segunda-feira, janeiro 28, 2008

A cultura material como património

Uma escultura grega, um vaso romano, uma roda de oleiro, um capote alentejano, uma rede de pesca, uma foice, uma sanfona. São estes alguns exemplos daquilo que constitui a cultura material. Constituem também património histórico e cultural, pois a eles está associado todo um conjunto de atividades artísticas e económicas, que tiveram a sua época de expressão num dado momento da história da Humanidade. São o que fica da memória de outros tempos.
Para além de todos os valores que representam, cada um destes objetos traz consigo também uma outra memória, imperceptível à primeira vista. São um testemunho da inspiração e da capacidade criativa daqueles que os fabricaram. Cidadãos anónimos, que o tempo de uma vida não bastou para serem devidamente famosos, para que o seu rosto ficasse impresso nos anais da história.
Ficam, no entanto, estas peças, artesanais ou mais aperfeiçoadas, como um prolongamento da sua mão, do seu génio, que os seus olhos viram formar-se aos poucos na forja da sua oficina ou foram inventados em noites sem dormir.
A necessidade de terem de ganhar o seu sustento, compeliu-os a enveredar por uma atividade económica onde a dureza das condições não tolheu a força das suas mãos. Daí que, para além de quem os criou, estas peças representam igualmente todos aqueles, que, de uma forma ou de outra as terão usado.
Dessa forma, todos estes objetos são antes de mais, património humano, antes de serem acolhidos sob a vasta designação de património cultural. De referir ainda que este tipo de património físico é do que mais sofre com a passagem do tempo, não só pela deterioração dos objetos, onde se inclui o seu eventual uso diário, bem como pelo progressivo desaparecimento de diversas atividades económicas que, por um lado, justifiquem a sua existência e lhes dêem utilidade e, por outro, são essenciais para o seu fabrico.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

A salvaguarda do património edificado





Não constitui tarefa fácil decidir o que se há-de considerar digno de ser preservado, em termos de edifícios e terrenos. É um problema que se coloca a todos aqueles que investigam estas questões e, também às entidades responsáveis pela gestão dos bens públicos existentes nas várias zonas de um país, nomeadamente as autarquias.
O avançar dos anos é implacável no que respeita a tudo aquilo que as sucessivas gerações humanas vão legando ao Mundo. O tempo de vida humana é limitado, mas os edifícios também têm o seu tempo de vida útil. Muitos vão-se degradando, pondo a nu todos seus defeitos e limitações, perdendo igualmente a sua utilidade e funções originais, face às vagas do progresso humano.
Em consequência disto, há uma permanente tentação em eliminar tudo o que é antigo, para dar lugar a novas construções, muitas vezes desprovidas do eventual significado histórico das antigas. Por outro lado, todos os dias são demolidos edifícios cuja arquitetura é francamente mais interessante do que aqueles que lhes sucedem ou então são descaracterizados em muitos dos seus pormenores mais representativos, a pretexto de obras de manutenção e melhoramento.
Muitos proprietários, por falta de informação e mesmo fraca cultura cívica, autorizam medidas lamentáveis como o colocar portas e janelas de alumínio, persianas de plástico, acrescentar andares, sem terem a preocupação de os integrar na estética dos edifícios e destruir alguma das suas partes para conseguir um aspecto mais moderno. Tudo isto da forma mais simples possível e com menores gastos monetários. Não raras vezes, as próprias autarquias autorizam e até incentivam estas intervenções. São muitas vezes invocadas razões de segurança e isolamento térmico, bem como a necessidade de se optimizar os espaços.
Noutras situações, quando a autarquia ou o Estado detém a propriedade dos edifícios, os respectivos terrenos são vendidos como uma forma de se obterem mais fundos essenciais. Nestes casos, é essencial ter um conhecimento prévio dos projetos elaborados, pelos futuros novos detentores, para esses espaços, de forma a evitar o aparecimento de obras descontextualizadas do espaço circundante, ainda que funcionais para o fim a que se destinam.
Apesar de tudo, o processo de seleção de imóveis a salvaguardar prioritariamente, implica toda uma série de critérios específicos. A sua antiguidade e o facto de serem os únicos exemplos sobreviventes de um conjunto arquitetónico, que o tempo foi delapidando, é logo um factor que os faz sobressair entre os demais. Há também o seu aspecto exterior, esteticamente peculiar ou agradável à observação, o que desde logo os pode tornar num factor de atração turística, para além de serem representativos de períodos e acontecimentos históricos marcantes para a zona em que se situem.
Regra geral existe uma maior apetência pelos edifícios públicos e religiosos, derivado, sem dúvida, da superior qualidade de construção e maior durabilidade destes, relativamente ao restante tecido urbano, demasiado volátil e geralmente constituído por obras consideradas menores. É uma perspectiva redutora e facilitista, todavia muito praticada em diversos países incluindo Portugal. Dá-se a primazia a uma igreja ou catedral, esquecendo os outros edifícios que lhe são próximos.
Oxford.

É preciso não esquecer que um edifício vê o seu valor patrimonial reforçado, se for preservado o essencial do núcleo urbano onde ele se integra. Claro que esta regra, muito em voga nos dias que correm, não deve ser vista com total linearidade. Se neste caso, os edifícios circundantes ou anexos a um monumento, já forem um resultado da eliminação ou descaracterização dos originais, é certo que a sua preservação já é menos consensual. Ainda mais, se esses edifícios não forem representativos de um estilo esteticamente notável.
Rothenburg-ob-der-Tauber, Alemanha.

No entanto, vale a pena referir situações de grande sucesso, quer do ponto de vista da recuperação mais ou menos fiel ao original. Em Portugal, pode-se mencionar o caso das cidades de Évora, Guimarães, Óbidos e Valença do Minho, entre outros. No estrangeiro, há os exemplos das cidades de Bruges, Salamanca, Oxford, Praga, Pequim e Rothenburg-ob-der-Tauber, cujos centros urbanos são verdadeiras viagens ao passado.

sábado, janeiro 19, 2008

O perigo na cama

Um dos grandes pesadelos de quem tem a função de tratar de doentes confinados a uma cama são as úlceras de decúbito, vulgarmente designadas por escaras. Estas também podem surgir em pessoas cuja capacidade de mobilidade está confinada a uma cadeira de rodas. Resultam de uma compressão anormal e por tempo demasiado longo sobre certas zonas do corpo. Na sequência disto, os tecidos existentes nesses pontos de contacto começam a sofrer de circulação deficiente, chegando-se mesmo a produzir uma situação de isquemia. Para quem for leigo nesta matéria, a isquemia consiste numa interrupção da circulação sanguínea, devido a uma obstrução dos canais de irrigação, para uma zona do corpo, incluindo membros inteiros e órgãos vitais. No caso das úlceras de decúbito, a compressão permanente obstrui parcial ou totalmente a circulação sanguínea na zona de contacto, fazendo com que a alimentação dos tecidos seja deficiente ou mesmo interrompida. Em consequência, as zonas sob pressão permanente, se não forem, de tempos a tempos, aliviadas, correm sérios riscos de desenvolver processos necróticos cada vez mais graves, ou seja, tornam-se em pontos de tecido morto. Se estas lesões superficiais não forem tratadas num espaço de tempo aceitável, desenvolver-se-á um processo de destruição tecidular cada vez mais profundo e difícil de reverter.
As fases de desenvolvimento das úlceras de decúbito encontram-se mais ou menos tipificadas nos artigos da especialidade. Inicialmente, a zona pressionada apresenta um aspecto levemente róseo e pode apresentar-se mais quente do que a parte circundante. Nesta fase, já se está perante uma situação de sobrepressão por demasiado tempo, mas os tecidos locais ainda reagem a esta agressão contra-natura, tentando restabelecer a circulação. O ideal seria conseguir mudar, por uns instantes, a posição dos doentes, no máximo, quando se produz esta situação. O problema é que não é fácil calcular o tempo a partir do qual os tecidos começam a sofrer de má circulação, ou a partir de quando vale a pena mudar um paciente acamado ou imobilizado de posição. Isto varia muito de caso para caso e por haver outros factores condicionantes nem sempre devidamente valorizados. Entre estes temos o estado de saúde do doente no momento em que se inicia a sua imobilização, por exemplo, a sua circulação sanguínea, idade, nível nutricional, higiene, nível de continência urinária e fecal, grau de incapacidade física e nível de discernimento. A importância deste último factor reside na capacidade do doente conseguir sentir dor e poder comunicar a sua situação ao pessoal médico e, sobretudo de enfermagem, que se deverão encarregar de lhe aliviar, dentro do possível, o seu padecer.
Para atalhar o problema, basta, ao fim de um certo tempo, não mais do que algumas horas, mudar o paciente de posição, caso não seja possível levantá-lo do seu leito. Nestas ocasiões pode-se aproveitar para efetuar alguns cuidados higiénicos, essenciais para manter a pele limpa e menos propensa a desenvolver processos inflamatórios que poderão acelerar a formação de úlceras de pressão. A utilização, cada vez mais recomendada dos novos colchões anti-escaras, ajudaria, sem dúvida a evitar muitos problemas, para além de proporcionar um maior conforto para os pacientes. Nas zonas que apresentem inflamação, é sempre benéfica a aplicação tópica de alguns cremes e pomadas de hidratação. De qualquer forma, para executar estes cuidados com eficiência, é essencial um acompanhamento mais de perto por parte do pessoal de Saúde especializado, de forma a permitir uma melhor cronometragem das posições de decúbito de cada paciente.
A situação complica-se quando o grau de imobilidade do doente é muito alto e está, ou não, associado a um estado de inconsciência quase permanente e, para mais, associado a uma ausência completa de sensibilidade numa ou mais zonas do corpo. Exemplo extremo são os doentes em estado vegetativo. Não raras vezes, a não existência de suficiente pessoal médico e de enfermagem num ou mais serviços e que não apresente uma boa organização em termos de turnos, constitui um factor básico para a situação de autêntico abandono a que os doentes acamados ficam longas horas por dia. A partir daqui, será fácil, em alguns pacientes, o desenvolvimento progressivo de escaras de pressão numa ou mais partes do corpo. A partir do momento em que o processo necrótico de uma lesão se começa a arrastar, esta deixa de ser progressivamente superficial, podendo, em situações extremas, atingir mesmo os tecidos profundos, ou seja músculo e osso. Nestas fases mais avançadas, desenvolve-se um processo inflamatório de gravidade variável, que pode mesmo comprometer na totalidade qualquer tratamento ou convalescença em paralelo. Quanto mais tarde for detectado o problema, mais lenta é a recuperação dos tecidos em causa, não esquecendo que as úlceras de decúbito são das feridas que mais demoram a sarar exigindo, não raras vezes, o recurso a uma cirurgia local. Desta forma, as úlceras de decúbito acabam por constituir uma segunda doença, tão ou mais grave do que a que já confinou um paciente a uma vida de acamado. Esta situação de sofrimento, tantas vezes em silêncio e muito mais dramática do que se julga, constitui um perfeito indicador da qualidade da assistência médica, nomeadamente do ponto de vista humano, seja de um hospital, público ou privado, seja do país onde este se situa.
Que sirvam estas breves palavras como uma advertência para uma certa mentalidade tendente à “empresarialização” das unidades de saúde, inclusive deste nosso país, onde já se utilizam, mesmo a nível de hospitais públicos, termos como “lucro” e “prejuízo”, para além de outros, mais adequados às multinacionais do sector automóvel e às indústrias de conservas de peixe. A “empresarialização” dos hospitais é o caminho mais rápido para a sua desumanização. Se a globalização do dito “Neo-liberalismo” se tiver estendido a todas as áreas possíveis da vida humana, abra-se uma excepção vital para o sector da Saúde, senão esta não mais será digna de envergar um nome que para nós, enquanto seres humanos, é tão caro.

domingo, janeiro 13, 2008

O Arco do Castelo - Coimbra

Este arco não existia originalmente como pertencente à antiga muralha. Fora construído na sequência do grande terramoto de 1755, cujos efeitos se fizeram sentir em diversos edifícios espalhados pelo país. A igreja do Colégio de S. Jerónimo apresentava sinais de fragilidade e temeu-se que a sua fachada lateral pudesse ruir, devido também ao declive acentuado que existia na parte superior da Ladeira do Castelo. Foi colocado no lado direito interior do arco um interessante painel de azulejos onde se representava o grande feito de Martim de Freitas. Na sequência disto, a Ladeira do Castelo também passou a ser conhecida por Calçada Martim de Freitas, nome que ostenta atualmente. Durante a profunda reforma dos Hospitais da Universidade de Coimbra, promovida pelo Doutor Costa Simões no final da segunda metade de oitocentos, no intuito de modernizar as respectivas instalações, foram efetuadas duas obras de monta, que iriam afetar a forma original do Arco do Castelo. Do lado esquerdo, existindo já o antigo Colégio dos Militares convertido em Hospital dos Lázaros, decidiu-se dar utilidade ao único piso erigido do projetado Observatório da Reforma Pombalina. Ficou aqui instalada, durante mais ou menos meio século, a lavandaria dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Do lado direito, a antiga igreja do Colégio de S. Jerónimo foi sujeita a um curioso e profundo processo de remodelação exterior e interior, a ponto de se converter num edifício de natureza completamente diferente da original, dotado de vários pisos e de uma traça arquitetónica que e o destaca, ainda hoje, do resto do edifício hospitalar. Quem não conhecesse esta secção do Hospital, tal como era antes, não conseguiria vislumbrar, na sua arquitetura totalmente civil, nada que pudesse supor que ali tivesse existido um edifício religioso. Entre outras coisas, aqui ficariam instalados os alojamentos do pessoal hospitalar. Na sequência destas importantes obras de optimização dos Hospitais da Universidade, decide-se escavar uma passagem na parte superior do Arco do Castelo, de forma a permitir uma ligação mais direta entre as várias secções entretanto criadas. Na parte do lateral do Hospital, onde o Arco do Castelo se inseria, é aberta uma porta de serviço, através da qual se transportavam as roupas para a lavandaria e desinfecção, antes de retornarem pelo mesmo trajeto. No lado contrário, foi construído um lanço de degraus em ângulo recto, que penetrava literalmente neste extremo do arco. Foi assim que este arco ficou durante várias décadas até ao seu fim abrupto. 


Este chegaria, infelizmente, no ano de 1947, quando as obras de demolição da Velha Alta já decorriam em plena força. Nesta altura, já havia sido arrasada a parte esquerda do cimo da Ladeira do Castelo, onde estava a lavandaria, juntamente com os vestígios restantes das principais secções do castelo de Coimbra. Conta-se que, quando deitaram abaixo o Arco do Castelo, descobriu-se uma das principais linhas de água interiores que abasteciam grande parte da Alta coimbrã, provocando, durante vários dias, falta de água em muitos locais.
O que resta hoje do antigo Arco do Castelo, nada mais é do que um pedaço de parede inserido num dos cunhais da secção mais à esquerda do antigo Hospital da Universidade, onde se conserva o azulejo que homenageia Martim de Freitas. A porta que antes ali existia foi, após a demolição, reconvertida em janela, nada fazendo suspeitar da sua anterior função.

High Time - MC5

 Em 1971, tendo verificado que a sua primeira aposta de estúdio, o álbum Back In The USA, não havia causado grande impressão, pelo menos a nível de êxitos de vendas, os MC5 decidem lançar uma nova cartada, mais ousada e exigente, sob a forma do álbum High Time.
Trata-se de um álbum mais maduro, com letras mais profundas. Uma das temáticas mais em destaque, em especial no longo tema Future/Now, é precisamente o futuro, nos seus mais variáveis aspectos. De alguma forma, isto soa um tanto quanto irónico para uma banda que não teve qualquer futuro, em termos de existência, pois apenas pouco mais de um ano depois, os MC5 dissolveram-se. 

MC5 - "Future/Now" (1971).

Mais uma vez, a voz de Rob Tyner surge proeminente em praticamente todos os temas, em harmonia ou não com a de um ou mais elementos do resto do grupo. Por outro lado, a autoria de cada um dos temas, surge perfeitamente descriminada, contrariamente ao que acontecera nos álbuns anteriores onde a autoria era creditada ao grupo no seu todo. Talvez premonição da fragmentação que ocorreria daí a algum tempo depois. A autoria das canções encontra-se mais ou menos equilibrada entre os três elementos que constituem o centro da banda, mais concretamente, Rob Tyner, Fred "Sonic" Smith e Wayne Kramer. Excepção deve ser feita para um único tema, da autoria do baterista Dennis Thompson, que constitui a sua primeira feliz estreia na composição. A presença de Mike Davis também se faz notar nos coros de alguns dos temas, onde o seu timbre peculiar encaixa na perfeição e dá uma força adicional à mensagem que se pretende transmitir. Para além disto há, pela primeira vez, o recurso a músicos convidados, nomeadamente da área do Jazz, o que, decerto, terá contribuído para aproximar os MC5 de muitas das características de um grupo de “fusão”, termo que Wayne Kramer rejeita ser aplicável ao seu grupo. Este prefere antes reconhecer alguma (vaga) aproximação ao “Free Jazz”.
Segundo a minha opinião, este disco contém, a partir do tema 3 até ao tema 7, uma das melhores sequências de canções alguma vez conseguida em toda a história da música rock do Século XX. Bem no seu centro, o tema que eu considero verdadeiramente central neste disco: "Future/Now". 
MC5 - "Miss X" (1971).

MC5 - "Gotta Keep Movin" (1971). O único tema "oficial" conhecido da autoria do genial baterista Dennis "Machine-Gun" Thompson.

MC5 - "Poison" (1971).

MC5 - "Over And Over" (1971).
As "balizas" dessa sequência perfeita.

É, para mim, esta sequência de temas que justifica, quase plenamente, quer a audição, quer a obtenção deste álbum e o torna eternamente referencial.

A própria parte gráfica da capa é muito mais complexa, inventiva e, por isso, interessante do que a do anterior disco de estúdio Back In The USA. Aliás, a própria contracapa, onde a fotografia, o desenho e a colagem se encontram numa harmonia, tanto perfeita como, então, inédita, surge creditada a um estranho nome, onde muitos não mais reconhecem do que um pseudónimo, nunca verdadeiramente confirmado nem desmentido, do próprio Rob Tyner. Este talvez preferisse falar num alter-ego artístico.
No ano do seu lançamento, 1971, o disco foi um flop, ainda maior do que o anterior, de tal forma que o grupo se viu logo rejeitado pela sua editora de então, a Atlântic. A partir daqui, foi uma inglória e deprimente contagem decrescente até à dissolução dos MC5. O tempo que depois se seguiria, acabou por lhe fazer alguma justiça e, agora, o álbum é considerado uma referência para muitos músicos de todo o mundo, digno de emparceirar com outras obras de outros grupos como os Beatles, os Pink Floyd e mesmo os U2.

domingo, janeiro 06, 2008

MC5: Mais um grupo a relembrar

Se houve bandas em que o insucesso comercial foi proporcional ao impacto que a sua música causava junto do público que assistia às suas atuações e, sobretudo, ao real talento dos seus membros, um dos melhores exemplos disso foram os MC5.
Esta banda era originária de Detroit, daí o seu nome original "Motor City Five", derivado do facto desta cidade ser, então, um dos maiores centros industriais dos E.U.A., com grande destaque para a indústria automóvel. Quase todos os nativos de Detroit, salvo algumas exceções ou aqueles que partissem para outra localidade, estavam destinados a conseguir empregos direta ou indiretamente ligados à, então, próspera indústria local. Por outras palavras, quase todos vinham de famílias operárias e estavam, por assim dizer, predestinados a trabalhar em fábricas. Esta perspetiva de futuro era algo deprimente e limitativa para Wayne Kramer, que ambicionava por voos mais altos, nomeadamente, enveredando por uma carreira musical.
Já na adolescência, Wayne Kramer era um guitarrista virtuoso e completamente rendido à onda musical então em voga, onde se combinava o rock branco com a multiplicidade de estilos da música negra, desde o jazz ao soul. É nesta condição que ele decide formar uma banda em 1964, começando, desde logo a contactar com potenciais futuros membros. Acaba por encontrar um certo Fred Smith, apreciador também de diversos géneros musicais, a quem acaba por ensinar, literalmente, a tocar guitarra. Ambos desenvolvem um estilo muito próprio, que vão aperfeiçoando nas, então, diferentes bandas em que atuavam.
Tal como muitos jovens músicos de então, a música que tocavam consistia essencialmente em covers de êxitos conhecidos, mas logo começam a incluir, nos seus repertórios estilos de outro género, ao mesmo tempo que despertam para os temas políticos. Chegado o momento de formar uma banda definitiva onde, inicialmente, se incluíam alguns indivíduos com quem eles atuavam nos seus grupos originais, decidem partir em busca de um manager, essencial para conseguirem efetuar espetáculos ao vivo e obter eventuais contratos com outras editoras. É então que vêm a descobrir Rob Tyner, o qual se revelará uma feliz surpresa, a nível de talento e formação cultural, para além de já estar politicamente empenhado com ideologias de esquerda, que haviam obtido grande adesão numa localidade essencialmente operária, como era Detroit. O seu estilo peculiar, faz com que seja escolhido para o vocalista dos Motor City Five.
Por volta de 1965, está formado o núcleo central da banda, que ainda contava com mais dois indivíduos no baixo e na bateria, os quais, a partir do momento em que Kramer, Tyner e Smith começam a endurecer o seu som, criando um estilo muito próprio, decidem abandonar o grupo entretanto formado. Logo de seguida, o trio central decide procurar substitutos para a secção rítmica, que encontrará com Mike Davis e Dennis Thompson, no baixo e na bateria, respetivamente. Por iniciativa de Rob Tyner, um cantor e performer com uma noção muito precisa de espetáculo, o nome da banda será definitivamente abreviado para "MC5" e os seus membros passarão a incluir apelidos artísticos, nomeadamente Fred "Sonic" Smith.

MC5 - "Ramblin' Rose" (versão ao vivo de 1970). Wayne Kramer como "lead singer" e guitarrista principal. Absolutamente contagiante!!! No final, Fred "Sonic" Smith (2ª voz e guitarra-ritmo) faz a "honra" de apresentar o seu correligionário. Rob Tyner, o vocalista "oficial" da banda, havia "desaparecido" oportunamente... Na bateria, Dennis Thompson, a máquina rítmica por trás da canção, absolutamente imbatível, consegue fazer a combinação, quase impossível, de extremo vigor e garra com um indiscutível perfecionismo

A maior parte da história desta banda, foi feita de concertos absolutamente ousados, para não dizer extremistas para a época. As suas atuações começam a ter cada vez mais público, chegando a ensombrar outros grupos que, não raras vezes, atuariam nas mesmas ocasiões, para além de ser frequente a presença de forças policiais, devido ao cenário de quase rebelião em que os espetáculos terminavam. O ano de 1968 representou a verdadeira consagração dos MC5, bem como o seu reconhecimento por parte de uma editora discográfica. O seu público ouvinte crescia a olhos vistos nas localidades por onde passavam, para além de terem um som e um estilo de atuar, completamente diferentes dos outros grupos musicais que dominavam a cena de então. Para uma editora apostada em investir em novos talentos, eram mais do que razões suficientes para entrar em contacto com eles e estabelecer um contrato.

MC5 - "Looking At You" (versão ao vivo de 1970). Agora com a presença do vocalista e frontman Rob Tyner.
Na sequência disto, decidem gravar o seu primeiro disco. Dado que grande parte da sua imagem fora constituída a partir das atuações algo tumultuosas que já algum tempo davam, o disco deveria ser gravado ao vivo. Surgirá então o disco Kick Out The Jams, gravado numa das suas emblemáticas atuações ao vivo, no final de 1968

MC5 - "Ramblin' Rose" (1968). O primeiro tema do espetáculo, antecedido pela famosa "apresentação", considerada, na altura, "muito violenta" e "incentivadora ao motim e à desordem", mas que  hoje é apenas uma das melhores aberturas de espetáculos ao vivo. Repare-se como a música parece "emergir" do próprio discurso... Um momento irrepetível e inesquecível!

MC5 - "Kick Out The Jams" (1968). O tema-título do espetáculo, iniciado com a famosa "frase" que foi considerada, naquele tempo "ofensiva"!!!... Ainda hoje há alguém que acredite nisso?!? É uma completa banalidade...

Logo no começo de 1969, o disco é lançado com grande espectativa, tanto por parte da banda, como por parte dos seus cada vez mais numerosos fãs. Tinha tudo para ser um êxito estrondoso, não fosse a oposição quer por parte de diversos comerciantes, quer estações de rádio, sem falar nas autoridades oficiais, que o consideravam demasiado obsceno, a juntar à fama de grupo musical politicamente empenhado e de tendências claramente esquerdistas, o que, para muitos americanos, era quase sinónimo de "comunismo".
Como consequência do autêntico boicote a que foi sujeito esse primeiro álbum, a editora que os tinha contratado, sentindo o prejuízo mais que evidente, decide dispensá-los. Sob a direcção de outro produtor, conseguem um contrato com a Atlantic, para a qual gravam dois álbuns contendo exclusivamente material de estúdio: Back In The Usa em 1970 e High Time em 1971.
Em ambos o grupo surge mais disciplinado, mas irreconhecível relativamente à sua imagem de banda rebelde atuando em concertos tumultuosos.
MC5 - "Looking At You" (1970). O surpreendente "arranque" do baterista Dennis "Machine Gun" Thompson.
MC5 - "High School" (1970). Os MC5 numa versão mais "soft". Um tema de bom rock...

MC5 - "Let Me Try" (1970). A única "balada" deste disco. Rob Tyner no seu melhor.

MC5 - "Shakin' Street" (1970). A rara oportunidade que se tem de ouvir Fred "Sonic" Smith cantar a solo.

MC5 - "The Human Being Lawnmower" (1970). O tema mais ousado do disco. Na imagem, da esquerda para a direita: Fred "Sonic" Smith (guitarras, 2ª voz e vocalista ocasional), Dennis "Machine Gun" Thompson (bateria), Rob Tyner (vocalista e "frontman oficial"), Wayne Kramer (guitarras, 2ª voz e vocalista ocasional) e Mike Davis (baixo elétrico e 2ª voz).

Apesar de tudo, o primeiro é considerado um dos melhores álbuns de rock de sempre e, ainda hoje, uma referência para muitos artistas em todo o mundo. O segundo, apesar de mais eclético e de ser considerado o melhor pelos elementos da banda, foi já recebido com maior indiferença pelo público. É preciso não esquecer que ambos, à data, não tiveram êxito comercial. Em consequência destes fracassos seguidos, a editora Atlantic decide também dispensar os MC5.
Após ano e meio de atuações ao vivo cada vez mais esporádicas e menos notórias e sem conseguirem mais nenhum contrato editorial, a banda desaparece no esquecimento.
Após a dissolução do grupo, os seus elementos continuaram, direta ou indiretamente, ligados ao mundo da música, apesar de ser de uma forma errática e inconstante. De qualquer forma, nenhum deles voltaria a reviver o destaque conseguido durante a breve carreira nos MC5. O pouco que deles se ouviria falar durante as décadas seguintes, referia-os como membros ou músicos convidados de bandas de curta duração, quase todas de êxito local e de atividade restrita a atuações ao vivo de pequena dimensão e circunscritas à sua região. 
Wayne Kramer, depois de um período difícil na sua vida, nomeadamente devido ao consumo e posse de droga, e após vários anos de afastamento voluntário do mundo da música, regressaria nos anos 90 com uma produção discográfica a solo bastante regular e elogiada pela crítica. Tem também participado em atuações ao vivo e colaborações com outras bandas de rock. Teve um papel central nas reuniões temporárias dos MC5, que foram ocorrendo a partir da década de 1990, com destaque para reunião de 2003 sob o nome de DKT/MC5, sendo uma das mais recentes a formação da banda MC5/MC50 e respetiva digressão, para assinalar o meio século do álbum "Kick Out The Jams". 
Rob Tyner tentaria, sem sucesso, fazer reviver os MC5, por mais do que uma vez, mantendo contacto esporádico com outros elementos da sua antiga banda. Produziria aqui e ali algumas bandas de rock e vanguarda da sua área de residência, gravaria, muito espaçadamente alguns álbuns a solo ou inserido em bandas pouco conhecidas, para além de ser um desenhador ocasional, de talento não devidamente reconhecido. Acabaria por morrer repentinamente em Setembro de 1991, quando pretendia dar um novo impulso à sua carreira musical. A sua condição física estava um completo "desastre" para um homem de apenas 46 anos. Hábitos de droga e bebida mantidos durante anos, um temperamento instável e "colérico" e um certo excesso de peso, haviam deixado a sua condição cardíaca similar à de um velho de 90 anos... 
Mike Davis, depois de alguns problemas com a justiça, similares aos de Wayne Kramer, retomou a sua atividade de músico baixista em diversas bandas de pouco êxito, produzindo outras, para além de travar uma longa luta contra a dependência de drogas. Executaria, em paralelo, diversos trabalhos na área das artes plásticas, onde investiria ainda na sua formação académica. A partir de 2003 os MC5 reuniram-se à volta dos, então, sobreviventes da formação original, tendo Mike Davis retomado o seu posto de baixista, até ao seu falecimento, em Fevereiro de 2012, aos 68 anos, na sequência de problemas hepáticos. 
Fred “Sonic” Smith, participaria, durante a década de 1970 em alguns projetos musicais, onde integravam também outros músicos da sua geração, antes de, progressivamente, se afastar das luzes da ribalta. Casaria, em 1980, com a já muito famosa cantora Patti Smith, passando a dedicar-se quase exclusivamente para a sua família. Colaboraria, esporadicamente, com a sua esposa, e ainda faria algumas e muito raras participações ao vivo, antes de morrer imprevista, repentina e prematuramente em Novembro de 1994, com apenas 46 anos de idade, quando apresentava uma condição física completamente diferente da do ex-vocalista Rob Tyner, que apresentava sérios fatores de risco. Fred "Sonic" Smith fazia precisamente parte daqueles "privilegiados" que, aparentemente, apresentam fatores de risco de ataque cardíaco e AVC quase "a zero". Claro: "quase a zero" não é sinónimo de "zero total"... Isso não existe.... Em sua homenagem, a viúva Patti Smith lançaria, em 1996, o muito doloroso álbum "Gone Again". 
Dennis Thompson, à maneira de muitos outros músicos, participaria, de tempos a tempos, ora como membro integrante ora como convidado de diversos grupos de rock, hard rock e punk, mantendo sempre um certo low-profile, apesar de continuar a ser considerado um dos mais versáteis e influentes bateristas da sua geração. Reunir-se-ia ainda, em 2003, com os outros dois, então, sobreviventes da formação original dos MC5, Wayne Kramer e Mike Davis, mantendo-se como membro regular até 2012, aquando da morte deste último. 
Ironicamente, poucos anos depois da sua extinção oficial, os MC5, foram considerados uma banda de referência para muitos novos grupos, sobretudo norte-americanos, que surgiriam durante a década de 1970. Ainda mais se fez notar a sua herança quando apareceram os primeiros grupos punk de ambos os lados do Atlântico. Basta referir os exemplos dos Ramones e, sobretudo dos Clash. Mesmo neste século XXI, os MC5 continuam a ser uma referência obrigatória para muitos grupos de rock, senão mesmo um grupo de culto, um pouco à semelhança dos Velvet Underground, que, tal como eles, não tiveram grande sucesso comercial durante os seus anos de atividade. A passagem do tempo nada mais tem feito do que lhes dar toda a razão de terem existido e reforçado a sua posição de grupo musical influente e incontornável na história da música Rock. Novos herdeiros da “revolução” dos MC5, foram continuando a surgir e o futuro, certamente se encarregará de fazer nascer outros. Inicialmente, a sua discografia oficial, comportava apenas três álbuns. No entanto, foram surgindo desde muito cedo discos “bootleg”, com gravações dos espetáculos ao vivo, de maior ou menor qualidade sonora, que foram peças muito cobiçadas por fãs e colecionadores de discos raros. Mais recentemente, muitas dessas gravações têm surgido “legalizadas” em CD, o que fez com que, atualmente, estas constituam 2/3 da sua obra musical disponível no mercado. Quem quiser ter um bom conhecimento da verdadeira face dos MC5, não se poderá, de maneira nenhuma, limitar aos seus discos de estúdio, pois era ao vivo que estes se encontravam no seu real ambiente.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

A Leitaria Académica - Alta de Coimbra

Entre as muitas “vítimas” das demolições da Velha Alta de Coimbra, uma das mais simbólicas e lamentadas pela academia coimbrã, foi a Leitaria Académica, mais conhecida pelo nome do seu fundador e proprietário, Joaquim Inácio, vulgo Joaquim “Pirata”. Figura sempre lembrada pelos estudantes que passaram por Coimbra nas décadas de 1920, 1930, 1940 e mesmo 1950, este Joaquim “Pirata”, tinha o seu estabelecimento bem na desaparecida Rua Larga, a fazer esquina para a Rua de S. João, esta última (ainda?) hoje existente, mas numa versão que nada tem a ver com a original. A origem da alcunha do seu proprietário, é desconhecida, mas era este o nome por que todos os estudantes lembravam esse homem de figura muito peculiar, sempre envergando um impecável casaco branco. Este estabelecimento era um espaço algo exíguo, só ocupando duas portas que davam para a Rua Larga, tanto que em dias de festa, os seus frequentadores tinham de ir consumir para a rua, não havendo, para mais, esplanada. Mais frequentemente, era utilizado pelos estudantes quando iam tomar o pequeno-almoço, apressadamente, antes de irem para as aulas. Era precisamente na relação deste Joaquim “Pirata” com os seus clientes, que residia um dos seus aspectos mais peculiares, e que se revelou uma estratégia de negócio algo bem sucedida. O cliente entrava, consumia, mas não era obrigado a pagar a pronto. No entanto, tinha de deixar o seu nome num de dois ou três grossos livros, sebosos pelo uso, que existiam bem à vista no balcão. Estes livros eram conhecidos pelos “canis”, derivado da expressão “ferrar o cão”, sinónimo de ficar a dever, não pagar a conta. Esta sua atitude aparentemente permissiva conquistou a simpatia da sua clientela, predominantemente estudante, que muito frequentava este espaço. O senhor sabia que, mais cedo ou mais tarde, as dívidas iam ser saldadas, o que quase sempre acontecia. Muitas vezes, o antigo estudante, num rebate de consciência, só lá regressava alguns anos depois do fim da sua licenciatura e, finalmente, o seu nome era riscado. Não raras vezes, esta dívida era motivo de celebrações bem regadas à porta do estabelecimento. A Leitaria Académica, aberta desde por volta de 1923, tinha como outra característica distintiva um grande azulejo com o símbolo da Associação Académica de Coimbra, colocado entre as suas duas portas de entrada. Terá sido um dos primeiros estabelecimentos de Coimbra a ter esse símbolo, criado pelo então jovem estudante Fernando Pimentel, no ano de 1927. Entretanto, em Maio de 1944, com o inexorável avanço das demolições, iniciadas no ano anterior, para a construção da nova “Cidade Universitária”, o “Pirata” vê-se obrigado a encerrar as portas.
Transferiu-se para a Rua dos Estudos, onde permaneceria até Outubro de 1949, na sequência do desmoronamento do edifício onde se localizava, incidente a que não foram alheias as demolições que decorriam já nas suas imediações. Na sequência disto, é obrigado a nova mudança, desta vez para um prédio situado junto aos Arcos do Jardim, o primeiro à esquerda, que seria demolido em Outubro de 1959. A partir daqui, não mais se soube do paradeiro do espólio que dentro dele existia.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

A "Bastilha" e a "Tomada da Bastilha"

A "Bastilha", por volta de 1935.

Um dos acontecimentos mais marcantes da história de Coimbra e da sua Academia é a “Tomada da Bastilha”. É ainda hoje festejado pelos estudantes, todos os anos, a 25 de Novembro. Foi na madrugada deste preciso dia, no já distante ano de 1920, que, pela primeira vez desde havia mais de três décadas, os estudantes de Coimbra conquistariam para a sua Associação Académica uma sede digna desse nome. 

Depois de ter sido forçada a abandonar o edifício do antigo Colégio Real, vulgo Teatro Académico, demolido em 1889, a sede da Associação Académica esteve instalada em diversos locais, entre estes o Colégio da Trindade, nem sempre nas melhores condições. Em 1913, a sede da A.A.C. acabou por se fixar no andar térreo de um grande edifício localizado na Rua Larga, por decisão do Senado Universitário. No andar nobre deste edifício, incluindo a mansarda, estava instalado o Instituto de Coimbra, vulgarmente designado por “Clube dos Lentes”. Durante anos, os estudantes viram-se confrontados com instalações acanhadas e com fracas condições de higiene e comodidade, para além das relações nem sempre pacíficas com os vizinhos de cima.

Por fim, na madrugada do dia 25 de Novembro de 1920, um grupo de estudantes decide tomar de assalto as instalações do referido instituto. A partir de então, todo o edifício ficou destinado para a Associação Académica de Coimbra, e passou a ser designado por “Bastilha”, em memória daquela demonstração de ousadia e arrojo por parte da Academia. Originalmente, este edifício fora construído para albergar o Colégio de São Paulo, o Eremita, fundado em 1779, também designado por Colégio dos Paulistas. Tinha um portal nobre encimado por uma igualmente majestosa varanda e a particularidade da sua construção nunca ter sido definitivamente concluída, por não ter sido edificada a parte a nascente, daí a sua entrada aparecer à esquerda. Mesmo assim, tinha frente para três ruas diferentes, a Rua Larga, onde estava a sua entrada principal, a Rua do Borralho e a Rua do Guedes, onde ficavam as traseiras. 

Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, este edifício foi entregue à Universidade. Foi destinado a diversas funções ao longo dos mais de cem anos que se seguiriam, tendo nos seus últimos anos de existência albergado, como já foi referido atrás, a sede da A.A.C.. Por fim, em Agosto de 1949, a Academia é obrigada a deixar definitivamente a sua velha sede da Rua Larga, devido às implacáveis demolições para a “Cidade Universitária” que, então, já haviam destruído muito da Velha Alta. O fim deste antigo Colégio dos Paulistas já havia sido anunciado pelo Reitor em Março de 1948. Logo antes de se iniciar a sua demolição, que decorreria de Setembro a Dezembro de 1949, os estudantes fizeram uma récita de despedida à sua “Bastilha”.

Museu Nacional da Ciência e da Técnica - Um cadáver adiado?



O Museu Nacional da Ciência e da Técnica, criado em 1971, mas só oficialmente inaugurado em 1976, constituía, na época uma instituição quase pioneira em terras portuguesas. Resultou do amor pela divulgação científica e do génio empreendedor do Professor Mário Silva e foi o corolário de toda uma vida de dedicação à Ciência, tantas vezes dificultada por razões de natureza política. Basta recordar que o Professor Mário Silva, tendo nascido em 1901, viveu os seus anos intelectualmente mais produtivos, ou seja, a maior parte da sua vida, debaixo do jugo ditatorial do Estado Novo. Devido ao seu espírito inconformista e interventivo, nomeadamente ao participar ativamente nos movimentos políticos de oposição que se seguiram a 1945, seria alvo, mais do que uma vez, de detenções por parte da PIDE, tendo sido a primeira em 1946. Na sequência desta situação, encabeçou, no ano de 1947, uma vasta lista nacional de professores expulsos ou “aposentados compulsivamente” do ensino universitário. Só seria integrado em 1976, quase dois anos depois do 25 de Abril. Seria então, nesse ano de 1976, que, após cinco longos anos de trabalhos de investigação e escolha criteriosa de peças a expor, se inauguraria o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, cuja sede e edifício principal ficaria, a partir daí, instalada no Palácio Saccadura Botte, sito na Rua dos Coutinhos, em Coimbra. Mário Silva seria o seu primeiro director, mas só teria pouco mais de um ano para exercer o seu cargo, pois faleceria em Julho de 1977. Pretendia-se ainda que este Museu tivesse, em diversos pontos do país, várias secções, destinadas à realização de diferentes exposições. Tal não se chegou a concretizar, tendo os poucos espaços adicionais conseguidos, ficado destinados a armazenar, com as condições possíveis, as reservas do Museu.
Como forma de aumentar os espaços expositivos disponíveis, foi cedido, a partir de 1993, uma série de divisões de um piso do antigo Hospital do Colégio das Artes, onde, atualmente, se encontra o grosso do espólio do agora designado Museu Nacional da Ciência e da Técnica Mário Silva. No entanto, parece que desde o falecimento do seu criador e primeiro director, a instituição entrou num estado de progressiva letargia, quebrado, de quando em quando, por alguma iniciativa temporária e sem a divulgação devida.
Numa tentativa de revitalizar o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, foi criado, em 1999, o Instituto de História da Ciência e da Técnica, instituição pública e diretamente financiada pelo Ministério da Ciência. Aliás o MNCT, e este instituto público estiveram, na prática, fundidos num só. O seu director, durante este infelizmente muito curto período, foi o Professor Doutor Paulo Trincão, que exerceu o seu cargo com a dedicação máxima e como uma das maiores missões da sua vida. Muitas expectativas foram criadas para este novo período que então se iniciava, nomeadamente a nível de projetos de investigação, muitos deles diretamente financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). O Museu, sob a alçada do promissor Instituto de História da Ciência e da Técnica, pareceu entrar numa fase há muito esperada de dinamização. Entre as medidas de maior monta, estavam a informatização de todo aquele espaço, associada à sua pretendida inserção na Rede Portuguesa de Museus (RPM), bem como (finalmente) uma cuidadosa inventariação e tratamento das peças que constituem o seu vasto e multifacetado espólio. No entanto, devido em grande parte a questões de financiamento, o processo de constituição de um museu científico segundo os moldes mais atuais e praticados noutros países, não foi correndo com a celeridade pretendida. De qualquer forma, as expectativas mantinham-se altas.
Esta pretendida nova fase, encontraria o seu fim prematuro na sequência de uma imprevista mudança de Governo, ocorrida em 2002. O recém-criado Ministério da Ciência e do Ensino Superior, sob o pretexto de uma necessidade de contenção de gastos para reduzir o já tão falado “défice”, decidiu-se por suspender o financiamento de uma série de institutos públicos, muitos deles criados nas imediatamente anteriores legislaturas, considerados “supérfluos”. Sem financiamento, acabava-se o oxigénio que lhes permitiria viver ou, apenas, sobreviver. Entre estes institutos, acabou por se ver, incompreensivelmente, incluído o Instituto de História da Ciência e da Técnica, sob a alçada do qual estava o Museu Nacional da Ciência e da Técnica. Em Maio de 2002, começa o processo de extinção daquele instituto de investigação público e o seu director, Paulo Renato Trincão, decide apresentar a sua demissão.
Na sequência disto, para além do respectivo pessoal trabalhador e diversos bolseiros com investigação em curso ou acabada de iniciar, temeu-se pela sorte do Museu criado pelo Professor Mário Silva. Chegou a ser sugerida a sua transferência para outra localidade, em alternativa à irremediável perda que constituiria a sua quase previsível extinção. Muitos pugnaram, com sucesso, até ver, pela permanência deste Museu Nacional em Coimbra. Apenas se conseguiu isto, o que já não foi nada mau, mas a sua situação tem continuado, até agora, sem um rumo definido. Considerado como “salvo” da má sina e sob os auspícios de uma nova direção, decidiu-se renomear a instituição como Museu Nacional da Ciência e da Técnica Mário Silva, destinado a ser integrado num projeto futuro, mais vasto e abrangente, designado como “Museu do Conhecimento”, que pretende englobar as instituições museológicas da Universidade de Coimbra. Foi no sentido de se concretizar esta ambiciosa rede museológica, que foi projetado e construído, ao longo de vários anos, o actual Museu da Ciência, inaugurado a 5 de Dezembro de 2006, no antigo Laboratório Químico da época pombalina e que constituiu uma obra notável.
Não se pode considerar o Museu da Ciência um verdadeiro sucessor do quase extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica. São duas instituições criadas autonomamente e que foram concebidas em contextos diferentes. Devido à sua localização muito próxima relativamente ao MNCT, o Museu da Ciência, numa situação ideal, seria uma extensão daquele, ou melhor dizendo, o “cartão de visita” através do qual aquele (MNCT) melhor se apresentaria ao público e o corolário de todas as atividades aí desenvolvidas. Não sendo o que na presente situação acontece, o Museu da Ciência poderá talvez ser uma forma de todos, inclusive os sucessivos Governos, terem sempre presente o valor da outra instituição que ali existe e que corre sérios riscos de morrer de esquecimento. Em suma, o novo Museu da Ciência deveria ser a tábua de salvação de uma instituição carregada de História e construída ao longo de anos com o suor e o empenho de tantos e que contribuiria, verdadeiramente, para recolocar a cidade de Coimbra no mapa das instituições de investigação científica mundiais.

sábado, dezembro 08, 2007

Ultimate Spinach

Ultimate Spinach consistiu numa banda originária de Boston, inserida no vasto conjunto de grupos musicais surgidos pela América fora no final dos anos 60, com especial destaque para a West Coast, mais concretamente Califórnia e a sua cidade S. Francisco. Pode-se afirmar que cada cidade norte-americana viu nascer uma multidão de conjuntos musicais, tentando conquistar o seu lugar ao sol e, igualmente, desaparecer muitos deles num curto espaço de tempo. Isto já havia, de certa forma, acontecido em solo britânico anos antes, na sequência do êxito estrondoso de grupos como os Beatles e outros. Uma grande parte desses grupos teve vida curta, quase sempre associada a fraco êxito. Isto acontecia devido não só devido à eventual falta de talento musical dos seus elementos, mas também à rápida saturação do mercado, o que fazia com que o público ouvinte não desse vazão a toda a oferta que lhes era oferecida. Por outro lado, as editoras e os produtores existentes teriam de escolher apenas alguns em que investir o tempo e o capital necessário, pondo de parte todos os outros, onde até poderia haver muitos talentos desperdiçados. Nesta escolha intervinham, não só razões de natureza logística e financeira, mas também os critérios de gosto pessoais dos grandes magnatas e coisas tão comezinhas como a maior ou menor simpatia que estes nutriam por aqueles que a eles recorriam como uma possível porta para o êxito. É preciso não esquecer que os responsáveis pelas editoras, os produtores com algum poder e nome na praça e todos os outros que teriam o poder de decidir acerca da sorte dos artistas, eram muitas vezes de uma geração anterior à destes, não raras vezes pais de família e com filhos da mesma idade. Isto sem referir os que não tinham afinal grande sensibilidade musical. Nos anos 60 os grupos musicais das novas correntes, na generalidade, ainda eram olhados como maus exemplos pelas gerações mais velhas como um mau exemplo para os mais jovens, que eram atraídos pelo seu som e estilo revolucionários. Desta forma, terá havido projetos musicais, de real qualidade, que não tiveram o reconhecimento devido e, muitas vezes, o êxito merecido durante os seus breves anos de existência. Muitos só tiveram oportunidade de deixar obra gravada, graças precisamente ao apoio empenhado de produtores e managers da mesma geração e com poucos meios disponíveis. Entre estes grupos estavam os Ultimate Spinach. Este grupo foi fundado em 1967 e só gravaria 3 álbuns entre 1968 e 1969. Não é possível definir com clareza o estilo em que estes se inseriam, mas há quem classifique, muito genericamente, este grupo de “alternativo”, devido, entre outros aspectos, ao facto de não estarem inseridos em nenhuma das principais editoras e o seu êxito ter sido muito reduzido. Aliás, esta banda só foi verdadeiramente conhecida nos E.U.A., onde, mesmo hoje, é considerada uma curiosidade do seu tempo e algo obscura. O seu primeiro álbum, "Ultimate Spinach" , teve uma recepção algo moderada por parte do público e o interesse que suscitou, nesse começo de 1968, deveu-se, em grande parte, ao efeito da novidade e ao facto do seu som e das suas letras "combinarem bem" com o cenário onde a moda hippie estava no auge e os movimentos de contra-cultura proliferavam. O ponto forte destas canções residia essencialmente na música, onde se privilegiava o virtuosismo e a capacidade inventiva de Ian Bruce-Douglas, o vocalista e poli-instrumentista do grupo, que era também o principal compositor. As suas qualidades de letrista e cantor eram, no entanto, muito limitadas. No que respeita às capacidades vocais, estas eram incontestáveis no que se refere a outro membro fundador do grupo, a cantora Barbara Hudson. Aliás, seria ela o único elemento do grupo que permaneceria na formação ao longo das suas constantes entradas e saídas de músicos. Esta inconsistência no que respeita aos elementos do grupo, seria também um factor determinante na sua curta existência. Após a dissolução da formação que havia participado na gravação do primeiro disco, Ian Bruce-Douglas e Barbara Hudson decidem reformar os Ultimate Spinach recrutando, desta vez, artistas escolhidos a dedo e com experiência comprovada, incluindo o baterista Russ Levin. É desta forma que começam as muito exigentes sessões de gravação para o álbum seguinte "Behold and See" . Mais uma vez, Ian Bruce-Douglas escreve a totalidade das canções e encarrega-se dos arranjos até ao pormenor, para além de tocar diversos instrumentos. O facto de ser ele, de novo, o principal vocalista, constitui, para diversos críticos, um elemento desvalorizador da qualidade das canções. Consciente ou não disto, decide convidar uma outra cantora, uma certa Carol Lee-Britt, a qual, estranhamente, não surge como um elemento "oficial" do grupo. No entanto, esta revela-se uma vocalista de muito maior qualidade nos dois temas apenas onde participa. Ian Bruce-Douglas pretendia fazer deste álbum a sua grande obra-prima e daí o seu maior investimento em tempo, dinheiro e saúde. O álbum consistia em oito canções, seis delas de duração muito superior a 5 minutos, onde, mais uma vez, a temática versará à volta dos mais diversos temas, com especial destaque para a sociedade, relações humanas e a imaginação. Como acontece com a generalidade dos álbuns, nunca foi posta de parte a ideia de retirar um ou dois singles, que poderiam ser potenciais êxitos em novos públicos. Desta forma, surgem dois temas "Behold & See (Gilded Lamp of The Cosmos)" e "Where you're at", menos complexos e com uma duração à volta dos 3, que são onde, precisamente, os temas onde a cantora convidada Carol Lee-Britt tem a oportunidade de brilhar. No seu todo, pode-se dizer que o resultado foi um álbum mais amadurecido e uniforme, se comparado com o primeiro, embora surjam dois ou três temas a que é difícil aderir se escutados fora do contexto do álbum. O seu ponto forte situa-se, precisamente, no seu tema mais longo "Genesis of Beauty Suite (in four parts)". Não é decerto um álbum que conquiste nem fácil nem imediata adesão por parte da generalidade dos ouvintes comuns: este álbum destina-se a ser apreciado por ouvidos mais exigentes, os mesmos que consigam apreciar a mais elaborada e menos usual peça de música clássica e não se guiem pelas recomendações das estações de rádio. Esgotado pelas gravações e desencantado com a fraca recepção que o álbum então teve, tanto por parte do público como da crítica, Ian Bruce-Douglas decide abandonar o grupo. No ano a seguir sai um terceiro álbum, "Ultimate Spinach III" que foi recebido pelo público e pela crítica com ainda maior indiferença. Da formação original, só restava Barbara Hudson. "Behold and See" foi gravado e lançado nos últimos meses de 1968 e constituiu, decerto, um dos muitos elementos musicais do vasto pano de fundo onde, entre outros eventos, seria acolhido, no Verão do ano a seguir, o famoso espetáculo de Woodstock. Um elemento adicional que contribui para o valor deste álbum é a sua original capa, muito expressiva e difícil de ignorar, a qual foi considerada também uma das melhores capas de LP de todos os tempos. A sua beleza exerce um efeito complementar da qualidade da música que se pode encontrar neste disco, compensando os momentos menos felizes que, uma vez por outra, aqui se detectam. Mesmo antes de se ouvir, já se tem o prazer de tomar contacto com este disco.

O Museu da Ciência (Coimbra)

Fez no dia 5 de Dezembro de 2007 um ano que o Museu da Ciência foi oficialmente inaugurado em Coimbra. Neste espaço de tempo, este museu revelou-se uma instituição que há muito tempo fazia falta nesta cidade. Trata-se verdadeiramente de um museu dos novos tempos, pelo menos no que se refere aos requisitos hoje que devem ser atribuídos a uma instituição museológica científica. 

Na sua grande sala de exposições o visitante observa de perto e quase que vive algumas das múltiplas facetas do vasto mundo da investigação científica, desde os mistérios da Natureza desvendados ao longo de séculos de investigação até aos produtos dessa mesma investigação e o impacto que terão exercido nos progressos da Humanidade, sem esquecer as “ferramentas” a que foi necessário recorrer para executar essa investigação e ser (mais ou menos) bem sucedido. Neste último aspecto, entra também uma outra faceta desta instituição, onde o elemento museológico é reforçado. Trata-se do vasto espólio de materiais de laboratório e de experimentação, alguns deles com vários séculos de História e de diversas proveniências. 

Associado a isto, vale a pena referir que, apesar da grande tónica colocada na experimentação, o elemento teórico que ajuda o visitante a compreender melhor o que tem à sua frente, não foi descurado, como é bem visível na informação detalhada mas sucinta que é possível obter junto aos diversos elementos em exposição. Por outro lado, é preciso não esquecer o espaço em que se insere este Museu da Ciência. O próprio edifício é um elemento museológico. É um dos não muitos frequentes exemplos de situação de espaço que não se construiu de raiz para o efeito, mas que surge plenamente vocacionado para as novas funções. Trata-se do antigo Laboratório Químico da Universidade de Coimbra da Reforma Pombalina, cujo edifício foi desenhado por William Elsden, arquitecto inglês muito cotado na época. Foi construído de raiz sob o espaço antes ocupado pelas cozinhas e refeitório do antigo Colégio das Onze Mil Virgens, pertencente aos Jesuítas que haviam então sido despojados dos seus bens por iniciativa do Marquês de Pombal

Durante os seus mais de 200 anos de utilização, este edifício foi sujeito aqui e ali a alguns acrescentos, tanto a nível do espaço circundante como do seu interior. No entanto, o essencial do Laboratório, permaneceu sempre fiel à sua construção original. Devido ao seu crescente estado de degradação, o velho Laboratório Químico, foi encerrado há uns anos atrás, tendo ficado mais ou menos ao abandono, até ser posto em prática o projecto de o converter no actual Museu da Ciência

Durante os mais de dois anos em que decorreram as obras, foram feitas algumas descobertas curiosas provenientes do período anterior à construção do Laboratório, as quais, de alguma forma, protelaram a conclusão prevista do projecto e obrigaram mesmo a reformulações do projecto inicial. Entre estas, destacam-se vestígios dos subterrâneos de antigas secções do antigo Colégio dos Jesuítas, nomeadamente as cozinhas e o refeitório, e elementos arquitectónicos que foram integrados no novo edifício, sobretudo paredes, sem esquecer os restos de utensílios e louças, muito provavelmente antes pertencentes ao espólio da desaparecida instituição religiosa. 

Desta forma, para além dos objectos científicos, o visitante é presenteado com uma outra exposição permanente relativa à história tanto do Laboratório Químico, como daquilo que o antecedeu neste local, complementada por diversas fotografias e desenhos relativos às várias fases da sua conversão em Museu da Ciência. Estes elementos, reunidos e estudados ao pormenor, reforçam o valor patrimonial de todo este espaço e colocam questões e enigmas que não são mais do que o ponto de partida para novas investigações acerca da história deste espaço.

domingo, dezembro 02, 2007

Universidade - Património da Humanidade





Nos dias 29 e 30 de Novembro realizou-se no Auditório do Edifício Central da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, localizado seu no Pólo II, o Seminário “Univer(s)cidade – desafios e propostas de uma Candidatura a Património da Humanidade”. Trata-se de uma ideia já defendida desde há largos anos e por um número crescente de defensores. Este evento permitiu desenhar um quadro acerca das ações que será necessário desenvolver no futuro de forma a tentar resolver ou pelo menos minimizar, toda uma série de problemas, muitos deles de longa data, como o mau estado de conservação de diversos edifícios da zona antiga da Alta coimbrã, bem como a progressiva desertificação habitacional do seu centro histórico, muitas vezes maioritariamente habitado por uma decrescente população idosa. Ao falar-se no valor patrimonial da Universidade de Coimbra, é impossível ficar-se confinado a este núcleo de edifícios, dissociando-os da área urbana envolvente. Por outras palavras, a própria cidade de Coimbra no seu todo e as pessoas que nela habitam, ou simplesmente lhe dão vida, estão envolvidas nesta temática, ainda que não sejam diretamente mencionadas.
A pretexto disto, são feitas comparações com outras localidades, tanto em Portugal como no estrangeiro, onde foram ou estão a ser postas em prática políticas concertadas de salvaguarda do seu respectivo património, com especial destaque para a componente arquitetónica mas sem excluir outros elementos envolvidos, fazendo-se uma análise dos resultados entretanto obtidos, com maior ou menor sucesso, e os obstáculos que ainda existirão para ser ultrapassados. Foram referidos exemplos mais ou menos bem sucedidos de reabilitação urbana, nomeadamente nas cidades de Santiago de Compostela e Guimarães, bem como a forma como o desenvolvimento urbano das cidades pode ter alguns efeitos mais ou menos perniciosos para os respectivos centros históricos, tal como tem acontecido em Salvador da Bahia, no Brasil.

O Governo Civil (desaparecido) - Alta de Coimbra

Um dos maiores e mais emblemáticos edifícios a ser sacrificado à lepra destruidora que o plano das obras da nova “Cidade Universitária”, semeou como praga no coração da Alta de Coimbra foi o antigo Colégio de S. João Evangelista, mais conhecido como o Colégio dos Lóios, devido à cor azul do vestuário dos religiosos que, em tempos remotos, nele residiram. De construção quinhentista, este vasto edifício ficou devoluto e entregue à Universidade de Coimbra, como aconteceu com outros, após a extinção das Ordens Religiosas regulares, por decreto de 1834. Após a venda do seu recheio em hasta pública, onde se incluiria decerto a sua biblioteca que, como tantas outras, desapareceria com a dispersão das suas obras pelos mais variados destinos, acabou por ser destinado a edifício de natureza civil. Graças ao seu generoso espaço interior, este edifício acabaria por ser ocupado por diversos serviços públicos, umas em períodos diferentes, outras em simultâneo, nomeadamente o Banco de Portugal, a sede da Junta da Província da Beira Litoral, Direção de Finanças, Posto da PSP, Correios, Inspeção Escolar, Bombeiros e, claro, Governo Civil. Aliás, era sob este prosaico nome que muitos conheceram este grande edifício, que tinha frente para três ruas distintas. 
A sua fachada principal e emblemática era fronteira à Sé Nova, no Largo da Feira, sendo encimada por uma curiosa estátua em plinto do patrono S. João Evangelista com a auréola raiada; o seu lateral assimétrico ocupava todo um dos lados da Rua dos Lóios, via hoje desaparecida e a partir da qual era possível olhar a Sé Nova de frente; e a sua fachada posterior, menos interessante do ponto de vista arquitetónico, era visível na Rua Larga, mesmo em frente ao edifício onde se alojaria a Associação Académica, sendo por aqui que o público acedia aos serviços disponibilizados no seu interior. Todo o edifício era uma construção assimétrica, como consequência do declive do terreno em que se implantara, dado que na fachada principal eram visíveis cinco pisos, enquanto na posterior, eram apenas dois. Após a extinção do Colégio dos Lóios, o seu edifício terá sido sujeito, aqui e ali, a algumas obras de adaptação, mas muito do que existia originalmente, terá permanecido até ao fim, mais ou menos fiel ao original. Entre estes elementos arquitetónicos, vale a pena salientar o seu claustro, onde era visível uma cisterna.

Numa tarde de finais de Novembro de 1943, o edifício do Governo Civil é atingido por um violento incêndio que, obviamente, causou pânico nas redondezas, principalmente por se estar em plena Segunda Guerra Mundial e ainda haver o receio de ataques aéreos. Viveram-se momentos de aflição, por se temer que o fogo alastrasse às casas vizinhas, o que, com grande aparato, acabou por ser evitado. Tentou-se salvar o que podia do seu recheio mas aqui, muita coisa se perdeu, principalmente a nível de documentação de diversa natureza. Os militares também terão dado uma ajuda preciosa, na tentativa de minorar os estragos. Como solução desesperada, grandes volumes de documentação são atirados pelas janelas do edifício em chamas. Nunca se apuraram as verdadeiras causas deste incidente, embora a tese oficial tivesse sido a de provável acidente, devido ao visível estado de degradação do imóvel e à abundância de materiais inflamáveis no seu interior. Há quem fale em ter sido propositado e ter tido relação direta com as obras da Cidade Universitária, que se haviam já iniciado na Primavera desse ano de 1943.
No começo de 1944, o edifício do Governo Civil vê a sua demolição muito antecipada, tornando-se, desta forma, no primeiro edifício a desaparecer da Rua Larga. A grande estátua de S. João Evangelista que encimava a sua fachada nobre é hoje a sua única recordação existente e encontra-se atualmente no centro de um largo (Largo de S. João) situado num núcleo habitacional próximo de Celas, construído para albergar muitos dos desalojados em consequência das demolições da Velha Alta.