alguns acrescentos, tanto a nível do espaço circundante como do seu interior. No entanto, o essencial do Laboratório, permaneceu sempre fiel à sua construção original.
Devido ao seu crescente estado de degradação, o velho Laboratório Químico, foi encerrado há uns anos atrás, tendo ficado mais ou menos ao abandono, até ser posto em prática o projecto de o converter no actual Museu da Ciência. Durante os mais de dois anos em que decorreram as obras, foram feitas algumas descobertas curiosas provenientes do período anterior à construção do Laboratório, as quais, de alguma forma, protelaram a conclusão prevista do projecto e obrigaram mesmo a reformulações do projecto inicial. Entre estas, destacam-se vestígios dos subterrâneos de antigas secções do antigo Colégio dos Jesuítas, nomeadamente as cozinhas e o refeitório, e elementos arquitectónicos que foram integrados no novo edifício, sobretudo paredes, sem esquecer os restos de utensílios e louças, muito provavelmente antes pertencentes ao espólio da desaparecida instituição religiosa. Desta forma, para além dos objectos científicos, o visitante é presenteado com uma outra exposição permanente relativa à história tanto do Laboratório Químico, como daquilo que o antecedeu neste local, complementada por diversas fotografias e desenhos relativos às várias fases da sua conversão em Museu da Ciência. Estes elementos, reunidos e estudados ao pormenor, reforçam o valor patrimonial de todo este espaço e colocam questões e enigmas que não são mais do que o ponto de partida para novas investigações acerca da história deste espaço.

Domingo, Dezembro 02, 2007

Universidade - Património da Humanidade





Nos dias 29 e 30 de Novembro realizou-se no Auditório do Edifício Central da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, localizado seu no Pólo II, o Seminário “Univer(s)cidade – desafios e propostas de uma Candidatura a Património da Humanidade”. Trata-se de uma ideia já defendida desde há largos anos e por um número crescente de defensores. Este evento permitiu desenhar um quadro acerca das acções que será necessário desenvolver no futuro de forma a tentar resolver ou pelo menos minimizar, toda uma série de problemas, muitos deles de longa data, como o mau estado de conservação de diversos edifícios da zona antiga da Alta coimbrã, bem como a progressiva desertificação habitacional do seu centro histórico, muitas vezes maioritariamente habitado por uma decrescente população idosa. Ao falar-se no valor patrimonial da Universidade de Coimbra, é impossível ficar-se confinado a este núcleo de edifícios, dissociando-os da área urbana envolvente. Por outras palavras, a própria cidade de Coimbra no seu todo e as pessoas que nela habitam, ou simplesmente lhe dão vida, estão envolvidas nesta temática, ainda que não sejam directamente mencionadas.
A pretexto disto, são feitas comparações com outras localidades, tanto em Portugal como no estrangeiro, onde foram ou estão a ser postas em prática políticas concertadas de salvaguarda do seu respectivo património, com especial destaque para a componente arquitectónica mas sem excluir outros elementos envolvidos, fazendo-se uma análise dos resultados entretanto obtidos, com maior ou menor sucesso, e os obstáculos que ainda existirão para ser ultrapassados. Foram referidos exemplos mais ou menos bem sucedidos de reabilitação urbana, nomeadamente nas cidades de Santiago de Compostela e Guimarães, bem como a forma como o desenvolvimento urbano das cidades pode ter alguns efeitos mais ou menos perniciosos para os respectivos centros históricos, tal como tem acontecido em Salvador da Bahia, no Brasil.

O Governo Civil (desaparecido)


Um dos maiores e mais emblemáticos edifícios a ser sacrificado à lepra destruidora que o plano das obras da nova “Cidade Universitária”, semeou como praga no coração da Alta de Coimbra foi o antigo Colégio de S. João Evangelista, mais conhecido como o Colégio dos Lóios, devido à cor azul do vestuário dos religiosos que, em tempos remotos, nele residiram.
De construção quinhentista, este vasto edifício ficou devoluto e entregue à Universidade de Coimbra, como aconteceu com outros, após a extinção das Ordens Religiosas regulares, por decreto de 1834. Após a venda do seu recheio em hasta pública, onde se incluiria decerto a sua biblioteca que, como tantas outras, desapareceria com a dispersão das suas obras pelos mais variados destinos, acabou por ser destinado a edifício de natureza civil. Graças ao seu generoso espaço interior, este edifício acabaria por ser ocupado por diversos serviços públicos, umas em períodos diferentes, outras em simultâneo, nomeadamente o Banco de Portugal, a sede da Junta da Província da Beira Litoral, Direcção de Finanças, Posto da PSP, Correios, Inspecção Escolar, Bombeiros e, claro, Governo Civil. Aliás, era sob este prosaico nome que muitos conheceram este grande edifício, que tinha frente para três ruas distintas. A sua fachada principal e emblemática era fronteira à Sé Nova, no Largo da Feira, sendo encimada por uma curiosa estátua em plinto do patrono S. João Evangelista com a auréola raiada; o seu lateral assimétrico ocupava todo um dos lados da Rua dos Lóios, via hoje desaparecida e a partir da qual era possível olhar a Sé Nova de frente; e a sua fachada posterior, menos interessante do ponto de vista arquitectónico, era visível na Rua Larga, mesmo em frente ao edifício onde se alojaria a Associação Académica, sendo por aqui que o público acedia aos serviços disponibilizados no seu interior.
Todo o edifício era uma construção assimétrica, como consequência do declive do terreno em que se implantara, dado que na fachada principal eram visíveis cinco pisos, enquanto na posterior, eram apenas dois. Após a extinção do Colégio dos Lóios, o seu edifício terá sido sujeito, aqui e ali, a algumas obras de adaptação, mas muito do que existia originalmente, terá permanecido até ao fim, mais ou menos fiel ao original. Entre estes elementos arquitectónicos, vale a pena salientar o seu claustro, onde era visível uma cisterna.
Numa tarde de finais de Novembro de 1943, o edifício do Governo Civil é atingido por um violento incêndio que, obviamente, causou pânico nas redondezas, principalmente por se estar em plena Segunda Guerra Mundial e ainda haver o receio de ataques aéreos. Viveram-se momentos de aflição, por se temer que o fogo alastrasse às casas vizinhas, o que, com grande aparato, acabou por ser evitado. Tentou-se salvar o que podia do seu recheio mas aqui, muita coisa se perdeu, principalmente a nível de documentação de diversa natureza. Os militares também terão dado uma ajuda preciosa, na tentativa de minorar os estragos. Como solução desesperada, grandes volumes de documentação são atirados pelas janelas do edifício em chamas. Nunca se apuraram as verdadeiras causas deste incidente, embora a tese oficial tivesse sido a de provável acidente, devido ao visível estado de degradação do imóvel e à abundância de materiais inflamáveis no seu interior. Há quem fale em ter sido propositado e ter tido relação directa com as obras da Cidade Universitária, que se haviam já iniciado na Primavera desse ano de 1943.
No começo de 1944, o edifício do Governo Civil vê a sua demolição muito antecipada, tornando-se, desta forma, no primeiro edifício a desaparecer da Rua Larga. A grande estátua de S. João Evangelista que encimava a sua fachada nobre é hoje a sua única recordação existente e encontra-se actualmente no centro de um largo (Largo de S. João) situado num núcleo habitacional próximo de Celas, construído para albergar muitos dos desalojados em consequência das demolições da Velha Alta.