Gram Parsons nasceu, na Florida, no Sul dos Estados Unidos da América em Novembro de 1946 numa família mais ou menos abastada, pelo menos por via materna. O seu nome de batismo era Ingram Cecil Connor, mas decidiu, pelo menos a nível artístico, adoptar o apelido do seu padrasto. Tendo desde muito cedo manifestado um grande talento musical, Gram Parsons aprendeu logo na infância a tocar vários instrumentos, nomeadamente o piano. Após um período de alguma estabilidade familiar, a sua família começou a desagregar-se em grande parte devido ao alcoolismo da mãe, que já havia ficado viúva na sequência do suicídio do seu primeiro marido.
Na sequência destas vicissitudes, Gram Parsons começou a dedicar-se ao aperfeiçoamento dos seus dotes musicais. Tal como aconteceu com outros jovens americanos nessa segunda metade dos anos 50, ele desenvolveu um forte interesse pelo rock and roll, então uma novidade em todos os campos. Tendo este género musical como referência, participou em diversas bandas com pouco mais de 10 anos de idade, atuando em bares e clubes que eram propriedade do seu padrasto. Em paralelo, rendeu-se igualmente à música folk, com uma tradição muito marcada na zona onde cresceu, sem esquecer a componente fundamental da música negra. Ainda no final da adolescência, acabou dar a primazia a este género musical, claramente mais consensual do que os novos ritmos que a década de 1960 começava a trazer, nomeadamente provenientes do outro lado do Atlântico, por via de grupos como os Shadows e os Beatles.
Foi sob a influência de outros grupos, já consagrados como o Kingston Trio e os Journeyman, que Gram Parsons constituiu a sua primeira banda profissional, os Shilos, em 1963.
Esta banda atuava, com grande êxito, nos mais diversos locais, desde bares a auditórios de liceu. Entretanto, após uma breve permanência na Universidade, decide aprofundar a sua grande paixão pelo country, reunindo-se com outros músicos, também estudantes, da zona de Boston, formando uma banda chamada "The Like" em 1965.
The Like (feat. Gram Parsons) - "Just Can't Take It Any More" (1965).
Originalmente, os elementos desta banda pretendiam investir num som mais próximo do jazz e do blues. Todavia devido ao facto de Gram Parsons ter revelado a sua, cada vez mais forte, intenção de prosseguir a sério como cantor folk, esta banda acabaria ainda nesse ano de 1965. Posteriormente, uma série de encontros com outros músicos seria crucial na decisão de Gram Parsons prosseguir em direção ao que seria designado por country-rock. Seria com alguns destes, que Parsons formaria uma nova banda, desta vez com maior destaque, denominada "International Submarine Band". Por volta de 1967, esta banda transfere-se para Los Angeles tendo, no ano a seguir (1968), lançado o excelente álbum, Safe at Home.
The International Submarine Band - "Safe At Home" (1968).
The International Submarine Band (feat. Gram Parsons) - "Folsom Prison Blues/That's All Right" (1968).
The International Submarine Band (feat. Gram Parsons) -"Luxury Liner"(1968).
The International Submarine Band (feat. Gram Parsons) -"Strong Boy"(1968).
The International Submarine Band (feat. Gram Parsons) - "Do You Know How it Feels to Be Lonesome" (1968).
The International Submarine Band (feat. Gram Parsons) - "Knee Deep In The Blues" (1968).
Ainda que a música country constituísse o seu género de eleição, Gram Parsons não era um músico de horizontes restritos a este género de regras muito próprias. Cultivava um interesse paralelo pelas novas correntes em que a música rock se havia ramificado e estava profundamente aberto a tentar combiná-las com um género musical aparentemente avesso a grandes mudanças como era o country. O cantor e compositor Gram Parsons interpretava uma música onde as sonoridades e as temáticas eram claramente do universo do Country, mas a sua atitude, apresentação e instrumentação devia muito mais ao rock. Aliás foi com ele que se começou a popularizar um, então, novo género, denominado “country rock”.
O próprio Gram Parsons personificou esta aparente dissonância country/rock: por um lado a sua música soava a uma versão eletrificada do country e as suas atuações estavam a ter uma aceitação e sucesso crescentes em círculos e zonas desde sempre seu terreno privilegiado, nomeadamente na região de Nashville; por outro, a sua forma de vestir, círculos de amizades, fãs e estilo de vida eram semelhantes, senão comuns, às estrelas do rock de então, incluindo mesmo nos aspetos negativos, como por exemplo, o uso de drogas cada vez mais pesadas.
Em 1968, Gram Parsons integrou, temporariamente, os Byrds, por via de um dos seus membros, Chris Hillman. Neste período, o grupo não atravessava propriamente um período muito feliz.
The Byrds entre 1965 e 1966. Da esquerda para a direita: Chris Hillman, David Crosby, Michael Clarke, Jim (Roger) McGuinn e Gene Clark.
The Byrds - "Mr. Tambourine Man" (1965). Um tema original de Bob Dylan o qual, muito no seu começo, terá "apadrinhado os Byrds, tendo chegado a atuar com eles.Inicialmente, elementos da editora para onde os Byrds gravavam, não terão estado muito de acordo quanto a incluir um tema com tal "carga" no lado A do single prestes a ser lançado e que seria o "tema de apresentação" dos Byrds. Ponderaram seriamente a hipótese de passar o tema destinado para o lado B. "I KnewI'd Want You", para o lado A, apesar de parecer menos "comercial". Era, entre outras razões, devido ao facto do seu autor ser um certo Bob Dylan, já então considerado um indivíduo um tanto "engagé" e, por isso, olhado de esguelha pelos setores mais conservadores... Terá sido o jovem produtor Terry Melcher, quem acabou por fazer toda a força, para que este tema permanecesse no lado A, argumentando, entre outros aspetos, a necessidade de serem bem sucedidos neste primeiro "de facto" lançamento dos Byrds. Não se enganou: o "Mr. Tambourine Man" atingiu o 1º lugar.Claro que sempre ouve outros que não ficaram convencidos... Mesmo assim, voltou-se a investir, temporariamente, em composições de Bob Dylan como "fórmula de sucesso", quer da parte dos Byrds, quer de outros grupos musicais, inclusive do outro lado do Atlântico. Aliás, foi a partir destas versões, muitas delas êxitos incontestados, que muitos "chegaram" à obra de Bob Dylan. Mesmo aqueles que não se sentiram particularmente cativados, talvez até desiludidos, pelas versões, um tanto quanto "básicas" e "pouco produzidas" do futuro Prémio Nobel, nunca mais lhe ficaram completamente indiferentes. Terá sido para, também, tentar chegar a estes ouvintes mais "dinâmicos" e onde os "êxitos comerciais" proliferavam, que Bob Dylan decidiu, mais cedo do que muitos julgaram, sair do registo algo "espartilhante" do puro folk e aventurar-se por outras paragens, surpreendendo tudo e todos, tal como, no fundo, acabaria por ir fazendo, até à atualidade. Na altura, o "mestre" foi chamado de "traidor" e "vendido" ao sucesso fácil... Ver Bob Dylan a empunhar uma guitarra-elétrica parecia, então (1965) quase um contra-senso...
Desde logo, as harmonias vocais que faziam grande parte do então inovador, "som Byrds" começavam a dar que falar e a mudar o som dominante da música de meados da década de 1960. A voz solo e inconfundível, como em muitos outros temas dos Byrds, estava a cargo de Jim McGuinn.
The Byrds - "All I Really Want To Do" (1965). Outra cover bem conseguida de um tema original de Bob Dylan e que foi o 2º grande êxito dos Byrds. O som das harmonias vocais estava, mais uma vez, ao nível da excelência e tornar-se-ia, desde logo, uma das imagens de marca dos Byrds. Muitos outros grupos musicais, daquele tempo, terão tentado emular esta capacidade de combinação de vozes. Alguns conseguiram ir ainda mais longe e fizeram disso a principal razão do seu sucesso como, por exemplo, os "The Association" famosos, entre outros temas, pelo inesquecível "Along Comes Mary" de 1966.
The Byrds - "Chimes Of Freedom" (1965). Mais uma cover de um tema original de Bob Dylan. Para muitos, talvez, a "jóia" escondida deste LP, visto que aparece, aparentemente, secundarizado, no seu lado B, quase a encerrar. Aliás foi, de facto, o último tema a ser gravado, cronologicamente, para este LP. Conta-se que a sua gravação não foi, de início, muito pacífica... A voz principal, tal como havia sido previamente combinado, coube a David Crosby. Aconteceu que, devido a não se sabe que razão, à última hora David Crosby recusou-se a cantá-la. Talvez uma das suas, cada vez mais frequentes, afirmações da sua personalidade muito forte, e que lhe traria, no seio deste grupo, alguns problemas, mais tarde. Apesar do seu aspeto algo bonacheirão, David Crosby é um "osso duro de roer". As coisas chegaram a tal ponto que, David Crosby chegou querer sair do estúdio para não mais voltar... Num assomo de fúria, quase imprevisível, um dos produtores do álbum que se estava a finalizar, barrou-lhe a passagem, dizendo-lhe que só sairia dali "sobre o seu cadáver" e que ele iria cantar no "Chimes Of Freedom" a bem ou a mal... Segundo testemunhas daquela ocorrência, David Crosby não teve outra solução senão conformar-se. Conta-se que ele terá mesmo chorado por uns breves instantes, antes de respirar fundo e pegar na sua guitarra de forma decidida e colocando-se em frente do microfone, pronto para cantar... Há quem diga que foi aquele momentâneo estado de catarse que o levou a fazer uma interpretação memorável e irrepetível desta canção!
The Byrds - "I KnewI'd Want You" (1965). Ao se escutar os outros três temas, pode-se ficar com a sensação de que o sucesso dos Byrds se deveu muito ao talento de escritor de canções de Bob Dylan, que também, no começo, os "apadrinhava". Este tema "I Knew I'd Want You" é a prova disso.Se não tivesse sido a sua versão de Mr. Tambourine Man, teria sido esta canção, da autoria do membro Gene Clark, o "tema de apresentação" dos Byrds, visto que, como já referi antes havia, da parte de diversos elementos da respetiva editora algumas reservas quanto usar o Mr. Tambourine Man, de um certo Bob Dylan, que muitos olhavam "de lado", como o tema escolhido para o lado A do seu primeiro single.
Tendo atingido uma rápida consagração em 1965, então apadrinhados por Bob Dylan e sob os auspícios de um êxito imediato com uma muito bem conseguida versão de um tema da autoria deste, Mr. Tambourine Man, os Byrds estavam lentamente a decair.
The Byrds - "Turn! Turn! Turn!(To Everything There Is A Season)" (1965). Novamente, os Byrds conseguem ser a verdadeira "resposta americana", à invasão britânica, encabeçada pelos Beatles, que os influenciaram, nomeadamente no som das guitarras, mas que eles também influenciariam, como se veio a verificar no seu som a partir de 1965. O tema "If I Needed Someone", composto e interpretado por George Harrison, que aparecia no seu álbum de viragem "Rubber Soul", é um exemplo dessa influência do "som Byrds". A própria guitarra de eleição de Jim McGuinn era uma "Rickenbacker", tal como George Harrison usava.
The Byrds - "Set You Free This Time" (1965). Tema da autoria de Gene Clark, e um dos poucos temas onde ele teve a oportunidade de "brilhar" a solo. Tal foi o reconhecimento da sua qualidade que, contrariamente ao que estava inicialmente combinado, se editou mais um single com esta canção no lado A. A importância de Gene Clark nos Byrds crescia a olhos vistos... Há quem diga que terá sido esta a razão central para a sua saída dos Byrds logo em 1966. Jim McGuinn, que quis, logo desde o começo, fazer dos Byrds a sua banda e, desta forma, o seu veículo de expressão por excelência. Não gostava que outros lhe fizessem "sombra". Para todos os efeitos, ele era "o líder" e queria ser o centro das atenções. Por seu turno, Gene Clark já se afirmava como um escritor de canções a considerar. Terá sido isto que o fará "não ficar perdido" quando saiu dos Byrds, tendo mesmo conquistado um sólido núcleo de apreciadores e uma carreira que só não foi mais bem sucedida devido aos seus excessos pessoais que, logo, não tardariam a se manifestar numa saúde problemática, apesar daquela aparente robustez inicial. Gene Clark envelheceria muito rapidamente e terminaria o seu trajeto muito acidentado, doente e cansado da vida, aos 46 anos, em 1991. Dois anos depois, em 1993, e devido a razões similares, também faleceria o baterista fundador dos Byrds, Michael Clarke, aos 47 anos, profundamente arrependido dos excessos do seu passado, tendo ainda chegado a fazer aparições televisivas com o intuito de advertir os jovens para as consequências de uma "vida desregrada".
O grupo continuava a ser bem sucedido e os seus espetáculos bastante concorridos. Mas, no horizonte, havia nuvens que pareciam anunciar um esvaziamento da fórmula e consequente estagnação, como vinha acontecendo com outros grupos, numa conjuntura em que tudo parecia mudar a uma rapidez estonteante. Esta situação arrastava-se desde a saída de Gene Clark, um dos seus elementos fundadores, no ano de 1966, após dois álbuns consistentes. Quando ele saiu, durante algum tempo, julgava-se que isso seria o começo do fim dos Byrds.
The Byrds - "Eight Miles High" (1966). Na altura, este tema foi considerado o zénite da criação artística dos Byrds. Houve, como aconteceu em outros casos, a suposição de haver substâncias ilícitas a proliferar no seio do grupo, coisa que, claro está, eles negaram peremptoriamente.Jim McGuinnterá dito que a principal fonte de inspiração para este tema, foi "um voo de avião" numa das suas primeiras digressões...Gene Clark saiu do grupo quando este single estava a ser lançado. Houve que dissesse que foi por "medo de voar", o que seria cada vez mais exigido nas previstas futuras digressões dos Byrds. Na verdade, a personalidade de Gene Clark e as suas eventuais "idiossincrasias", estavam a crescer "demasiado" para os Byrds de Jim McGuinn...
Nessa altura, Jim Joseph McGuinn, o cantor principal, decide assumir definitivamente a liderança do grupo, embora esta tenha vindo a ser cada vez mais contestada pelos outros membros. Neste ano de 1966, Jim McGuinn tomando as rédeas da direcção musical do grupo, decide dar um passo ousado tentando criar aquilo que ele designava de “space rock”. As suas intenções pretenderam obter expressão com o lançamento do LP "Fifth Dimension" em meados de 1966.
The Byrds - "5D (Fifth Dimension)" (1966).
The Byrds - "Mr. Spaceman" (1966).
The Byrds - "I Come And Stand At Every Door" (1966). Um forte libelo contra a guerra...
I come and stand at every door But no one hears my silent tread I knock and yet remain unseen For I am dead, for I am dead
I'm only seven although I died In Hiroshima long ago I'm seven now as I was then When children die they do not grow
My hair was scorched by swirling flame My eyes grew dim, my eyes grew blind Death came and turned my bones to dust And that was scattered by the wind
I need no fruit, I need no rice I need no sweets nor even bread I ask for nothing for myself For I am dead, for I am dead
All that I ask is that for peace You fight today, you fight today So that the children of this world May live and grow and laugh and play
Mantendo a sonoridade básica, os temas das suas canções começam a versar a conquista do espaço, a existência de outras galáxias e o futuro da tecnologia, ainda que a criação de muito destas outras “dimensões”, tenham tido por trás o crescente apoio de certas “substâncias”, como por exemplo, os alucinogénios, então muito em uso. Associado a isto, os Byrds aproximam-se, como outros grupos, do psicadelismo e dos encantos orientais, em especial pelos sons indianos.
Foi um período interessante, em que eles produziram uma das suas maiores obras-primas, Younger Than Yesterday, álbum saído no começo de 1967. A produção ficou a cargo de Gary Usher (1938-1990).
The Byrds - "So You Want To Be A Rock 'n' Roll Star" (1966-1967).
The Byrds - "Have You Seen Her Face" (1966-1967).
The Byrds - "C.T.A.-102" (1966-1967). Um dos temas onde as obsessões de McGuinn com "outras dimensões" mais se exprimiu. Neste tema, recorrendo a técnicas de estúdio então inovadoras, os Byrds interpretam uma canção ligeira e descontraída, que depois para surpresa dos ouvintes, acaba abruptamente. Logo de seguida aproxima-se um som estranho, "vindo de outras dimensões", e ouve-se, distorcida e mal captada, uma repetição do tema que se acabou de ouvir, seguida do som de umas vozes de gravação acelerada a dizer frases e palavras desconexas e sem sentido . Supostamente, esta canção dos Byrds, estaria a ser escutada pela tripulação de uma nave extra-terrestre...
The Byrds - "Renaissance Fair" (1966-1967). Canção da autoria de David Crosby. Segundo este, o elemento inspirador para este tema foram umas "feiras" temáticas que se realizavam algures, onde, entre outros aspetos, todos se vestiam de acordo com a época encenada, neste caso a "Renascença". Combinadas, claro está com elementos provenientes das mais distantes paragens da imaginação. "I Think That Maybe I'm Dreaming".
Em termos também instrumentais, é uma canção inovadora no repertório dos Byrds. Chris Hillman executa o baixo elétrico de uma forma diferente do que era habitual - o seu som agora parece ser o de um veículo onde todo o resto da canção é "transportado". Algo como um "walking bass" e que é um dos detalhes mais associados ao álbum dos Byrds "Younger Than Yesterday". A utilização de um oboé, num tema dos Byrds, faz aqui a sua estreia e é um outro elemento de destaque. Aliás, ao fazerem-no, os Byrds revelam estar plenamente a par dos sons que começavam a proliferar na música corrente, nomeadamente uma progressiva aproximação do mundo Rock à Música Clássica, que já vinha ganhando expressão, ainda que de uma forma discreta, pelo menos desde 1965. Tenha-se em conta que este disco ("Younger Than Yesterday") foi gravado ainda em 1966 e que, quando foi lançado, o ano de 1967, que se revelaria da forma que muitos sabem, estava apenas a começar (6 de Janeiro).
The Byrds - "Time Between" (1966-1967). Chris Hillman começava a afirmar-se também como um compositor a não ignorar. A sua vertente preferencial, mais do que Crosby e McGuinn, era sobretudo o Country.
The Byrds - "Everybody's Been Burned" (1966-1967). As composições de David Crosby estavam-se a revelar fundamentais para a evolução do som dos Byrds. Este tipo de composições, levou o repertório dos Byrds para zonas até então inexploradas. Outro tema deste disco ("Younger Than Yesterday") onde David Crosby ia ainda mais longe era o muito sugestivo "Mind Gardens".
The Byrds - "Mind Gardens" (1966-1967). Reparar no efeito da guitarra em "backwards", mais no final da canção.
David Crosby por volta de 1966.
As "viagens" pela imaginação de Crosby, ajudadas ou não por certas substâncias, não colidiam com a busca de "outras dimensões" de Jim J. McGuinn, que se estendiam mesmo ao seu campo pessoal... Este, na sequência de ter entrado em contacto com outras sabedorias, culturas e mesmo religiões, achou por bem fazer uma pequena mudança no seu próprio nome, pelo menos, a nível artístico. Seria aqui que ele passaria a responder pelo nome de "Roger" McGuinn.
The Byrds - "Thoughts And Words" (1966-1967). Uma das primeiras composições de Chris Hillman, onde se começa a revelar uma certa complexidade lírica e instrumental. Por vezes, fica-se com a vaga sensação de haver duas canções numa só. Mais do que uma vez, quando questionado acerca do que é que se estaria a referir neste tema "Toughts And Words", Hillman era muito lacónico e respondia que tudo não seria mais do que isto: "pensamentos e palavras".
The Byrds - "My Back Pages" (alternate version) (1966-1967). Esta é a versão que eu, pessoalmente, prefiro deste tema. É mais uma cover de um original de Bob Dylan. Entre outros aspetos, este tema ficou famoso pela seguinte passagem: "But I was so much older then/I'm younger than that now". Aliás, o título do seminal álbum dos Byrds "Younger Than Yesterday", deriva diretamente dessas geniais palavras. Em termos instrumentais, a versão que aqui se apresenta é, para mim, a mais completa. O efeito "leslie" da guitarra é memorável! Quando estavam a concluir a montagem final deste LP, duas versões do "My Back Pages" se apresentavam num perfeito empate. Qual integraria o alinhamento final? Optou-se por uma com um som mais simples e acústico, que é a que muitos conhecem.
The Byrds - "Old John Robertson" (single version) (1967).Esta é também a minha versão preferida deste tema, gravado e lançado em meados de 1967. Quando estava a escutar este tema, pela primeira vez (nos começos de 1997), comecei por achá-lo um tanto desinteressante e banal. Eis que, quando eu me preparava para suspender a audição do respetivo CD, onde este tema surgia como um, aparentemente, muito secundário "tema bónus", sou surpreendido por uma inesperada sequência instrumental de cordas, do melhor que já tinha ouvido... A partir daqui, quando este sublime momento de paragem foi interrompido pelo retomar da tal balada, inicialmente monótona, eu já estava a olhá-la por um prisma completamente diferente... A partir daqui, tornou-se um dos meus temas preferidos dos Byrds. Aprendi também a reparar mais nos lados B dos singles, normalmente considerados "menos interessantes" do que os lados A. Aliás, do lado A deste single, "Lady Friend", já nem me lembro!
Por outro lado, as relações entre os seus membros deixavam transparecer uma certa conflitualidade, nomeadamente no que respeita à direção artística. Foi na sequência disto que se deu o despedimento de David Crosby, outro elemento-chave dos Byrds, o que deixaria Roger McGuinn cada vez mais isolado na liderança do agora “seu” grupo, em paralelo com a progressiva frustração e subsequente afastamento dos outros elementos.
The Byrds - "Old John Robertson" (LP version) (1967-1968). Esta é a versão deste tema que muitos conhecerão melhor. A ponte instrumental das cordas, que era a "jóia" do tema antes lançado em single, aparece aqui sujeita a um efeito de distorção, denominado "phasing".
The Byrds - "Goin' Back" (1967-1968). Na gravação deste tema, não participaram nem David Crosby, que estava fortemente contra a sua inclusão no LP final, nem o baterista Michael Clarke. A bateria ficou, apesar de tudo, a cargo de um dos bateristas de estúdio mais exímios e, por isso, mais requisitados de então para "session man": Jim Gordon. A sua mestria permitiu encerrar o tema com "chave de ouro" ao executar aquele famoso "drum roll". Segundo se disse, o ex-elemento fundador Gene Clark, havia-se reconciliado, na altura, com os seus antigos colegas de banda e chegou a ponderar muito seriamente regressar aos Byrds. David Crosby é entretanto expulso do grupo, devido a diversas incompatibilidades pessoais e artísticas que já se vinham arrastando há algum tempo, e Gene Clark é acolhido para o substituir. Chegaria a participar em espetáculos ao vivo e em gravações de estúdio destinadas para o, então, futuro álbum "The Notorious Byrd Brothers", com destaque para este tema "Goin' Back". Todavia, ao fim de pouco tempo, logo em 1968, acabou por se abandonar esta ideia e Gene Clark regressaria à sua carreira a solo.
The Byrds - "Wasn't Born To Follow". (1967-1968). Balada falsamente inocente e despretensiosa, onde o ouvinte, a determinada altura é surpreendido por uma repentina e violenta distorção sonora, chamada "phasing", a qual, paradoxalmente, é abandonada e parece ser "esquecida" no final do tema, como se nada tivesse acontecido.
The Byrds - "Artificial Energy" (1967-1968). Este tema foi escolhido para "abrir" o álbum "The Notorious Byrd Brothers", que eles se encontravam a gravar nestes últimos meses de 1967. Por esta altura, o experimentalismo e a criação "sem limites", eram duas "palavras de ordem" fundamentais. O produtor Gary Usher teve aqui um papel fundamental na elaboração dos intricados arranjos sonoros e estava em plena consonância com os membros dos Byrds, com destaque para Roger Mc Guinn. Entre outros detalhes, estes efeitos incluíam uma orquestra de metais com o som fortemente sujeito ao denominado "phasing", partes vocais ondulantes e um piano com o som tratado de forma extrema em termos de distorção. Este tema constitui um brilhante testamento ao amor dos Byrds pela experimentação, então na sua fase cimeira. Mesmo assim, Roger Mc Guinn não deixou de fazer críticas ao resultado final. "Demos cabo da parte vocal!!! Fizemo-lo eletronicamente. Procurávamos um som mais "hard", como nunca tínhamos conseguido até então. Gravámos as partes vocais e depois recorremos a uma engenhoca sonora de um certo gajo que, mediante uma quantia módica, nos permitiu utilizar. Instalado no sistema sonoro do estúdio, este aparelho distorceu as nossas vozes. No entanto, o resultado final foi que estas ficaram com um tom mais à "Pato Donald" do que nós inicialmente desejávamos!" O próprio tema da canção versava à volta dos efeitos provocados por "certas substâncias" e o título "Artificial Energy" resultou de uma sugestão casual do baterista Michael Clarke.
The Byrds - "Moog Raga" (1967-1968). Roger Mc Guinn havia ficado entusiasmado com um, então, inovador instrumento de teclado inventado e lançado no mercado pelo engenheiro Robert Moog, havia poucos anos. Como já referi atrás, por esta altura (1967-1968), os Byrds atravessavam a sua fase mais experimental e criativa. Roger Mc Guinn teve a original ideia de gravar um disco completamente centrado à volta do sintetizador Moog. Neste "Moog Raga" ele pretendia efetuar uma "fusão" entre a música tradicional indiana e a, então, ultramoderna tecnologia dos sintetizadores. O tema permite ter uma ideia do que seria um tal disco, tivesse Roger Mc Guinn seguido avante com o seu "projeto"... Claro que, logo numa primeira audição, se deduziu que um disco inteiro feito de peças desta natureza seria, no mínimo, de difícil adesão por parte do público de então e, logo, muito pouco comercial. Sendo assim, Roger Mc Guinn foi realista e decidiu abandonar este "projeto". Aliás, na minha opinião, este tema "chega e sobra"!...
The Byrds - "Bound To Fall (instrumental)" (1967-1968). Versão experimental de um tema que Chris Hillman acabaria por apresentar a Stephen Stills ("Buffalo Springfield" e "C., S., N., & Y."), para inclusão no seu álbum duplo "Manassas", de 1972.
Foi após o ousado e excêntrico Notorious Byrd Brothers, lançado nos primeiros dias de 1968, e também produzido por Gary Usher, que o grupo se viu num impasse e sem futuro definido, sem falar na saída do baterista Michael Clarke, outro elemento fundador. Reduzido ao magro núcleo Roger McGuinn-Chris Hillman, houve necessidade de encontrar novos elementos. Foi aqui que entrou Gram Parsons.
The Byrds - "Mr. Spaceman" (versão de 1968, já com Gram Parsons presente no alinhamento da banda).Com a banda mais ou menos composta, Roger McGuinn decide enveredar por mais um projeto musical para um novo disco, que pretendia ser uma reunião de vários estilos musicais, incluindo o Country. Era um novo renascimento dos Byrds. No entanto, ao tomar contacto com o background musical de Gram Parsons, Roger McGuinn decidiu reformular totalmente o seu projeto musical. O álbum seria dominado predominantemente pelo Country, ou melhor, por esse género musical que então surgia e que se designou, em definitivo, por “Country-Rock”. Numa fase de exploração de novos géneros musicais, McGuinn empenha-se a fundo em assumir o papel de um dos primeiros divulgadores dessa inovadora corrente musical, ao lado do seu “mentor” Gram Parsons. O próprio nome do álbum era descaradamente Country: Sweetheart Of The Rodeo.
Originalmente, Roger McGuinn pretendeu dar a liderança vocal à sua nova “aquisição” Gram Parsons, tarefa que este cumpriu magistralmente em quase todos os temas da maquete projetada. De facto, Sweetheart Of The Rodeo, foi o disco que verdadeiramente lançou a popularidade de Gram Parsons e onde este teve muitos dos seus melhores temas de toda a sua carreira, precisamente por se encontrar na sua melhor fase, em termos pessoais e criativos. O problema surgiu no final das sessões de gravação quando vêm acima razões contratuais, que impediam Gram Parsons de surgir como o “lead singer” neste disco. Na verdade, Gram Parsons nunca foi verdadeiramente membro dos Byrds, era apenas um músico convidado “assalariado”.
Gram Parsonse Jim Roger McGuinn.
Desta forma, as partes vocais de Gram Parsons de diversas canções tiveram de ser regravadas por Roger McGuinn que, apesar de tudo, conseguiu, discretamente, imitar o estilo vocal e o sotaque sulista daquele. Felizmente, que novas edições recentes em CD, conseguiram recuperar as gravações que, de pleno direito, deveriam estar incluídas no álbum original, apesar de surgirem como "temas bónus". Um exemplo perfeito dessas versões onde a voz de Gram Parsons surge como a mais correta é "You're Still On My Mind".
The Byrds com Gram Parsons - "You're Still On My Mind" (1968) Sublime!!! Estaversão era a que devia ter sido lançada no LP original!
Este disco é o único que documenta a breve passagem e a influência de Gram Parsons nos Byrds e o primeiro verdadeiro de Country-Rocka obter grande popularidade. Representou também um novo fôlego para os Byrds, apesar de se tratar de um caso à parte na discografia deste grupo.
Logo depois do lançamento deste disco, Gram Parsons saiu do grupo, seguido, no espaço de alguns meses, por Chris Hillman, com o qual formaria o grupo country rock “The Flying Burritto Brothers”.
Gram Parsons e Chris Hillman.
The Flying Burritto Brothers com Gram Parsons (em baixo, à esquerda).
Depois desta nova experiência de grupo, Gram Parsons iniciou verdadeiramente uma carreira a solo, intervalada aqui e ali pela sua participação em gravações de estúdio e espetáculos ao vivo com outros grupos. No entanto, o momentum e a espontaneidade que foram conseguidos durante as gravações de Sweetheart Of The Rodeo não mais se repetiriam. Basta referir que, nesta fase, Gram Parsons retomara uma vida pessoal algo errática, cada vez mais plena em doses astronómicas de álcool e drogas duras.
Edição conjunta dos dois únicos LPs a solo de Gram Parsons. O primeiro foi lançado em 1973, ainda em vida. O segundo foi lançado postumamente em 1974, tendo neste participado Linda Ronstadt e, tal como no anterior, Emmylou Harris. O LP de 1974, estava para se titular "Sleepless Nights", título de um tema inicialmente pensado para integrar este álbum, tal como Gram Parsons planeava. A sua morte prematura, levou a que os planos iniciais se alterassem. O tema referido acabou por não integrar o LP final e escolheu-se o seu título baseado numa canção pertencente ao alinhamento definitivo "Return Of The Grievous Angel".
Gram Parsons, pouco antes do seu falecimento, e Keith Richards, à direita, em 1973.
Nesta fase, conviveu, com regularidade, com membros de outros grupos, nomeadamente Keith Richards dos Rolling Stones. Ainda lançaria alguns trabalhos a solo, para além de incessantes digressões, numa espiral cada vez mais perigosa, que terminaria, abruptamente e em condições misteriosas, fala-se em overdose, em Setembro de 1973, quando se encontrava num processo de divórcio algo agitado.
Em suma, basta referir que Gram Parsons e outros artistas como Emmylou Harris, contribuíram para a renovação da country music e por despertar o interesse das gerações mais jovens por um género que, em tempos, parecia algo parado no tempo.
Vitorino - "Sedas Ao Vento" (tema de encerramento do seu álbum obrigatório "Não Há Terra Que Resista/Contraponto" (1979).
A letra desta canção é totalmente incompreensível para o comum dos mortais (incluindo eu, Sérgio Namorado!). A parte da música e da orquestração é belíssima. Faz-me lembrar as músicas da Guerra Civil Espanhola, cujo desencadear em 1936, faz este ano precisamente, 90 anos. Nela Federico Garcia Lorca (1898 - 1936) foi assassinado logo em 1936. Foi uma uma ação infame da parte dos "rebeldes" ordenada pelo falangista franquista, fascista e nazi José António Primo de Rivera (1903 - 1936) como "vingança" contra o verdadeiro florescimento culturalocorrido durante a Segunda República Espanhola (1931 - 1936/1939). e da qual Federico Garcia Lorca (1898 - 1936) era uma figura de proa, pelas inúmeras iniciativas que ele promoveu, nomeadamente nas áreas da poesia, das artes plásticas e do teatro.
Eu (Sérgio Namorado) li algures que este tema tão enigmático era uma homenagem a uma mulher alemã chamada Ulrike Meinof (1934 - 1976).
Vem-me à memória um certo alemão Berndt Andreas Baader (1943 - 1977).
Alguém me poderá dizer mais alguma coisa em relação a esta tão estranha canção?
Nascido em 1938, Tony Jackson era o vocalista e baixista original dos “Searchers”. Esta banda pertencia a toda aquela nova onda musical, que se seguiu ao aparecimento dos Beatles, a que se deu o nome, sobretudo em terras americanas, de “invasão britânica”. Os “Searchers” não eram mais do que um grupo musical, entre muitos outros seus conterrâneos. A maioria não teve, claro está, qualquer êxito de assinalar, muitos não tendo editado mais do que um ou dois singles, mas os “Searchers”, a par de outros como “Gerry and The Pacemakers”, pertenciam àquele núcleo, muito restrito, dos que, numa fase inicial, podiam ser considerados “potenciais rivais” dos Beatles, estes, tal como eles, fundados em Liverpool.
The Searchers - "Learning The Game" (1963). Um tema original do, muito prematuramente, desaparecido Buddy Holly (1936-1959), que também era uma referência de muitos grupos de então, a começar pelos Beatles. Nesta versão, os Searchers estavam a atuar ao vivo no famoso "Star Club" de Hamburgo, tal como outros grupos da sua geração haviam feito. Foi neste local emblemático que, também os Beatles, por volta de 1961/1962, iniciaram, verdadeiramente, a sua carreira.
O seu breve período de glória começaria logo em 1963, com o lançamento, quase em seguida, de dois singles, “Sweets For My Sweet” e “Sugar And Spice”. Em ambos surgia, em grande destaque, a voz de timbre muito forte e sonoro de Tony Jackson. Muito comerciais e ligeiros, seriam logo um êxito estrondoso. Devido ao facto de surgirem como uma banda de sucesso garantido, logo têm a oportunidade, reservada não a muitos, de gravar vários álbuns, entrecortados por novos singles, que confirmavam de novo a aposta que neles havia sido feita.
The Searchers - "Sugar And Spice" (1963). Um filme a promover o tema e um antepassado daquilo que, mais tarde se chamaria "videoclip".
"Where Have All The Flowers Gone?", gravado e lançado, como os outros dois, em 1963. A letra é muito simples, mas atinge mais fundo do que outras muito mais complexas. É um tema, claramente, contra a, afinal, futilidade da guerra. "When will they ever learn?".
The Searchers - "Since You Broke My Heart" (1963). Destaque para o arranjo rítmico do baterista Chris Curtis. Um possível "antepassado" do que hoje se chama "heavy rock"?
The Searchers - "Saints and Searchers" (1963), ou mais uma versão do famoso tema "When The Saints Go Marchin' In". Tony Jackson no seu melhor.
Tony Jackson era visto, por grande parte do público apreciador dos “Searchers”, como a principal figura no grupo. Muitos atribuíam, à sua voz poderosa, a razão do seu sucesso. No entanto, desde logo, começam a surgir sinais de que algo poderia, muito em breve, mudar. Como forma de evitar uma repetição de estilo que, a partir de determinada altura, poderia cansar o público ouvinte e de revelar algum amadurecimento no som da banda, no interior dos álbuns e nos singles seguintes, foram surgindo temas com um som diferente, alguns mais complexos na sua construção.
Na sequência disto, a voz de Tony Jackson começou a surgir com cada vez menos destaque. Salvo alguns temas, começou a dar-se uma crescente primazia à voz de outro elemento do grupo, o guitarrista Mike Pender (em baixo), que se ouvia em harmonia com a voz dos outros, quando não a solo. O som conseguido nos temas onde a voz de Tony Jackson surgia menos destacada era algo mais “suave” e isto pareceu agradar aos produtores que eram quem, afinal, acabava por ter a palavra final na escolha das canções a editar.
De facto, em êxitos posteriores, como “Neddles And Pins” e “Don’t Throw Your Love Away”, a voz de Tony Jackson aparecia mergulhada nas harmonias vocais, como se estivesse a ser relegada para segundo plano.
The Searchers - “Needles And Pins” (1964).
The Searchers - “Don’t Throw Your Love Away” (1964). Chris Curtis, com cada vez mais frequência, assumia-se como um verdadeiro "mestre de cerimónias" nas atuações ao vivo do grupo. Por vezes ficava-se com a vaga sensação de que era ele o elemento central dos "shows"...Reparar na expressão facial deste baterista enquanto ele tocava e fazia os coros... Temos a clara sensação de que ele se estava "a conter"... Ele trazia, decerto, mais qualquer coisa "na manga", como ele, diversas vezes, acabaria por mostrar... Num vídeo, mais adiante neste artigo, proveniente deste mesmo espetáculo, há a confirmação disso...
Isto contribuiu para que o próprio Tony Jackson se sentisse a perder protagonismo no interior dos “Searchers”, o que lhe desagradava de sobremaneira. Isto contribuiu para azedar as suas relações com os outros elementos do grupo, em especial com o baterista Chris Curtis (em baixo), cuja voz surgia muito proeminente nas harmonias vocais. Aliás, segundo a opinião de muitos, este Chris Curtis (nascido Christopher Crummy), era "de facto" o líder original desta banda, apesar de, inicialmente, tal não parecer muito notório, talvez devido precisamente ao facto de ocupar a posição de baterista. Contudo, em diversas atuações do grupo ao vivo, Chris Curtis conseguia surpreender tudo e todos quando saía da habitual posição discreta, normalmente associada aos bateristas, e tornava-se no centro das atenções. Nessas ocasiões, não era raro colocar-se de pé, por trás da sua bateria, e assumir uma posição de liderança e fazer uma interpretação ousada e inesquecível, quase secundarizando os outros membros da banda que tocavam mais à frente.
The Searchers - "Ain't That Just Like Me" (ao vivo no Ed Sullivan Show, nos Estados Unidos) (1964).
"What I'd Say", tema muito conhecido do consagrado e saudoso Ray Charles. "That's my father!", diz Chris Curtis na apresentação do tema, por detrás dos comandos da sua bateria... Era, provavelmente, o tema de encerramento desta sua atuação e a "surpresa" estava reservada para o fim... Uma surpresa apoteótica, para a época! Chris Curtis surpreendeu todos os que assistiam às atuações dos Searchers, nesta e noutras vezes, principalmente porque era "apenas" o baterista. Geralmente, o baterista de uma banda, era considerado um elemento, quase discreto, para não dizer de "bastidores", nas atuações ao vivo das bandas musicais. Houve também outros bateristas, mais famosos do que Chris Curtis, que quebrariam esse mito de "elemento secundário" que geralmente era associado a eles. Um deles foi, sem dúvida, Keith Moon, do grupo The Who. Mesmo Ringo Starr, nos Beatles, conseguia ter os seus momentos de "show" e surgir também como a "feliz surpresa" reservada ao público que assistia aos espetáculos ao vivo. Mas Chris Curtis era um baterista, melhor dizendo, um indivíduo, de outra "água", muito mais especial do que muitos podem julgar... Ele, muitas vezes, parecia muito discreto nas atuações, quer ao vivo, quer na televisão. Mas depois, sobretudo depois de se assistir a demonstrações, como as que se vêem nos dois vídeos atrás, fica-se com a clara sensação de essa descrição ser algo muito bem "calculado". Por outras palavras, Chris Curtis procurava ser discreto, e mesmo "apagado", quando queria mas, sobretudo, quando era "conveniente"... Para depois surpreender todo o Mundo com atuações deste género! Quem via os Searchers pela primeira vez, não notava nada de especial no seu baterista... Todavia, depois de se assistir a estas verdadeiras explosões, onde ele chegava a "roubar" literalmente o espetáculo aos seus colegas de banda, já era impossível não olhar para este baterista a partir de um prisma diferente... Mesmo quando ele era mais discreto, ficava-se com a mesma sensação com que se fica quando se olha para uma fera em repouso ou para um vulcão adormecido... Isto, decerto, estará a acontecer a todos os que lêem este artigo, pela primeira vez. Pode-se dizer que, Chris Curtis era um "falso discreto"...
Este vídeo provinha do mesmo espetáculo ao vivo, de 1964, do qual também aparece outro, mais atrás, neste artigo.
Para além disto, havia diversos temas gravados em que ele era o vocalista principal. Entre estes estavam "Ain't That Just Like Me" e "This Empty Place". Isto parecia também aumentar a tensão que foi crescendo entre Chris Curtis e Tony Jackson. Conta-se que, num momento a que os dois chegaram a altercar, Chris Curtis "cresceu" para Tony Jackson e encostando-lhe o indicador contra o peito, disse-lhe que ele não cantava mais a solo nos Searchers enquanto ele lá estivesse.
The Searchers - "This Empty Place" (da autoria da duplaBurt Bacharach e Hal David) (1964). Chris Curtis no seu melhor.
The Searchers - "Someday We're Gonna Love Again" (1964). Foi o último single que Tony Jackson gravou com este grupo. E não mais voltou para trás...
Devido a estas fricções no interior do grupo, Tony Jackson acabou por sair no Verão de 1964, embora ele tenha, na altura, alegado razões de saúde, sem que isso tenha ficado devidamente clarificado. Nesse momento, o grupo encontrava-se a atravessar uma fase de grande êxito discográfico e no som que se estava a tornar a sua imagem de marca, muito baseado em harmonias vocais, a voz de Tony Jackson não parecia fazer falta.
"What Have They Done To The Rain?", outro tema contra a guerra, ainda que de uma forma mais subtil. A determinada altura, a imagem é centrada num indivíduo que foi assistir a esta performance dos Searchers. Era Brian Epstein, o manager de um grupo ainda mais famoso: os Beatles. A determinada altura, pouco antes do seu prematuro falecimento, em 1967, Brian Epstein confessará que, se pudesse voltar atrás, teria também sido manager dos Searchers. Inclusive, Paul McCartney, dos Beatles, terá tentado "trazê-los" para a "NEMS Enterprises" de Brian Epstein, onde já se encontravam outros grupos da "onda merseybeat". Eles recusaram, porque "não aceitavam ficar em posição secundária em relação aos Beatles". Aliás, chegou-se a dizer que os Searchers eram a única grande banda de Liverpool a não estar sob a alçada de Brian Epstein. Por outro lado, é sabido que, se os Searchers tivessem aceitado a "oferta" de Paul McCartney, seria o seu manager de então, Tito Burns, a impedir tal transição. Por aquela altura, 1964, os Searchers eram a banda favorita dos Beatles.
Quando Tony Jackson abandonou o grupo, muitos se interrogaram sobre o futuro dos “Searchers”, visto que, segundo até então parecia, ele era a principal razão do seu êxito e, aparentemente, o frontman. Para muitos fãs e críticos, Tony Jackson parecia insubstituível. Chegou a haver espetáculos a começarem mal, onde se ouvia grande parte do público a reclamar "We want Tony!!!" e os outros membros do grupo a ficarem algo assustados... Pensava-se que seria o fim anunciado dos “Searchers” e para Tony Jackson, o início de uma carreira promissora.
The Searchers - "The System" (1964). Em 1964, os Searchers são convidados a contribuir com alguns temas para um filme com este título, privilégio só reservado a alguns "escolhidos".
The Searchers - "Goodbye My Love" (1964-1965). O último tema dos Searchers a atingir o "Top Five" na Inglaterra (nº 4 em 1965). Durante 1965, o palmarés desta banda manteve-se sólido e elevado.
Por ironia, o futuro provaria exactamente o contrário. Logo de seguida, encontraram um substituto para o baixo, de nome Frank Allen (em baixo, à direita), com o qual as relações pareciam ser mais fáceis. Segundo alguns, a escolha de Frank Allen, que era conhecido dos "Searchers" já há algum tempo, teve o fundamental contributo de Chris Curtis (à esquerda).
Este novo membro, mais jovem do que os outros "Searchers", vinha de um outro grupo, "Cliff Bennett And The Rebel Rousers", que também teve alguns sucessos em meados dos anos 60. Mais "low-profile", Frank Allen encaixará bem nos "Searchers" e revelar-se-á, pelo menos, segundo os produtores, uma boa escolha. De facto, ao fim de mais de cinco décadas, Frank Allen ocupa ainda um lugar de destaque nos "Searchers" do século XXI. Ao lado do guitarrista John McNally (à direita), é um dos dois elementos mais antigos do grupo.
Coube-lhe a honra de ser a voz principal no tema de abertura do primeiro LP que os Searchers lançaram a seguir à sua chegada ao grupo, o álbum "Sounds Like Searchers", saído no começo de 1965.
The Searchers - "Everybody Come And Clap Your Hands" (1965). A voz principal é do, então, recém-chegado baixista Frank Allen. Mais uma vez, com um genial e inesquecível arranjo rítmico do baterista Chris Curtis e que é um elemento decisivo neste tema.
Após uma breve pausa, Tony Jackson decide constituir o seu novo grupo sob o nome "The Vibrations". Logo nesse ano, 1964, lançam o seu primeiro single, "Bye Bye Baby", que, apesar de ter sido um êxito moderado, parecia augurar uma carreira promissora. Contrariamente ao que muitos previam, os singles lançados posteriormente, não tiveram qualquer êxito de assinalar. Em contrapartida, o seu grupo antigo, "The Searchers", continuava a somar sucessos.
The Vibrations - "You Beat Me To The Punch" (1964).
Por ironia ou não, o seu segundo single "You Beat Me To The Punch", saído em Dezembro de 1964, soava muito ao cruzamento de dois êxitos, desse mesmo ano, do seu antigo grupo "Searchers": o já referido "Needles And Pins" e "When You Walk In The Room", este último também lançado no final desse ano, com muito maior sucesso.
The Searchers - "When You Walk In The Room" (1964). Um tema "clássico" do qual se fizeram incontáveis covers.
The Searchers - "I'll Be Missing You" (1964). O lado B do tema anterior. É menos interessante do que o "When You Walk In The Room", mas não é de menosprezar... A prova de que os lados Bdos singles podem trazer agradáveis surprezas...
O arranjo feito ao tema, da autoria de um outro grande nome, Smokey Robinson, "You Beat Me To The Punch", foi uma sugestão do seu produtor, Larry Page, no sentido de tentar criar uma "leve semelhança" com a sua anterior banda, que não se revelaria, afinal, bem sucedida.
Tony Jackson & The Vibrations - "Fortune Teller" (1965). Mais uma das muitas covers que houve deste tema. Esta versão revela uma clara influência dos "The Kinks" de Ray Davis. O estilo das interpretações deste grupo, parecia mudar quase de tema para tema, numa clara tentativa de conseguir o tal grande hit, que nunca mais chegava.
A determinada altura, já em meados de 1965, tentou dar-se mais relevo a Tony Jackson, talvez com a intenção de este, eventualmente, embarcar numa prometedora carreira a solo. É na sequência disto que se extinguem os "Vibrations" e surge o "Tony Jackson Group", com eventuais mudanças de pessoal pelo meio. Mais uma vez, esta nova chance não resultou e a sua editora não lhe renovaria o contrato.
Tony Jackson Group - "Stage Door" (1965). Tony Jackson em modo "easy listening", estilo Gene Pitney ou "Brill Buildind" (Burt Bacharach & Hal David et al.). O rock parecia ter ficado para segundo plano, mas a experiência não resultaria no êxito pretendido... E voltou-se ao modelo anterior.
Mesmo com as mudanças de editoras e produtores, passando pela mudança de nome do grupo para um lacónico "Tony Jackson Group" e alguns singles lançados sob o seu nome individual, a sorte parecia fugir a Tony Jackson.
Tony Jackson Group - "You're My Number One" (1966). Apesar da promoção, mesmo em programas de rádio, este single foi acolhido com indiferença, tanto pela crítica como pelo público. Por outro lado, nesta altura (Fevereiro de 1966), a rádio e a televisão estavam "inundados" de temas deste género. Não havia qualquer possibilidade de, então, um tema destes se destacar ou fazer a diferença... Mesmo tentando-se colar a estilos de grupos pertencentes à "nova onda", como os Byrds norte-americanos. A guitarra de Ian (Leighton) Buisel consegue, apesar de tudo, "salvar" o tema.
Tony Jackson Group - "Let Me Know" (1966). Lado B do single anterior.
Por diversas vezes, ele teve de engolir o seu orgulho e aceitar alguns convites da sua antiga banda "Searchers", para actuar com eles ao vivo, quando planeavam interpretar temas de quando ele era o vocalista principal. Não raras vezes, as digressões de ambos os grupos coincidiam, muitas vezes para difundir a ideia de que já não existiam eventuais ressentimentos mútuos.
Ainda com contrato na editora CBS, depois de mais um single lançado, desta vez sob o nome de apenas "Tony Jackson", que também não teve êxito, o grupo regressou ao nome de "Tony Jackson Group" e lançou um novo single, muito bem conseguido e que podia ter sido a sua oportunidade de conseguir algo próximo de um êxito discográfico ou, pelo menos, uma receção minimamente positiva da parte da crítica musical. Mais uma vez, o azar voltou a alcançá-los...
Tony Jackson Group - "Follow Me" (1966). Um potencial "hit" que não chegou a ser. Como muitos outros ao longo dos tempos...
Tony Jackson Group - "Walk That Walk" (nalgumas prensagem de discos "Walk, Walk, Walk") (1966). Lado B do tema anterior. Revelador de algum "potencial" que, apesar de tudo, esta banda havia conseguido atingir. Mas de pouco lhes serviria...
Desiludido com a falta de sucesso discográfico e com o panorama da indústria musical anglo-americana, Tony Jackson e o seu grupo, a partir do final de 1966, decidem entrar em digressão por outros países, nomeadamente França e Espanha. Curiosamente, acabarão por vir a Portugal com maior frequência durante esse ano de 1967.
Tony Jackson Group, mais ou menos na altura em que passaram por Portugal. Da esquerda para a direita: Paul Francis, Denis Thompson, Tony Jackson e Ian (Leighton) Buisel.
Diz-se que um dos elementos da sua banda, o guitarrista Ian Buisel, teria ligações familiares por cá. Por exemplo: a actriz portuguesa Júlia Buisel será sua parente. (Li algures que Ian (Leighton) Buisel seria seu meio-irmão, o que significa que este guitarrista seria luso-britânico.) Esta presença em terras lusitanas, acabará por lhes proporcionar a edição de um EP numa editora nacional de então, a "Estúdio". Apesar da qualidade dos temas interpretados, o último trabalho do "Tony Jackson Group", será acolhido pelo público e pela crítica com indiferença. Segundo algumas opiniões, este EP constitui hoje uma verdadeira raridade de muito alto preço.
Tony Jackson Group - "Understanding" (1967). Um tema original dos "Small Faces". Destaque, uma vez mais para a guitarra de Ian Buisel e, acima de tudo, da execução rítmica da bateria de Paul Francis. Em anos mais recentes, este antigo baterista Paul Francis escreveria uma autobiografia intitulada "Drumming up Vibrations", onde dedicou uma grande parte ao seu antigo colega de banda e grande amigo Tony Jackson. Segundo informações, este Paul Francis esteve com Tony Jackson nos seus últimos momentos de vida.
Tony Jackson Group - "Shake" (1967). Um tema original de Sam Cooke e que também teve muitas covers, inclusive de Rod Stewart no começo da sua carreira, em 1966. Este tema será, decerto, a única oportunidade que se tem de escutar a voz do guitarrista Ian Buisel.
Tony Jackson Group - "He Was A Friend Of Mine" (1967). Um tema original de Bob Dylan e favorito de muitos cantores em todo o mundo, a começar por Paul Simon. Segundo se conta, foi a sua interpretação à viola que terá feito um certo Art Garfunkel se decidir a formar um dueto com ele...
Sem mais nenhum sucesso discográfico, nem o vislumbre de um novo contrato por parte de uma editora à vista, Tony Jackson decide extinguir o seu grupo por volta de 1968. A partir daí, iniciará uma vida pautada por diversas actividades, desde apresentador de televisão a vendedor, parecendo ter deixado para trás, definitivamente, a sua carreira de músico. Devido a razões diversas, nunca esteve muito tempo nessas profissões.
Uma breve previsão de regresso ao mundo da música aconteceu por volta de 1985. O antigo colega dos “Searchers” Mike Pender decide sair do seu grupo original, onde se mantinha como líder há muitos anos, e criar a sua própria banda “rival”, com o nome "Mike Pender's Searchers". Mike Pender convida então Tony Jackson a entrar nesse novo projecto musical, ocupando, de novo, o posto de baixista. Pouco depois, Tony Jackson desiste desta ideia, ao verificar que a sua condição era a de apenas “músico assalariado” e não de co-líder, como ele pretendia. Mesmo assim, não houve desta vez mais nenhum corte de relações entre ambos, visto que ambos chegariam a actuar juntos ao vivo, esporádicamente.
Mike Pender's Searchers - "Sweets For My Sweet" e "Needles and Pins". Tony Jackson, que tinha vindo assistir ao espetáculo da banda do seu anterior colega e grande amigo Mike Pender, é convidado para ir ao palco fazer a voz principal nestes dois temas. Nota-se um inicial pouco "à vontade" no antigo "Searcher", mas logo Mike Pender, através da sua guitarra, consegue fazer Tony Jackson ganhar coragem, fazer uma rápida busca à sua memória e regressar aos seus tempos de vocalista de sucesso e com um timbre inconfundível.
Neste período de finais da década de 80 e começo de 90, provavelmente sob o incentivo, oportuno, das reedições digitais em CD do catálogo musical de muitas bandas da década de 60, surge, em paralelo com a música da moda de então, uma onda de revivalismo. Para a satisfação de muitos fãs, bandas e cantores de outros tempos regressam, ainda que temporariamente, à ribalta. É neste contexto que Tony Jackson pondera formar um novo grupo musical, assente, em grande parte, na memória dos seus velhos tempos de cantor de sucesso. Deveria ser um grupo de cariz revivalista, assente, pelo menos numa fase inicial, em espectáculos ao vivo a decorrer no circuito britânico, sem pôr de parte a hipótese de poder ser extensível ao público americano. Muito sintomático, foi a escolha inicial do nome para o seu novo grupo: “Tony Jackson’s Re-Searchers”. No entanto, ele foi antes aconselhado a retomar a memória do seu grupo posterior “The Vibrations”, o que ele acabaria por reconhecer como a hipótese mais sensata, devido ao facto de já existirem os referidos "Mike Pender's Searchers" e os próprios "Searchers", estes com o guitarrista e membro fundador John McNally (em baixo) à frente e Frank Allen no baixo, a percorrerem o mesmo circuito de público pretendido.
De facto, em 1991, Tony Jackson chegou a formar uma espécie de “New Vibrations”, reforçado pela presença de, pelo menos, um elemento da banda original, o baterista Paul Francis. De referir que, segundo alguns dados, o guitarrista Ian (Leighton) Buisel já teria falecido em 1988. No entanto, devido à dificuldade em conquistar um público numericamente convincente, para assistir aos seus espectáculos em agenda, Tony Jackson decide, num curto espaço de tempo, dissolver o seu recém-criado grupo. A partir de então, regressa de novo ao anonimato, só voltando a ser notícia em 1996, desta vez por razões negativas. É detido na sequência de ter ameaçado uma mulher, numa cabine telefónica pública, com uma arma falsa. A vítima só lhe havia pedido para ele a deixar usar o telefone… Apesar de não se tratar de uma arma verdadeira, Tony Jackson ficaria detido por 18 meses.
A verdade é que, já há algum tempo, a vida de Tony Jackson havia entrado numa espiral de queda. As dificuldades económicas, associadas a problemas de saúde, como a diabetes e a artrite, agravadas pelo alcoolismo, haviam tomado conta da sua existência. Depois de 1997, após ser-lhe devolvida a liberdade, as suas dificuldades de vida e os seus problemas de saúde não pararam de se agravar. Nem mesmo o apoio dos seus antigos amigos do tempo dos “Searchers”, como John McNally, já era suficiente para minorar a sua decadência física.
No seu último ano de vida, em 2003, Tony Jackson já apresentava grandes dificuldades de locomoção, a que não seria alheia a sua incurável dependência da bebida. Faleceria na sua casa, quase isolado do mundo, na sequência de mais uma crise cardíaca, em meados de Agosto desse mesmo ano. Tinha apenas 65 anos e estava desiludido com a vida. Um ano depois, em 2004, é editada uma colectânea, abrangendo a sua carreira musical entre 1964 e 1967, que procura fazer alguma justiça ao seu verdadeiro talento.
Tony Jackson Group - "She Wanted Me" (1965 - 2004).
Como é costume acontecer com outras edições longamente aguardadas, esta trazia, entre outros, um tema que, avaliando em retrospetiva, poderia ter sido o hit tão procurado por Tony Jackson e os seus Vibrations, ainda em 1965.O tema foi gravado e chegou à fase da "master", ou seja, como o grupo pretendia que fosse lançado em single. O problema é que, como muitas vezes acontecia, não eram os cantores, nem os membros dos seus grupos quem tinha a "palavra final" quanto ao que iria ser editado ou não. Terá sido, por esta altura, em 1965, que a sua sua editora de então, devido ao facto de os seus singles prévios não terem tido qualquer êxito, não lhes renovou o contrato. Conseguiram contrato noutra editora, mudaram o nome para "Tony Jackson Group", foram alterando o estilo da sua música, mas a sua sorte não mudou. Por alguma razão, o tema "She Wanted Me", ficaria inédito até 2004... Outros casos semelhantes têm sido frequentes...
De referir que, dois anos depois, em Fevereiro de 2005, também faleceu Chris Curtis, outro elemento fundador dos "Searchers", nascido em 26 de Agosto de 1941. Apesar da sua liderança, tendo também contribuído para a escolha dos temas interpretados e mesmo composto alguns, Chris Curtis já havia deixado os "Searchers" em 1966.
Se a saída de Tony Jackson, em 1964, significou uma visível mudança de estilo, a desistência abrupta de Chris Curtis foi bastante inoportuna, principalmente num momento em que a qualidade das suas composições, em parceria com o resto da banda, atingira um nível de qualidade e maturidade que parecia anunciar um futuro interessante. Basta fazer uma audição do interessante LP "Take Me For What I'm Worth", lançado no final de 1965, onde surgem vários temas creditados aos quatro elementos que, então, integravam o grupo.
The Searchers - "Too Many Miles" (1965). Uma pequena obra-prima, que poderia emparceirar junto de outras canções, como "Yesterday" dos Beatles, também lançada neste ano de 1965?
The Searchers - "Don't You Know Why" (1965).
The Searchers - "Take Me For What I'm Worth" (1965). Traduzido para português, quer dizer "aceita-me tal como sou". Mike Pender faz a voz principal.
Esses temas estão entre o que de melhor se produziu nesse ano.
Segundo algumas opiniões, a razão principal dos Searchers não terem tido um êxito maior nem mais duradouro, residiu no facto de o essencial do seu repertório, ao contrário de outros grupos como os Beatles e os U2, ser constituído por temas de autoria alheia. Se se contabilizar, 90% dos temas que eles interpretaram, ainda no auge do seu sucesso, eram tanto covers de temas mais ou menos famosos, como temas escritos por outros compositores, ainda que escolhidos de uma forma, incontestavelmente, muito criteriosa. Muitos atribuem, precisamente, ao baterista Chris Curtis esse critério de escolha particularmente certeiro.
Desta forma, pode ser incontestável afirmar que o baterista Chris Curtis era uma peça fundamental nos Searchers, talvez ainda maior do que havia sido a de Tony Jackson. Os raros temas da sua autoria ou em parceria com outro elemento do grupo, em especial com o guitarrista e vocalista Mike Pender, eram reveladores de um talento, afinal, muito sub-aproveitado.
Um desses fantásticos temas era o "He's Got No Love", também lançado nesse ano de 1965. Um tema muito "à 1965" e onde aquilo a que se pode chamar "som dos Searchers" melhor se afirmou.
The Searchers - "He's Got No Love" (1965).
Bastou uma sequência de maus momentos numa digressão à Austrália, que correu particularmente mal, para fazer Chris Curtis ficar determinado a abandonar os Searchers. Nada nem ninguém conseguiu fazê-lo mudar de ideias. A partir daqui, nada mais foi como dantes...
Logo depois da saída de Chris Curtis, gravariam uma versão bem conseguida de um tema dos Rolling Stones, "Take It Or Leave It", que seria um êxito, ainda que menor do que os da sua fase anterior. Todavia, foi por esta altura que se iniciou a sua fase descendente e a consequente perda de notoriedade. Apesar de tudo, mantiveram, sobretudo no seu país de origem, uma base sólida de fans, como prova o facto de terem durado mais de meio século, pela mão de dois dos seus elementos mais antigos, o baixista e vocalista Frank Allen e o fundador e guitarrista John McNally.
The Searchers - "Take It Or Leave It" (1966). Um tema composto por Mick Jagger e Keith Richards.
Já em 1967, os Searchers tentaram, como muitas vezes, um regresso aos êxitos com, entre outros temas, uma fantástica versão de "Western Union".
The Searchers - "Western Union" (1967). Na foto da capa do single, de pé, no meio, John Blunt o baterista que foi ocupar o lugar deixado por Chris Curtis.Este fará críticas muito severas e depreciativas à prestação deste, então, jovem baterista.
Não obstante a qualidade de diversos temas, os Searchers, já nesse ano tão produtivo em matéria artística, não só musical, que foi 1967, faziam parte dos que haviam ficado "para trás", como aconteceria com outros cantores e grupos da sua geração. Aliás, a maior parte dos artistas que haviam representado, ainda poucos anos antes, a chamada "invasão britânica", incluindo "Gerry and The Pacemakers", "Freddie and The Dreamers", "Peter & Gordon", "Dave Clark Five", "Swinging Blue Jeans" e "Billy J. Kramer & The Dakotas", haviam sido, literalmente, "esmagados" pelas novas "ondas". Os grupos norte-americanos, entretanto surgidos, como os "Doors" e os "Jefferson Airplane", haviam passado a ganhar uma incontestável maior notoriedade. "Evolui ou morres!", já diz a famosa máxima...
Chris Curtis - "Aggravation" (1966). Aquando da estreia deste tema na rádio, Chris Curtis foi convidado para uma curta entrevista de apresentação. "Don't you give me any (aggravation)!!!", terá dito ele ao entrevistador...
Tal como Tony Jackson, Chris Curtis tentará, sem sucesso, uma carreira a solo (com o single "Aggravation", lançado em Junho de 1966) o qual, apesar da promoção que chegou a ter, foi quase ignorado, tanto pelo público como pela crítica musical de então.
Por essa altura, Chris Curtis conviverá com muitos dos artistas e grupos de então, incluindo os Beatles, em mais uma tentativa de regressar à ribalta. Por volta de 1967/1968, manteve uma proximidade com músicos como o guitarrista Richie Blackmore e o teclista Jon Lord. Em conjunto com estes, Chris Curtis ter-se-á empenhado na constituição de um novo grupo musical. Um nome para essa nova banda chegou a ser sugerido: "Roundabout". Jon Lord e Chris Curtis terão mesmo chegado a partilhar um apartamento, até aquele ter chegado à conclusão de se ter tornado impossível viver com este debaixo do mesmo teto. Numa ocasião, Jon Lord esteve uns dias fora e, quando voltou, não queria acreditar no estado de autêntica inabitabilidade em que o apartamento se encontrava. Chris Curtis havia tido a ideia peregrina de cobrir tudo, inclusive as lâmpadas e a sanita, com papel prateado. Talvez tivesse ficado algo impressionado e entusiasmado com qualquer coisa que ouvira acerca da "Factory" do artista norte-americano Andy Wahrol... Não teria sido mais do que uma manifestação das suas muito particulares "idiossincrasias". E o projeto dos "Roundabout" cairia por terra.
George Harrison, dos Beatles, chegou a alcunhá-lo de "Mad Henry". Vá se lá saber porquê...
No entanto, a ideia de constituir uma nova banda manteve-se no ar. Seria, a partir desta ideia, que surgiriam os consagrados e incontornáveis "Deep Purple". Pode-se dizer que, de uma forma indireta, Chris Curtis contribuiu para fundar os "Deep Purple". Todavia, quando estes se constituem, Chris Curtis já tinha desaparecido do mapa musical.
Profundamente desiludido com o panorama artístico e social de então, Chris Curtis tornar-se-ia um vulgar funcionário público, tendo depois se mantido no anonimato e afastado do mundo da música durante mais de 20 anos. Durante este tempo, fugiria de todo esse seu passado artístico "como o Diabo da Cruz". O "Chris Curtis músico e baterista" como que havia deixado de existir. Quando solicitado por estudiosos da música dos anos 60, recusaria terminantemente qualquer entrevista, afirmando que, definitivamente, não queria falar nos Searchers, nem em qualquer assunto que tivesse relação com isso, mesmo no simples tema da música. Contudo, passaria a ter uma atitude completamente inversa em anos mais recentes, surgindo com uma generosidade inaudita e não tendo, aparentemente, qualquer problema em falar no seu passado de membro de um dos grupos mais importantes da história da música do século XX.
Também sofrerá de problemas de saúde incapacitantes que o levarão a uma reforma prematura. Mesmo assim, Chris Curtis tentará, nos seus últimos anos de vida, um tímido regresso à música, através de breves reencontros e actuações ocasionais com outros músicos britânicos da sua geração, de preferência residentes em Liverpool, cidade onde ele havia passado a residir e com um grande historial de bandas durante a década de 1960, com destaque, claro está, para os Beatles, sem esquecer os "Searchers". Um destes grupos revivalistas é conhecido pelo nome de "Merseycats".
Chris Curtis c.a. 2003.
Chris Curtis c.a. 2003.
Christopher Vincent Crummey "Curtis" (1941-2005).
The Searchers - "Can't Help Forgiving You" (1964). Literalmente...
The Searchers - "The System" (1964). Neste tema fala-se no "sistema" ou comportamento suficiente para se condenar e acabar de vez com uma relação amorosa inicialmente promissora... "I'm telling you how (Oh yeah!!!)/I'm telling you why (Oh yeah!!!)/I'm telling you when (Right now!!!)/Get on to the system/It's crazy, it's cruel"; "Come on with the sweet talk/Be moody and mean (...) And when it's the end of the line/That it's goodbye"/"So wait for the moment/There will be time to pay" (...) And when it's the end of the line/YOU'RE ALL ALONE!!!"