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domingo, julho 04, 2010

Reflexões sobre os museus no Século XXI

Tomando como ponto de partida a leitura do livro “Mythologie du musée” da autoria de Bernard Deloche, vale a pena reflectir um pouco sob esta temática, nunca esgotável, da importância dos museus neste começo de 3º milénio.
Ainda que muitos dos exemplos concretos, referidos pelo autor pareçam remeter, com alguma insistência, para a realidade francesa, estas reflexões não deixam de ser paradigmáticas para o Mundo inteiro.
A noção de museu alterou-se quase por completo nos últimos 50 anos. Para isto muito contribuiu o aparecimento de novos tipos de museu, por vezes constituídos em espaços abertos e sem qualquer carácter artístico. Perante esta realidade, fica-se com a clara sensação de que quase tudo é plausível de ser musealizado.

Mas a situação mais notória, em consequência da quase proliferação de museus, inclusive seguindo modelos pioneiros, antes impensáveis mesmo para uma instituição de “alta-cultura”, foi o surgir de um certo clima de concorrência entre estes. Trata-se de uma situação outrora inédita para instituições deste género, sobretudo quando a realidade era haver, dentro de uma grande área, especialmente urbana, apenas um museu. Nesse tempo era o “grande museu” que dominava. Este era um sítio especial, quase como que rodeado de uma aura de impenetrabilidade, devido à raridade e valor dos bens que aí eram guardados. Um lugar de cultura de alto nível, que atraía uns e quase intimidava outros, cuja visita era sempre algo de muito especial e imbuído de uma certa solenidade.

Bastava ser simplesmente museu, para ser um centro das atenções da comunidade que o rodeava mas que, face a esta, adoptava uma restritiva política de prudência quanto a dar a conhecer o que no seu interior se encontrava.
No entanto, o progressivo aumento do número de museus criados, associada a uma maior democratização da cultura, obrigou a que se fizesse uma mudança de atitude política dentro destas instituições. Houve que abrir um pouco mais as portas, face a uma realidade em constante mutação.

O museu libertou-se da imagem de “lugar das musas”, para se transformar cada vez mais num lugar público ao serviço de uma cultura que a todos deve chegar. Por outro lado, o problema da concorrência entre os museus tem vindo a colocar estas instituições perante toda uma série de desafios quase diários. A lógica do mercado, acabou por também chegar aos museus. Para serem alvo de procura, neste caso visitados, deverão ter um produto a oferecer. O produto, neste caso, vem sob a forma dos serviços que eles prestam não só aos visitantes que entram nesses espaços, como também à comunidade envolvente.

Sendo um espaço vocacionado para expor e divulgar objectos e valores representativos da múltipla capacidade criativa do ser humano, é a sua faceta exterior o que se julga ser o mais representativo da sua qualidade e onde o museu é elogiado ou criticado. O que o visitante retém de um museu é se a sua arquitectura é mais ou menos adequada às colecções que aí estão albergadas, a pertinência e a informação acerca destas e o melhor ou pior acesso aos seus espaços de exposição, bem como a maior ou menor comodidade sentida ao circular nestes. É, desta forma, a sua faceta menos humana e mais material a ser mais directamente apreendida pelos visitantes e a ser alvo dos juízos de valor destes.
A partir do momento em que o museu abre as suas portas ao público, inicia-se um novo e mais importante período da sua existência. A instituição poderá finalmente ser sujeita a uma avaliação mais concreta do trabalho realizado até então. O teste dos visitantes é decisivo e implacável.

A situação actual, em que se promove cada vez mais o intercâmbio entre museus, nomeadamente através da constituição das redes de museus nacionais, permite que haja uma saudável permuta de informações úteis para qualquer uma das partes. Poderá ser esta, talvez, uma forma de cada museu, através da troca de experiências e ideias, conseguir não se deixar decair em termos de qualidade dos seus serviços.
É natural que isto obrigue a que se utilize, prudentemente, a palavra “concorrência”, no que respeita aos museus. Inserido numa relação de interdependência relativamente aos outros museus, cada museu correrá menos riscos em ficar verdadeiramente para trás.

Logo de início, existem dois elementos fundamentais a tomar em conta: os museus enquanto instituição e a sociedade onde eles se inserem. Os meios de comunicação são o vector, por excelência, de ligação entre estas duas partes, que não devem estar de costas voltadas.
Apesar de, à primeira vista, o museu ter sido, durante um longo período de tempo, encarado como um mundo à parte, dotado de regras próprias, fechado às constantes e inevitáveis transformações da sociedade circundante e selecto no que respeita às pessoas que habitualmente o frequentavam.

Nos tempos actuais, os meios de comunicação surgem como a forma mais directa de alterar este quadro, ao tentar despertar, na sociedade, um interesse cada vez mais generalizado pelos museus. Aqui procurar-se-á fazer com que um número satisfatório de pessoas veja os museus, sobretudo aqueles que lhes estão geográfica ou nacionalmente mais próximos, como um bem necessário, se não para seu deleite pessoal, sobretudo para o seu enriquecimento cultural.

Aqui é fundamental adoptar-se todo um conjunto de estratégias de “marketing” bastante complexas, dado que o que se pretende oferecer não é um produto segundo a acepção mais comum do termo, mas antes um serviço prestado por todo um conjunto de pessoas que se espera que sejam no mínimo devidamente qualificadas, credenciadas e competentes.
No entanto, muitos dos objectivos de qualquer estratégia de “marketing”, por mais bem conduzida e estruturada que seja, poderão sair em grande parte gorados, se o seu “objecto” não for ele próprio dotado de características aliciantes. Por outras palavras, os museus terão eles próprios que evoluir, sem que se pervertam os seus objectivos iniciais, caso contrário arrisca-se a defraudar os seus visitantes. No entanto, se tomarmos em conta os museus mais antigos, é certo que dificilmente conseguirão superar todo um conjunto de limitações do passado, sem correrem o risco de sofrer, é certo, alguma desvirtuação.

Originalmente instituições de perfil urbano e fortemente centralizador, os museus não eram vistos como locais de visita prioritária pelos cidadãos comuns. Dado que havia uma forte primazia dada às obras de carácter artístico ou de grande valor histórico, geralmente eram visitados com maior regularidade por pessoas com uma formação cultural acima da média. Geralmente este público restrito era essencialmente constituído por investigadores, estudiosos da Arte e/ou da História, coleccionadores e todos aqueles que, pela sua profissão, exigências académicas, ou mera curiosidade pessoal, pretendessem aprofundar os seus conhecimentos ou contemplar as chamadas “coisas belas”. Quando se tratava de um museu de grande nomeada e internacionalmente conhecido, o grosso das suas visitas era de proveniência turística.
A visita a um museu foi, durante muito tempo, vista como algo especial, rodeado de uma certa solenidade, por vezes intimidatória. Os próprios museus assumiam-se como armazéns de colecções de valor patrimonial e artístico inestimável que importava preservar a todo o custo do manuseamento alheio e em relação aos quais havia um extremo receio no que respeita ao seu eventual extravio ou roubo.

Não será raro, ainda hoje, encontrarem-se cidadãos, muitos deles de um nível cultural bastante satisfatório, que confessem ter visitado certo museu, apenas uma vez na vida, mesmo se tratando de uma instituição sita na respectiva localidade. Essa única e, por vezes, longínqua vez, pode muito bem ter ocorrido numa visita de estudo escolar, feita num tempo distante do qual já não se guarda uma grande recordação. Poder-se-á mesmo encontrar quem afirme nunca ter visitado o principal museu da sua localidade ou mesmo, que desconheça qual é a sua localização precisa no mapa urbano.

As pessoas tendem a secundarizar ou mesmo ignorar tudo o que não lhes pareça particularmente apelativo, ainda que na verdade se trate de algo dotado do maior interesse. Não adianta um museu albergar as mais valiosas colecções do mundo, se a imagem que dele é transmitida para o exterior não tiver nada de aliciante para o cidadão comum.

Os museus têm-se visto votados a uma quase paradigmática estagnação em face de uma sociedade cada vez mais dinâmica e exigente. Felizmente, existe desde há muito, uma necessidade de acabar ou pelo menos de atenuar este divórcio que anacroniza os museus e empobrece do ponto de vista cultural a sociedade que os cria e acolhe.

Sem dúvida, que nesta progressiva mudança de atitudes no campo da museologia, tiveram um papel fundamental o aparecimento de novos tipos de museu e a um alargamento do próprio sentido da palavra “museu”, abrangendo espaços e elementos que durante muito tempo haviam sido menosprezados e votados ao abandono. Mesmo objectos que nada têm a ver com o mundo artístico, nem com os grandes acontecimentos da História e que, do ponto de vista cronológico, não são de períodos assim tão remotos, passaram a ser considerados parte integrante de muitas colecções e até a ser considerados património de grande importância. Mesmo temáticas inicialmente alheias aos espaços museológicos, são hoje a razão de existir de muitas instituições dentro deste campo. Logo à partida, isto provoca o aparecimento de todo um conjunto de novos potenciais visitantes interessados em áreas tão díspares, desde a música ao artesanato, passando pelas ciências e pelo desporto.

Daqui se conclui o papel fundamental que as instituições museológicas acabarão por ter, e deverão ter, no seio de toda esta realidade contemporânea em permanente mutação e onde a memória parece, às vezes, perder a sua devida importância.

Por um lado, é essencial que os museus se venham dinamizando gradualmente e adoptando um esquema de funcionamento mais aberto e flexível, o que lhes vai garantir o estatuto devido de espaços de cultura permanentemente actualizados e com grande destaque, ainda que preservando o essencial da sua função de guardiões da memória colectiva. Por outro lado, isto permite às sociedades compreenderem-se melhor a elas próprias e evoluir de uma maneira equilibrada, plenamente conscientes do seu passado, em direcção a um futuro que se pretende feito de pluralismo cultural e progressivamente mais bem planeado. Ao mesmo tempo, permite a cada nação ter plena consciência da sua identidade, sem cair em nacionalismos exageradamente isolacionistas, sem igualmente esquecer as diversas identidades culturais das várias comunidades que as constituem. Quer se tratando das várias histórias locais, quer se tratando dos diferentes grupos étnicos que nelas residem e porque não, das diversas facções ideológicas e religiosas que deverão coexistir de uma forma democrática, vencendo aos poucos as barreiras que as separam.

sexta-feira, abril 17, 2009

Guggenheim em Bilbao

Este Museu Guggenheim de Bilbao é um dos cinco museus existentes no mundo (foram, entretanto, projectados mais alguns), que pertencem à Fundação Solomon R. Guggenheim, criada em 1937, por iniciativa do filantropo norte-americano e coleccionador de arte Solomon Robert Guggenheim, com o apoio da artista Hilla von Rebay. O primeiro museu desta fundação, fora criado em Mannhattan em 1939 e ficou, durante algum tempo, instalado num centro de exposições originalmente vocacionado para exibir automóveis. No entanto, o seu mentor, Solomon Guggenheim, desde o início que havia idealizado um espaço definitivo para esta instituição, que pudesse ir ao encontro do seu desejo de criar algo inovador e arrojado e que proporcionasse aos visitantes uma nova forma de olhar as obras de arte.
Dado que a colecção de Solomon Guggenheim se centrava em obras de arte moderna e contemporânea, seria de esperar que o novo e definitivo espaço do museu, em cujo projecto se começaria a trabalhar ainda na década de 40, fosse ele próprio de uma arquitectura pertencente às correntes mais inovadoras. Após um breve período de sondagens e contactos, Solomon Guggenheim encontraria o arquitecto ideal para o seu projecto na pessoa do já muito famoso, e nem sempre consensual, Frank Lloyd Wright. Este agarra então nas ideias ainda um tanto inseguras de Solomon Guggenheim e decide conceber um espaço museológico que ele próprio definiria como um “templo do espírito”. As ideias que o fundador S. Guggenheim preconizava, nomeadamente a de as exposições de arte poderem ser também grandes instalações onde o visitante circulasse livremente, vivendo-as e sentindo-as de perto e (porque não?) delas pudesse fazer parte, eram extremamente difíceis de concretizar arquitectonicamente. O arquitecto Frank L. Wright, destemido e empreendedor, aceita o desafio que lhe foi proposto por S. Guggenheim, acabando por transformar o desenho e construção deste novo museu, como um dos seus maiores e mais pessoais projectos de vida. É preciso não esquecer que a construção, propriamente dita, do novo museu só se iniciaria em 1956 e a sua inauguração deu-se, por fim, em 1959, meses depois do falecimento de Frank Lloyd Wright. O resultado final, foi um edifício de grandes dimensões e de características pioneiras e com uma arquitectura que, então, fugia aos modelos tradicionais, mas que, a partir daqui, iria servir de modelo a edifícios de todos os géneros e finalidades, construídos um pouco por todo o mundo. Frank Lloyd Wright quis que este novo museu fosse completamente diferente de qualquer outro, até então conhecido e, refira-se desde já, que este arquitecto assumiu a dianteira de todo o projecto, a partir do falecimento de S. Guggenheim, no ano de 1949. As ideias concebidas por um, converteram-se numa missão de vida para o outro. Durante décadas, o Museu Guggenheim de Nova York foi o único do seu nome e um dos locais mais importantes onde se albergava uma das maiores colecções de arte moderna e contemporânea no mundo, para além do modelo inovador de concepção de museu a que os especialistas na matéria, daí em diante, já não podiam ficar indiferentes, apesar de alguma polémica surgida aquando da sua inauguração. Era também um novo modelo de edifício que iria influenciar mesmo a própria Arquitectura em geral.
A partir dos anos 80, a Fundação Guggenheim, graças à fama que o seu museu de Nova York granjeava um pouco por todo o mundo, decidiu implementar uma politica de expansão, encabeçada, entre outros, pelo seu director Thomas Krens.
Esta nova politica de expansão da Fundação Guggenheim de forma a se dar a conhecer ainda mais além fronteiras, levou a que se iniciasse a elaboração de diversos projectos destinados à construção de novos museus noutros locais do globo. Foi na sequencia disto que se começou a trabalhar na construção do seu “representante” em Bilbau. O arquitecto escolhido para projectar este novo edifício foi Frank Owen Gehry, nascido em 1929 em Toronto no Canadá.
Tratou-se de um projecto muito ambicioso e algo complexo, mas sem deixar de ser bastante original e imaginativo, em cuja elaboração estiveram envolvidas duas equipas, uma em Bilbau, outra em Los Angeles. A construção do edifício, extendeu-se de 1992 a 1997, ano da sua abertura. Foram anos de trabalho atento e rigoroso, onde se elaboraram e desfizeram maquetes reais e virtuais para cada uma das partes que formariam o conjunto final, com recurso a tecnologia informática de topo. Durante vários anos, muitos especialistas puseram em causa a possibilidade da execução real do edifício devido à complexidade das suas formas. Para além disto, a sua construção revelar-se-ia algo dispendiosa, o que reforçaria as críticas de todos aqueles que achavam quase experimentais as inovações utilizadas na sua construção que, para além disto, têm tornado os seus custos de manutenção e limpeza algo elevados.
Apesar disto, o Guggenheim de Bilbau, sem esquecer o espaço físico circundante, é um museu de vanguarda e, segundo muitas opiniões, o seu edifício chega a ser mais atraente do que as próprias obras expostas. Há quem defenda que o seu carácter de vanguarda só é visível no exterior, devido ao facto da sua função básica, enquanto museu, ser conservar e expor obras, tal como a generalidade de todos os outros museus do mundo. No entanto, mesmo cingindo-se a estas funções básicas, é difícil não reconhecer uma grande originalidade na organização do seu espaço interior, nomeadamente na proximidade com que as obras surgem defronte do olhar dos visitantes, a utilização profusa e estrutural de elementos multimédia, um aproveitamento quase total da luz natural onde é possível, o jogo de contrastes conseguido ao fazer coexistir colecções tão distintas e uma sensação de movimento permanente contrastando com a generalidade dos museus mais clássicos.
Por outro lado, este museu inovador e original, devido ao seu carácter desconstrutivista e algo inimigo das clássicas barreiras físicas e visuais, é um digno herdeiro de muitas das obras e do espírito de Frank Lloyd Wright. Para além disto, este museu ajudou a assinalar no mapa cultural mundial a cidade de Bilbau, cujo governo local tudo fez, desde o início, para ser a escolhida para albergar uma instituição com tal gabarito, para além de ter financiado a sua construção, bem como se insere, com justiça, num mais vasto plano de revitalização urbana local e de interacção entre esta cidade e o seu rio. Menos consensual será, talvez, a existência de uma via rápida superior que passa por cima do museu e não parece ser muito do agrado de quem reside perto dela. Mesmo assim, parece que a própria zona onde se insere o Guggenheim, viu ser "dourada a pílula" com a construção de uma escada de acesso directo à via superior, inserida numa torre que segue os mesmos moldes, tanto materiais quanto estéticos, do próprio museu, parecendo mesmo dele fazer parte.

domingo, fevereiro 17, 2008

Os museus no passado e no presente - duas perspectivas

Durante muito tempo, os museus eram instituições vocacionadas para o armazenamento e conservação dos bens legados do passado. Eram em número relativamente reduzido e preferencialmente situados em localidades com maior área e importância geopolítica. Geralmente eram espaços de grande volumetria, pouco apelativos para o público em geral, excepto para os curiosos e eruditos, o que vinha ao encontro de uma política muito disseminada de “porta fechada”. Isto é, os museus viam-se como guardiões de bens de valor incalculável e, muitas vezes, únicos e raros, para quem os visitantes eram vistos como invasores de um espaço quase sagrado, se não mesmo potenciais ladrões ou causadores de danos. Quanto mais selecto fosse o público visitante, mais os directores dos museus se sentiam seguros de estar a cumprir o seu dever.
Os objectivos de um museu centravam-se mais à volta dos objectos e da melhor maneira de os arrumar, proteger e, quando necessário, proceder aos necessários restauros. Muitas vezes, a forma de os dispor no espaço expositivo, não obedecia a nenhum critério específico de ordenamento. Quando muito, as peças eram ordenadas em função da sua proveniência ou dos seus autores e inventariadas de uma forma sumária, de acordo com a sua ordem de aquisição por parte das instituições museológicas.
Para além disso, a própria forma de as expor não facilitava muito a sua compreensão por parte dos visitantes, dado que era frequente a saturação dos espaços visíveis, ou seja, em cada espaço, fosse um recanto, um corredor ou uma divisão, eram colocadas várias peças em simultâneo, mesmo que fossem de natureza diferente.
A intenção da generalidade dos museus, ao exporem as suas peças e colecções, era mais a de mostrar a riqueza do seu espólio, como que pretendendo rivalizar entre si, do que facilitar a quem as observava, uma verdadeira compreensão lógica das exposições que se iam fazendo. Além do mais, quase não havia qualquer preocupação em tornar agradáveis as exposições ao olhar dos visitantes. Estes eram levados a observar tudo o que fosse possível durante o período de visita mas, muitas vezes, saíam sem nada compreender do que os seus olhos haviam apreendido.

Hoje em dia, pelo contrário, o grosso da sua actividade é orientada em função dos visitantes, ainda que exista, como é fundamental, uma necessidade de especialização e actualização permanente dos seus funcionários relativamente aos métodos de conservação e restauro.
São os visitantes verdadeira força motriz da actividade museológica. Foi graças ao seu crescente interesse pelo património e pela memória que nele surge representada, que houve, ao longo do séc. XX, um aumento exponencial da oferta e variedade de museus. A generalidade dos museus actualmente existentes dá uma importância primordial ao que se denomina de “feedback”, ou seja, a opinião da parte de quem os frequenta, como um elemento regulador das suas iniciativas.
Por outro lado, é cada vez mais reconhecida a importância do museu enquanto agente transmissor de educação, essencial na formação integral dos cidadãos. Uma educação, ao mesmo tempo, distinta e complementar da que é fornecida a nível escolar. Os seus visitantes, ao circularem pelos corredores e divisões dos museus são despertados para diversas realidades e perspectivas que o seu quotidiano geralmente não oferece.
Para muitos, será a única oportunidade que têm de apreciar ao vivo um número significativo de obras de arte e outros artefactos caídos em desuso. Esta sua interacção com os objectos observados, ajuda-os a desenvolver o seu gosto estético e a tomar conhecimento com a diversidade da produção cultural, quer seja da sua localidade ou da sua nação, quer seja proveniente de outras regiões do mundo com culturas mais ou menos distintas. Os visitantes ao serem confrontados com realidades muito distintas da sua, são levados directa ou indirectamente a desenvolver um espírito mais tolerante em face das disparidades culturais e mesmo religiosas que caracterizam o nosso planeta.
Por outro lado, ao entrarem em contacto com bens legados de outros tempos, de outras civilizações, enriquecem o seu conhecimento histórico, que não raras vezes é muito superficial e descontextualizado. Igualmente ajuda-os a consolidar e a memorizar, os conhecimentos já adquiridos. Para além disto, a cada vez maior utilização das novas tecnologias, por parte dos museus pode levar os seus visitantes a visualizar ou mesmo reviver vários aspectos de realidades já passadas, de uma forma passiva ou activa, o que, na verdade, lhes vai acabar por fornecer um nível de conhecimento por vezes superior ao que conseguiram obter em anos de formação escolar.
Esta faceta do museu, como instituição que presta um serviço educativo, posiciona-o, com grande destaque, no grupo restrito das instituições de reconhecida utilidade pública. No entanto, o investimento dos museus no campo didáctico e pedagógico é algo relativamente recente e é ainda um terreno com muito para explorar.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Sobre a imagem exterior dos museus

Fachada principal do British Museum, em Londres.

A partir do momento em que o museu abre as suas portas ao público, inicia-se um novo e mais importante período da sua existência. A instituição poderá finalmente ser sujeita a uma avaliação mais concreta do trabalho realizado até então. O teste dos visitantes é decisivo e implacável.

Os erros cometidos durante a fase em que o museu se concebeu, edificou e organizou internamente, vão agora fazer sentir as suas consequências.

Perante as imperfeições detectadas, a direção do museu será levada, fazer uma planificação mais atenta e exigente, a acompanhar mais de perto o desempenho das suas equipas de trabalho e a fazer eventuais ajustes de pessoal. Mais uma vez, não se deve pôr de parte o eventual despedimento de alguns funcionários menos competentes, caso se detectem situações de descuido ou negligência sistemáticas. 

Os problemas poderão surgir agora com muito maior frequência, nem sempre por culpa dos funcionários nem de quem os dirige.

Alguns dos problemas que podem ocorrer, quando a responsabilidade é do pessoal do museu, são exposições onde que não exista relação entre uma ou várias peças expostas e o nome que lhes é atribuído; ausência de placas indicativas do nome das peças num ou mais casos; danos existentes em peças e expositores; desaparecimento de objetos sem justificação plausível e coleções desorganizadas.

Quando as causas são intrínsecas ao espaço do museu, podem ficar permanentemente comprometidas muitas das iniciativas previstas, apesar de toda a competência dos seus funcionários. Entre estes problemas destacam-se a falta de espaço, a dimensão inadequada das várias divisões, portas demasiado estreitas para transportar expositores de maior tamanho, demasiada luz natural, fraco isolamento térmico e calor excessivo nos meses mais quentes.

Isto tudo obriga a planificações de recurso e a um reaproveitamento dos espaços de uma forma diferente do previsto e, se possível, obras adicionais.

A nível das irregularidades que mais atingem diretamente os visitantes, para além do fraco arejamento dos espaços ou pelo contrário, o frio excessivo, existem por vezes dificuldades de mobilidade no interior dos espaços, falta de higiene a nível dos lavabos, bem como ausência de rampas para deficientes.

Outra das críticas feitas aos museus, tem a ver com o seu horário de funcionamento, pouco satisfatório para a generalidade dos horários laborais. Funcionam quando muita gente não tem disponibilidade para aí se deslocar e alguns fecham aos Domingos e feriados, precisamente em dias de potencial maior afluência. No entanto, muitos resolveram este problema, adotando um funcionamento de horário por turnos. Espera-se agora que os outros enveredem pelo mesmo caminho da flexibilização dos horários, permitindo, por exemplo, o funcionamento dos museus em horário pós-laboral.

sábado, dezembro 08, 2007

O Museu da Ciência (Coimbra)

Fez no dia 5 de Dezembro de 2007 um ano que o Museu da Ciência foi oficialmente inaugurado em Coimbra. Neste espaço de tempo, este museu revelou-se uma instituição que há muito tempo fazia falta nesta cidade. Trata-se verdadeiramente de um museu dos novos tempos, pelo menos no que se refere aos requisitos hoje que devem ser atribuídos a uma instituição museológica científica. 

Na sua grande sala de exposições o visitante observa de perto e quase que vive algumas das múltiplas facetas do vasto mundo da investigação científica, desde os mistérios da Natureza desvendados ao longo de séculos de investigação até aos produtos dessa mesma investigação e o impacto que terão exercido nos progressos da Humanidade, sem esquecer as “ferramentas” a que foi necessário recorrer para executar essa investigação e ser (mais ou menos) bem sucedido. Neste último aspecto, entra também uma outra faceta desta instituição, onde o elemento museológico é reforçado. Trata-se do vasto espólio de materiais de laboratório e de experimentação, alguns deles com vários séculos de História e de diversas proveniências. 

Associado a isto, vale a pena referir que, apesar da grande tónica colocada na experimentação, o elemento teórico que ajuda o visitante a compreender melhor o que tem à sua frente, não foi descurado, como é bem visível na informação detalhada mas sucinta que é possível obter junto aos diversos elementos em exposição. Por outro lado, é preciso não esquecer o espaço em que se insere este Museu da Ciência. O próprio edifício é um elemento museológico. É um dos não muitos frequentes exemplos de situação de espaço que não se construiu de raiz para o efeito, mas que surge plenamente vocacionado para as novas funções. Trata-se do antigo Laboratório Químico da Universidade de Coimbra da Reforma Pombalina, cujo edifício foi desenhado por William Elsden, arquitecto inglês muito cotado na época. Foi construído de raiz sob o espaço antes ocupado pelas cozinhas e refeitório do antigo Colégio das Onze Mil Virgens, pertencente aos Jesuítas que haviam então sido despojados dos seus bens por iniciativa do Marquês de Pombal

Durante os seus mais de 200 anos de utilização, este edifício foi sujeito aqui e ali a alguns acrescentos, tanto a nível do espaço circundante como do seu interior. No entanto, o essencial do Laboratório, permaneceu sempre fiel à sua construção original. Devido ao seu crescente estado de degradação, o velho Laboratório Químico, foi encerrado há uns anos atrás, tendo ficado mais ou menos ao abandono, até ser posto em prática o projecto de o converter no actual Museu da Ciência

Durante os mais de dois anos em que decorreram as obras, foram feitas algumas descobertas curiosas provenientes do período anterior à construção do Laboratório, as quais, de alguma forma, protelaram a conclusão prevista do projecto e obrigaram mesmo a reformulações do projecto inicial. Entre estas, destacam-se vestígios dos subterrâneos de antigas secções do antigo Colégio dos Jesuítas, nomeadamente as cozinhas e o refeitório, e elementos arquitectónicos que foram integrados no novo edifício, sobretudo paredes, sem esquecer os restos de utensílios e louças, muito provavelmente antes pertencentes ao espólio da desaparecida instituição religiosa. 

Desta forma, para além dos objectos científicos, o visitante é presenteado com uma outra exposição permanente relativa à história tanto do Laboratório Químico, como daquilo que o antecedeu neste local, complementada por diversas fotografias e desenhos relativos às várias fases da sua conversão em Museu da Ciência. Estes elementos, reunidos e estudados ao pormenor, reforçam o valor patrimonial de todo este espaço e colocam questões e enigmas que não são mais do que o ponto de partida para novas investigações acerca da história deste espaço.