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sábado, maio 31, 2025

 

Doctor Who de 1963.


segunda-feira, fevereiro 28, 2022

A carreira descendente de Tony Jackson


Nascido em 1938, Tony Jackson era o vocalista e baixista original dos “Searchers”. Esta banda pertencia a toda aquela nova onda musical, que se seguiu ao aparecimento dos Beatles, a que se deu o nome, sobretudo em terras americanas, de “invasão britânica”. Os “Searchers” não eram mais do que um grupo musical, entre muitos outros seus conterrâneos. A maioria não teve, claro está, qualquer êxito de assinalar, muitos não tendo editado mais do que um ou dois singles, mas os “Searchers”, a par de outros como “Gerry and The Pacemakers”, pertenciam àquele núcleo, muito restrito, dos que, numa fase inicial, podiam ser considerados “potenciais rivais” dos Beatles, estes, tal como eles, fundados em Liverpool.
The Searchers - "Learning The Game" (1963). Um tema original do, muito prematuramente, desaparecido Buddy Holly (1936-1959), que também era uma referência de muitos grupos de então, a começar pelos Beatles. Nesta versão, os Searchers estavam a atuar ao vivo no famoso "Star Club" de Hamburgo, tal como outros grupos da sua geração haviam feito. Foi neste local emblemático que, também os Beatles, por volta de 1961/1962, iniciaram, verdadeiramente, a sua carreira.

O seu breve período de glória começaria logo em 1963, com o lançamento, quase em seguida, de dois singles, “Sweets For My Sweet” e “Sugar And Spice”. Em ambos surgia, em grande destaque, a voz de timbre muito forte e sonoro de Tony Jackson. Muito comerciais e ligeiros, seriam logo um êxito estrondoso. Devido ao facto de surgirem como uma banda de sucesso garantido, logo têm a oportunidade, reservada não a muitos, de gravar vários álbuns, entrecortados por novos singles, que confirmavam de novo a aposta que neles havia sido feita.
The Searchers - "Sugar And Spice" (1963). Um filme a promover o tema e um antepassado daquilo que, mais tarde se chamaria "videoclip".

"Where Have All The Flowers Gone?", gravado e lançado, como os outros dois, em 1963. A letra é muito simples, mas atinge mais fundo do que outras muito mais complexas. É um tema, claramente, contra a, afinal, futilidade da guerra. "When will they ever learn?".

The Searchers - "Since You Broke My Heart" (1963). Destaque para o arranjo rítmico do baterista Chris Curtis. Um possível "antepassado" do que hoje se chama "heavy rock"?




The Searchers - "Saints and Searchers" (1963), ou mais uma versão do famoso tema "When The Saints Go Marchin' In". Tony Jackson no seu melhor.

Tony Jackson era visto, por grande parte do público apreciador dos “Searchers”, como a principal figura no grupo. Muitos atribuíam, à sua voz poderosa, a razão do seu sucesso. No entanto, desde logo, começam a surgir sinais de que algo poderia, muito em breve, mudar. Como forma de evitar uma repetição de estilo que, a partir de determinada altura, poderia cansar o público ouvinte e de revelar algum amadurecimento no som da banda, no interior dos álbuns e nos singles seguintes, foram surgindo temas com um som diferente, alguns mais complexos na sua construção.
Na sequência disto, a voz de Tony Jackson começou a surgir com cada vez menos destaque. Salvo alguns temas, começou a dar-se uma crescente primazia à voz de outro elemento do grupo, o guitarrista Mike Pender (em baixo), que se ouvia em harmonia com a voz dos outros, quando não a solo. O som conseguido nos temas onde a voz de Tony Jackson surgia menos destacada era algo mais “suave” e isto pareceu agradar aos produtores que eram quem, afinal, acabava por ter a palavra final na escolha das canções a editar.
De facto, em êxitos posteriores, como “Neddles And Pins” e “Don’t Throw Your Love Away”, a voz de Tony Jackson aparecia mergulhada nas harmonias vocais, como se estivesse a ser relegada para segundo plano. 

The Searchers - “Needles And Pins” (1964).

 The Searchers - “Don’t Throw Your Love Away” (1964). Chris Curtis, com cada vez mais frequência, assumia-se como um verdadeiro "mestre de cerimónias" nas atuações ao vivo do grupo. Por vezes ficava-se com a vaga sensação de que era ele o elemento central dos "shows"... Reparar na expressão facial deste baterista enquanto ele tocava e fazia os coros... Temos a clara sensação de que ele se estava "a conter"... Ele trazia, decerto, mais qualquer coisa "na manga", como ele, diversas vezes, acabaria por mostrar... Num vídeo, mais adiante neste artigo, proveniente deste mesmo espetáculo, há a confirmação disso...

Isto contribuiu para que o próprio Tony Jackson se sentisse a perder protagonismo no interior dos “Searchers”, o que lhe desagradava de sobremaneira. Isto contribuiu para azedar as suas relações com os outros elementos do grupo, em especial com o baterista Chris Curtis (em baixo), cuja voz surgia muito proeminente nas harmonias vocais. Aliás, segundo a opinião de muitos, este Chris Curtis (nascido Christopher Crummy), era "de facto" o líder original desta banda, apesar de, inicialmente, tal não parecer muito notório, talvez devido precisamente ao facto de ocupar a posição de baterista. Contudo, em diversas atuações do grupo ao vivo, Chris Curtis conseguia surpreender tudo e todos quando saía da habitual posição discreta, normalmente associada aos bateristas, e tornava-se no centro das atenções. Nessas ocasiões, não era raro colocar-se de pé, por trás da sua bateria, e assumir uma posição de liderança e fazer uma interpretação ousada e inesquecível, quase secundarizando os outros membros da banda que tocavam mais à frente. 
The Searchers - "Ain't That Just Like Me" (ao vivo no Ed Sullivan Show, nos Estados Unidos) (1964).

"What I'd Say", tema muito conhecido do consagrado e saudoso Ray Charles. "That's my father!", diz Chris Curtis na apresentação do tema, por detrás dos comandos da sua bateria... Era, provavelmente, o tema de encerramento desta sua atuação e a "surpresa" estava reservada para o fim... Uma surpresa apoteótica, para a época! Chris Curtis surpreendeu todos os que assistiam às atuações dos Searchers, nesta e noutras vezes, principalmente porque era "apenas" o baterista. Geralmente, o baterista de uma banda, era considerado um elemento, quase discreto, para não dizer de "bastidores", nas atuações ao vivo das bandas musicais. Houve também outros bateristas, mais famosos do que Chris Curtis, que quebrariam esse mito de "elemento secundário" que geralmente era associado a eles. Um deles foi, sem dúvida, Keith Moon, do grupo The Who. Mesmo Ringo Starr, nos Beatles, conseguia ter os seus momentos de "show" e surgir também como a "feliz surpresa" reservada ao público que assistia aos espetáculos ao vivo. Mas Chris Curtis era um baterista, melhor dizendo, um indivíduo, de outra "água", muito mais especial do que muitos podem julgar... Ele, muitas vezes, parecia muito discreto nas atuações, quer ao vivo, quer na televisão. Mas depois, sobretudo depois de se assistir a demonstrações, como as que se vêem nos dois vídeos atrás, fica-se com a clara sensação de essa descrição ser algo muito bem "calculado". Por outras palavras, Chris Curtis procurava ser discreto, e mesmo "apagado", quando queria mas, sobretudo, quando era "conveniente"... Para depois surpreender todo o Mundo com atuações deste género! Quem via os Searchers pela primeira vez, não notava nada de especial no seu baterista... Todavia, depois de se assistir a estas verdadeiras explosões, onde ele chegava a "roubar" literalmente o espetáculo aos seus colegas de banda, já era impossível não olhar para este baterista a partir de um prisma diferente... Mesmo quando ele era mais discreto, ficava-se com a mesma sensação com que se fica quando se olha para uma fera em repouso ou para um vulcão adormecido... Isto, decerto, estará a acontecer a todos os que lêem este artigo, pela primeira vez. Pode-se dizer que, Chris Curtis era um "falso discreto"... 
Este vídeo provinha do mesmo espetáculo ao vivo, de 1964, do qual também aparece outro, mais atrás, neste artigo.

Para além disto, havia diversos temas gravados em que ele era o vocalista principal. Entre estes estavam "Ain't That Just Like Me" e "This Empty Place". Isto parecia também aumentar a tensão que foi crescendo entre Chris Curtis e Tony Jackson. Conta-se que, num momento a que os dois chegaram a altercar, Chris Curtis "cresceu" para Tony Jackson e encostando-lhe o indicador contra o peito, disse-lhe que ele não cantava mais a solo nos Searchers enquanto ele lá estivesse.

The Searchers - "This Empty Place" (da autoria da dupla Burt Bacharach e Hal David) (1964). Chris Curtis no seu melhor.


            The Searchers - "Someday We're Gonna Love Again" (1964). Foi o último single que Tony Jackson gravou com este grupo. E não mais voltou para trás...

Devido a estas fricções no interior do grupo, Tony Jackson acabou por sair no Verão de 1964, embora ele tenha, na altura, alegado razões de saúde, sem que isso tenha ficado devidamente clarificado. Nesse momento, o grupo encontrava-se a atravessar uma fase de grande êxito discográfico e no som que se estava a tornar a sua imagem de marca, muito baseado em harmonias vocais, a voz de Tony Jackson não parecia fazer falta.

"What Have They Done To The Rain?", outro tema contra a guerra, ainda que de uma forma mais subtil. A determinada altura, a imagem é centrada num indivíduo que foi assistir a esta performance dos Searchers. Era Brian Epstein, o manager de um grupo ainda mais famoso: os Beatles. A determinada altura, pouco antes do seu prematuro falecimento, em 1967, Brian Epstein confessará que, se pudesse voltar atrás, teria também sido manager dos Searchers. Inclusive, Paul McCartney, dos Beatles, terá tentado "trazê-los" para a "NEMS Enterprises" de Brian Epstein, onde já se encontravam outros grupos da "onda merseybeat". Eles recusaram, porque "não aceitavam ficar em posição secundária em relação aos Beatles". Aliás, chegou-se a dizer que os Searchers eram a única grande banda de Liverpool a não estar sob a alçada de Brian Epstein. Por outro lado, é sabido que, se os Searchers tivessem aceitado a "oferta" de Paul McCartney, seria o seu manager de então, Tito Burns, a impedir tal transição. Por aquela altura, 1964, os Searchers eram a banda favorita dos Beatles.


Quando Tony Jackson abandonou o grupo, muitos se interrogaram sobre o futuro dos “Searchers”, visto que, segundo até então parecia, ele era a principal razão do seu êxito e, aparentemente, o frontman. Para muitos fãs e críticos, Tony Jackson parecia insubstituível. Chegou a haver espetáculos a começarem mal, onde se ouvia grande parte do público a reclamar "We want Tony!!!" e os outros membros do grupo a ficarem algo assustados... Pensava-se que seria o fim anunciado dos “Searchers” e para Tony Jackson, o início de uma carreira promissora.

The Searchers - "The System" (1964). Em 1964, os Searchers são convidados a contribuir com alguns temas para um filme com este título, privilégio só reservado a alguns "escolhidos".

The Searchers - "Goodbye My Love" (1964-1965). O último tema dos Searchers a atingir o "Top Five" na Inglaterra (nº 4 em 1965). Durante 1965, o palmarés desta banda manteve-se sólido e elevado. 

Por ironia, o futuro provaria exactamente o contrário. Logo de seguida, encontraram um substituto para o baixo, de nome Frank Allen (em baixo, à direita), com o qual as relações pareciam ser mais fáceis. Segundo alguns, a escolha de Frank Allen, que era conhecido dos "Searchers" já há algum tempo, teve o fundamental contributo de Chris Curtis (à esquerda).
Este novo membro, mais jovem do que os outros "Searchers", vinha de um outro grupo, "Cliff Bennett And The Rebel Rousers", que também teve alguns sucessos em meados dos anos 60. Mais "low-profile", Frank Allen encaixará bem nos "Searchers" e revelar-se-á, pelo menos, segundo os produtores, uma boa escolha. De facto, ao fim de mais de cinco décadas, Frank Allen ocupa ainda um lugar de destaque nos "Searchers" do século XXI. Ao lado do guitarrista John McNally (à direita), é um dos dois elementos mais antigos do grupo.
Coube-lhe a honra de ser a voz principal no tema de abertura do primeiro LP que os Searchers lançaram a seguir à sua chegada ao grupo, o álbum "Sounds Like Searchers", saído no começo de 1965.
  

The Searchers - "Everybody Come And Clap Your Hands" (1965). A voz principal é do, então, recém-chegado baixista Frank AllenMais uma vez, com um genial e inesquecível arranjo rítmico do baterista Chris Curtis e que é um elemento decisivo neste tema.


Após uma breve pausa, Tony Jackson decide constituir o seu novo grupo sob o nome "The Vibrations". Logo nesse ano, 1964, lançam o seu primeiro single, "Bye Bye Baby", que, apesar de ter sido um êxito moderado, parecia augurar uma carreira promissora. Contrariamente ao que muitos previam, os singles lançados posteriormente, não tiveram qualquer êxito de assinalar. Em contrapartida, o seu grupo antigo, "The Searchers", continuava a somar sucessos. 

The Vibrations - "You Beat Me To The Punch" (1964). 

Por ironia ou não, o seu segundo single "You Beat Me To The Punch", saído em Dezembro de 1964, soava muito ao cruzamento de dois êxitos, desse mesmo ano, do seu antigo grupo "Searchers": o já referido "Needles And Pins" e "When You Walk In The Room", este último também lançado no final desse ano, com muito maior sucesso. 

The Searchers - "When You Walk In The Room" (1964). Um tema "clássico" do qual se fizeram incontáveis covers.

The Searchers - "I'll Be Missing You" (1964). O lado B do tema anterior. É menos interessante do que o "When You Walk In The Room", mas não é de menosprezar... A prova de que os lados B dos singles podem trazer agradáveis surprezas...

O arranjo feito ao tema, da autoria de um outro grande nome, Smokey Robinson, "You Beat Me To The Punch", foi uma sugestão do seu produtor, Larry Page, no sentido de tentar criar uma "leve semelhança" com a sua anterior banda, que não se revelaria, afinal, bem sucedida. 

Tony Jackson & The Vibrations - "Fortune Teller" (1965). Mais uma das muitas covers que houve deste tema. Esta versão revela uma clara influência dos "The Kinks" de Ray Davis. O estilo das interpretações deste grupo, parecia mudar quase de tema para tema, numa clara tentativa de conseguir o tal grande hit, que nunca mais chegava.

A determinada altura, já em meados de 1965, tentou dar-se mais relevo a Tony Jackson, talvez com a intenção de este, eventualmente, embarcar numa prometedora carreira a solo. É na sequência disto que se extinguem os "Vibrations" e surge o "Tony Jackson Group", com eventuais mudanças de pessoal pelo meio. Mais uma vez, esta nova chance não resultou e a sua editora não lhe renovaria o contrato.
Tony Jackson Group - "Stage Door" (1965). Tony Jackson em modo "easy listening", estilo Gene Pitney ou "Brill Buildind" (Burt Bacharach & Hal David et al.). O rock parecia ter ficado para segundo plano, mas a experiência não resultaria no êxito pretendido... E voltou-se ao modelo anterior.

Mesmo com as mudanças de editoras e produtores, passando pela mudança de nome do grupo para um lacónico "Tony Jackson Group" e alguns singles lançados sob o seu nome individual, a sorte parecia fugir a Tony Jackson

Tony Jackson Group - "You're My Number One" (1966). Apesar da promoção, mesmo em programas de rádio, este single foi acolhido com indiferença, tanto pela crítica como pelo público. Por outro lado, nesta altura (Fevereiro de 1966), a rádio e a televisão estavam "inundados" de temas deste género. Não havia qualquer possibilidade de, então, um tema destes se destacar ou fazer a diferença... Mesmo tentando-se colar a estilos de grupos pertencentes à "nova onda", como os Byrds norte-americanos. A guitarra de Ian (Leighton) Buisel consegue, apesar de tudo, "salvar" o tema.

Tony Jackson Group - "Let Me Know" (1966). Lado B do single anterior.

Por diversas vezes, ele teve de engolir o seu orgulho e aceitar alguns convites da sua antiga banda "Searchers", para actuar com eles ao vivo, quando planeavam interpretar temas de quando ele era o vocalista principal. Não raras vezes, as digressões de ambos os grupos coincidiam, muitas vezes para difundir a ideia de que já não existiam eventuais ressentimentos mútuos.

Ainda com contrato na editora CBS, depois de mais um single lançado, desta vez sob o nome de apenas "Tony Jackson", que também não teve êxito, o grupo regressou ao nome de "Tony Jackson Group" e lançou um novo single, muito bem conseguido e que podia ter sido a sua oportunidade de conseguir algo próximo de um êxito discográfico ou, pelo menos, uma receção minimamente positiva da parte da crítica musical. Mais uma vez, o azar voltou a alcançá-los...
 
Tony Jackson Group - "Follow Me" (1966). Um potencial "hit" que não chegou a ser. Como muitos outros ao longo dos tempos...

Tony Jackson Group - "Walk That Walk" (nalgumas prensagem de discos "Walk, Walk, Walk") (1966). Lado B do tema anterior. Revelador de algum "potencial" que, apesar de tudo, esta banda havia conseguido atingir. Mas de pouco lhes serviria...

Desiludido com a falta de sucesso discográfico e com o panorama da indústria musical anglo-americana, Tony Jackson e o seu grupo, a partir do final de 1966, decidem entrar em digressão por outros países, nomeadamente França e Espanha. Curiosamente, acabarão por vir a Portugal com maior frequência durante esse ano de 1967
Tony Jackson Group, mais ou menos na altura em que passaram por Portugal. Da esquerda para a direita: Paul Francis, Denis Thompson, Tony Jackson e Ian (Leighton) Buisel.

Diz-se que um dos elementos da sua banda, o guitarrista Ian Buisel, teria ligações familiares por cá. Por exemplo: a actriz portuguesa Júlia Buisel será sua parente. (Li algures que Ian (Leighton) Buisel seria seu meio-irmão, o que significa que este guitarrista seria luso-britânico.) Esta presença em terras lusitanas, acabará por lhes proporcionar a edição de um EP numa editora nacional de então, a "Estúdio". Apesar da qualidade dos temas interpretados, o último trabalho do "Tony Jackson Group", será acolhido pelo público e pela crítica com indiferença. Segundo algumas opiniões, este EP constitui hoje uma verdadeira raridade de muito alto preço.

Tony Jackson Group - "Understanding" (1967). Um tema original dos "Small Faces". Destaque, uma vez mais para a guitarra de Ian Buisel e, acima de tudo, da execução rítmica da bateria de Paul Francis. Em anos mais recentes, este antigo baterista Paul Francis escreveria uma autobiografia intitulada "Drumming up Vibrations", onde dedicou uma grande parte ao seu antigo colega de banda e grande amigo Tony Jackson. Segundo informações, este Paul Francis esteve com Tony Jackson nos seus últimos momentos de vida.

Tony Jackson Group - "Shake" (1967). Um tema original de Sam Cooke e que também teve muitas covers, inclusive de Rod Stewart no começo da sua carreira, em 1966. Este tema será, decerto, a única oportunidade que se tem de escutar a voz do guitarrista Ian Buisel.

Tony Jackson Group - "He Was A Friend Of Mine" (1967). Um tema original de Bob Dylan e favorito de muitos cantores em todo o mundo, a começar por Paul Simon. Segundo se conta, foi a sua interpretação à viola que terá feito um certo Art Garfunkel se decidir a formar um dueto com ele...

Sem mais nenhum sucesso discográfico, nem o vislumbre de um novo contrato por parte de uma editora à vista, Tony Jackson decide extinguir o seu grupo por volta de 1968. A partir daí, iniciará uma vida pautada por diversas actividades, desde apresentador de televisão a vendedor, parecendo ter deixado para trás, definitivamente, a sua carreira de músico. Devido a razões diversas, nunca esteve muito tempo nessas profissões.

Uma breve previsão de regresso ao mundo da música aconteceu por volta de 1985. O antigo colega dos “SearchersMike Pender decide sair do seu grupo original, onde se mantinha como líder há muitos anos, e criar a sua própria banda “rival”, com o nome "Mike Pender's Searchers". Mike Pender convida então Tony Jackson a entrar nesse novo projecto musical, ocupando, de novo, o posto de baixista. Pouco depois, Tony Jackson desiste desta ideia, ao verificar que a sua condição era a de apenas “músico assalariado” e não de co-líder, como ele pretendia. Mesmo assim, não houve desta vez mais nenhum corte de relações entre ambos, visto que ambos chegariam a actuar juntos ao vivo, esporádicamente.
Mike Pender's Searchers - "Sweets For My Sweet" e "Needles and Pins". Tony Jackson, que tinha vindo assistir ao espetáculo da banda do seu anterior colega e grande amigo Mike Pender, é convidado para ir ao palco fazer a voz principal nestes dois temas. Nota-se um inicial pouco "à vontade" no antigo "Searcher", mas logo Mike Pender, através da sua guitarra, consegue fazer Tony Jackson ganhar coragem, fazer uma rápida busca à sua memória e regressar aos seus tempos de vocalista de sucesso e com um timbre inconfundível.

Neste período de finais da década de 80 e começo de 90, provavelmente sob o incentivo, oportuno, das reedições digitais em CD do catálogo musical de muitas bandas da década de 60, surge, em paralelo com a música da moda de então, uma onda de revivalismo. Para a satisfação de muitos fãs, bandas e cantores de outros tempos regressam, ainda que temporariamente, à ribalta. É neste contexto que Tony Jackson pondera formar um novo grupo musical, assente, em grande parte, na memória dos seus velhos tempos de cantor de sucesso. Deveria ser um grupo de cariz revivalista, assente, pelo menos numa fase inicial, em espectáculos ao vivo a decorrer no circuito britânico, sem pôr de parte a hipótese de poder ser extensível ao público americano. Muito sintomático, foi a escolha inicial do nome para o seu novo grupo: “Tony Jackson’s Re-Searchers”. No entanto, ele foi antes aconselhado a retomar a memória do seu grupo posterior “The Vibrations”, o que ele acabaria por reconhecer como a hipótese mais sensata, devido ao facto de já existirem os referidos "Mike Pender's Searchers" e os próprios "Searchers", estes com o guitarrista e membro fundador John McNally (em baixo) à frente e Frank Allen no baixo, a percorrerem o mesmo circuito de público pretendido.
De facto, em 1991, Tony Jackson chegou a formar uma espécie de “New Vibrations”, reforçado pela presença de, pelo menos, um elemento da banda original, o baterista Paul Francis. De referir que, segundo alguns dados, o guitarrista Ian (Leighton) Buisel já teria falecido em 1988. No entanto, devido à dificuldade em conquistar um público numericamente convincente, para assistir aos seus espectáculos em agenda, Tony Jackson decide, num curto espaço de tempo, dissolver o seu recém-criado grupo. A partir de então, regressa de novo ao anonimato, só voltando a ser notícia em 1996, desta vez por razões negativas. É detido na sequência de ter ameaçado uma mulher, numa cabine telefónica pública, com uma arma falsa. A vítima só lhe havia pedido para ele a deixar usar o telefone… Apesar de não se tratar de uma arma verdadeira, Tony Jackson ficaria detido por 18 meses.
A verdade é que, já há algum tempo, a vida de Tony Jackson havia entrado numa espiral de queda. As dificuldades económicas, associadas a problemas de saúde, como a diabetes e a artrite, agravadas pelo alcoolismo, haviam tomado conta da sua existência. Depois de 1997, após ser-lhe devolvida a liberdade, as suas dificuldades de vida e os seus problemas de saúde não pararam de se agravar. Nem mesmo o apoio dos seus antigos amigos do tempo dos “Searchers”, como John McNally, já era suficiente para minorar a sua decadência física.

No seu último ano de vida, em 2003, Tony Jackson já apresentava grandes dificuldades de locomoção, a que não seria alheia a sua incurável dependência da bebida. Faleceria na sua casa, quase isolado do mundo, na sequência de mais uma crise cardíaca, em meados de Agosto desse mesmo ano. Tinha apenas 65 anos e estava desiludido com a vida. Um ano depois, em 2004, é editada uma colectânea, abrangendo a sua carreira musical entre 1964 e 1967, que procura fazer alguma justiça ao seu verdadeiro talento.

                                           
Tony Jackson Group - "She Wanted Me" (1965 - 2004).

Como é costume acontecer com outras edições longamente aguardadas, esta trazia, entre outros, um tema que, avaliando em retrospetiva, poderia ter sido o hit tão procurado por Tony Jackson e os seus Vibrations, ainda em 1965. O tema foi gravado e chegou à fase da "master", ou seja, como o grupo pretendia que fosse lançado em single. O problema é que, como muitas vezes acontecia, não eram os cantores, nem os membros dos seus grupos quem tinha a "palavra final" quanto ao que iria ser editado ou não. Terá sido, por esta altura, em 1965, que a sua sua editora de então, devido ao facto de os seus singles prévios não terem tido qualquer êxito, não lhes renovou o contrato. Conseguiram contrato noutra editora, mudaram o nome para "Tony Jackson Group", foram alterando o estilo da sua música, mas a sua sorte não mudou.  Por alguma razão, o tema "She Wanted Me", ficaria inédito até 2004... Outros casos semelhantes têm sido frequentes...


De referir que, dois anos depois, em Fevereiro de 2005, também faleceu Chris Curtis, outro elemento fundador dos "Searchers", nascido em 26 de Agosto de 1941. Apesar da sua liderança, tendo também contribuído para a escolha dos temas interpretados e mesmo composto alguns, Chris Curtis já havia deixado os "Searchers" em 1966
                                        
Se a saída de Tony Jackson, em 1964, significou uma visível mudança de estilo, a desistência abrupta de Chris Curtis foi bastante inoportuna, principalmente num momento em que a qualidade das suas composições, em parceria com o resto da banda, atingira um nível de qualidade e maturidade que parecia anunciar um futuro interessante.  Basta fazer uma audição do interessante LP "Take Me For What I'm Worth", lançado no final de 1965, onde surgem vários temas creditados aos quatro elementos que, então, integravam o grupo. 

The Searchers - "Too Many Miles" (1965). Uma pequena obra-prima, que poderia emparceirar junto de outras canções, como "Yesterday" dos Beatles, também lançada neste ano de 1965?

The Searchers - "Don't You Know Why" (1965). 

The Searchers - "Take Me For What I'm Worth" (1965). Traduzido para português, quer dizer "aceita-me tal como sou". Mike Pender faz a voz principal.

Esses temas estão entre o que de melhor se produziu nesse ano. 
Segundo algumas opiniões, a razão principal dos Searchers não terem tido um êxito maior nem mais duradouro, residiu no facto de o essencial do seu repertório, ao contrário de outros grupos como os Beatles e os U2, ser constituído por temas de autoria alheia. Se se contabilizar, 90% dos temas que eles interpretaram, ainda no auge do seu sucesso, eram tanto covers de temas mais ou menos famosos, como temas escritos por outros compositores, ainda que escolhidos de uma forma, incontestavelmente, muito criteriosa. Muitos atribuem, precisamente, ao baterista Chris Curtis esse critério de escolha particularmente certeiro. 
Desta forma, pode ser incontestável afirmar que o baterista Chris Curtis era uma peça fundamental nos Searchers, talvez ainda maior do que havia sido a de Tony Jackson. Os raros temas da sua autoria ou em parceria com outro elemento do grupo, em especial com o guitarrista e vocalista Mike Pender, eram reveladores de um talento, afinal, muito sub-aproveitado. 
Um desses fantásticos temas era o "He's Got No Love", também lançado nesse ano de 1965. Um tema muito "à 1965" e onde aquilo a que se pode chamar "som dos Searchers" melhor se afirmou.

The Searchers - "He's Got No Love" (1965).

Bastou uma sequência de maus momentos numa digressão à Austrália, que correu particularmente mal, para fazer Chris Curtis ficar determinado a abandonar os Searchers. Nada nem ninguém conseguiu fazê-lo mudar de ideias. A partir daqui, nada mais foi como dantes...
Logo depois da saída de Chris Curtis, gravariam uma versão bem conseguida de um tema dos Rolling Stones, "Take It Or Leave It", que seria um êxito, ainda que menor do que os da sua fase anterior. Todavia, foi por esta altura que se iniciou a sua fase descendente e a consequente perda de notoriedade. Apesar de tudo, mantiveram, sobretudo no seu país de origem, uma base sólida de fans, como prova o facto de terem durado mais de meio século, pela mão de dois dos seus elementos mais antigos, o baixista e vocalista Frank Allen e o fundador e guitarrista John McNally.


The Searchers - "Take It Or Leave It" (1966). Um tema composto por Mick Jagger e Keith Richards.

Já em 1967, os Searchers tentaram, como muitas vezes, um regresso aos êxitos com, entre outros temas, uma fantástica versão de "Western Union". 

The Searchers - "Western Union" (1967). Na foto da capa do single, de pé, no meio, John Blunt o baterista que foi ocupar o lugar deixado por Chris Curtis. Este fará críticas muito severas e depreciativas à prestação deste, então, jovem baterista.

Não obstante a qualidade de diversos temas, os Searchers, já nesse ano tão produtivo em matéria artística, não só musical, que foi 1967, faziam parte dos que haviam ficado "para trás", como aconteceria com outros cantores e grupos da sua geração. Aliás, a maior parte dos artistas que haviam representado, ainda poucos anos antes, a chamada "invasão britânica", incluindo "Gerry and The Pacemakers", "Freddie and The Dreamers", "Peter & Gordon", "Dave Clark Five", "Swinging Blue Jeans" e "Billy J. Kramer & The Dakotas", haviam sido, literalmente, "esmagados" pelas novas "ondas". Os grupos norte-americanos, entretanto surgidos, como os "Doors" e os "Jefferson Airplane", haviam passado a ganhar uma incontestável maior notoriedade. "Evolui ou morres!", já diz a famosa máxima...

                                          
Chris Curtis - "Aggravation" (1966). Aquando da estreia deste tema na rádio, Chris Curtis foi convidado para uma curta entrevista de apresentação. "Don't you give me any (aggravation)!!!", terá dito ele ao entrevistador...

Tal como Tony Jackson, Chris Curtis tentará, sem sucesso, uma carreira a solo (com o single "Aggravation", lançado em Junho de 1966) o qual, apesar da promoção que chegou a ter, foi quase ignorado, tanto pelo público como pela crítica musical de então. 
Por essa altura, Chris Curtis conviverá com muitos dos artistas e grupos de então, incluindo os Beatles, em mais uma tentativa de regressar à ribalta. Por volta de 1967/1968, manteve uma proximidade com músicos como o guitarrista Richie Blackmore e o teclista Jon Lord. Em conjunto com estes, Chris Curtis ter-se-á empenhado na constituição de um novo grupo musical. Um nome para essa nova banda chegou a ser sugerido: "Roundabout". Jon Lord e Chris Curtis terão mesmo chegado a partilhar um apartamento, até aquele ter chegado à conclusão de se ter tornado impossível viver com este debaixo do mesmo teto. Numa ocasião, Jon Lord esteve uns dias fora e, quando voltou, não queria acreditar no estado de autêntica inabitabilidade em que o apartamento se encontrava. Chris Curtis havia tido a ideia peregrina de cobrir tudo, inclusive as lâmpadas e a sanita, com papel prateado. Talvez tivesse ficado algo impressionado e entusiasmado com qualquer coisa que ouvira acerca da "Factory" do artista norte-americano Andy Wahrol... Não teria sido mais do que uma manifestação das suas muito particulares "idiossincrasias". E o projeto dos "Roundabout" cairia por terra.  
George Harrison, dos Beatles, chegou a alcunhá-lo de "Mad Henry". Vá se lá saber porquê...
No entanto, a ideia de constituir uma nova banda manteve-se no ar. Seria, a partir desta ideia, que surgiriam os consagrados e incontornáveis "Deep Purple". Pode-se dizer que, de uma forma indireta, Chris Curtis contribuiu para fundar os "Deep Purple". Todavia, quando estes se constituem, Chris Curtis já tinha desaparecido do mapa musical.
Profundamente desiludido com o panorama artístico e social de então, Chris Curtis tornar-se-ia um vulgar funcionário público, tendo depois se mantido no anonimato e afastado do mundo da música durante mais de 20 anos. Durante este tempo, fugiria de todo esse seu passado artístico "como o Diabo  da Cruz". O "Chris Curtis músico e baterista" como que havia deixado de existir. Quando solicitado por estudiosos da música dos anos 60, recusaria terminantemente qualquer entrevista, afirmando que, definitivamente, não queria falar nos Searchers, nem em qualquer assunto que tivesse relação com isso, mesmo no simples tema da música. Contudo, passaria a ter uma atitude completamente inversa em anos mais recentes, surgindo com uma generosidade inaudita e não tendo, aparentemente, qualquer problema em falar no seu passado de membro de um dos grupos mais importantes da história da música do século XX. 
Também sofrerá de problemas de saúde incapacitantes que o levarão a uma reforma prematura. Mesmo assim, Chris Curtis tentará, nos seus últimos anos de vida, um tímido regresso à música, através de breves reencontros e actuações ocasionais com outros músicos britânicos da sua geração, de preferência residentes em Liverpool, cidade onde ele havia passado a residir e com um grande historial de bandas durante a década de 1960, com destaque, claro está, para os Beatles, sem esquecer os "Searchers". Um destes grupos revivalistas é conhecido pelo nome de "Merseycats".
Chris Curtis c.a. 2003.

                                    Chris Curtis c.a. 2003.


Christopher Vincent Crummey "Curtis" (1941-2005).
    
The Searchers - "Can't Help Forgiving You" (1964). Literalmente...

The Searchers - "The System" (1964). Neste tema fala-se no "sistema" ou comportamento suficiente para se condenar e acabar de vez com uma relação amorosa inicialmente promissora... "I'm telling you how (Oh yeah!!!)/I'm telling you why (Oh yeah!!!)/I'm telling you when (Right now!!!)/Get on to the system/It's crazy, it's cruel"; "Come on with the sweet talk/Be moody and mean (...) And when it's the end of the line/That it's goodbye"/"So wait for the moment/There will be time to pay" (...) And when it's the end of the line/YOU'RE ALL ALONE!!!"

sábado, maio 29, 2021

Bee Gees - "Bee Gee's First" (1967) e "Horizontal" (1968)



Em Janeiro de 1968, era editado o álbum “Horizontal” dos Bee Gees. Na carreira deste grupo, este disco é geralmente considerado o segundo, depois de um que teve precisamente o título “Bee Gees’ First” ou simplesmente “First”. Esta informação não é totalmente correcta e tem induzido muita gente em erro. Na verdade, os dois álbuns referidos são simplesmente os dois primeiros da sua fase britânica ou carreira na Europa Ocidental, que, em virtude do sucesso obtido, se prolongou, como uma linha contínua, terminada na primeira década deste século, devido à morte de Maurice Gibb em Janeiro de 2003, com alguns interregnos e fases menos bem sucedidas pelo meio. Robin Gibb, depois de ter uma carreira paralela a solo, mais bem sucedida do que a dos outros irmãos, faleceria em 2012.

Na verdade, a sua carreira não se iniciou só em 1967. Tendo nascido em Inglaterra, de um casal de músicos, os irmãos Barry, Robin and Maurice Gibb, haviam emigrado, no ano de 1958, para a Austrália. De referir que, por volta desta altura, nasceria um quarto irmão, Andy Gibb, que nunca fez parte do grupo musical “Bee Gees” e que morreria, prematuramente, aos 30 anos, em 1988, depois de uma carreira a solo muito instável.

Desde muito novos, revelaram um talento inato para a música, tendo começado, desde logo, a cantar e a tocar. No começo da década de 60, ganharam, por mais do que uma vez, concursos locais de novos talentos. Do seu repertório faziam parte diversos êxitos então muito em voga. Aliás, existem diversos documentos filmados de algumas das suas actuações ao vivo, inclusive, transmitidas na televisão australiana. 

The Bee Gees - "Hilly-Billy-Ding-Dong-Choo-Choo" (1963).

Apesar de ainda adolescentes, não deixaram de despertar interesse nas editoras discográficas locais. O irmão mais velho, Barry Gibb, começaria, desde logo, a escrever canções e foi a partir daqui que eles obtiveram o seu primeiro contrato discográfico, em 1963, com a editora “Festival”. Daí que, em rigor, se pode afirmar que a sua carreira musical começou neste preciso ano, pelo menos a nível discográfico.
Bee Gees - "Timber!" (1963).

Bee Gees - "Take Hold Of That Star" (1963).

Bee Gees - "Peace Of Mind" (1964).

Bee Gees - "Turn Around Look At Me" (1964).

Bee Gees - "Theme From Jaimie McPheeters" (1964).
Bee Gees - "Wine & Women" (1965). O seu primeiro hit australiano. 

Bee Gees - "Follow The Wind" (1965). Influência óbvia do tema "Blowing In The Wind" de Bob Dylan.

Bee Gees - "I Was A Lover, A Leader Of Men" (1965).

Bee Gees - "How Love Was True" (1965).

Bee Gees - "I Don't Know Why I Bother With Myself" (1966). 

Bee Gees - "Tint Of Blue" (1966). 

Bee Gees - "Glass House" (1966).

Bee Gees - "All By Myself" (1966). Uma das primeiras canções assinadas pelo irmão Maurice Gibb (1949-2003).

Bee Gees - "Coalman" (1966).

Bee Gees - "I Am The World" (1966).

Bee Gees - "Second Hand People" (1966).

Bee Gees - "In The Morning" (1965-1966).

Gravariam, até 1966, toda uma série de canções, na sua esmagadora maioria escritas pelo irmão Barry Gibb, distribuídas por mais de uma dezena de singles e dois LPs, o que não deixa de ser notável. Foi nesta fase crucial que eles desenvolveram o estilo vocal e de composição musical que caracterizaria muita da sua vasta carreira futura. Acontece que, durante estes quase quatro anos, eles eram praticamente só conhecidos a nível local e correriam o risco de não ser mais do que uma das muitas bandas que tentavam, nessa época, singrar no mundo da música, quase sem sucesso, se não fosse a sua decisão ousada de regressar ao seu país de origem.

Desembarcariam nas Ilhas Britânicas, no começo de 1967, trazendo na bagagem as muitas gravações editadas até então. Nessa fase tinham como grande referência musical os “Beatles”. Aliás, o próprio Maurice Gibb afirmaria, mais tarde, que, na sua fase australiana, eles se caracterizavam como um grupo de jovens músicos tentando ser como os seus ídolos. De facto, se se reparar nos temas gravados em 1965 e 1966, é quase possível considerá-los uma espécie de “Beatles australianos”. Estando já, decerto, previamente informados de que o manager dos “Beatles” era Brian Epstein, vai ser precisamente à porta deste que eles irão bater.
A sua intenção era, sem dúvida, apostar numa carreira no mercado discográfico anglo-americano, que já era muito poderoso nessa época. Pode-se afirmar que muitos dos cantores e grupos musicais cuja obra não circulasse neste vastíssimo e dominante mercado editorial, acabavam por ser como que “virtualmente inexistentes” ou apenas localmente divulgados.

Após escutar muitas das suas gravações da fase australiana, Brian Epstein reconheceu-lhes uma grande qualidade e potencial sucesso. Acabou por encaminhá-los para um seu amigo, também produtor, Robert Stigwood, o qual também os reconheceu como um grupo de grande valor, em todos os aspectos. Este Robert Stigwood seria, a partir de então e por muitos anos, o seu produtor por excelência. Curiosamente, Stigwood era australiano de nascença.
Paralelamente, os irmãos Gibb haviam tomado conhecimento com dois outros músicos australianos e, como eles, a viver em Inglaterra, embora de nacionalidade efectivamente australiana. Eles eram Vince Melouney, guitarrista, e Colin Petersen, baterista, ambos já com alguma experiência musical noutros grupos.
Segundo documentam algumas fotos promocionais, durante um breve período, nos meses imediatamente subsequentes à sua chegada à Inglaterra, os Bee Gees, muito à maneira dos seus ídolos "Beatles", surgem como um quarteto, com Colin Petersen na bateria. Nesta breve fase, já com contrato assegurado, estavam ainda a promover o seu "tema-passaporte" "Spicks And Specks", já lançado no ano anterior (1966) na Austrália. 

Bee Gees - "Spicks And Specks" (1966/1967). Na capa desta coletânea os Bee Gees surgem como um quarteto com Colin Petersen à direita.

De qualquer forma, já tinham, entre o seu seu círculo de relações, um certo Vince Melouney, guitarrista e cantor australiano, também já com uma carreira no seu país de origem, sob o nome de "Vince Maloney". Logo que este decidiu retomar o seu apelido de origem, ingressou, oficialmente, nos Bee Gees

Bee Gees - "All Around My Clock" (1967).

Bee Gees - "Gilbert Green" (1967).

Desde logo, começam a escrever e a gravar as canções que iriam constituir o material incluído no seu LP “Bee Gees’ First”, o qual não era, em rigor, o seu primeiro. Acontece que os “Bee Gees” agora moviam-se dentro de um outro circuito discográfico, que os daria a conhecer a um público mais vasto e a promovê-los devidamente, através de, nomeadamente, um maior número de actuações ao vivo mais frequentes. Numa certa perspectiva, pode-se afirmar que a sua carreira levaria o impulso necessário a partir do momento em que as suas canções começam a ser gravadas e editadas no mercado anglo-americano, porque foi aqui que os “Bee Gees” começaram a ser, efectivamente, famosos. Aliás, a sua fase australiana só ganhou importância posterior, em virtude do sucesso mundial obtido logo a partir de 1967.

Bee Gees - "Turn Of The Century" (1967).

Bee Gees - "Holiday" (1967).

Bee Gees - "One Minute Woman" (1967).

Bee Gees - "Craise Finton Kirk Royal Academy Of Arts" (1967).

Como se veio a verificar, o seu LP "Bee Gees' First" tornou-se num sucesso à escala mundial. Não só devido à qualidade das canções, mas também devido a uma eficiente campanha de divulgação, que incluía espectáculos ao vivo e na televisão. O efeito da "novidade" também teve aqui o seu papel importante. Mesmo assim há que compreender que, quando um grupo musical grava o seu primeiro disco ou, como aqui acontecia, relançava a sua carreira num contexto e em moldes diferentes, era sempre um "tiro no escuro". A capa deste disco foi concebida e desenhada por Klaus Voormann, o tal grande amigo dos Beatles, que estes conheceram na sua fase de espetáculos em Hamburgo (por volta de 1961) e cuja namorada de então, Astrid, foi responsável pela sua mudança de penteado, que tanto impacto haveria de causar no Mundo. De referir que esta namorada foi, segundo se diz, "roubada" a Klaus por um certo "5º Beatle" e baixista Stuart ("Stu") Sutcliffe, que acabaria por morrer em Hamburgo, pouco tempo depois de iniciar uma muito breve carreira de pintor e desenhador...

Bee Gees - "New York Mining Disaster" (1967). Este foi, de facto, o primeiro grande êxito dos Bee Gees...

Bee Gees - "To Love Somebody" (1967). ...logo seguido por este.

Bee Gees - "I Can't See Nobody" (1967). A cantora Nina Simone (1933-2003) lançaria, em 1969, uma das mais bem conseguidas covers deste tema.

Bee Gees - "Close Another Door" (1967).

A sua experiência de gravação em estúdio era, de igual modo, bastante superior à de muitos cantores e músicos da sua faixa etária. Ao contrário do que muitos, ainda hoje, julgam, o "Bee Gees' First" foi, de facto, o seu terceiro LP gravado. Acontece que, no universo das reedições em CD, este "primeiro" trabalho surge como o mais antigo que se conhece dos Bee Gees, o que tem continuado a induzir muita gente, incluindo fãs, em erro. Desta forma, "Horizontal", o disco que se lhe seguiu, foi, na verdade, o seu quarto LP

Bee Gees - "And The Sun Will Shine" (1967-1968).

Bee Gees - "Lemons Never Forget" (1967-1968).

Bee Gees - "Birdie Told Me" (1967-1968).

Bee Gees - "Massachusetts" (1967-1968).

Bee Gees - "Day Time Girl" (1967-1968).

Bee Gees - "Horizontal" (1967-1968).

O "Horizontal", gravado nos últimos meses de 1967, e editado em Janeiro de 1968, foi já criado num contexto de êxito confirmado e foi a sua verdadeira primeira consagração mundial.  Essa crescente confiança em si mesmos, reflectiu-se no próprio LP, mais conciso e ambicioso do que o anterior. Quase todos os seus temas, talvez exceptuando "Harry Braff" e, de certa forma, "The Earnest Of Being George", merecem destaque pela qualidade e elaboração, tanto em termos de música como de letras. No entanto, mesmo os dois fillers atrás referidos, conseguem a sua "tábua de salvação" nos sólidos arranjos instrumentais.

Bee Gees - "Out Of Line" (1967-2006). Este tema poderia muito bem ser o único êxito de outro qualquer grupo. Mesmo tratando-se de, provavelmente, uma demo, mesmo aqui, os Bee Gees são bons... Conseguem ter a qualidade de temas finais!

Bee Gees - "Words" (1967). 

Bee Gees
- "Sir Geoffrey Saved The World" (1967). O lado B do single "World". Não ficava nada mal como lado A ou integrando algum LP.

Bee Gees - "Mrs. Gillespie's Refrigerator" (1967-2006). Trata-se apenas de uma demo, cuja a letra é, na melhor das hipóteses, surrealista, senão mesmo algo bacoca e a roçar o ridículo. Todavia, mesmo aqui, os Bee Gees mostram a sua excelência. Até 2006, a única versão deste tema que existia era de um grupo, quase desconhecido, chamado "The Sands", lançada em 1967. Aliás, pensa-se que este tema foi escrito precisamente a pensar nesse grupo psicadélico britânico que se estava a lançar... e que não passou daí... A versão desses "The Sands" é completamente "metida no chinelo" ao ouvir-se a demo original dos Bee Gees!

The Sands - "Mrs. Gillespie's Refrigerator" (1967). No encerramento desta versão, ouvem-se "ecos" de um outro tema, lançado no ano anterior (1966), por um certo Lee Mallory (1945-2005): "That's The Way Its Gonna Be". Este tema teve, por sua vez, a autoria de um outro nome muito injustamente esquecido: Phil Ochs (1940-1976). Todavia, quem o interpretaria, em "demo", durante as sessões de gravação do single do já referido Lee Mallory e que serviria como "guide vocal" deste, seria o genial e também muito injustamente esquecido Curt Boettcher (1944-1987).

The Sands por volta de 1967.


Bee Gees - "God's Good Grace" (1970/1971). Eis um exemplo de tema inédito dos Bee Gees que já era tempo de ter um lançamento oficial. Muitas vezes, é entre os temas inéditos que se encontram os melhores... Por sinal, este tema vem mesmo a calhar para o período que atualmente (2021) nós vivemos. Ventos de guerra soam aqui e ali em diversas partes do mundo... Tal como a letra diz: "And Tough I Was Not Born/ To Fight In World War 2/All I Know In My Mind/We Don't Want Another Like That To Pursue". A voz em destaque neste tema é, como no vídeo se faz questão de salientar, é Robin Gibb (1949-2012). Muitos consideram-no a melhor e mais original voz dos Bee Gees.

Eis a letra:

Thank God’s good grace we’re beginning
Thank God’s good grace I’m alive
Thank God’s good grace we are winning
Our will to survive

And though I was not born
To fight in World War II
All I know in my mind
We don’t want another like that to pursue
We don’t want another like that to pursue

Thank God’s good grace that we’re seeing
The terrible mess we are in
Thank God’s good grace we are leading
Our course to begin

And they can’t make films
As good as you see on the street
If you want to do some good
It will take a lifetime
It will take a lifetime

Thank God’s good grace we’re beginning
Thank God’s good grace I’m alive
Thank God’s good grace we are winning
Our will to survive

Thank God’s good grace
Thank God’s good grace
Thank God’s good grace
Thank God’s good grace

Thank God’s good grace...

Bee Gees - "My World" (1972).

Bee Gees - "Road To Alaska" (1972)

Bee Gees - "Country Lanes" (1975).

Robin Gibb - "Juliet" (1983).

Bee Gees - "Ordinary Lives" (1989).

Bee Gees - "This Is Where I Came In" (2001).