segunda-feira, dezembro 31, 2007

A Leitaria Académica - Alta de Coimbra

Entre as muitas “vítimas” das demolições da Velha Alta de Coimbra, uma das mais simbólicas e lamentadas pela academia coimbrã, foi a Leitaria Académica, mais conhecida pelo nome do seu fundador e proprietário, Joaquim Inácio, vulgo Joaquim “Pirata”. Figura sempre lembrada pelos estudantes que passaram por Coimbra nas décadas de 1920, 1930, 1940 e mesmo 1950, este Joaquim “Pirata”, tinha o seu estabelecimento bem na desaparecida Rua Larga, a fazer esquina para a Rua de S. João, esta última (ainda?) hoje existente, mas numa versão que nada tem a ver com a original. A origem da alcunha do seu proprietário, é desconhecida, mas era este o nome por que todos os estudantes lembravam esse homem de figura muito peculiar, sempre envergando um impecável casaco branco. Este estabelecimento era um espaço algo exíguo, só ocupando duas portas que davam para a Rua Larga, tanto que em dias de festa, os seus frequentadores tinham de ir consumir para a rua, não havendo, para mais, esplanada. Mais frequentemente, era utilizado pelos estudantes quando iam tomar o pequeno-almoço, apressadamente, antes de irem para as aulas. Era precisamente na relação deste Joaquim “Pirata” com os seus clientes, que residia um dos seus aspectos mais peculiares, e que se revelou uma estratégia de negócio algo bem sucedida. O cliente entrava, consumia, mas não era obrigado a pagar a pronto. No entanto, tinha de deixar o seu nome num de dois ou três grossos livros, sebosos pelo uso, que existiam bem à vista no balcão. Estes livros eram conhecidos pelos “canis”, derivado da expressão “ferrar o cão”, sinónimo de ficar a dever, não pagar a conta. Esta sua atitude aparentemente permissiva conquistou a simpatia da sua clientela, predominantemente estudante, que muito frequentava este espaço. O senhor sabia que, mais cedo ou mais tarde, as dívidas iam ser saldadas, o que quase sempre acontecia. Muitas vezes, o antigo estudante, num rebate de consciência, só lá regressava alguns anos depois do fim da sua licenciatura e, finalmente, o seu nome era riscado. Não raras vezes, esta dívida era motivo de celebrações bem regadas à porta do estabelecimento. A Leitaria Académica, aberta desde por volta de 1923, tinha como outra característica distintiva um grande azulejo com o símbolo da Associação Académica de Coimbra, colocado entre as suas duas portas de entrada. Terá sido um dos primeiros estabelecimentos de Coimbra a ter esse símbolo, criado pelo então jovem estudante Fernando Pimentel, no ano de 1927. Entretanto, em Maio de 1944, com o inexorável avanço das demolições, iniciadas no ano anterior, para a construção da nova “Cidade Universitária”, o “Pirata” vê-se obrigado a encerrar as portas.
Transferiu-se para a Rua dos Estudos, onde permaneceria até Outubro de 1949, na sequência do desmoronamento do edifício onde se localizava, incidente a que não foram alheias as demolições que decorriam já nas suas imediações. Na sequência disto, é obrigado a nova mudança, desta vez para um prédio situado junto aos Arcos do Jardim, o primeiro à esquerda, que seria demolido em Outubro de 1959. A partir daqui, não mais se soube do paradeiro do espólio que dentro dele existia.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

A "Bastilha" e a "Tomada da Bastilha"

A "Bastilha", por volta de 1935.

Um dos acontecimentos mais marcantes da história de Coimbra e da sua Academia é a “Tomada da Bastilha”. É ainda hoje festejado pelos estudantes, todos os anos, a 25 de Novembro. Foi na madrugada deste preciso dia, no já distante ano de 1920, que, pela primeira vez desde havia mais de três décadas, os estudantes de Coimbra conquistariam para a sua Associação Académica uma sede digna desse nome. 

Depois de ter sido forçada a abandonar o edifício do antigo Colégio Real, vulgo Teatro Académico, demolido em 1889, a sede da Associação Académica esteve instalada em diversos locais, entre estes o Colégio da Trindade, nem sempre nas melhores condições. Em 1913, a sede da A.A.C. acabou por se fixar no andar térreo de um grande edifício localizado na Rua Larga, por decisão do Senado Universitário. No andar nobre deste edifício, incluindo a mansarda, estava instalado o Instituto de Coimbra, vulgarmente designado por “Clube dos Lentes”. Durante anos, os estudantes viram-se confrontados com instalações acanhadas e com fracas condições de higiene e comodidade, para além das relações nem sempre pacíficas com os vizinhos de cima.

Por fim, na madrugada do dia 25 de Novembro de 1920, um grupo de estudantes decide tomar de assalto as instalações do referido instituto. A partir de então, todo o edifício ficou destinado para a Associação Académica de Coimbra, e passou a ser designado por “Bastilha”, em memória daquela demonstração de ousadia e arrojo por parte da Academia. Originalmente, este edifício fora construído para albergar o Colégio de São Paulo, o Eremita, fundado em 1779, também designado por Colégio dos Paulistas. Tinha um portal nobre encimado por uma igualmente majestosa varanda e a particularidade da sua construção nunca ter sido definitivamente concluída, por não ter sido edificada a parte a nascente, daí a sua entrada aparecer à esquerda. Mesmo assim, tinha frente para três ruas diferentes, a Rua Larga, onde estava a sua entrada principal, a Rua do Borralho e a Rua do Guedes, onde ficavam as traseiras. 

Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, este edifício foi entregue à Universidade. Foi destinado a diversas funções ao longo dos mais de cem anos que se seguiriam, tendo nos seus últimos anos de existência albergado, como já foi referido atrás, a sede da A.A.C.. Por fim, em Agosto de 1949, a Academia é obrigada a deixar definitivamente a sua velha sede da Rua Larga, devido às implacáveis demolições para a “Cidade Universitária” que, então, já haviam destruído muito da Velha Alta. O fim deste antigo Colégio dos Paulistas já havia sido anunciado pelo Reitor em Março de 1948. Logo antes de se iniciar a sua demolição, que decorreria de Setembro a Dezembro de 1949, os estudantes fizeram uma récita de despedida à sua “Bastilha”.

Museu Nacional da Ciência e da Técnica - Um cadáver adiado?



O Museu Nacional da Ciência e da Técnica, criado em 1971, mas só oficialmente inaugurado em 1976, constituía, na época uma instituição quase pioneira em terras portuguesas. Resultou do amor pela divulgação científica e do génio empreendedor do Professor Mário Silva e foi o corolário de toda uma vida de dedicação à Ciência, tantas vezes dificultada por razões de natureza política. Basta recordar que o Professor Mário Silva, tendo nascido em 1901, viveu os seus anos intelectualmente mais produtivos, ou seja, a maior parte da sua vida, debaixo do jugo ditatorial do Estado Novo. Devido ao seu espírito inconformista e interventivo, nomeadamente ao participar ativamente nos movimentos políticos de oposição que se seguiram a 1945, seria alvo, mais do que uma vez, de detenções por parte da PIDE, tendo sido a primeira em 1946. Na sequência desta situação, encabeçou, no ano de 1947, uma vasta lista nacional de professores expulsos ou “aposentados compulsivamente” do ensino universitário. Só seria integrado em 1976, quase dois anos depois do 25 de Abril. Seria então, nesse ano de 1976, que, após cinco longos anos de trabalhos de investigação e escolha criteriosa de peças a expor, se inauguraria o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, cuja sede e edifício principal ficaria, a partir daí, instalada no Palácio Saccadura Botte, sito na Rua dos Coutinhos, em Coimbra. Mário Silva seria o seu primeiro director, mas só teria pouco mais de um ano para exercer o seu cargo, pois faleceria em Julho de 1977. Pretendia-se ainda que este Museu tivesse, em diversos pontos do país, várias secções, destinadas à realização de diferentes exposições. Tal não se chegou a concretizar, tendo os poucos espaços adicionais conseguidos, ficado destinados a armazenar, com as condições possíveis, as reservas do Museu.
Como forma de aumentar os espaços expositivos disponíveis, foi cedido, a partir de 1993, uma série de divisões de um piso do antigo Hospital do Colégio das Artes, onde, atualmente, se encontra o grosso do espólio do agora designado Museu Nacional da Ciência e da Técnica Mário Silva. No entanto, parece que desde o falecimento do seu criador e primeiro director, a instituição entrou num estado de progressiva letargia, quebrado, de quando em quando, por alguma iniciativa temporária e sem a divulgação devida.
Numa tentativa de revitalizar o Museu Nacional da Ciência e da Técnica, foi criado, em 1999, o Instituto de História da Ciência e da Técnica, instituição pública e diretamente financiada pelo Ministério da Ciência. Aliás o MNCT, e este instituto público estiveram, na prática, fundidos num só. O seu director, durante este infelizmente muito curto período, foi o Professor Doutor Paulo Trincão, que exerceu o seu cargo com a dedicação máxima e como uma das maiores missões da sua vida. Muitas expectativas foram criadas para este novo período que então se iniciava, nomeadamente a nível de projetos de investigação, muitos deles diretamente financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). O Museu, sob a alçada do promissor Instituto de História da Ciência e da Técnica, pareceu entrar numa fase há muito esperada de dinamização. Entre as medidas de maior monta, estavam a informatização de todo aquele espaço, associada à sua pretendida inserção na Rede Portuguesa de Museus (RPM), bem como (finalmente) uma cuidadosa inventariação e tratamento das peças que constituem o seu vasto e multifacetado espólio. No entanto, devido em grande parte a questões de financiamento, o processo de constituição de um museu científico segundo os moldes mais atuais e praticados noutros países, não foi correndo com a celeridade pretendida. De qualquer forma, as expectativas mantinham-se altas.
Esta pretendida nova fase, encontraria o seu fim prematuro na sequência de uma imprevista mudança de Governo, ocorrida em 2002. O recém-criado Ministério da Ciência e do Ensino Superior, sob o pretexto de uma necessidade de contenção de gastos para reduzir o já tão falado “défice”, decidiu-se por suspender o financiamento de uma série de institutos públicos, muitos deles criados nas imediatamente anteriores legislaturas, considerados “supérfluos”. Sem financiamento, acabava-se o oxigénio que lhes permitiria viver ou, apenas, sobreviver. Entre estes institutos, acabou por se ver, incompreensivelmente, incluído o Instituto de História da Ciência e da Técnica, sob a alçada do qual estava o Museu Nacional da Ciência e da Técnica. Em Maio de 2002, começa o processo de extinção daquele instituto de investigação público e o seu director, Paulo Renato Trincão, decide apresentar a sua demissão.
Na sequência disto, para além do respectivo pessoal trabalhador e diversos bolseiros com investigação em curso ou acabada de iniciar, temeu-se pela sorte do Museu criado pelo Professor Mário Silva. Chegou a ser sugerida a sua transferência para outra localidade, em alternativa à irremediável perda que constituiria a sua quase previsível extinção. Muitos pugnaram, com sucesso, até ver, pela permanência deste Museu Nacional em Coimbra. Apenas se conseguiu isto, o que já não foi nada mau, mas a sua situação tem continuado, até agora, sem um rumo definido. Considerado como “salvo” da má sina e sob os auspícios de uma nova direção, decidiu-se renomear a instituição como Museu Nacional da Ciência e da Técnica Mário Silva, destinado a ser integrado num projeto futuro, mais vasto e abrangente, designado como “Museu do Conhecimento”, que pretende englobar as instituições museológicas da Universidade de Coimbra. Foi no sentido de se concretizar esta ambiciosa rede museológica, que foi projetado e construído, ao longo de vários anos, o actual Museu da Ciência, inaugurado a 5 de Dezembro de 2006, no antigo Laboratório Químico da época pombalina e que constituiu uma obra notável.
Não se pode considerar o Museu da Ciência um verdadeiro sucessor do quase extinto Museu Nacional da Ciência e da Técnica. São duas instituições criadas autonomamente e que foram concebidas em contextos diferentes. Devido à sua localização muito próxima relativamente ao MNCT, o Museu da Ciência, numa situação ideal, seria uma extensão daquele, ou melhor dizendo, o “cartão de visita” através do qual aquele (MNCT) melhor se apresentaria ao público e o corolário de todas as atividades aí desenvolvidas. Não sendo o que na presente situação acontece, o Museu da Ciência poderá talvez ser uma forma de todos, inclusive os sucessivos Governos, terem sempre presente o valor da outra instituição que ali existe e que corre sérios riscos de morrer de esquecimento. Em suma, o novo Museu da Ciência deveria ser a tábua de salvação de uma instituição carregada de História e construída ao longo de anos com o suor e o empenho de tantos e que contribuiria, verdadeiramente, para recolocar a cidade de Coimbra no mapa das instituições de investigação científica mundiais.

sábado, dezembro 08, 2007

Ultimate Spinach

Ultimate Spinach consistiu numa banda originária de Boston, inserida no vasto conjunto de grupos musicais surgidos pela América fora no final dos anos 60, com especial destaque para a West Coast, mais concretamente Califórnia e a sua cidade S. Francisco. Pode-se afirmar que cada cidade norte-americana viu nascer uma multidão de conjuntos musicais, tentando conquistar o seu lugar ao sol e, igualmente, desaparecer muitos deles num curto espaço de tempo. Isto já havia, de certa forma, acontecido em solo britânico anos antes, na sequência do êxito estrondoso de grupos como os Beatles e outros. Uma grande parte desses grupos teve vida curta, quase sempre associada a fraco êxito. Isto acontecia devido não só devido à eventual falta de talento musical dos seus elementos, mas também à rápida saturação do mercado, o que fazia com que o público ouvinte não desse vazão a toda a oferta que lhes era oferecida. Por outro lado, as editoras e os produtores existentes teriam de escolher apenas alguns em que investir o tempo e o capital necessário, pondo de parte todos os outros, onde até poderia haver muitos talentos desperdiçados. Nesta escolha intervinham, não só razões de natureza logística e financeira, mas também os critérios de gosto pessoais dos grandes magnatas e coisas tão comezinhas como a maior ou menor simpatia que estes nutriam por aqueles que a eles recorriam como uma possível porta para o êxito. É preciso não esquecer que os responsáveis pelas editoras, os produtores com algum poder e nome na praça e todos os outros que teriam o poder de decidir acerca da sorte dos artistas, eram muitas vezes de uma geração anterior à destes, não raras vezes pais de família e com filhos da mesma idade. Isto sem referir os que não tinham afinal grande sensibilidade musical. Nos anos 60 os grupos musicais das novas correntes, na generalidade, ainda eram olhados como maus exemplos pelas gerações mais velhas como um mau exemplo para os mais jovens, que eram atraídos pelo seu som e estilo revolucionários. Desta forma, terá havido projetos musicais, de real qualidade, que não tiveram o reconhecimento devido e, muitas vezes, o êxito merecido durante os seus breves anos de existência. Muitos só tiveram oportunidade de deixar obra gravada, graças precisamente ao apoio empenhado de produtores e managers da mesma geração e com poucos meios disponíveis. Entre estes grupos estavam os Ultimate Spinach. Este grupo foi fundado em 1967 e só gravaria 3 álbuns entre 1968 e 1969. Não é possível definir com clareza o estilo em que estes se inseriam, mas há quem classifique, muito genericamente, este grupo de “alternativo”, devido, entre outros aspectos, ao facto de não estarem inseridos em nenhuma das principais editoras e o seu êxito ter sido muito reduzido. Aliás, esta banda só foi verdadeiramente conhecida nos E.U.A., onde, mesmo hoje, é considerada uma curiosidade do seu tempo e algo obscura. O seu primeiro álbum, "Ultimate Spinach" , teve uma recepção algo moderada por parte do público e o interesse que suscitou, nesse começo de 1968, deveu-se, em grande parte, ao efeito da novidade e ao facto do seu som e das suas letras "combinarem bem" com o cenário onde a moda hippie estava no auge e os movimentos de contra-cultura proliferavam. O ponto forte destas canções residia essencialmente na música, onde se privilegiava o virtuosismo e a capacidade inventiva de Ian Bruce-Douglas, o vocalista e poli-instrumentista do grupo, que era também o principal compositor. As suas qualidades de letrista e cantor eram, no entanto, muito limitadas. No que respeita às capacidades vocais, estas eram incontestáveis no que se refere a outro membro fundador do grupo, a cantora Barbara Hudson. Aliás, seria ela o único elemento do grupo que permaneceria na formação ao longo das suas constantes entradas e saídas de músicos. Esta inconsistência no que respeita aos elementos do grupo, seria também um factor determinante na sua curta existência. Após a dissolução da formação que havia participado na gravação do primeiro disco, Ian Bruce-Douglas e Barbara Hudson decidem reformar os Ultimate Spinach recrutando, desta vez, artistas escolhidos a dedo e com experiência comprovada, incluindo o baterista Russ Levin. É desta forma que começam as muito exigentes sessões de gravação para o álbum seguinte "Behold and See" . Mais uma vez, Ian Bruce-Douglas escreve a totalidade das canções e encarrega-se dos arranjos até ao pormenor, para além de tocar diversos instrumentos. O facto de ser ele, de novo, o principal vocalista, constitui, para diversos críticos, um elemento desvalorizador da qualidade das canções. Consciente ou não disto, decide convidar uma outra cantora, uma certa Carol Lee-Britt, a qual, estranhamente, não surge como um elemento "oficial" do grupo. No entanto, esta revela-se uma vocalista de muito maior qualidade nos dois temas apenas onde participa. Ian Bruce-Douglas pretendia fazer deste álbum a sua grande obra-prima e daí o seu maior investimento em tempo, dinheiro e saúde. O álbum consistia em oito canções, seis delas de duração muito superior a 5 minutos, onde, mais uma vez, a temática versará à volta dos mais diversos temas, com especial destaque para a sociedade, relações humanas e a imaginação. Como acontece com a generalidade dos álbuns, nunca foi posta de parte a ideia de retirar um ou dois singles, que poderiam ser potenciais êxitos em novos públicos. Desta forma, surgem dois temas "Behold & See (Gilded Lamp of The Cosmos)" e "Where you're at", menos complexos e com uma duração à volta dos 3, que são onde, precisamente, os temas onde a cantora convidada Carol Lee-Britt tem a oportunidade de brilhar. No seu todo, pode-se dizer que o resultado foi um álbum mais amadurecido e uniforme, se comparado com o primeiro, embora surjam dois ou três temas a que é difícil aderir se escutados fora do contexto do álbum. O seu ponto forte situa-se, precisamente, no seu tema mais longo "Genesis of Beauty Suite (in four parts)". Não é decerto um álbum que conquiste nem fácil nem imediata adesão por parte da generalidade dos ouvintes comuns: este álbum destina-se a ser apreciado por ouvidos mais exigentes, os mesmos que consigam apreciar a mais elaborada e menos usual peça de música clássica e não se guiem pelas recomendações das estações de rádio. Esgotado pelas gravações e desencantado com a fraca recepção que o álbum então teve, tanto por parte do público como da crítica, Ian Bruce-Douglas decide abandonar o grupo. No ano a seguir sai um terceiro álbum, "Ultimate Spinach III" que foi recebido pelo público e pela crítica com ainda maior indiferença. Da formação original, só restava Barbara Hudson. "Behold and See" foi gravado e lançado nos últimos meses de 1968 e constituiu, decerto, um dos muitos elementos musicais do vasto pano de fundo onde, entre outros eventos, seria acolhido, no Verão do ano a seguir, o famoso espetáculo de Woodstock. Um elemento adicional que contribui para o valor deste álbum é a sua original capa, muito expressiva e difícil de ignorar, a qual foi considerada também uma das melhores capas de LP de todos os tempos. A sua beleza exerce um efeito complementar da qualidade da música que se pode encontrar neste disco, compensando os momentos menos felizes que, uma vez por outra, aqui se detectam. Mesmo antes de se ouvir, já se tem o prazer de tomar contacto com este disco.

O Museu da Ciência (Coimbra)

Fez no dia 5 de Dezembro de 2007 um ano que o Museu da Ciência foi oficialmente inaugurado em Coimbra. Neste espaço de tempo, este museu revelou-se uma instituição que há muito tempo fazia falta nesta cidade. Trata-se verdadeiramente de um museu dos novos tempos, pelo menos no que se refere aos requisitos hoje que devem ser atribuídos a uma instituição museológica científica. 

Na sua grande sala de exposições o visitante observa de perto e quase que vive algumas das múltiplas facetas do vasto mundo da investigação científica, desde os mistérios da Natureza desvendados ao longo de séculos de investigação até aos produtos dessa mesma investigação e o impacto que terão exercido nos progressos da Humanidade, sem esquecer as “ferramentas” a que foi necessário recorrer para executar essa investigação e ser (mais ou menos) bem sucedido. Neste último aspecto, entra também uma outra faceta desta instituição, onde o elemento museológico é reforçado. Trata-se do vasto espólio de materiais de laboratório e de experimentação, alguns deles com vários séculos de História e de diversas proveniências. 

Associado a isto, vale a pena referir que, apesar da grande tónica colocada na experimentação, o elemento teórico que ajuda o visitante a compreender melhor o que tem à sua frente, não foi descurado, como é bem visível na informação detalhada mas sucinta que é possível obter junto aos diversos elementos em exposição. Por outro lado, é preciso não esquecer o espaço em que se insere este Museu da Ciência. O próprio edifício é um elemento museológico. É um dos não muitos frequentes exemplos de situação de espaço que não se construiu de raiz para o efeito, mas que surge plenamente vocacionado para as novas funções. Trata-se do antigo Laboratório Químico da Universidade de Coimbra da Reforma Pombalina, cujo edifício foi desenhado por William Elsden, arquitecto inglês muito cotado na época. Foi construído de raiz sob o espaço antes ocupado pelas cozinhas e refeitório do antigo Colégio das Onze Mil Virgens, pertencente aos Jesuítas que haviam então sido despojados dos seus bens por iniciativa do Marquês de Pombal

Durante os seus mais de 200 anos de utilização, este edifício foi sujeito aqui e ali a alguns acrescentos, tanto a nível do espaço circundante como do seu interior. No entanto, o essencial do Laboratório, permaneceu sempre fiel à sua construção original. Devido ao seu crescente estado de degradação, o velho Laboratório Químico, foi encerrado há uns anos atrás, tendo ficado mais ou menos ao abandono, até ser posto em prática o projecto de o converter no actual Museu da Ciência

Durante os mais de dois anos em que decorreram as obras, foram feitas algumas descobertas curiosas provenientes do período anterior à construção do Laboratório, as quais, de alguma forma, protelaram a conclusão prevista do projecto e obrigaram mesmo a reformulações do projecto inicial. Entre estas, destacam-se vestígios dos subterrâneos de antigas secções do antigo Colégio dos Jesuítas, nomeadamente as cozinhas e o refeitório, e elementos arquitectónicos que foram integrados no novo edifício, sobretudo paredes, sem esquecer os restos de utensílios e louças, muito provavelmente antes pertencentes ao espólio da desaparecida instituição religiosa. 

Desta forma, para além dos objectos científicos, o visitante é presenteado com uma outra exposição permanente relativa à história tanto do Laboratório Químico, como daquilo que o antecedeu neste local, complementada por diversas fotografias e desenhos relativos às várias fases da sua conversão em Museu da Ciência. Estes elementos, reunidos e estudados ao pormenor, reforçam o valor patrimonial de todo este espaço e colocam questões e enigmas que não são mais do que o ponto de partida para novas investigações acerca da história deste espaço.

domingo, dezembro 02, 2007

Universidade - Património da Humanidade





Nos dias 29 e 30 de Novembro realizou-se no Auditório do Edifício Central da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, localizado seu no Pólo II, o Seminário “Univer(s)cidade – desafios e propostas de uma Candidatura a Património da Humanidade”. Trata-se de uma ideia já defendida desde há largos anos e por um número crescente de defensores. Este evento permitiu desenhar um quadro acerca das ações que será necessário desenvolver no futuro de forma a tentar resolver ou pelo menos minimizar, toda uma série de problemas, muitos deles de longa data, como o mau estado de conservação de diversos edifícios da zona antiga da Alta coimbrã, bem como a progressiva desertificação habitacional do seu centro histórico, muitas vezes maioritariamente habitado por uma decrescente população idosa. Ao falar-se no valor patrimonial da Universidade de Coimbra, é impossível ficar-se confinado a este núcleo de edifícios, dissociando-os da área urbana envolvente. Por outras palavras, a própria cidade de Coimbra no seu todo e as pessoas que nela habitam, ou simplesmente lhe dão vida, estão envolvidas nesta temática, ainda que não sejam diretamente mencionadas.
A pretexto disto, são feitas comparações com outras localidades, tanto em Portugal como no estrangeiro, onde foram ou estão a ser postas em prática políticas concertadas de salvaguarda do seu respectivo património, com especial destaque para a componente arquitetónica mas sem excluir outros elementos envolvidos, fazendo-se uma análise dos resultados entretanto obtidos, com maior ou menor sucesso, e os obstáculos que ainda existirão para ser ultrapassados. Foram referidos exemplos mais ou menos bem sucedidos de reabilitação urbana, nomeadamente nas cidades de Santiago de Compostela e Guimarães, bem como a forma como o desenvolvimento urbano das cidades pode ter alguns efeitos mais ou menos perniciosos para os respectivos centros históricos, tal como tem acontecido em Salvador da Bahia, no Brasil.

O Governo Civil (desaparecido) - Alta de Coimbra

Um dos maiores e mais emblemáticos edifícios a ser sacrificado à lepra destruidora que o plano das obras da nova “Cidade Universitária”, semeou como praga no coração da Alta de Coimbra foi o antigo Colégio de S. João Evangelista, mais conhecido como o Colégio dos Lóios, devido à cor azul do vestuário dos religiosos que, em tempos remotos, nele residiram. De construção quinhentista, este vasto edifício ficou devoluto e entregue à Universidade de Coimbra, como aconteceu com outros, após a extinção das Ordens Religiosas regulares, por decreto de 1834. Após a venda do seu recheio em hasta pública, onde se incluiria decerto a sua biblioteca que, como tantas outras, desapareceria com a dispersão das suas obras pelos mais variados destinos, acabou por ser destinado a edifício de natureza civil. Graças ao seu generoso espaço interior, este edifício acabaria por ser ocupado por diversos serviços públicos, umas em períodos diferentes, outras em simultâneo, nomeadamente o Banco de Portugal, a sede da Junta da Província da Beira Litoral, Direção de Finanças, Posto da PSP, Correios, Inspeção Escolar, Bombeiros e, claro, Governo Civil. Aliás, era sob este prosaico nome que muitos conheceram este grande edifício, que tinha frente para três ruas distintas. 
A sua fachada principal e emblemática era fronteira à Sé Nova, no Largo da Feira, sendo encimada por uma curiosa estátua em plinto do patrono S. João Evangelista com a auréola raiada; o seu lateral assimétrico ocupava todo um dos lados da Rua dos Lóios, via hoje desaparecida e a partir da qual era possível olhar a Sé Nova de frente; e a sua fachada posterior, menos interessante do ponto de vista arquitetónico, era visível na Rua Larga, mesmo em frente ao edifício onde se alojaria a Associação Académica, sendo por aqui que o público acedia aos serviços disponibilizados no seu interior. Todo o edifício era uma construção assimétrica, como consequência do declive do terreno em que se implantara, dado que na fachada principal eram visíveis cinco pisos, enquanto na posterior, eram apenas dois. Após a extinção do Colégio dos Lóios, o seu edifício terá sido sujeito, aqui e ali, a algumas obras de adaptação, mas muito do que existia originalmente, terá permanecido até ao fim, mais ou menos fiel ao original. Entre estes elementos arquitetónicos, vale a pena salientar o seu claustro, onde era visível uma cisterna.

Numa tarde de finais de Novembro de 1943, o edifício do Governo Civil é atingido por um violento incêndio que, obviamente, causou pânico nas redondezas, principalmente por se estar em plena Segunda Guerra Mundial e ainda haver o receio de ataques aéreos. Viveram-se momentos de aflição, por se temer que o fogo alastrasse às casas vizinhas, o que, com grande aparato, acabou por ser evitado. Tentou-se salvar o que podia do seu recheio mas aqui, muita coisa se perdeu, principalmente a nível de documentação de diversa natureza. Os militares também terão dado uma ajuda preciosa, na tentativa de minorar os estragos. Como solução desesperada, grandes volumes de documentação são atirados pelas janelas do edifício em chamas. Nunca se apuraram as verdadeiras causas deste incidente, embora a tese oficial tivesse sido a de provável acidente, devido ao visível estado de degradação do imóvel e à abundância de materiais inflamáveis no seu interior. Há quem fale em ter sido propositado e ter tido relação direta com as obras da Cidade Universitária, que se haviam já iniciado na Primavera desse ano de 1943.
No começo de 1944, o edifício do Governo Civil vê a sua demolição muito antecipada, tornando-se, desta forma, no primeiro edifício a desaparecer da Rua Larga. A grande estátua de S. João Evangelista que encimava a sua fachada nobre é hoje a sua única recordação existente e encontra-se atualmente no centro de um largo (Largo de S. João) situado num núcleo habitacional próximo de Celas, construído para albergar muitos dos desalojados em consequência das demolições da Velha Alta.