sexta-feira, janeiro 23, 2009

Dresden - Um mero erro estratégico?

Desde há séculos que Dresden é referida como a “Florença do Elba”. Não é uma comparação vã, se bem que, na actualidade, esta se confine mais à memória do que à realidade. Florença é o que é pela sua riqueza arquitectónica, que se mantém há séculos. A cidade de Dresden, contrariamente, vive desde à anos em busca do seu passado tentando aqui e ali recuperar o pouco que ainda é possível. Esse passado ficou irremediavelmente perdido algures em 1945. Mais concretamente na noite de 13 para 14 de Fevereiro de 1945. Nessa altura estava-se a alguns meses do fim da 2ª Guerra Mundial e a derrota da Alemanha era mais do que evidente. No entanto, o regime nazi, então vigente, instituiu como regra o fuzilamento sumário de quem quer que pretendesse sugerir a rendição aos aliados que já tinham entrado em solo germânico. Berlim era agora o ponto que importava conquistar para a deposição do governo de Hitler. No entanto, as suas ordens estendiam-se ainda pelo resto do território da Alemanha não conquistada. A ordem principal era resistir até ao último homem.
Tinham decorrido quase cinco anos e meio desde o início das hostilidades e a Alemanha, que havia dado o tiro inicial, estava agora a sofrer as consequências. Grande parte das cidades estavam reduzidas a escombros. Não só as mais importantes, que se previa serem alvos óbvios nos primeiros tempos da guerra (Hamburgo, Nuremberga, Essen, Münster, Colónia e Düsseldorf, entre outras), como também uma série de povoações menos conhecidas, e, por vezes, de pouca importância estratégica (Darmstadt, Saarbrücken, Magdeburg, Heilbronn, Remscheid, Lübeck e Koblenz, entre outras). Desta forma, a situação de Dresden podia parecer irónica. Era a quarta maior cidade da Alemanha e não havia sofrido nenhum bombardeamento. A razão desta situação especial, devia-se ao facto de ser já então considerada de valor patrimonial incalculável. Tinha sido, inclusivamente, estabelecido no início do conflito um acordo entre a Grã-Bretanha e a Alemanha de que esta cidade não seria alvo de nenhum bombardeamento caso Oxford também o não fosse. Hoje em dia, o património desta cidade universitária inglesa pode ser apreciado em toda a sua plenitude. O de Dresden que fazia dela a “Florença do Elba” não. Tratou-se apesar de tudo de um acordo feito no começo da guerra e os anos que se seguiram com toda a sua sucessão de acontecimentos, bem como a descoberta do verdadeiro modo de actuar do exército alemão nos territórios ocupados e, sem dúvida, a descoberta dos campos de concentração, contribuíram para tornar duvidoso qualquer acordo “de cavalheiros” que fosse feito com a Alemanha.
Por outro lado, desde 1943 que a única resposta que os aliados pretendiam da parte do inimigo era a “rendição incondicional”. Desta forma, tudo o que pudesse contribuir para a derrota da Alemanha nazi era justificável. Uma das formas era o bombardeamento sistemático das suas cidades. Aliás, havia a forte crença da parte do mais alto membro do Comando de Bombardeiros britânico Sir Arthur Harris, de que a guerra podia ser ganha desta forma. No entanto, ao bombardearem-se zonas residenciais, estava-se a provocar vítimas civis, o que, sem dúvida, é eticamente inaceitável. A justificação para esta atitude da parte dos aliados, durante o tempo de guerra, era o facto de terem sido os bombardeiros alemães a iniciar esta situação, o que era verdade. De facto, tal como diversas vezes foi dito durante o conflito, eram “eles ou nós”.
No entanto, muitos são unânimes em afirmar que o bombardeamento de Dresden foi injustificado. De facto, a Alemanha estava já derrotada e o seu povo farto da guerra, apesar dos seus governantes desumanos quererem resistir “até ao ultimo homem”. Pode-se afirmar que foram Hitler e os seus acólitos, ainda que indirectamente, os principais responsáveis pelo sofrimento infligido ao povo alemão no último ano e meio de guerra.
A cidade de Dresden não tinha qualquer importância estratégica e estava sem defesas antiaéreas operacionais, que tinham sido canalizadas para outras zonas, para além de nela se encontrarem meio milhão de refugiados. Dado que a cidade não tinha sido bombardeada, havia essa sensação de “porto seguro” da parte das pessoas que chegavam em vagas sucessivas. Dizia-se, inclusive, que estaria lá a residir uma familiar de algum alto dirigente britânico. Pura fantasia afinal.
A ideia que agora corria por entre as forças aliadas era a de que o exército alemão estaria a passar por Dresden para se abastecer e aí estabelecer uma nova plataforma de ataque. Provou-se, tardiamente, que não era bem assim... Foi baseado nesta crença que se ordenou um ataque aéreo cerrado sobre a capital da Saxónia. Devido ao facto de as comunicações, bem como os sistemas de radar e defesa antiaérea se encontrarem ou destruídos ou sob o efeito de interferências deliberadamente provocadas, quem se encontrava em Dresden não fora prevenido relativamente ao que estava para acontecer. Desta forma, foi com surpresa que na noite de 13 para 14 de Fevereiro de 1945, os seus habitantes e refugiados souberam que uma importante formação de bombardeiros se aproximava a grande velocidade. Inclusive, festejava-se o Carnaval e estava a decorrer na cidade um espectáculo de circo... Muitos só se deram conta do que acontecia quando começaram a cair as primeiras bombas. As sirenes de alarme começaram só então a soar. Quase não houve tempo para procurar abrigo. As cenas que se seguiram foram indescritíveis. Os aviões puderam bombardear sem obter qualquer resistência de baixo, o que nunca antes acontecera, o que levou a que, na época fosse considerado um “bombardeamento perfeito”. A maior parte da carga mortífera lançada consistia em bombas incendiárias de fósforo e tal foi a sua concentração, que se gerou um fenómeno medonho conhecido como “tempestade de fogo”. Não no sentido metafórico do termo! Muitos membros das tripulações dos aviões que sobrevoavam a cidade afirmaram que, devido à intensidade dos incêndios por baixo deles, havia luz suficiente para ler, quase "como se fosse de dia". Da parte dos britânicos, houve dois bombardeamentos nocturnos no espaço de algumas horas, tendo, no segundo, ficado destruído o que, inicialmente se pensava ter ficado a salvo.
Houve ainda, na manhã seguinte, um bombardeamento adicional, com a cidade já em chamas, da parte dos americanos, que tiveram visibilidade muito reduzida sobre o "alvo" devido à grande quantidade de fumo que atingia uma grande altitude. O resultado foi um nível de destruição provocado num tão curto espaço de tempo, que só seria ultrapassado pela explosão das bombas atómicas em Hiroxima e Nagasaqui, meses depois. Os incêndios duraram 7 dias (!). 80% da cidade ficou irreconhecível. Um campo imenso de ruínas até perder de vista... O número de mortos foi então inédito: entre 50 mil a 135 mil, a maior parte mulheres, crianças e idosos. Hoje em dia há ainda quem se refira a este bombardeamento como um verdadeiro "crime de guerra" e considere Sir Arthur Harris como não merecedor das homenagens que lhe foram feitas quer em vida, quer póstumamente. Aliás, no final da guerra, contráriamente ao que muitos então esperavam, o Comando de Bombardeiros não recebeu qualquer condecoração de assinalar, ao contrário das outras forças militares aliadas, facto que ainda hoje gera polémica.