
Arthur Harris assumiu o seu lugar à frente do Comando de Bombardeiros da R.A.F. no final de Fevereiro de 1942. Tal como muitos outros oficiais e membros do Parlamento Britânico, sem falar no próprio Primeiro-Ministro Churchill, Harris estava profundamente desiludido com as tácticas de bombardeamento, até então, utilizadas sobre o território do 3º Reich. Fazia, por isso, parte de um vasto grupo de opinião que defendia a necessidade de uma mudança radical de atitude e estratégia.
Havia muito que os ataques aéreos eram efectuados de noite e a grande altitude, como forma de dificultar a intercepção por parte das defesas do inimigo. Isto tornava impossível qualquer tentativa de precisão dos alvos, tanto mais que a prática obrigatória dos “black-outs” nocturnos anulava praticamente qualquer vestígio de visibilidade dos mesmos. Os meios de navegação quase sempre se baseavam em coordenadas aproximadas quanto à localização de este ou aquele alvo, apesar de já se utilizar alguns meios de detecção por radar, mas que eram muito pouco precisos. Em suma, as missões eram, em grande parte, efectuadas às cegas, caindo grande parte das bombas fora do alvo pretendido. Do lado germânico, os meios de detecção das esquadrilhas invasoras estavam a conseguir cada vez maior precisão, o que agravava o risco de vida dos pilotos e ainda mais se tentassem reduzir a altitude de forma a precisar um pouco melhor os alvos.
Por outro lado, o povo britânico, tanto os civis como os militares, acabava de atravessar uma fase em que a evolução do conflito não lhes fora favorável, apesar de alguns reveses obtidos pelas forças do Eixo. Era certo que o inimigo tinha os seus pontos fracos e não era tão temível, a nível bélico, claro, como havia sido propalado ainda havia dois anos. Mesmo assim havia sempre um sentimento forte de insegurança em relação ao futuro: resistiam bem, mas até quando? Não havia dúvida que o optimismo pendia, então, mais para o lado do Eixo. Sem falar nas vias marítimas infestadas de submarinos “U-Boat” germânicos, apesar de já se lhes estar a dar uma melhor “resposta” e o temível couraçado “Bismark” ter já ido ao fundo no ano anterior.


Para além disto havia “contas a ajustar” com o inimigo germânico pelo inferno do Blitz, sofrido ainda há relativamente pouco tempo e pelos bombardeamentos, mais fracos e esporádicos, que ainda iam ocorrendo aqui e ali, apesar de muito das forças atacantes da Luftwaffe estar agora a ser canalizado para a “frente” Leste. Existia uma grande animosidade por parte da opinião pública aliada relativamente ao inimigo germânico, sem falar em sentimentos muito fortes de vingança por parte daqueles que haviam sofrido directamente as consequências dos ataques a nível de perdas materiais e humanas. Os seus dirigentes, tanto por razões de patriotismo e solidariedade, como de prestígio social e político, afirmavam-se plenamente do seu lado, através de discursos cada vez mais duros relativamente à sorte que esperaria os seus inimigos, principalmente a Alemanha, cujas cidades deveriam ser atacadas, se não, “arrasadas até aos alicerces”. Os alemães eram designados por “boches” e a sua nação representava, para os aliados, uma espécie de “Grande Satã”.

Foi neste contexto que o Marechal Arthur Harris, se sentiu encorajado a delinear as novas estratégias de ataque aéreo que já vinham sendo advogadas há algum tempo. Basicamente, estas tinham por trás as ideias básicas de que, por um lado, era irrealista qualquer tentativa para se distinguir alvos militares e civis a tão grande altitude e com visibilidade muito reduzida, por outro, a área de cada cidade em si, era o único alvo observável. Para além disto, havia a intenção de reduzir ao mínimo o número de perdas humanas e materiais entre as esquadrilhas enviadas para as missões de ataque. Se a reposição dos aviões perdidos, a determinada altura, já não seria pacífica em termos de custos, a perda de pilotos, muitos deles experientes e insubstituíveis, que levavam tempo a serem preparados e a ganhar a prática necessária, ainda menos.

Por outro lado, o Marechal Arthur Harris havia conquistado muito rapidamente um elevado carisma, se não adoração, junto dos seus “rapazes”. Ser piloto de guerra era, muitas vezes, entrar em missões quase suicidas e Arthur Harris, preocupava-se com a segurança dos pilotos do seu Comando de Bombardeiros. Esta atitude de proximidade só contribuiria para aumentar o respeito tanto por parte dos pilotos, como de outros oficiais da R.A.F.

Para além disto, muito da opinião pública britânica tinha-o, pelo menos durante aqueles anos de guerra, em conta muito elevada, para o que contribuía a sua imagem de homem de família extremoso.
Ainda que não tivesse sido ele o autor exclusivo da nova política de bombardeamento dos territórios inimigos, ele tomou para si a missão de a pôr em prática com grande afinco e determinação, de tal forma que, por vezes, roçava o fanatismo. Por mais do que uma vez, ele utilizara a expressão de que a Alemanha nazi havia “semeado ventos” e, por isso, iria “colher tempestades”. Arthur Harris defendia que os ataques aéreos, se deveriam concentrar nas grandes zonas urbanas, pretendendo, com isso, afectar em simultâneo a sua economia e, sobretudo, o moral das respectivas populações. Os alvos militares ou de importância estratégica, como zonas industriais, estações e linhas de caminho de ferro, aquartelamentos, aeródromos e zonas portuárias poderiam ser destruídos no decorrer dessas operações de bombardeamento em massa ou, por vezes, serem deixados para depois, quase como se fossem secundários. Inclusive, o facto de uma cidade incluir esses alvos na sua cintura urbana ou de estar simplesmente situada nas proximidades, havendo nesta situação várias em simultâneo, seria apenas um pretexto para as colocar na linha da frente das que iriam “experimentar” estas novas tácticas de bombardeamento.
Por outro lado, havia algum fundamento na escolha, ainda que criticável, pelas zonas habitacionais das cidades germânicas pois era certo que os trabalhadores das fábricas de material bélico e os militares teriam aí os seus lares e famílias. A perda dos respectivos bens e membros familiares teria decerto um efeito muito negativo tanto na capacidade produtiva dos indivíduos, como na sua vontade de combater. Para além disso, era certo e sabido que tanto a Luftwaffe como os seus exércitos no terreno haviam provocado, muitas vezes intencionalmente, vítimas civis, independentemente da sua faixa etária. Havia por isso um elemento, de certa forma, justificativo em incluir as populações civis germânicas no conjunto de alvos seleccionados. É preciso não esquecer, ainda, que a descoberta e confirmação da existência dos campos de extermínio, por parte das tropas aliadas, só ocorreria nos últimos meses da guerra.
Acima de tudo, antes da invasão da Normandia em 1944, a força aérea britânica e a sua aliada americana, eram praticamente as únicas forças bélicas que lutavam directamente contra o 3º Reich. Dessa forma, as populações aliadas e aquelas que haviam sido subjugadas pelas forças do Eixo, depositavam muitas esperanças na sua capacidade de enfrentar a Alemanha nazi.
Em termos técnicos, as novas directivas tanto apostavam nos novos progressos tecnológicos e científicos, como exigiriam a construção de diversos componentes que já existiam no papel. Por outro lado, o seu aperfeiçoamento dependeria muito dos resultados empíricos no terreno. As tácticas de ataque do inimigo germânico, bem como os diversos erros cometidos e a descoberta das suas múltiplas fragilidades, constituíram uma fonte de estudo muito importante na construção de novas aeronaves e no aproveitamento das existentes, sem esquecer o componente fundamental das bombas a utilizar e na forma de as lançar sobre o território inimigo. Neste último aspecto, houve mesmo uma perfeita aliança com a Ciência, que, durante aqueles anos, teria muito da sua “massa cinzenta” a colaborar no esforço de guerra.
Seria necessário ter à disposição uma força de bombardeiros progressivamente mais numerosa, investindo, preferencialmente, em aviões com capacidade de transportar cargas explosivas cada vez maiores, e reservatórios de combustível maiores, de forma a provocar num relativamente curto espaço de tempo uma maior e mais concentrada destruição e também a conseguirem aguentar viagens mais longas, de forma a alcançar alvos mais distantes. As novas séries de aviões quadrimotores e de grossa blindagem, com destaque para os “Avro Lancasters”, eram os que melhor satisfaziam os requisitos exigidos. Basta referir que a Alemanha nazi, muito agarrada às linhas de montagem há muito seguidas, não chegou a fabricar aviões com quatro motores, apesar de estes e mais outros de maior calibre já existirem no papel. Os seus aviões de bombardeamento eram bimotores e só alguns de transporte eram trimotores. A determinada altura o seu investimento fora canalizado para a construção de aeronaves sem piloto, a que, mais tarde, seria dado o nome de V.
Por outro lado, contrariamente ao que até então se pensava, entre uma carga maciça de bombas explosivas e a mesma quantidade de bombas incendiárias, descobriu-se que a destruição seria maior e mais medonha no segundo caso, principalmente em áreas urbanas. Estas já eram utilizadas em simultâneo, pelas duas facções beligerantes desde o começo da guerra, mas dava-se a primazia às bombas explosivas, como era clássico, surgindo as incendiárias como um complemento destruidor. A partir de agora, seria cada vez mais frequente uma nova proporção de bombas a transportar para os alvos seleccionados, nomeadamente, 1/3 de explosivas e 2/3 de incendiárias.
É preciso ainda não esquecer que, no que respeita à utilização de radares, a Grã-Bretanha, era já desde antes da 2ª Guerra pioneira nesta matéria, tanto a nível de meios à disposição no terreno, como de especialistas, os quais, desde o começo das hostilidades, haviam acelerado o ritmo das suas investigações, trabalhando dia e noite. Aliás, foi graças a este precioso avanço tecnológico, que a R.A.F. conseguiu sair vitoriosa da “Batalha de Inglaterra”. Era verdade que, do lado alemão também existia uma cobertura de estações de radar junto às zonas calculadas como estrategicamente importantes, algumas delas instaladas em ilhotas no Mar do Norte, que tinham a função de lançar os avisos prévios de ataque, de forma a dar tempo às defesas de se organizarem. Podia-se afirmar que, aparentemente, havia uma muito satisfatória cobertura de radar em solo germânico. O problema é que muitas das suas investigações neste campo, há pouco que tinham deixado a fase experimental. Relativamente à Grã-Bretanha, o seu potencial de radar era, na verdade, muito fraco e facilmente ultrapassável. Mesmo assim, as autoridades alemãs tinham uma confiança absoluta nas informações que aqueles lhes ofereciam. Não contavam era que fossem, ainda nesse ano de 1942, tão rapidamente ultrapassados pelos técnicos e cientistas britânicos.

Ao fim de mais ou menos um mês de ter tomado posse do seu novo cargo, Arthur Harris sentiu ter chegado a altura ideal para, senão pôr em prática as suas novas tácticas de bombardeamento, pelo menos experimentá-las. É então que lança a missão de bombardear a cidade portuária de Lubeck, na zona de Holstein, no Norte da Alemanha, na noite de 28 para 29 de Março de 1942. Esta antiga cidade hanseática, não se podia considerar de grande valor estratégico, apesar de ser algo famosa e dotada de um porto bem situado. A sua fama residia no facto de ser uma cidade portuária, muito rica em monumentos datados da Idade Média e com um centro medieval muito bem conservado, pejado de habitações pitorescas, onde se utilizavam muitos elementos em madeira. Para além disto, o núcleo da sua cidade inseria-se numa rede de ruas estreitas, como era próprio das povoações construídas na época medieval. Esta descrição poder-se-ia aplicar como o paradigma da maioria das cidades velhas alemãs.



Arthur Harris escolheu esta cidade em primeiro lugar, porque era mais fácil de localizar, dado encontrar-se junto à zona costeira, cujos contornos poderiam servir de orientação o voo nocturno das suas esquadrilhas de bombardeiros; em segundo lugar, por ser facilmente permeável aos incêndios e, por fim, dada a sua, teoricamente, pouca importância estratégica, era certo que estaria fracamente defendida. Arthur Harris tinha já exposto os seus planos estratégicos de bombardeamento por área aos seus superiores e ao Primeiro-Ministro Churchill. Muitos, no início mostraram-se cépticos quanto ao sucesso destas novas tácticas para o seu Comando de Bombardeiros. Desta forma, Sir Arthur Harris, tinha ainda sobre si a pressão de conseguir comprovar a validade das suas propostas, consideradas muito arrojadas.
O resultado foi um “sucesso” bem maior do que o esperado. A formação compacta de mais ou menos 200 bombardeiros, concentrou o seu ataque bem no coração da sua zona histórica, mais concretamente, numa área urbana situada entre dois braços de rio. Tratava-se de uma “ilha” urbana onde se situavam muitos dos principais monumentos e casas que eram a imagem de marca de Lubeck. Logo no começo do bombardeamento, começaram a surgir aqui e ali incêndios isolados, que não pareciam gerar ainda grande problema. O facto foi que no espaço de mais ou menos vinte minutos, os fogos começaram a unir-se uns aos outros, dando origem a uma conflagração que se espalhou, quase incontrolavelmente, pelas ruas estreitas da zona medieval de Lubeck.

Só na manhã seguinte se conseguiu controlar e extinguir o grande incêndio. O resultado, segundo fotografias aéreas tiradas algum tempo depois, foi a destruição da maior parte da área urbana desse centro histórico de Lubeck. Dias mais tarde, foi a vez de se executar uma missão idêntica em Rostock, cidade portuária situada na mesma linha costeira, mas mais a Leste. As razões de escolha deste alvo foram semelhantes ao anteriormente referido e os resultados do ataque aéreo foram similares, reforçados pela ocorrência de outros durante o mês de Abril de 1942.



Como outro argumento para a escolha destas localidades, Arthur Harris afirmou que era preferível ter sucesso a bombardear uma cidade de pouca importância estratégica, do que fracassar no ataque a uma de grande importância. A acrescentar, salientou a necessidade de treinar as suas esquadrilhas nestas novas tácticas de incursão. Os resultados que se observaram comprovaram as suas teorias e deram-lhe coragem para empreender novas missões do mesmo género, para além de um forte apoio por parte de diversos sectores da sociedade inglesa. Afirmava-se, então, que o povo britânico, tal como os outros defensores da causa aliada, estava farto de tantos insucessos nesse começo de conflito e que qualquer resultado favorável ou, pelo menos, de consequências visíveis, teria um efeito muito positivo no seu moral. Nessa fase da guerra, era o que estava a acontecer, graças à nova política de bombardeamento, encabeçada por Arthur Harris que cumpria a promessa de uma resposta suficientemente dura para o inimigo, tal como os dirigentes haviam prometido para as suas nações.

Foi na sequência disto que, com cada vez maior regularidade, as principais cidades da Alemanha, entre estas Colónia (em cima) e Frankfurt (em baixo), foram sujeitas a bombardeamentos cada vez mais destruidores, que arrasaram quase por completo os seus centros históricos. Inicialmente, os bombardeamentos eram preferencialmente nocturnos, mas com a progressiva conquista do domínio aéreo, sobretudo a partir de 1944, estes começam a não ter uma fase do dia definida, complicando ainda mais as tácticas defensivas das zonas atacadas. Para além disto, é preciso não esquecer o apoio cada vez mais regular, já a partir de 1942, por parte da força aérea dos E.U.A. Inicialmente, esta encarregou-se de efectuar os bombardeamentos diurnos, mais precisos, sobre alvos exclusivamente militares e industriais, enquanto a R.A.F. concentrava os seus esforços no bombardeamento nocturno dos principais centros urbanos. No último ano de guerra, com a Luftwaffe alemã desorganizada e em clara desvantagem, ambas as forças aérias atacavam de dia e de noite, por vezes associadas.
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Com o passar do tempo, apesar das criticas que, mais para o final do conflito, foram chegando da parte de alguns sectores da sociedade, como, por exemplo, a Igreja, Arthur Harris, em face dos resultados e da conjuntura já claramente favorável para os aliados, manteve uma crescente convicção nos seus métodos de ataque aéreo. Chegava mesmo a protestar com veemência, quando lhe era pedido que a sua força de bombardeiros, se desviasse das áreas urbanas inimigas, para ir apoiar outras missões essenciais para o avanço dos Aliados. Exemplo disto, foram os bombardeamentos tanto diurnos como nocturnos, das vias de comunicação necessárias à deslocação da Wehrmacht e suas linhas de abastecimento, quer na fase preparatória do “Dia D”, quer no posterior apoio aéreo necessário para uma mais rápida progressão no terreno.
Logo a partir do Outono de 1944, com o seu Comando de Bombardeiros a ser menos requisitado para missões de apoio aos avanços no terreno, Arthur Harris retomou a sua política de ataques aéreos maciços e sistemáticos, sobre cidades germânicas. Muitos consideraram e, ainda mais hoje consideram, a continuação desta política nesta fase do conflito como algo discutível. Isto porque a Alemanha estava numa situação de eminente derrota, já não tinha praticamente condições de executar contra-ataques, estava apenas na defensiva, com muito das suas linhas de comunicação inoperacionais e a sua produção industrial havia caído para níveis mínimos. Para além disto havia falta de combustível e, também associado a isto, a sua força aérea estava desorganizada e derrotada pelas esquadrilhas aliadas que podiam alcançar qualquer ponto do seu território.
Por outro lado, na maior parte das cidades mais importantes, já estava destruída a maior parte das suas áreas centrais e limítrofes. Isto produziu a estranha situação de o Comando de Bombardeiros, já escoltado por formações adicionais de caças, começasse a ter escassez de alvos importantes intactos, ou seja, cidades importantes em tamanho e situação estratégica. Foi desta forma que, com mais vigor do que nunca, cidades de tamanho médio ou pequeno, antes não consideradas alvos seleccionáveis, começam a ser bombardeadas num relativamente pequeno espaço de tempo.
Nesta fase do conflito, a Alemanha só ripostava através das recentemente desenvolvidas armas V1 e V2, o que já não tinha qualquer impacto na mudança do curso dos acontecimentos. Muitas falham os alvos pretendidos, mas as que acertam, principalmente no que se refere às V2, precursoras dos futuros foguetões balísticos, causam estragos de salientar. Estas absurdas retaliações associadas à descoberta sucessiva dos campos de concentração, constituirão, para todos aqueles que, por múltiplas razões, incentivavam a política de bombardeamentos maciços de Arthur Harris, uma motivação para se continuar a proceder assim quase até ao final da guerra.




No entanto, principalmente depois da destruição da cidade de Dresden, sem defesas aéreas e submergida em refugiados vindos do Leste, para escapar ao Exército Vermelho soviético, e também por outros que a julgavam segura por, nesse começo de 1945, ser a maior cidade alemã virtualmente intocada, as atitudes começaram a mudar radicalmente, tanto da parte dos dirigentes aliados como de muita imprensa mundial. Começou-se a considerar como excessiva a destruição sistemática das povoações germânicas, senão desnecessária. Mesmo o próprio Primeiro-Ministro Winston Churchill que havia dado carta branca e toda a liberdade de acção ao seu fiel amigo Arthur Harris, começou a mostrar preocupação relativamente às dificuldades que se iriam encontrar na tentativa de gerir uma nação virtualmente reduzida a escombros e com a sua população atingida pela miséria e pela doença. Desta forma, muitos dos que, assumida ou secretamente, haviam apoiado a política de desmoralizar o inimigo germânico através dos bombardeamentos aéreos sistemáticos e cada vez mais frequentes, começaram a tentar desligar-se dessa questão. No entanto, as consequências estavam bem à vista, no final do conflito bélico na Europa. Começava-se a olhar com compaixão para os alemães agora libertos do jugo nazi, ao mesmo tempo que se começava a iniciar uma política de aproximação dos aliados ocidentais aos seus anteriores inimigos, contrariamente ao que ao que estava a acontecer ao seu antigo aliado soviético, encarado agora como uma ameaça para o resto do Mundo. A nova Alemanha deveria servir de “nação-escudo” para deter o “avanço do Comunismo”, por isso, logo após 1945, a Alemanha seria também incluída no “Plano Marshall” de recuperação e ajuda económica.
Foi nesta conjuntura que houve a necessidade dos países aliados, em especial a Grã-Bretanha, limparem a sua imagem perante o resto do Mundo. Era quase urgente encontrar um “bode expiatório”, para as consequências dramáticas da guerra aérea contra a Alemanha e seus aliados. Não foi difícil fazer cair a quase totalidade das eventuais culpas sobre Sir Arthur Harris e o seu antes considerado tão heróico e sacrificado Comando de Bombardeiros. A consequência imediata desta autêntica campanha de desacreditação de Arthur Harris foi nem ele nem ninguém do seu comando receberem, no final da guerra, qualquer condecoração, ao contrário de todas as outras secções e respectivos oficiais. Podia-se dizer que Arthur Harris havia caído em desgraça e havia mesmo quem o considerasse um criminoso de guerra com direito a julgamento em Tribunal.
Até ao fim da vida, como comprovam alguns escritos pessoais e entrevistas que lhe foram feitas quando já tinha passado a barreira dos 80 anos, Sir Arthur Harris nunca mostrou quaisquer sinais de eventual arrependimento por acções bélicas cometidas no seu passado de oficial da R.A.F. Com um poder de argumentação quase imbatível, sempre encontrou razões para ter tomado as medidas que tomou. Apesar de ter sido apenas a ponta de lança de um grande, poderoso, multifacetado, transnacional e bem colocado lobby que defendia a utilização sem limites de todos os meios possíveis, mesmo que injustificáveis, para levar à derrota absoluta o seu inimigo bélico de 1939-45, Sir Arthur Harris, apesar de não se considerar o único a quem se poderá apontar o dedo, procurou nunca implicar ninguém. Isto porque ele, até ao fim, nunca admitiu que, durante a sua liderança do Comando de Bombardeiros da R.A.F., alguma vez se tivesse cometido algum erro de assinalar, quanto mais algum crime de guerra. Apesar de tudo, foi coerente na sua conduta pessoal: estava-se em guerra, o inimigo tinha de ser combatido até ao fim, sem dó nem piedade. Não existem “guerras limpas”, ponto final.

Depois do seu falecimento, em 1984, foi-lhe erigida uma estátua em bronze. De diversos locais, não só na Alemanha ou da parte de muitos dos seus residentes em terras de Sua Majestade, levantaram-se vozes indignadas contra esta última homenagem a figura da história bélica do Séc. XX, tão polémica quanto interessante. A verdade é que nos tempos que se seguiram à sua inauguração, com relativa frequência, o memorial do “Bomber” Harris, foi pichado e coberto de tinta vermelha. Na sequência disto, a estátua passou a ter “segurança pessoal” 24 horas por dia.