Mostrar mensagens com a etiqueta 2003. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 2003. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, fevereiro 28, 2022

A carreira descendente de Tony Jackson


Nascido em 1938, Tony Jackson era o vocalista e baixista original dos “Searchers”. Esta banda pertencia a toda aquela nova onda musical, que se seguiu ao aparecimento dos Beatles, a que se deu o nome, sobretudo em terras americanas, de “invasão britânica”. Os “Searchers” não eram mais do que um grupo musical, entre muitos outros seus conterrâneos. A maioria não teve, claro está, qualquer êxito de assinalar, muitos não tendo editado mais do que um ou dois singles, mas os “Searchers”, a par de outros como “Gerry and The Pacemakers”, pertenciam àquele núcleo, muito restrito, dos que, numa fase inicial, podiam ser considerados “potenciais rivais” dos Beatles, estes, tal como eles, fundados em Liverpool.
The Searchers - "Learning The Game" (1963). Um tema original do, muito prematuramente, desaparecido Buddy Holly (1936-1959), que também era uma referência de muitos grupos de então, a começar pelos Beatles. Nesta versão, os Searchers estavam a atuar ao vivo no famoso "Star Club" de Hamburgo, tal como outros grupos da sua geração haviam feito. Foi neste local emblemático que, também os Beatles, por volta de 1961/1962, iniciaram, verdadeiramente, a sua carreira.

O seu breve período de glória começaria logo em 1963, com o lançamento, quase em seguida, de dois singles, “Sweets For My Sweet” e “Sugar And Spice”. Em ambos surgia, em grande destaque, a voz de timbre muito forte e sonoro de Tony Jackson. Muito comerciais e ligeiros, seriam logo um êxito estrondoso. Devido ao facto de surgirem como uma banda de sucesso garantido, logo têm a oportunidade, reservada não a muitos, de gravar vários álbuns, entrecortados por novos singles, que confirmavam de novo a aposta que neles havia sido feita.
The Searchers - "Sugar And Spice" (1963). Um filme a promover o tema e um antepassado daquilo que, mais tarde se chamaria "videoclip".

"Where Have All The Flowers Gone?", gravado e lançado, como os outros dois, em 1963. A letra é muito simples, mas atinge mais fundo do que outras muito mais complexas. É um tema, claramente, contra a, afinal, futilidade da guerra. "When will they ever learn?".

The Searchers - "Since You Broke My Heart" (1963). Destaque para o arranjo rítmico do baterista Chris Curtis. Um possível "antepassado" do que hoje se chama "heavy rock"?




The Searchers - "Saints and Searchers" (1963), ou mais uma versão do famoso tema "When The Saints Go Marchin' In". Tony Jackson no seu melhor.

Tony Jackson era visto, por grande parte do público apreciador dos “Searchers”, como a principal figura no grupo. Muitos atribuíam, à sua voz poderosa, a razão do seu sucesso. No entanto, desde logo, começam a surgir sinais de que algo poderia, muito em breve, mudar. Como forma de evitar uma repetição de estilo que, a partir de determinada altura, poderia cansar o público ouvinte e de revelar algum amadurecimento no som da banda, no interior dos álbuns e nos singles seguintes, foram surgindo temas com um som diferente, alguns mais complexos na sua construção.
Na sequência disto, a voz de Tony Jackson começou a surgir com cada vez menos destaque. Salvo alguns temas, começou a dar-se uma crescente primazia à voz de outro elemento do grupo, o guitarrista Mike Pender (em baixo), que se ouvia em harmonia com a voz dos outros, quando não a solo. O som conseguido nos temas onde a voz de Tony Jackson surgia menos destacada era algo mais “suave” e isto pareceu agradar aos produtores que eram quem, afinal, acabava por ter a palavra final na escolha das canções a editar.
De facto, em êxitos posteriores, como “Neddles And Pins” e “Don’t Throw Your Love Away”, a voz de Tony Jackson aparecia mergulhada nas harmonias vocais, como se estivesse a ser relegada para segundo plano. 

The Searchers - “Needles And Pins” (1964).

 The Searchers - “Don’t Throw Your Love Away” (1964). Chris Curtis, com cada vez mais frequência, assumia-se como um verdadeiro "mestre de cerimónias" nas atuações ao vivo do grupo. Por vezes ficava-se com a vaga sensação de que era ele o elemento central dos "shows"... Reparar na expressão facial deste baterista enquanto ele tocava e fazia os coros... Temos a clara sensação de que ele se estava "a conter"... Ele trazia, decerto, mais qualquer coisa "na manga", como ele, diversas vezes, acabaria por mostrar... Num vídeo, mais adiante neste artigo, proveniente deste mesmo espetáculo, há a confirmação disso...

Isto contribuiu para que o próprio Tony Jackson se sentisse a perder protagonismo no interior dos “Searchers”, o que lhe desagradava de sobremaneira. Isto contribuiu para azedar as suas relações com os outros elementos do grupo, em especial com o baterista Chris Curtis (em baixo), cuja voz surgia muito proeminente nas harmonias vocais. Aliás, segundo a opinião de muitos, este Chris Curtis (nascido Christopher Crummy), era "de facto" o líder original desta banda, apesar de, inicialmente, tal não parecer muito notório, talvez devido precisamente ao facto de ocupar a posição de baterista. Contudo, em diversas atuações do grupo ao vivo, Chris Curtis conseguia surpreender tudo e todos quando saía da habitual posição discreta, normalmente associada aos bateristas, e tornava-se no centro das atenções. Nessas ocasiões, não era raro colocar-se de pé, por trás da sua bateria, e assumir uma posição de liderança e fazer uma interpretação ousada e inesquecível, quase secundarizando os outros membros da banda que tocavam mais à frente. 
The Searchers - "Ain't That Just Like Me" (ao vivo no Ed Sullivan Show, nos Estados Unidos) (1964).

"What I'd Say", tema muito conhecido do consagrado e saudoso Ray Charles. "That's my father!", diz Chris Curtis na apresentação do tema, por detrás dos comandos da sua bateria... Era, provavelmente, o tema de encerramento desta sua atuação e a "surpresa" estava reservada para o fim... Uma surpresa apoteótica, para a época! Chris Curtis surpreendeu todos os que assistiam às atuações dos Searchers, nesta e noutras vezes, principalmente porque era "apenas" o baterista. Geralmente, o baterista de uma banda, era considerado um elemento, quase discreto, para não dizer de "bastidores", nas atuações ao vivo das bandas musicais. Houve também outros bateristas, mais famosos do que Chris Curtis, que quebrariam esse mito de "elemento secundário" que geralmente era associado a eles. Um deles foi, sem dúvida, Keith Moon, do grupo The Who. Mesmo Ringo Starr, nos Beatles, conseguia ter os seus momentos de "show" e surgir também como a "feliz surpresa" reservada ao público que assistia aos espetáculos ao vivo. Mas Chris Curtis era um baterista, melhor dizendo, um indivíduo, de outra "água", muito mais especial do que muitos podem julgar... Ele, muitas vezes, parecia muito discreto nas atuações, quer ao vivo, quer na televisão. Mas depois, sobretudo depois de se assistir a demonstrações, como as que se vêem nos dois vídeos atrás, fica-se com a clara sensação de essa descrição ser algo muito bem "calculado". Por outras palavras, Chris Curtis procurava ser discreto, e mesmo "apagado", quando queria mas, sobretudo, quando era "conveniente"... Para depois surpreender todo o Mundo com atuações deste género! Quem via os Searchers pela primeira vez, não notava nada de especial no seu baterista... Todavia, depois de se assistir a estas verdadeiras explosões, onde ele chegava a "roubar" literalmente o espetáculo aos seus colegas de banda, já era impossível não olhar para este baterista a partir de um prisma diferente... Mesmo quando ele era mais discreto, ficava-se com a mesma sensação com que se fica quando se olha para uma fera em repouso ou para um vulcão adormecido... Isto, decerto, estará a acontecer a todos os que lêem este artigo, pela primeira vez. Pode-se dizer que, Chris Curtis era um "falso discreto"... 
Este vídeo provinha do mesmo espetáculo ao vivo, de 1964, do qual também aparece outro, mais atrás, neste artigo.

Para além disto, havia diversos temas gravados em que ele era o vocalista principal. Entre estes estavam "Ain't That Just Like Me" e "This Empty Place". Isto parecia também aumentar a tensão que foi crescendo entre Chris Curtis e Tony Jackson. Conta-se que, num momento a que os dois chegaram a altercar, Chris Curtis "cresceu" para Tony Jackson e encostando-lhe o indicador contra o peito, disse-lhe que ele não cantava mais a solo nos Searchers enquanto ele lá estivesse.

The Searchers - "This Empty Place" (da autoria da dupla Burt Bacharach e Hal David) (1964). Chris Curtis no seu melhor.


            The Searchers - "Someday We're Gonna Love Again" (1964). Foi o último single que Tony Jackson gravou com este grupo. E não mais voltou para trás...

Devido a estas fricções no interior do grupo, Tony Jackson acabou por sair no Verão de 1964, embora ele tenha, na altura, alegado razões de saúde, sem que isso tenha ficado devidamente clarificado. Nesse momento, o grupo encontrava-se a atravessar uma fase de grande êxito discográfico e no som que se estava a tornar a sua imagem de marca, muito baseado em harmonias vocais, a voz de Tony Jackson não parecia fazer falta.

"What Have They Done To The Rain?", outro tema contra a guerra, ainda que de uma forma mais subtil. A determinada altura, a imagem é centrada num indivíduo que foi assistir a esta performance dos Searchers. Era Brian Epstein, o manager de um grupo ainda mais famoso: os Beatles. A determinada altura, pouco antes do seu prematuro falecimento, em 1967, Brian Epstein confessará que, se pudesse voltar atrás, teria também sido manager dos Searchers. Inclusive, Paul McCartney, dos Beatles, terá tentado "trazê-los" para a "NEMS Enterprises" de Brian Epstein, onde já se encontravam outros grupos da "onda merseybeat". Eles recusaram, porque "não aceitavam ficar em posição secundária em relação aos Beatles". Aliás, chegou-se a dizer que os Searchers eram a única grande banda de Liverpool a não estar sob a alçada de Brian Epstein. Por outro lado, é sabido que, se os Searchers tivessem aceitado a "oferta" de Paul McCartney, seria o seu manager de então, Tito Burns, a impedir tal transição. Por aquela altura, 1964, os Searchers eram a banda favorita dos Beatles.


Quando Tony Jackson abandonou o grupo, muitos se interrogaram sobre o futuro dos “Searchers”, visto que, segundo até então parecia, ele era a principal razão do seu êxito e, aparentemente, o frontman. Para muitos fãs e críticos, Tony Jackson parecia insubstituível. Chegou a haver espetáculos a começarem mal, onde se ouvia grande parte do público a reclamar "We want Tony!!!" e os outros membros do grupo a ficarem algo assustados... Pensava-se que seria o fim anunciado dos “Searchers” e para Tony Jackson, o início de uma carreira promissora.

The Searchers - "The System" (1964). Em 1964, os Searchers são convidados a contribuir com alguns temas para um filme com este título, privilégio só reservado a alguns "escolhidos".

The Searchers - "Goodbye My Love" (1964-1965). O último tema dos Searchers a atingir o "Top Five" na Inglaterra (nº 4 em 1965). Durante 1965, o palmarés desta banda manteve-se sólido e elevado. 

Por ironia, o futuro provaria exactamente o contrário. Logo de seguida, encontraram um substituto para o baixo, de nome Frank Allen (em baixo, à direita), com o qual as relações pareciam ser mais fáceis. Segundo alguns, a escolha de Frank Allen, que era conhecido dos "Searchers" já há algum tempo, teve o fundamental contributo de Chris Curtis (à esquerda).
Este novo membro, mais jovem do que os outros "Searchers", vinha de um outro grupo, "Cliff Bennett And The Rebel Rousers", que também teve alguns sucessos em meados dos anos 60. Mais "low-profile", Frank Allen encaixará bem nos "Searchers" e revelar-se-á, pelo menos, segundo os produtores, uma boa escolha. De facto, ao fim de mais de cinco décadas, Frank Allen ocupa ainda um lugar de destaque nos "Searchers" do século XXI. Ao lado do guitarrista John McNally (à direita), é um dos dois elementos mais antigos do grupo.
Coube-lhe a honra de ser a voz principal no tema de abertura do primeiro LP que os Searchers lançaram a seguir à sua chegada ao grupo, o álbum "Sounds Like Searchers", saído no começo de 1965.
  

The Searchers - "Everybody Come And Clap Your Hands" (1965). A voz principal é do, então, recém-chegado baixista Frank AllenMais uma vez, com um genial e inesquecível arranjo rítmico do baterista Chris Curtis e que é um elemento decisivo neste tema.


Após uma breve pausa, Tony Jackson decide constituir o seu novo grupo sob o nome "The Vibrations". Logo nesse ano, 1964, lançam o seu primeiro single, "Bye Bye Baby", que, apesar de ter sido um êxito moderado, parecia augurar uma carreira promissora. Contrariamente ao que muitos previam, os singles lançados posteriormente, não tiveram qualquer êxito de assinalar. Em contrapartida, o seu grupo antigo, "The Searchers", continuava a somar sucessos. 

The Vibrations - "You Beat Me To The Punch" (1964). 

Por ironia ou não, o seu segundo single "You Beat Me To The Punch", saído em Dezembro de 1964, soava muito ao cruzamento de dois êxitos, desse mesmo ano, do seu antigo grupo "Searchers": o já referido "Needles And Pins" e "When You Walk In The Room", este último também lançado no final desse ano, com muito maior sucesso. 

The Searchers - "When You Walk In The Room" (1964). Um tema "clássico" do qual se fizeram incontáveis covers.

The Searchers - "I'll Be Missing You" (1964). O lado B do tema anterior. É menos interessante do que o "When You Walk In The Room", mas não é de menosprezar... A prova de que os lados B dos singles podem trazer agradáveis surprezas...

O arranjo feito ao tema, da autoria de um outro grande nome, Smokey Robinson, "You Beat Me To The Punch", foi uma sugestão do seu produtor, Larry Page, no sentido de tentar criar uma "leve semelhança" com a sua anterior banda, que não se revelaria, afinal, bem sucedida. 

Tony Jackson & The Vibrations - "Fortune Teller" (1965). Mais uma das muitas covers que houve deste tema. Esta versão revela uma clara influência dos "The Kinks" de Ray Davis. O estilo das interpretações deste grupo, parecia mudar quase de tema para tema, numa clara tentativa de conseguir o tal grande hit, que nunca mais chegava.

A determinada altura, já em meados de 1965, tentou dar-se mais relevo a Tony Jackson, talvez com a intenção de este, eventualmente, embarcar numa prometedora carreira a solo. É na sequência disto que se extinguem os "Vibrations" e surge o "Tony Jackson Group", com eventuais mudanças de pessoal pelo meio. Mais uma vez, esta nova chance não resultou e a sua editora não lhe renovaria o contrato.
Tony Jackson Group - "Stage Door" (1965). Tony Jackson em modo "easy listening", estilo Gene Pitney ou "Brill Buildind" (Burt Bacharach & Hal David et al.). O rock parecia ter ficado para segundo plano, mas a experiência não resultaria no êxito pretendido... E voltou-se ao modelo anterior.

Mesmo com as mudanças de editoras e produtores, passando pela mudança de nome do grupo para um lacónico "Tony Jackson Group" e alguns singles lançados sob o seu nome individual, a sorte parecia fugir a Tony Jackson

Tony Jackson Group - "You're My Number One" (1966). Apesar da promoção, mesmo em programas de rádio, este single foi acolhido com indiferença, tanto pela crítica como pelo público. Por outro lado, nesta altura (Fevereiro de 1966), a rádio e a televisão estavam "inundados" de temas deste género. Não havia qualquer possibilidade de, então, um tema destes se destacar ou fazer a diferença... Mesmo tentando-se colar a estilos de grupos pertencentes à "nova onda", como os Byrds norte-americanos. A guitarra de Ian (Leighton) Buisel consegue, apesar de tudo, "salvar" o tema.

Tony Jackson Group - "Let Me Know" (1966). Lado B do single anterior.

Por diversas vezes, ele teve de engolir o seu orgulho e aceitar alguns convites da sua antiga banda "Searchers", para actuar com eles ao vivo, quando planeavam interpretar temas de quando ele era o vocalista principal. Não raras vezes, as digressões de ambos os grupos coincidiam, muitas vezes para difundir a ideia de que já não existiam eventuais ressentimentos mútuos.

Ainda com contrato na editora CBS, depois de mais um single lançado, desta vez sob o nome de apenas "Tony Jackson", que também não teve êxito, o grupo regressou ao nome de "Tony Jackson Group" e lançou um novo single, muito bem conseguido e que podia ter sido a sua oportunidade de conseguir algo próximo de um êxito discográfico ou, pelo menos, uma receção minimamente positiva da parte da crítica musical. Mais uma vez, o azar voltou a alcançá-los...
 
Tony Jackson Group - "Follow Me" (1966). Um potencial "hit" que não chegou a ser. Como muitos outros ao longo dos tempos...

Tony Jackson Group - "Walk That Walk" (nalgumas prensagem de discos "Walk, Walk, Walk") (1966). Lado B do tema anterior. Revelador de algum "potencial" que, apesar de tudo, esta banda havia conseguido atingir. Mas de pouco lhes serviria...

Desiludido com a falta de sucesso discográfico e com o panorama da indústria musical anglo-americana, Tony Jackson e o seu grupo, a partir do final de 1966, decidem entrar em digressão por outros países, nomeadamente França e Espanha. Curiosamente, acabarão por vir a Portugal com maior frequência durante esse ano de 1967
Tony Jackson Group, mais ou menos na altura em que passaram por Portugal. Da esquerda para a direita: Paul Francis, Denis Thompson, Tony Jackson e Ian (Leighton) Buisel.

Diz-se que um dos elementos da sua banda, o guitarrista Ian Buisel, teria ligações familiares por cá. Por exemplo: a actriz portuguesa Júlia Buisel será sua parente. (Li algures que Ian (Leighton) Buisel seria seu meio-irmão, o que significa que este guitarrista seria luso-britânico.) Esta presença em terras lusitanas, acabará por lhes proporcionar a edição de um EP numa editora nacional de então, a "Estúdio". Apesar da qualidade dos temas interpretados, o último trabalho do "Tony Jackson Group", será acolhido pelo público e pela crítica com indiferença. Segundo algumas opiniões, este EP constitui hoje uma verdadeira raridade de muito alto preço.

Tony Jackson Group - "Understanding" (1967). Um tema original dos "Small Faces". Destaque, uma vez mais para a guitarra de Ian Buisel e, acima de tudo, da execução rítmica da bateria de Paul Francis. Em anos mais recentes, este antigo baterista Paul Francis escreveria uma autobiografia intitulada "Drumming up Vibrations", onde dedicou uma grande parte ao seu antigo colega de banda e grande amigo Tony Jackson. Segundo informações, este Paul Francis esteve com Tony Jackson nos seus últimos momentos de vida.

Tony Jackson Group - "Shake" (1967). Um tema original de Sam Cooke e que também teve muitas covers, inclusive de Rod Stewart no começo da sua carreira, em 1966. Este tema será, decerto, a única oportunidade que se tem de escutar a voz do guitarrista Ian Buisel.

Tony Jackson Group - "He Was A Friend Of Mine" (1967). Um tema original de Bob Dylan e favorito de muitos cantores em todo o mundo, a começar por Paul Simon. Segundo se conta, foi a sua interpretação à viola que terá feito um certo Art Garfunkel se decidir a formar um dueto com ele...

Sem mais nenhum sucesso discográfico, nem o vislumbre de um novo contrato por parte de uma editora à vista, Tony Jackson decide extinguir o seu grupo por volta de 1968. A partir daí, iniciará uma vida pautada por diversas actividades, desde apresentador de televisão a vendedor, parecendo ter deixado para trás, definitivamente, a sua carreira de músico. Devido a razões diversas, nunca esteve muito tempo nessas profissões.

Uma breve previsão de regresso ao mundo da música aconteceu por volta de 1985. O antigo colega dos “SearchersMike Pender decide sair do seu grupo original, onde se mantinha como líder há muitos anos, e criar a sua própria banda “rival”, com o nome "Mike Pender's Searchers". Mike Pender convida então Tony Jackson a entrar nesse novo projecto musical, ocupando, de novo, o posto de baixista. Pouco depois, Tony Jackson desiste desta ideia, ao verificar que a sua condição era a de apenas “músico assalariado” e não de co-líder, como ele pretendia. Mesmo assim, não houve desta vez mais nenhum corte de relações entre ambos, visto que ambos chegariam a actuar juntos ao vivo, esporádicamente.
Mike Pender's Searchers - "Sweets For My Sweet" e "Needles and Pins". Tony Jackson, que tinha vindo assistir ao espetáculo da banda do seu anterior colega e grande amigo Mike Pender, é convidado para ir ao palco fazer a voz principal nestes dois temas. Nota-se um inicial pouco "à vontade" no antigo "Searcher", mas logo Mike Pender, através da sua guitarra, consegue fazer Tony Jackson ganhar coragem, fazer uma rápida busca à sua memória e regressar aos seus tempos de vocalista de sucesso e com um timbre inconfundível.

Neste período de finais da década de 80 e começo de 90, provavelmente sob o incentivo, oportuno, das reedições digitais em CD do catálogo musical de muitas bandas da década de 60, surge, em paralelo com a música da moda de então, uma onda de revivalismo. Para a satisfação de muitos fãs, bandas e cantores de outros tempos regressam, ainda que temporariamente, à ribalta. É neste contexto que Tony Jackson pondera formar um novo grupo musical, assente, em grande parte, na memória dos seus velhos tempos de cantor de sucesso. Deveria ser um grupo de cariz revivalista, assente, pelo menos numa fase inicial, em espectáculos ao vivo a decorrer no circuito britânico, sem pôr de parte a hipótese de poder ser extensível ao público americano. Muito sintomático, foi a escolha inicial do nome para o seu novo grupo: “Tony Jackson’s Re-Searchers”. No entanto, ele foi antes aconselhado a retomar a memória do seu grupo posterior “The Vibrations”, o que ele acabaria por reconhecer como a hipótese mais sensata, devido ao facto de já existirem os referidos "Mike Pender's Searchers" e os próprios "Searchers", estes com o guitarrista e membro fundador John McNally (em baixo) à frente e Frank Allen no baixo, a percorrerem o mesmo circuito de público pretendido.
De facto, em 1991, Tony Jackson chegou a formar uma espécie de “New Vibrations”, reforçado pela presença de, pelo menos, um elemento da banda original, o baterista Paul Francis. De referir que, segundo alguns dados, o guitarrista Ian (Leighton) Buisel já teria falecido em 1988. No entanto, devido à dificuldade em conquistar um público numericamente convincente, para assistir aos seus espectáculos em agenda, Tony Jackson decide, num curto espaço de tempo, dissolver o seu recém-criado grupo. A partir de então, regressa de novo ao anonimato, só voltando a ser notícia em 1996, desta vez por razões negativas. É detido na sequência de ter ameaçado uma mulher, numa cabine telefónica pública, com uma arma falsa. A vítima só lhe havia pedido para ele a deixar usar o telefone… Apesar de não se tratar de uma arma verdadeira, Tony Jackson ficaria detido por 18 meses.
A verdade é que, já há algum tempo, a vida de Tony Jackson havia entrado numa espiral de queda. As dificuldades económicas, associadas a problemas de saúde, como a diabetes e a artrite, agravadas pelo alcoolismo, haviam tomado conta da sua existência. Depois de 1997, após ser-lhe devolvida a liberdade, as suas dificuldades de vida e os seus problemas de saúde não pararam de se agravar. Nem mesmo o apoio dos seus antigos amigos do tempo dos “Searchers”, como John McNally, já era suficiente para minorar a sua decadência física.

No seu último ano de vida, em 2003, Tony Jackson já apresentava grandes dificuldades de locomoção, a que não seria alheia a sua incurável dependência da bebida. Faleceria na sua casa, quase isolado do mundo, na sequência de mais uma crise cardíaca, em meados de Agosto desse mesmo ano. Tinha apenas 65 anos e estava desiludido com a vida. Um ano depois, em 2004, é editada uma colectânea, abrangendo a sua carreira musical entre 1964 e 1967, que procura fazer alguma justiça ao seu verdadeiro talento.

                                           
Tony Jackson Group - "She Wanted Me" (1965 - 2004).

Como é costume acontecer com outras edições longamente aguardadas, esta trazia, entre outros, um tema que, avaliando em retrospetiva, poderia ter sido o hit tão procurado por Tony Jackson e os seus Vibrations, ainda em 1965. O tema foi gravado e chegou à fase da "master", ou seja, como o grupo pretendia que fosse lançado em single. O problema é que, como muitas vezes acontecia, não eram os cantores, nem os membros dos seus grupos quem tinha a "palavra final" quanto ao que iria ser editado ou não. Terá sido, por esta altura, em 1965, que a sua sua editora de então, devido ao facto de os seus singles prévios não terem tido qualquer êxito, não lhes renovou o contrato. Conseguiram contrato noutra editora, mudaram o nome para "Tony Jackson Group", foram alterando o estilo da sua música, mas a sua sorte não mudou.  Por alguma razão, o tema "She Wanted Me", ficaria inédito até 2004... Outros casos semelhantes têm sido frequentes...


De referir que, dois anos depois, em Fevereiro de 2005, também faleceu Chris Curtis, outro elemento fundador dos "Searchers", nascido em 26 de Agosto de 1941. Apesar da sua liderança, tendo também contribuído para a escolha dos temas interpretados e mesmo composto alguns, Chris Curtis já havia deixado os "Searchers" em 1966
                                        
Se a saída de Tony Jackson, em 1964, significou uma visível mudança de estilo, a desistência abrupta de Chris Curtis foi bastante inoportuna, principalmente num momento em que a qualidade das suas composições, em parceria com o resto da banda, atingira um nível de qualidade e maturidade que parecia anunciar um futuro interessante.  Basta fazer uma audição do interessante LP "Take Me For What I'm Worth", lançado no final de 1965, onde surgem vários temas creditados aos quatro elementos que, então, integravam o grupo. 

The Searchers - "Too Many Miles" (1965). Uma pequena obra-prima, que poderia emparceirar junto de outras canções, como "Yesterday" dos Beatles, também lançada neste ano de 1965?

The Searchers - "Don't You Know Why" (1965). 

The Searchers - "Take Me For What I'm Worth" (1965). Traduzido para português, quer dizer "aceita-me tal como sou". Mike Pender faz a voz principal.

Esses temas estão entre o que de melhor se produziu nesse ano. 
Segundo algumas opiniões, a razão principal dos Searchers não terem tido um êxito maior nem mais duradouro, residiu no facto de o essencial do seu repertório, ao contrário de outros grupos como os Beatles e os U2, ser constituído por temas de autoria alheia. Se se contabilizar, 90% dos temas que eles interpretaram, ainda no auge do seu sucesso, eram tanto covers de temas mais ou menos famosos, como temas escritos por outros compositores, ainda que escolhidos de uma forma, incontestavelmente, muito criteriosa. Muitos atribuem, precisamente, ao baterista Chris Curtis esse critério de escolha particularmente certeiro. 
Desta forma, pode ser incontestável afirmar que o baterista Chris Curtis era uma peça fundamental nos Searchers, talvez ainda maior do que havia sido a de Tony Jackson. Os raros temas da sua autoria ou em parceria com outro elemento do grupo, em especial com o guitarrista e vocalista Mike Pender, eram reveladores de um talento, afinal, muito sub-aproveitado. 
Um desses fantásticos temas era o "He's Got No Love", também lançado nesse ano de 1965. Um tema muito "à 1965" e onde aquilo a que se pode chamar "som dos Searchers" melhor se afirmou.

The Searchers - "He's Got No Love" (1965).

Bastou uma sequência de maus momentos numa digressão à Austrália, que correu particularmente mal, para fazer Chris Curtis ficar determinado a abandonar os Searchers. Nada nem ninguém conseguiu fazê-lo mudar de ideias. A partir daqui, nada mais foi como dantes...
Logo depois da saída de Chris Curtis, gravariam uma versão bem conseguida de um tema dos Rolling Stones, "Take It Or Leave It", que seria um êxito, ainda que menor do que os da sua fase anterior. Todavia, foi por esta altura que se iniciou a sua fase descendente e a consequente perda de notoriedade. Apesar de tudo, mantiveram, sobretudo no seu país de origem, uma base sólida de fans, como prova o facto de terem durado mais de meio século, pela mão de dois dos seus elementos mais antigos, o baixista e vocalista Frank Allen e o fundador e guitarrista John McNally.


The Searchers - "Take It Or Leave It" (1966). Um tema composto por Mick Jagger e Keith Richards.

Já em 1967, os Searchers tentaram, como muitas vezes, um regresso aos êxitos com, entre outros temas, uma fantástica versão de "Western Union". 

The Searchers - "Western Union" (1967). Na foto da capa do single, de pé, no meio, John Blunt o baterista que foi ocupar o lugar deixado por Chris Curtis. Este fará críticas muito severas e depreciativas à prestação deste, então, jovem baterista.

Não obstante a qualidade de diversos temas, os Searchers, já nesse ano tão produtivo em matéria artística, não só musical, que foi 1967, faziam parte dos que haviam ficado "para trás", como aconteceria com outros cantores e grupos da sua geração. Aliás, a maior parte dos artistas que haviam representado, ainda poucos anos antes, a chamada "invasão britânica", incluindo "Gerry and The Pacemakers", "Freddie and The Dreamers", "Peter & Gordon", "Dave Clark Five", "Swinging Blue Jeans" e "Billy J. Kramer & The Dakotas", haviam sido, literalmente, "esmagados" pelas novas "ondas". Os grupos norte-americanos, entretanto surgidos, como os "Doors" e os "Jefferson Airplane", haviam passado a ganhar uma incontestável maior notoriedade. "Evolui ou morres!", já diz a famosa máxima...

                                          
Chris Curtis - "Aggravation" (1966). Aquando da estreia deste tema na rádio, Chris Curtis foi convidado para uma curta entrevista de apresentação. "Don't you give me any (aggravation)!!!", terá dito ele ao entrevistador...

Tal como Tony Jackson, Chris Curtis tentará, sem sucesso, uma carreira a solo (com o single "Aggravation", lançado em Junho de 1966) o qual, apesar da promoção que chegou a ter, foi quase ignorado, tanto pelo público como pela crítica musical de então. 
Por essa altura, Chris Curtis conviverá com muitos dos artistas e grupos de então, incluindo os Beatles, em mais uma tentativa de regressar à ribalta. Por volta de 1967/1968, manteve uma proximidade com músicos como o guitarrista Richie Blackmore e o teclista Jon Lord. Em conjunto com estes, Chris Curtis ter-se-á empenhado na constituição de um novo grupo musical. Um nome para essa nova banda chegou a ser sugerido: "Roundabout". Jon Lord e Chris Curtis terão mesmo chegado a partilhar um apartamento, até aquele ter chegado à conclusão de se ter tornado impossível viver com este debaixo do mesmo teto. Numa ocasião, Jon Lord esteve uns dias fora e, quando voltou, não queria acreditar no estado de autêntica inabitabilidade em que o apartamento se encontrava. Chris Curtis havia tido a ideia peregrina de cobrir tudo, inclusive as lâmpadas e a sanita, com papel prateado. Talvez tivesse ficado algo impressionado e entusiasmado com qualquer coisa que ouvira acerca da "Factory" do artista norte-americano Andy Wahrol... Não teria sido mais do que uma manifestação das suas muito particulares "idiossincrasias". E o projeto dos "Roundabout" cairia por terra.  
George Harrison, dos Beatles, chegou a alcunhá-lo de "Mad Henry". Vá se lá saber porquê...
No entanto, a ideia de constituir uma nova banda manteve-se no ar. Seria, a partir desta ideia, que surgiriam os consagrados e incontornáveis "Deep Purple". Pode-se dizer que, de uma forma indireta, Chris Curtis contribuiu para fundar os "Deep Purple". Todavia, quando estes se constituem, Chris Curtis já tinha desaparecido do mapa musical.
Profundamente desiludido com o panorama artístico e social de então, Chris Curtis tornar-se-ia um vulgar funcionário público, tendo depois se mantido no anonimato e afastado do mundo da música durante mais de 20 anos. Durante este tempo, fugiria de todo esse seu passado artístico "como o Diabo  da Cruz". O "Chris Curtis músico e baterista" como que havia deixado de existir. Quando solicitado por estudiosos da música dos anos 60, recusaria terminantemente qualquer entrevista, afirmando que, definitivamente, não queria falar nos Searchers, nem em qualquer assunto que tivesse relação com isso, mesmo no simples tema da música. Contudo, passaria a ter uma atitude completamente inversa em anos mais recentes, surgindo com uma generosidade inaudita e não tendo, aparentemente, qualquer problema em falar no seu passado de membro de um dos grupos mais importantes da história da música do século XX. 
Também sofrerá de problemas de saúde incapacitantes que o levarão a uma reforma prematura. Mesmo assim, Chris Curtis tentará, nos seus últimos anos de vida, um tímido regresso à música, através de breves reencontros e actuações ocasionais com outros músicos britânicos da sua geração, de preferência residentes em Liverpool, cidade onde ele havia passado a residir e com um grande historial de bandas durante a década de 1960, com destaque, claro está, para os Beatles, sem esquecer os "Searchers". Um destes grupos revivalistas é conhecido pelo nome de "Merseycats".
Chris Curtis c.a. 2003.

                                    Chris Curtis c.a. 2003.


Christopher Vincent Crummey "Curtis" (1941-2005).
    
The Searchers - "Can't Help Forgiving You" (1964). Literalmente...

The Searchers - "The System" (1964). Neste tema fala-se no "sistema" ou comportamento suficiente para se condenar e acabar de vez com uma relação amorosa inicialmente promissora... "I'm telling you how (Oh yeah!!!)/I'm telling you why (Oh yeah!!!)/I'm telling you when (Right now!!!)/Get on to the system/It's crazy, it's cruel"; "Come on with the sweet talk/Be moody and mean (...) And when it's the end of the line/That it's goodbye"/"So wait for the moment/There will be time to pay" (...) And when it's the end of the line/YOU'RE ALL ALONE!!!"

terça-feira, agosto 26, 2008

Um nome fora do vulgar: Steve Peregrine (Peregrin?) Took

Mickey Finn (1947-2003) e Marc Bolan (1947-1977)
Na primeira metade dos anos 70, um grupo denominado “T-Rex” dominava, entre outros como os “Pink Floyd”, David Bowie e “Led Zeppelin”, os lugares cimeiros dos “hit-parades” da música ocidental. Quando se tenta descobrir quem estava por trás de mais esta “máquina de fazer sucessos”, surge logo o nome de Marc Bolan, ele próprio um genuíno representante do termo “one-man-show”. O estilo de música em que o seu grupo se inseria, seria denominado de “Glam-Rock”, apesar de muito do som das suas guitarras eléctricas não andar longe do “Heavy Metal”, outro género então em ascensão. Observando mais de perto, surge o nome do outro elemento-chave deste grupo: Mickey Finn. Apesar do grupo incluir mais elementos, eram estes dois a imagem de marca dos “T-Rex”, um grupo merecedor de uma análise mais aprofundada que, para já, não será aqui feita. 

Os principais elementos da banda "T-Rex", durante o seu período de maior êxito, entre 1971 e 1973. Para além de Mickey Finn (1947-2003) e Marc Bolan (1947-1977), eram também (em cima) Bill Legend (bateria) (1946) e Steve Currie (baixo) (1947-1981). Em finais de Abril de 1981, veio nos jornais portugueses a breve notícia de que um jovem turista inglês havia morrido num acidente de viação ocorrido no Algarve... Era Steve Currie... Desta forma, no momento em que se escrevem estas linhas, Bill Legend é o último sobrevivente deste grupo.





T. Rex - "Get It On (Bang-A-Gong)" (atuação ao vivo na televisão). Aqui é possível ver qual a posição que, geralmente, Mickey Finn ocupava nesta banda. Segundo se diz, Marc Bolan escolheu este, antes ilustre desconhecido, motoqueiro frequentador da vida noturna, não pelas suas eventuais ("limitadas") capacidades musicais, mas porque "he can't sing... but looks superb!"... Aliás, Mickey Finn, durante o muito breve auge dos T. Rex chegou a ser considerado "o homem mais bonito do mundo".















T. Rex - "Get It On (Bang-A-Gong)" (1971). Atuação ao vivo, com a presença de Elton John, um dos grandes amigos e fans de Marc Bolan.

Marc Bolan's T. Rex - "20th Century Boy" (1973). O video diz tudo acerca da promoção e do impacto que este grupo de "Glam Rock" chegou a ter. Marc Bolan era uma autêntica "superstar". Mickey Finn, apesar de muito secundarizado, lá ia tentando também "brilhar" nos espetáculos ao vivo. E conseguia... É também um vídeo onde se percebe que se pode conseguir grandes vôos quando se está no auge... antes de uma eventual queda abrupta.
Tal como aconteceu com o "Get It On (Bang-A-Gong), participaram nos coros um dueto conhecido pelo nome de "Flo & Eddie", ou seja, Mark Volman ("the Florescent Leech") e Howard Kaylan ("Eddie"), antigos membros da famosa banda americana "Turtles" (ainda hoje lembrados pelo hit "Happy Together"), da qual, este último ("Eddie"), era o vocalista principal. Eles faziam os falsettos, que, em atuações ao vivo eram substituídos por coros femininos...
Eis o dueto "Flo & Eddie" (Mark Volman e Howard Kaylan), que também gravaram diversos discos em nome próprio, incluindo um com um título ainda hoje considerado muito excêntrico: "Illegal, Immoral and Fattening" (1975) (traduzido à letra é "ilegal, imoral e que engorda"). Muito vocacionados para a comédia e a pantomina, também fizeram parte dos "Mothers Of Invention" de Frank Zappa, entre 1970 e 1971, participando não só nos coros, como também nos espetáculos ao vivo e em filmagens diversas, com destaque para o filme "musical" "200 MOTELS", lançado em 1971 e hoje muito difícil de encontrar.

Na versão de estúdio, de "20th Century Boy" (1973), que é a que aqui se ouve, o som do riff "hard" famoso da guitarra principal era reforçado por um instrumento musical então, em 1971, pouco usual no rock: o fagote ("bassoon").
O fagote ("bassoon") é uma presença muito comum nas orquestras de Música Clássica.

Gravação ao vivo de "20th Century Boy" (1973) onde o som da guitarra de Marc Bolan surge mais "puro". É a minha versão favorita deste tema. Também por que aqui ouvimos o som verdadeiro dos elementos da banda, sem "truques" de estúdio. Ao contrário do que, por vezes, tem acontecido com diversas bandas e a avaliar por esta performance memorável, temos de reconhecer que os seus elementos, para além de Marc Bolan, realmente, sabem tocar! Mesmo Mickey Finn, que muitos, inicialmente, julgavam estar apenas a "posar para o boneco" nos T-Rex, revela-se um percussionista de eleição nas suas tumbadoras ou congas, numa simbiose perfeita com o baterista Bill LegendA parte rítmica desta versão está ao nível da excelência! 
Se ele, Mickey Finn, quando apareceu, quase do nada, como elemento-chave de uma banda de sucesso como esta (T-Rex), parecia ter poucos talentos musicais e ser um tanto canhestro, mesmo em comparação com o anterior percussionista Steve Peregrine ("Peregrin") Took, podemos constatar que ele encontrou um fantástico e verdadeiro "professor" em Marc Bolan. De facto, atualmente, existe uma escola de música com o seu nome, a "MARC BOLAN SCHOOL OF MUSIC".

O álbum mais vendido desta banda ("T. Rex") foi o "Electric Warrior" (1971), que chegou, nesse ano, a número 1 do Top. Deste disco saliento, como o meu tema preferido, o "The Motivator".
T. Rex - "The Motivator" (1971). De novo, surgem nos coros o dueto "Flo & Eddie"(em baixo) e a utilização do fagote ("bassoon") para reforçar o som dos riffs mais graves da guitarra elétrica e, em notas mais agudas, num ou noutro momento deste tema. De salientar a utilização de um grupo de "cordas" em certos momentos deste "The Motivator". Não merecia ter ficado "enterrado" no lado B deste LP ainda por cima em 9º lugar...
O dueto "Flo & Eddie" (Mark Volman e Howard Kaylan) mais ou menos na mesma época em que faziam os coros, em falsetto, nos discos de grupos como os T. Rex, os Mothers Of Invention (de Frank Zappa) e outros, para além dos discos que gravaram em nome próprio.


Marc Bolan (1947-1977) & T. Rex - "Deborah". Versão ao vivo, de um tema antigo, gravada pouco antes do fatal desastre de viação. A determinada altura, Bolan quis regressar a um registo mais acústico e, após um breve período de ausência, regressar "à estrada" e Mickey Finn mostrou-se disponível. Mais tarde, não muito antes do seu falecimento algo prematuro aos 55 anos, Mickey Finn dirá que "Marc Bolan era um seu irmão" e que, quando ele morreu, "ele morreu também e perdeu o interesse em tudo na vida, tendo chegado a ponderar o suicídio". Há quem afirme que Mickey Finn nunca recuperou da perda do seu grande amigo e correlegionário e que muito da sua posterior, e evidente, decadência física foi desencadeada pela morte de Marc Bolan.

Entrevista com Mickey Finn, o outro elemento-chave nos T. Rex. "Quando me disseram: "Marc Bolan está morto", eu não quis acreditar!!! Era a última coisa que eu queria ouvir!!! Foi como se me tivessem cortado um membro!!! Eu não consigo, nem nunca conseguirei, explicar o muito que ele significava para mim!!! Nunca mais fui o mesmo!!! Nunca mais serei o mesmo!!! Mas se há coisa que nunca, nem ninguém, me poderá tirar são as minhas memórias dele!!!"

Outra entrevista a Mickey Finn onde ele, mais uma vez, fala de Marc Bolan.

Atuação dos Mickey Finn's T. Rex, com a presença de Rolan Bolan, o filho de Marc Bolan.


Marc Bolan e a sua última esposa Gloria Jones, de cujo casamento nasceu Rolan Bolan. Ela conduzia o carro em cujo acidente ele teve morte imediata.

Mickey Finn's T. Rex interpretando uma versão do grande êxito "Hot Love".

Mickey Finn por volta de 1995 - 2000.

Mickey Finn's T. Rex, num dos últimos espetáculos em que Mickey Finn apareceria, já bastante doente e prematuramente envelhecido, antes do seu falecimento.

O grupo Mickey Finn's T-Rex em 2001.


Mickey Finn em 2001.


Mickey Finn em 2001.


Mickey Finn em 2001.


Mickey Finn em 2001.


Mickey Finn em 2001.

Inauguração de um monumento de homenagem a Marc Bolan em 2002.

Em 2002, terá sido uma das últimas aparições públicas de Mickey Finn.


Vídeo de homenagem a Mickey Finn (1947-2003), o outro elemento-chave nos T. Rex. Houve uma última entrevista a Mickey Finn, feita quase ao a acaso, mas que não consegui trazer para esta postagem.

Fotogramas provenientes da referida última entrevista feita a Mickey Finn, em 2002, meses antes de falecer com 55 anos.


Recuando alguns anos, verifica-se que o nome “T-Rex” não é mais do que uma abreviatura de “Tyrannosaurus Rex”, nome de um temível animal jurássico e de um outro grupo musical, que antecedeu aquele, embora sem nada de comparável, a não ser pelo facto de ter sido também um dueto e de nele também surgir, em grande destaque, o nome e a figura de Marc Bolan. No entanto, era um dueto “de facto”, quer em “imagem de marca”, quer instrumentalmente, raramente recorrendo a colaborações de fora, quer em estúdio, quer ao vivo. Era na outra metade deste dueto que se encontrava a figura e a personalidade, que respondia pelo nome artístico de Steve Peregrine (“Peregrin”, segundo algumas fontes) Took.

Este jovem, nascido Stephen Porter em 1949, com aspirações musicais, nunca tinha estado previamente numa banda, quando respondeu a um anúncio colocado por Marc Bolan na revista "Melody Maker", no Verão de 1967. A intenção deste era formar a sua primeira banda independente, depois de já ter tido alguma experiência musical tanto a solo como em, pelo menos, uma banda de rock. Marc Bolan conseguiu, então reunir os cinco músicos de que ele precisava para actuar num concerto agendado dentro um prazo muito curto. Não houve quaisquer ensaios, nem teste de som, nem foi elaborado nenhuma lista prévia do alinhamento das músicas a interpretar nessa noite. Apesar de tudo, as expectativas de Marc Bolan e da sua banda recém-constituída eram muito elevadas.

O que acabou por acontecer foi que o concerto foi um completo desastre, com a banda a ser mesmo vaiada fora do palco. Marc Bolan ficou arrasado e a sua banda separou-se, ainda nessa noite, e todos os seus membros, salvo Steve Peregrine Took, foram embora. Este ocupava o posto de baterista e obtivera o seu nome artístico a partir de um personagem das histórias fantásticas do escritor J. R. Tolkien: Peregrin Took - o grande amigo do "hobbitt" Frodo. 

Peregrin Took

Marc Bolan também partilhava da mesma paixão pelas histórias fantásticas de J. R. Tolkien e houve quem dissesse que a escolha do seu novo parceiro musical se devia precisamente ao pouco usual nome artístico, do que aos eventuais talentos musicais de Steve Peregrine Took


Por outro lado, o seu nome artístico e a sua aparência encaixavam bem no novo projecto musical de Marc Bolan que se seguiria: Tyrannosaurus Rex






Constituído o dueto, logo começariam as gravações do seu primeiro disco, a lançado na primeira metade de 1968. O seu título pouco usual e a sua temática e estéticas centradas nas histórias fantásticas de diversos autores, entre os quais o já referido J. R. Tolkien, contribuem, para além da imagem física do grupo, para a sua popularidade. Desde muito cedo que o elemento "imagem" era muito caro para um esteta como Marc Bolan.
Tyrannosaurus Rex - "Salamanda Palaganda" (1968). Versão ao vivo de um tema do seu segundo LP. Exoterismo, Surrealismo e outras tantas coisas, embrulhadas numa capa de exotismo de "terras distantes"... Um mero "exercício musical". Marc Bolan e Steve Peregrine Took ainda estavam em perfeita simbiose artística.

O terceiro disco “Unicorn”, lançado no começo de 1969, revela já uma relativa evolução em comparação com os anteriores. Os temas são mais complexos e instrumentalmente enriquecidos. Apesar de contarem com a colaboração esporádica de alguns elementos externos, Marc Bolan e Steve Peregrine Took surgem aqui como verdadeiros multi-instrumentistas, ao tocarem a maioria dos instrumentos nos diversos temas, graças às (então) inovações das misturas em estúdio. Este álbum contém igualmente algumas perspectivas de evolução futura do estilo musical do grupo, apesar de, como seria de esperar, não renegar o seu passado temático, muito baseado nas histórias fantásticas.

Tyrannosaurus Rex - "The Throat Of Winter" (1969).



Tyrannosaurus Rex - "Cat Black (The Wizards Hat)" (1969).

De qualquer forma, era preciso não esquecer o facto do panorama musical circundante ter evoluído muito rapidamente desde 1967 e que o estilo dos “Tyrannossaurus Rex”, correria sérios riscos de se tornar, em breve, anacrónico, apesar de continuarem a ter um núcleo de fãs convictos. No entanto, o êxito comercial há muito procurado continuava a fugir-lhes, o que deixava Marc Bolan, particularmente frustrado. 


Por outro lado, as relações pessoais entre ele e Steve Took, já algum tempo que se vinham esfriando, dando a entender que a sua aparente união visível em público e nos discos era quase já uma mera encenação. Os seus estilos de vida, nesse começo de 1969, não podiam ser mais dissonantes. Marc Bolan havia iniciado uma relação sólida com a sua futura mulher June, e viviam juntos uma vida relativamente calma e mais ou menos “limpa” de drogas.
 

Aliás, Marc Bolan, mesmo tendo já experimentado um pouco de “tudo”, afirmava-se avesso às drogas em geral, apesar da audiência da sua música incluir gente do mundo “underground”, onde a circulação de drogas de todo o tipo era bastante frequente. Daí que já lhe era algo difícil tolerar o estilo de vida do seu então parceiro de grupo Steve Peregrine Took.




Este, pelo contrário, considerava-se um “espírito-livre”, era avesso a qualquer forma de disciplina de vida e frequentava, sempre que podia, os mais diversos locais de “má-fama” da sua Londres natal, onde todo o tipo de drogas circulava a rodos e onde ele encontrava outros tipos mais ou menos do mesmo género. Aliás, havia já algum tempo que Steve Took era um indivíduo claramente mergulhado na toxicodependência, sendo este mau hábito permanentemente reavivado, quer por iniciativa própria, quer por incentivo de outros “amigos”. 


Para além do mais, ele parecia sentir um certo orgulho nesta sinistra condição, como se isto já fizesse parte das suas características intrínsecas e fosse um elemento de distinção e afirmação pessoal. Não seria, decerto, nada invulgar que Steve Peregrine Took, à maneira dos antigos feiticeiros e dos magos das histórias fantásticas do gérnero “tolkiano”, trouxesse consigo diversas doses das mais variadas substâncias. Para além disto, não era invulgar Steve ter uma parceira diferente de tempos a tempos, contradizendo a estabilidade conjugal que Marc Bolan pretendia conquistar. Por alturas do álbum “Unicorn”, podia-se afirmar que Steve Took arranjava todos os pretextos para regressar aos seus vícios, quer quando estivesse bem-disposto, quer quando estivesse “na pior”. Nesta fase, ele atravessava um dos seus diversos momentos menos felizes da sua vida. Isto devia-se ao facto de, paralelamente ao seu amadurecimento enquanto músico poli-instrumentista, Steve Peregrine Took ter começado a compor os seus próprios temas. 



Na esperança de se conseguir afirmar como individualidade musical e evidenciar-se um pouco mais nos “Tyrannosaurus Rex”, Steve tentou sugerir a Marc Bolan a introdução de temas da sua autoria, quer nos espectáculos, quer em futuras edições discográficas.


Tyrannosaurus Rex - "Warlord Of The Royal Crocodiles" (1969).

Tyrannosaurus Rex - "The Seal Of Seasons" (1969).



Marc Bolan, que tentava desesperadamente conseguir a sua ascensão musical através dos “Tyrannosaurus Rex” e se sentia cada vez mais frustrado pela ausência de êxitos discográficos visíveis, recusava sempre esta sugestão de Steve Took. O grupo era dele, as músicas eram dele e só a ele competia decidir quais os rumos a seguir em frente. Isto contribuiu para aumentar a frustração pessoal de Steve Peregrine Took, que agora mergulhava, ainda mais, nos seus vícios, para além de degradar a já problemática relação entre eles. Muitos que os conheceram de perto afirmaram que, por esta altura, eles se detestavam “cordialmente”.


Paralelamente, Steve Took, sentindo-se cada vez mais posto de lado por Bolan, que se assumia como o "chefe" dos Tyrannosaurus Rex, decide, através do seu círculo de relações, entrar em contacto com outros músicos e outras bandas, muitas delas ainda em fase de constituição. Entre estes, encontraria Syd Barrett, um dos seus ídolos e o líder original dos Pink Floyd, com o qual estabeleceria uma relação de amizade que, apesar dos longos períodos de reclusão de Syd, seria retomada de quando em quando. Todavia, nesta fase, o que foi decisivo para a carreira musical de Steve Peregrine Took, foi ter entrado em contacto com um certo Twink. Este John "Twink" Adler, fora o baterista de diversas bandas, entre os quais um grupo psicadélico denominado Tomorrow, entre 1967 e 1968, e os Pretty Things, quando estes gravaram o seu álbum mais importante "S.F. Sorrow". De referir que o baterista original desta banda, os Pretty Things, era o excêntrico "fenómeno" Viv Prince. Por alturas de 1969, Twink iniciava uma carreira musical independente e reunia músicas para o seu primeiro L.P., que iria saír no começo de 1970 e se intitulava "Think Pink".


Steve Took consegue ver dois temas seus incluídos neste álbum, ainda que no final do alinhamento original: "Three Little Piggies" e "The Sparrow Is A Sign". 


Marc Bolan, ao saber desta "generosidade" do seu parceiro de banda, ficou enfurecido, o que contribuiu para azedar ainda mais a já periclitante relação entre os dois. O respeito mútuo ainda seria, sem dúvida, a última coisa a sofrer danos irreversíveis, com um "passo" demasiado ousado da parte de Steve Peregrine Took.


Havia já algum tempo que Steve Took, para além dos seus vícios pessoais e dos círculos de convívios onde pululava, desenvolvera o estranho hábito de, provavelmente, tentar trazer outros para o seu “lado”. Ele se auto-proclamava como “Phantom Spiker”, por vezes com um orgulho desmedido. O seu mau hábito consistia em drogar as bebidas de outros sem que estes dessem conta. Uma diversão muito arriscada e muito criticável, pelo menos do ponto de vista moral. Um dia, ele resolveu fazer esta partida de mau gosto a Marc Bolan e este descobriu logo o seu autor. Foi o tal "passo" em falso que seria a gota de água para a dissolução dos "Tyrannosaurus Rex". 
Apesar do corte de relações entre os dois, os "Tyrannosaurus Rex" estavam ainda obrigados a fazer uma digressão pelos Estados Unidos, que foi, segundo descrições da imprensa da época, uma sucessão de actuações lamentáveis. Steve Peregrine Took, já completamente "nas tintas" para a sua banda, chegaria a tirar a roupa em palco e a fazer performances que faziam lembrar as de um outro artista surgido para a fama mais ou menos por esta altura: Iggy Pop.








Logo que se agendou a expulsão de Steve Peregrine Took dos Tyrannosaurus Rex, Marc Bolan encontrou um substituto na pessoa de um certo Mickey Finn. O quarto LP "A Beard Of Stars" (gravado durante 1969 e lançado em princípios de 1970) foi a sua estreia. Na altura, alguns perguntavam: "Quem é o novo Peregrine?"

T. Rex - "Get It On (Bang-A-Gong)" (1971). Vídeo de promoção do, então, novo single da banda.
Ao contrário do que acontecera com Steve Peregrine (Peregrin?) Took, a Mickey Finn não ocorria sequer a ideia de pôr em causa a liderança absoluta de Marc Bolan nos T-Rex e seguia-o fielmente como se fosse um seu prolongamento. Na verdade, Mickey Finn não era só "a outra metade da linha da frente" dos T-Rex. Ele também era, e sempre seria, mesmo a título póstumo, o verdadeiro fã nº1 de Marc Bolan, quer do ponto de vista artístico, quer do ponto de vista pessoal. 


A prova está no facto de não ter havido mais ninguém, pelo menos conhecido, que terá mostrado maior devoção à memória do cantor e compositor Marc Bolan, tão prematura e violentamente desaparecido. Não terão sido muitos a criar uma banda, quase de raiz, para perpetuar a memória das músicas de um artista. 

O seu nome é "Mickey Finn's T-Rex" e foi constituída na sequência da comemoração dos 50 anos do nascimento de Marc Bolan, em 1997. Mickey Finn dedicou-se a este projeto até à sua morte em 2003, tendo participado nas sua atuações ao vivo, mesmo quando a sua saúde se havia deteriorado a tal ponto, que ele já quase não tinha forças para tocar e mesmo apresentava graves problemas de locomoção, para além de, entre outros detalhes, ele apresentar o rosto com evidentes e crescentes sintomas de icterícia .


Ele terá recusado qualquer sugestão quanto a ser sujeito a um tratamento médico que implicasse o seu eventual internamento hospitalar. Mickey Finn sentia que, se fosse internado ou ficasse confinado em casa, estaria a deixar a sua banda "desamparada". 

Quando Mickey Finn, por fim, sucumbiu aos seus, cada vez mais incapacitantes, problemas de saúde, optou-se pela continuação da banda, pois julga-se que tal seria o seu maior desejo.





Expulso dos “Tyrannosaurus Rex”, Steve Peregrine Took começaria a atravessar grandes dificuldades económicas. Terá mesmo chegado a ser detido por posse de droga, o que não seria muito de espantar. Ingressaria por um breve tempo numa formação inicial dos “Pink Fairies”, de onde fazia parte o seu amigo Twink (Adler), da qual quase não existe nenhum registo discográfico, salvo, talvez algumas actuações ao vivo, muitas delas mais semelhantes a “happenings” bizarros do que a espectáculos musicais. Durante o período de 1970-1971, fez parte de um grupo obscuro denominado “Shagrat”, que continha elementos de outras bandas já dissolvidas, conhecidos de Steve Took. Com a saída de um dos seus elementos originais, o núcleo dos “Shagrat” ficou reduzido a um trio, tendo Steve Peregrine Took conseguido a sua primeira oportunidade de liderar um grupo musical, ainda que só por, mais ou menos, um ano.
Crê-se que as gravações deste breve período tenham surgido no disco “Pink Jackets Required”, tendo havido duas versões, totalmente distintas, do mesmo grupo: “Electric Shagrat” e “Acustic Shagrat”. Apesar de ter sido também lançado em CD, o “Pink Jackets Required” é hoje extremamente difícil de obter.

Shagrat - "Lone Star" (1970-1971). Destaque para os temas "Still Yawning Stillborn" e "Beautiful Deceiver".

Dissolvidos os “Shagrat”, Steve Peregrine Took iniciaria uma carreira a solo muito errática, não raras vezes sob a ajuda de um núcleo algo restrito de gente, ligada ao mundo da música, que lhe reconhecia um talento real. Iniciaria uma vida de quase indigente, morando mesmo em casas desabitadas, que não era mais do que um prolongamento do que ele já fazia quando tinha um contrato firme e qualquer dinheiro que chegasse era, em grande parte, canalizado para satisfazer os seus vícios pessoais. Graças às diversas, mas breves, oportunidades que lhe foram sendo oferecidas, deixaria um número apreciável de faixas gravadas, muitas delas inéditas por longo tempo.

Steve Peregrine ("Peregrin") Took - "Syd's Wine" (1971-1972).

Entre estas, houve um conjunto de gravações, produzidas por Tony Secunda, antigo produtor de Marc Bolan, executadas de uma forma livre e errática, sem um plano préviamente estabelecido, numa cave algures em Londres, no começo de 1972. Steve Peregrine Took, durante os meses em que por lá esteve, convidaria uma grande quantidade de gente sua conhecida, a maior parte músicos, dos quais alguns participariam nessas gravações. Entre estes estaria Syd Barrett, em algumas das suas breves saídas. Seria decerto este o "Crazy Diamond" que aparecia referenciado entre os intervenientes. Após este período, mais ou menos produtivo, Steve Peregrine Took regressaria à sua vida e carreira erráticas de antes, gravando e actuando aqui e ali esporádicamente.


Em 1977, Steve Peregrin Took parecia estar, finalmente, a conseguir dar um rumo mais sólido à sua carreira musical, quando decide formar uma banda denominada “Steve Took’s Horns”. Havia já algum tempo que Steve Took vinha entrando em contacto com músicos e cantores provenientes dos mais diversos sectores da música rock. A maior parte destes eram artistas em fase de afirmação ou que, tal como ele, viam o êxito passar-lhes ao lado. É claro que toda aquela carreira errática que Steve trazia atrás de si, se por um lado o havia afastado do conhecimento e, ainda mais, do reconhecimento do grande público, por outro lado havia-o tornado conhecido por parte de um grande universo de músicos e cantores, tanto nos bons como nos maus aspectos.
Steve Peregrine ("Peregrin") Took's Horns - "It's Over" (1977).

Neste ano de 1977, o então revolucionário som da Punk Music, associado à definitiva solidificação de outros géneros como o Heavy Metal, dominava a cena musical. A cultura “underground” onde Steve Peregrine Took se vinha movendo há muito, é de novo reabilitada, associada ao desejo de ir contra a corrente principal, onde os estilos mais comerciais, sobretudo o “Disco Sound”, dominavam. Para além disto, havia o reconhecimento do legado de outros artistas mais antigos e, durante longos anos, considerados “à margem”, quando não polémicos. Entre estes estavam Lou Reed e Iggy Pop.
Esta nova moda, parecia mais uma oportunidade para Steve Took poder relançar a sua carreira e sentir um pouco a luz do sucesso discográfico. Os contactos e as colaborações que ele havia tido, ao longo dos anos 70, nomeadamente com grupos como os “Hawkwind” (na sua formação inicial) e “Nik Turner’s Allstars”, permitiram-lhe chegar aos membros da sua futura banda “Steve Took’s Horns”. Dois elementos-chave para a constituição desta nova banda foram o guitarrista Judge Trev Thoms e o baterista-percussionista Dino Ferrari, também conhecido pelo seu nome próprio de Ermano.
O problema era conseguir algum produtor e uma editora, que estivessem interessados em investir neles. Era necessário, desde logo, começar a compor para se poder ter algum material gravado e não descartar a hipótese de aproveitar a primeira oportunidade possível de se darem a conhecer a um público mais vasto, por exemplo, através de actuações num ou mais dos espectáculos de rock que vinham decorrendo um pouco por toda a Inglaterra, nessa 2ª metade da década de 70.
O outro problema residia no próprio Steve Peregrine Took, que continuava a braços com a sua dependência mista de álcool e drogas, que tornava a sua condição tanto física como mental algo incerta. Conseguir a oportunidade de gravar num estúdio, com as verdadeiras filas de espera num mundo musical muito competitivo e o preço que custava o tempo de uso de um estúdio de gravação, tornava a vida difícil para uma banda que ainda não tinha nem contrato com nenhuma editora, nem um produtor devidamente credível e disposto a investir em alguma banda completamente desconhecida. Havia, por isso, que ter algum material já gravado e, caso recorressem a um estúdio de gravação, já ter mais ou menos tudo preparado.


Houve por isso que fazer diversos ensaios ao longo de várias semanas num espaço improvisado à prova de som. Acontece que, devido a uma certa falta de disciplina dos vários elementos do grupo, agravada pela presença constante de litros de álcool, dentro e fora de portas, sem falar nas constantes “contaminações” com “substâncias” à margem da lei, os ensaios não ocorriam com a frequência necessária. Quando ocorriam, nem sempre decorriam da forma pretendida. Vários dos seus elementos, em especial o líder Steve Peregrine Took, não estavam na sua melhor forma e não era raro haver alguma confusão. Steve Took, em particular, encontrava-se fortemente alcoolizado ou ressacado, esquecia-se do que tinha sido planeado para cada sessão, sentia-se bloqueado e não conseguia cantar, começava um tema para logo o “quebrar” a meio e passar a partes de outro diferente ou mesmo podia ficar completamente fora de si.


Apesar de tudo, lá se conseguiu ter algum material com o mínimo de condições para ser mostrado. Basicamente, só havia três temas mais ou menos acabados e uma série de partes instrumentais, mesmo com a letra escrita à parte a que faltava apenas juntar as vozes. Acontece que, tanto devido ao facto dos temas apresentados não serem suficientemente apelativos e convincentes, quer devido em parte à fama pouco abonatória do estilo de vida de Steve Took, extensível aos outros membros, fora impossível arranjar um produtor, quanto mais uma editora, que estivesse disposta a investir num grupo tão difícil de caracterizar.
A outra alternativa era já se darem a conhecer publicamente através do circuito dos espectáculos ao vivo, onde actuavam várias bandas numa mesma sessão. Podia ser que, ao se tornarem um pouco mais conhecidos, isto pudesse quebrar o gelo. Por outro lado, esses espectáculos de novas bandas eram assistidos, discretamente, por diversos produtores e “enviados” de várias editoras em busca de novos talentos. Acontece que a primeira actuação ao vivo dos “Steve Took’s Horns”, foi um verdadeiro desastre. Steve Peregrine Took teve um súbito assomo de consciência de quão decisivo podia ser o momento, que foi acometido por mais um dos seus costumeiros bloqueios e não conseguiu cantar uma única estrofe.
Bastante traumatizado por esta experiência tão mal sucedida, Steve Peregrine Took decidiu não levar mais avante o seu projecto do grupo “Steve Took’s Horns”. Os outros membros do grupo, não mostraram qualquer oposição numa imediata dissolução, dado que, para além do cansaço e frustração, estavam sem um tostão. Completamente desiludido com mais este projecto abortado, Steve Peregrine Took regressaria, como era óbvio, à sua vida de quase indigente, “nadando” na sua já conhecida mistura inebriante de álcool barato e substâncias lícitas e ilícitas da mais diversa proveniência e residindo na casa de conhecidos por tempo indeterminado.


Ainda houve quem o tivesse conseguido alojar numa casa longe da cidade, conseguindo que Steve Took se mantivesse “limpo”, durante um bom período, tendo este mesmo começado, de novo, a traçar planos futuros para a sua carreira musical. O problema era que, quando Steve regressava à cidade (Londres), acabava por ir ao encontro dos lugares que ele tão bem conhecia, onde encontrava os seus velhos “amigos” de sempre que acabavam por fazê-lo regressar aos seus vícios com mais força do que antes. Foi num desses seus lugares favoritos, Landbroke Grove, que Steve Peregrine Took encontrou mais um lugar onde residir, desta vez na casa de mais uma das mulheres com quem mantinha relações.
Entretanto, dois elementos-chave dos seus extintos “Steve Took’s Horns”, Judge Trev Thoms e Dino Ferrari, já tinham formado uma nova banda da qual existem diversos registos discográficos: “Inner City Unit”. Por diversas vezes, Steve Peregrine Took, fora convidado para os seus primeiros espectáculos ao vivo. Tal como ele afirmou em público, diversas vezes, a constituição dos “Inner City Unit”, também se devia a ele, ainda que indirectamente. Estas breves aparições em público de Steve Peregrine Took, contribuiram, decerto, para o dar a conhecer a cada vez mais pessoas. De qualquer forma, sem contrato discográfico à vista, o seu estilo de vida errático e pouco recomendável nunca mais mudaria.




No entanto, nem tudo corria mal para Steve Took, dado que começava a chegar dinheiro, sob a forma de cheques, proveniente do, tardio, reconhecimento da sua participação, quer como músico quer como compositor, nos mais diversos projectos musicais, desde os “Tyrannosaurus Rex”. Este dinheiro que vinha chegando, associado ao auxílio da parte de muitos seus antigos correligionários da sua carreira musical, deveria ser destinado a, mais uma vez, relançar a sua carreira musical. O problema era que Steve Took não se conseguia libertar do seus vícios e, por mais do que uma vez, o seu dinheiro fora canalizado para comprar mais algumas “substâncias”, incluindo charros e “cogumelos mágicos”, que integravam muito da sua “dieta” quotidiana. Foi na sequência de mais um “banquete” deste género, que Steve Peregrine Took acabaria por encontrar a morte, ao sufocar com uma simples cereja de cocktail, em finais de Outubro de 1980. Muita da sua obra musical, posterior a 1971, dispersa e nem sempre gravada nas melhores condições, só acabaria por chegar ao conhecimento do público (interessado, claro está), uma década depois do seu falecimento.