sexta-feira, outubro 16, 2020

Beatles: a sua melhor canção que eles nunca gravaram


A seguir ao Verão de 1966, os Beatles decidem abandonar as suas atuações ao vivo e concentrar-se no trabalho de estúdio. Uma das razões para esta decisão tão abrupta e inesperada, que deixaria muitos dos seus fãs temporariamente desesperados, foi precisamente as condições em que decorriam os seus espetáculos. A histeria do público, perante a simples presença dos seus ídolos, provocava um ruído ensurdecedor que se estendia ao palco onde eles tocavam, para não falar nos comportamentos desvairados de alguns fãs menos contidos a implicarem medidas de segurança adicionais. Os próprios Beatles afirmavam que, por vezes, já nem se conseguiam ouvir uns aos outros, o que, segundo eles, não beneficiava a qualidade da interpretação das suas músicas e não lhes permitia melhorar nem evoluir enquanto músicos. Por outro lado, era certo que, se em palco o ruído já afetava a sua audição mútua, o público provavelmente já quase não escutaria as suas músicas. Eles atuavam ao vivo para serem ouvidos e a noção de que isso já quase era improvável, aumentava-lhes ainda mais a frustração. Ou seja, atuar ao vivo acabaria por não ser mais do que uma perda de tempo. Por outro lado, as digressões eram extenuantes e, decerto, havia um grande cansaço acumulado. Cada vez mais estavam convencidos de que o trabalho de estúdio era realmente mais produtivo. Decerto que também pesaria nessa decisão, o facto de a música, nesses meados dos anos 1960 estar a evoluir a uma velocidade vertiginosa. Eram eles que estavam na dianteira dessa transformação, mas também havia todo um mundo de grupos musicais, sobretudo no panorama dominante da música anglo-americana, que iam contribuindo com as suas pequenas partes para esse ambiente de mudança. Os Beatles influenciavam, mas também eram influenciados pelos seus pares, sentindo a necessidade de não perderem a direção desses ventos de mudança fecundos. O seu manager Brian Epstein não terá ficado particularmente satisfeito com esta decisão irrevogável de deixarem de atuar ao vivo. Todavia, ainda que a contragosto, não deixaria de os acompanhar nas suas novas estratégias. Pelo contrário, o produtor George Martin, considerou muito positiva este assumido investimento na qualidade das canções a gravar que os músicos dos Beatles empreendiam, a partir de então. Isto, desde logo, demarcava-os da generalidade de muitos dos outros grupos musicais que então proliferavam. Aliás, foi precisamente a partir do final de 1966, que se consolidou verdadeiramente a parceria Beatles - George Martin, ao ponto de este último poder ser considerado como um membro permanente do grupo: quase um "quinto Beatle".

É nesta nova fase, que os Beatles começam a delinear as bases para a sua evolução musical futura, que daria frutos logo no ano seguinte de 1967. Sem nos estendermos muito sobre a estonteante "revolução cultural" que foi esse ano, ainda hoje enigmático, de 1967, basta referir que a profusão de novos grupos musicais, muitos deles de curta duração, foi verdadeiramente inédita, bem como a multiplicidade de caminhos que se abriam para a própria música. Se os Beatles já eram um grupo de grande sucesso, em 1967 eles veriam o seu sucesso a se estender à escala quase planetária. Verdadeiramente sintomático do estatuto que eles haviam alcançado, foi a transmissão televisiva de caráter mundial, no Verão desse ano, do seu "All You Need Is Love". Haviam-se convertido numa verdadeira "instituição musical". O álbum "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band", teve aqui um papel fulcral. A sua música começaria a ser escutada e devidamente apreciada por outros públicos e gerações.

Na esteira desta sua verdadeira consagração enquanto grupo musical, juntamente com os dividendos financeiros e mediáticos, que daí advieram, os Beatles quiseram ser mais ambiciosos. Foi, a partir daqui que eles começaram a delinear as bases da sua editora discográfica, que viria a ser conhecida por "Apple". A sua intenção inicial era ajudar músicos e grupos musicais que não haviam conseguido contrato com as grandes editoras. Estavam conscientes de que poderiam descobrir, naquela realidade já então muito competitiva, possíveis talentos a quem valeria a pena dar uma oportunidade de saborear um pouco da aura de sucesso incontestado que envolvia os Beatles

Um destes cantores, foi Jackie Lomax. Tinha feito parte de um grupo chamado "The Undertakers", que havia tentado singrar, com sucesso mínimo, no panorama da fervilhante música britânica, tendo inclusive tentado a sorte, de 1965 a 1967, nos Estados Unidos. Dissolvidos os "The Undertakers" e, graças a conexões com a empresa de Brian Epstein, Lomax regressa à Inglaterra em 1967 e entra em contacto com os Beatles. Como já foi dito atrás, estes estavam então a construir a Apple Records e buscavam novos talentos, incluindo no que respeita à composição.


 "Sour Milk Sea".

Inicialmente, era uma balada e chegou a ser considerada a sua inclusão no duplo "White Album", cujas gravações decorreram entre Maio e Outubro de 1968. Excluída esta hipótese, a canção é sujeita a arranjos adicionais e é escolhida como o tema de lançamento de Jackie Lomax, artista então recém-chegado à Apple Records. A canção era da autoria de George Harrison, que também produziu a sua gravação. 
Na sua gravação participaram os Beatles, à excepção de John Lennon. George Harrison tocava guitarra acústica e guitarra-ritmo, Paul McCartney acompanhava no baixo e a Ringo Starr coube a bateria.
No piano, participou Nicky Hopkins (1944-1994), um dos melhores teclistas ingleses de sempre. A sua presença enquanto músico de estúdio, fora muito requisitada, em especial durante a segunda metade dos anos 60 e a primeira dos anos 70. Tendo participado em diversos temas dos Rolling Stones (o piano de "She's A Rainbow" é tocado por ele), Donovan (com destaque para os anos 1968 e 1969) e nos primeiros discos a solo de John Lennon, para além de muitos outros. 
Na guitarra solo, encontrava-se Eric Clapton, que executaria aqui uma das suas melhores performances.
Quanto ao órgão eletrónico, não existem referências acerca de quem este ficou a cargo (terá sido também Nicky Hopkins?).



Logo de seguida, é planeado o lançamento de um LP de Jackie Lomax, que seria entitulado "Is This What You Want?". Este disco continha o famoso síngle, gravado em Inglaterra e lançado no Outono de 1968. As outras canções do álbum, são gravadas nos Estados Unidos, recorrendo a músicos de estúdio, com destaque para o agrupamento variável "The Wrecking Crew", um conjunto informal de "session musicians" onde, entre outros, ponteava o veterano e consagrado baterista Hal Blaine, o seu "protegido" e também baterista Jim Gordon, o guitarrista (mas mais conhecido como cantor de música "Country") Glen Campbell, o baixista Joe Osborn, a também baixista e guitarrista Carol Kaye e os teclistas Leon Russell e Mac Rabennack (este último ficaria conhecido sob o nome artístico de Dr. John).

O disco, apesar de bem recebido pela crítica, não tem o sucesso esperado, aquando do seu lançamento no começo de 1969.

A carreira de Jackie Lomax, após a sua saída da Apple em 1970, na sequência da separação dos Beatles, não teve grande sucesso e também não foi livre de problemas de natureza diversa. Pouco depois, formou um grupo denominado "Heavy Jelly", que não teria uma existência muito pacífica e se dissolveu em meados da década de 1970, após diversas mudanças de formação, que haviam comprometido a sua estabilidade. Um número apreciável de gravações, que haviam ficado inéditas durante décadas, foram recentemente lançadas em disco, algumas já postumamente.

Esteve longos períodos sem gravar, tendo participado, aqui e ali, como músico de estúdio.

O cantor Jackie Lomax faleceria em 2013, aos 69 anos de idade.

sexta-feira, agosto 28, 2020

Monty Python e Mr. Bean no seu melhor

 Inesquecíveis!!!

"The Galaxy Song" (1983).

"The Penis Song" (1983).

"Every Sperm Is Sacred" (1983).

"Mr. Bean being arrested" (1997).

"Mr. Bean at the kitchen with the turkey" (1997).

"Mr. Bean and the painting disaster with 'Whistler's Mother'" (1997).

"Mr. Bean and the mission to save the painting presentation scheduled for the next day" (1997).

"Mr. Bean speech about the painting "Whistlers Mother" in front of the buyer played by Burt Reynolds" (1997).

"Mr. Bean's operation as a doctor" (1997).

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Revista MOJO e os Small Faces: Uma seleção fantástica

Este número da revista MOJO saído em 2014, mesmo para quem não tenha o hábito de comprar revistas desta natureza, é ESSENCIAL. O CD que acompanha este número constitui uma das mais perfeitas coletâneas que esta revista já lançou em exclusivo.



Small Faces - "Here Come The Nice" (1967). Destaque para o vocalista e guitarrista Steve Marriott (1947-1991).

Noutra postagem, centrada em Rod Stewart e nos Small Faces, faço referência a uma editora que, durante algum tempo, os acolheu: a "Immediate Records". De seguida, alguns exemplos de outros artistas que fizeram parte do repertório dessa editora, agora quase mítica, mas cuja história não acabou da melhor maneira. Todos estão incluídos na coletânea acima referida.

Billy Nichols (com acompanhamento instrumental dos Small Faces) - "Come Again" (1968).

Billy Nichols (com acompanhamento instrumental dos Small Faces) - "Feeling Easy" (1968).

Billy Nichols - "London Social Degree" (1968).

Billy Nichols (com acompanhamento instrumental dos Small Faces) - "Girl From New York City" (1968).

Twice As Much - Sitting On A Fence (1966). Tema da autoria de Mick Jagger e Keith Richards (ou seja, os Rolling Stones). Acompanhamento à viola de Jimmy Page, um músico de estúdio, então, muito requisitado. Depois, este integraria o grupo Yardbirds, como 3º guitarrista solo (a seguir a Eric Clapton e Jeff Beck), antes de formar os Led Zeppelin com Robert Plant (voz e percussão), John Paul Jones (vários instrumentos, sobretudo baixo e teclados) e John Bonham (bateria e percussão). O resto é História... Não é este, de facto, o tema que aparece na seleção da MOJO, mas é o meu tema de eleição destes Twice As Much.

Twice As Much - Step Out Of Line (1966). Seguido deste!

The Fleur De Lys (com acompanhamento na guitarra "lead" de Jimmy Page) - Circles (1966). Versão muito melhor do que a original dos The Who (Roger Daltrey (voz), Pete Townsend (guitarras e outros instrumentos), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria e percussão).

Les Fleur de Lys (com acompanhamento na guitarra-ritmo de Jimmy Page) - Moondreams (1965). Um ano antes, pareciam um grupo completamente diferente...  O nome era algo original, mas não se revelou suficiente em matéria de sucesso de vendas. Ao mudarem o artigo de "les" para "the", assumiram-se, em definitivo como um grupo "mod", mas isso não lhes aumentou muito mais o seu sucesso...

Chris Farlowe - "My Way Of Giving" (1967). Tema originalmente composto e interpretado por Steve Marriott e Ronnie Lane, dois elementos dos Small Faces. A voz de Chris Farlowe tem sido comparada à de Tom Jones. Ambos nasceram no mesmo ano (1940), mas há quem considere Chris Farlowe o mais genuíno dos dois. Talvez pela sua postura um tanto avessa ao demasiado óbvio e muito comercial. Integraria, entre outros, o grupo Colosseum. Há quem o considere um "cavaleiro solitário".

Nicky Scott - "Backstreet Girl" (1967). Tema composto e interpretado originalmente pelos Rolling Stones.

Humble Pie - "Wrist Job" (1969). Quando Steve Marriott saiu, abruptamente, dos Small Faces, em 1969, formou este grupo, que também incluía Peter Frampton, na sua formação inicial.

Duncan Browne - "On The Bombsite" (1968).

Amen Corner - "Hello Suzie" (1969). O grupo que lançaria o cantor Andy Fairweather Low. Os Amen Corner, também chegaram a ser conhecidos por "The Real Magnificent Seven" (algo como "Os Verdadeiros Sete Magníficos").

Rod Stewart - "So Much To Say" (1968). O lado B do single "Little Misunderstood", o único que Rod Stewart lançou através da "Immediate Records".

Murray Head - "She Was Perfection" (1967). Em 1969, este Murray Head seria a voz principal no tema "Superstar", que seria o "tiro de partida" para o lançamento do musical "Jesus Christ Superstar", da autoria do compositor britânico Andrew Lloyd Webber.

Murray Head - "Superstar" (1969). Eis o tal tema, do musical "Jesus Christ Superstar", da autoria do compositor britânico Andrew Lloyd Webber, a que ele seria, definitivamente, mais associado.

Tales Of Justine - "Monday Morning" (1967).

The Nice - "The Thoughts Of Emerlist Davjack" (1967). Um dos primeiros êxitos da banda que, finalmente, daria a fama a Keith Emerson, teclista de referência que, em 1970, fundará o grupo de música "progressive" Emerson, Lake & Palmer (ELP). Segundo consta, o seu nome "The Nice", derivou de um dos êxitos dos Small Faces, "Here Come The Nice", seus "colegas", então, de editora.

Nico - "I'm Not Sayin'" (1965). O single de estreia de Nico (1938-1988), alemã nascida em Colónia, ex-manequim, artista multifacetada e, de certa forma, outsider, que durante pouco mais ou menos 2 anos (entre 1965 e 1967), integrará os Velvet Underground, cuja participação ficaria documentada no icónico álbum com a capa de Andy Warhol, "The Velvet Underground & Nico", editado em 1967, quando ela já não estava no grupo. Depois de sair dos Velvet Underground, logo em 1967, Nico iniciaria a sua carreira a solo com um disco produzido pelo seu antigo "colega" John Cale, o importante "Chelsea Girl". 
De referir que, no ano seguinte, John Cale também se afastaria dos Velvet Underground devido a divergências com Lou Reed. Há quem diga que a saída dele representou o lento iniciar de uma rampa descendente até à sua dissolução que foi, de facto, em 1970, após o lançamento do álbum "Loaded" e a saída de Lou Reed, seguida pela de Sterling Morrison. É verdade que existem registos acerca da existência dos Velvet Underground depois de 1970, mas é preciso ter bem presente que essa entidade que respondia pelo nome também de "Velvet Undeground", não tinha nada a ver com o grupo original. Houve quem falasse em usurpação de nome. De facto, esses "Velvet Underground" pós-1970, tinham uma formação completamente diferente da original. É verdade que Maureen Tucker, a baterista e o único elemento fundador então restante, ainda ficará mais algum tempo no grupo, mas sairá pouco depois, ficando o grupo entregue à direção de um certo Doug Yule, baixista e cantor que, em 1968, fora substituir John Cale. A formação que, durante aproximadamente um ano e meio, constituiria esses "Velvet Underground" de fachada, estava longe de ser sólida e os dados não são muito precisos. Segundo o que foi possível apurar, para além de Doug Yule, a banda integrava Walter Powers, William "LocoAlexander, dois antigos membros de uma banda chamada "The Lost", e, na bateria, Bill Yule, este último irmão do novo líder. Todavia, quando se iniciaram as gravações de um LP, intitulado "Squeeze", lançado em 1971, já só Doug Yule integrava estes falsos "Velvet Underground". Este último álbum, desta forma, seria sobretudo um esforço a solo de Doug Yule. Não se conhecem os músicos de estúdio que o acompanhavam neste LP, considerado uma adulteração do "bom nome" dos Velvet Underground e estará aqui a razão de se ter esperado longas décadas até ser reeditado, numa versão "económica", em CD. Os verdadeiros fãs dos Velvet Underground, sempre rejeitaram veementemente este "Squeeze". Aliás, Doug Yule é considerado uma espécie de "mau da fita" e mesmo "usurpador" e "oportunista", na história dos Velvet Underground...
Quando a Nico, a seguir ao álbum "Chelsea Girl", considerado, por muitos, o mais "fácil" e "aderível" de toda a sua carreira, avançaria por um rumo criativo muito peculiar, que produzirá um estilo de música estranha, não muito agradável para a generalidade dos ouvintes, inclusive "fortemente depressiva", permanecendo uma eterna "outsider" muito problemática. Logo no disco seguinte "Marble Index", lançado em 1968, se começariam a desenhar os principais cambiantes e idiossincrasias que marcariam a sua carreira nos anos posteriores. De assinalar a sua participação no disco "June 1, 1974", gravado ao vivo, ao lado de John Cale, Brian Eno e Kevin Ayers. Manteria uma reputação, no mínimo, de mulher reclusiva e enigmática.
 Voltaria a ser notícia em 1988, aquando da sua morte, meses antes de completar 50 anos, vítima de uma "queda de bicicleta", quando, segundo o seu filho, ela ia à cidade "comprar mais uma dose de marijuana".
Nico - "The Last Mile" (1965). O lado B do single anterior. Não vinha incluído na seleção referida da revista MOJO, mas acho esta canção ainda mais interessante do que a do lado A. Em ambos os lados deste single de estreia, a parte das guitarras ficou a cargo de um certo músico de estúdio, então muito requisitado, chamado Jimmy Page. A letra é enigmática e a interpretação é "haunting"!... 

sábado, dezembro 21, 2013

Um pormenor esquecido de Portalegre

Construção original

Fachada principal desativada

Zona posterior ainda em funcionamento
Apesar do Caramulo ter sido, em tempos, um centro de cura do flagelo da tuberculose e, decerto, o que mais se destaca no nosso país, houve outros espaços que sabe bem trazer à memória. Não me estou a lembrar, neste momento, de todos eles e também seria demasiado exaustivo enumerá-los num breve post. Será mais interessante relembrá-los, de quando em quando, em textos separados. Hoje lembrei-me de mais um desses espaços, por sinal um dos mais enigmáticos e que, decerto muitos se esqueceram. Trata-se do Sanatório de Portalegre, mais conhecido como "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Sim! Ao contrário do que alguns possam julgar, Portalegre também tinha um sanatório. É dos que menos se fala, talvez precisamente por se localizar num local que muitos consideram "de província". 

Onde se localizou este espaço? 

Numa colina situada no extremo de Portalegre e que se precipita sobre uma espécie de vale. Também é enriquecida por zonas verdes e localiza-se aí a Sé de Portalegre, com as suas duas torres. Nessa mesma elevação, mais afastado para o extremo dessa colina, encontramos um edifício de formato mais ou menos rectangular cuja fachada principal dá para o vale e parece meia tapada por algumas árvores. Foi esse o "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Se estivermos no cimo da Serra de Portalegre ou se passarmos numa das estradas que circundam essa colina, não será difícil descortiná-lo. 
O edifício ainda se encontra apartado do resto do aglomerado habitacional próximo, herança dos seus "gloriosos" tempos. Tem um aspecto vagamente enigmático, mas também algo de sombrio, sobretudo se olharmos para a parte semi-coberta. A melhor altura do dia para o contemplarmos é da parte da tarde. Ao fim do dia, quando o sol se põe, adquire uma aura estranha, que parece contradizer a sua intencional discrição. Os vidros da secção posterior, um acrescento decerto à construção original, parecem brilhar, devolvendo, por momentos, qualquer coisa de vivo a um espaço que ficou enterrado num passado vagamente sinistro. 
O Sanatório Rodrigues de Gusmão, se não me falha a memória, foi inaugurado em 1909, portanto pertencia ainda àquela primeira leva de sanatórios anterior à criação da Estância do Caramulo. Todavia, pouco ou nada se fala dele. Terá tido uma existência sem sobressaltos, decerto foi sujeito algumas obras de melhoramento, que lhe acrescentaram a parte traseira e modernizaram os equipamentos. A construção que hoje lá observamos deve estar algo diferente da original de 1909, independentemente de algum restauro efectuado. 
Deu "sinais de vida" ainda durante a sua última década de vida, quando o seu diretor de então, o Dr. Emílio Moreira, decidiu empreender a realização da "Semana da Tuberculose e Doenças Pulmonares do Distrito de Portalegre", entre 1966 e 1973. Discreto como foi, discretamente cessou funções após 1974. Actualmente é aí que se localiza um centro de prevenção e tratamento para toxicodependentes. No entanto, julgo que esta instituição se encontra apenas circunscrita à parte traseira, mais recente, do antigo sanatório e que é visível para quem entra pelo parque de estacionamento. A "parte nobre" do edifício, parece estar silenciosamente devoluta. Até quando? Ninguém sabe...

A propósito do "Perfect Day" de Lou Reed


Transformer (1972) 

Magic and Loss (1992)
          
                Set The Twilight Reeling (1996)

         
       The Raven (2003)




Canção intemporal, esse "Perfect Day" de Lou Reed! Apesar de não ser um fã de Lou Reed, nem possuir a maior parte da sua discografia a solo, fui encontrando, ao longo do pouco que dele tenho, aqui e ali, vários outros momentos inesquecíveis. Os meus critérios de avaliação poder ser discutíveis para um bom conhecedor da carreira deste músico. Quanto a álbuns, considero o "Transformer" de 1972, o disco de Lou Reed que, no mínimo, se deverá ter. Eu considero o "Transformer" o primeiro "verdadeiro" disco a solo deste músico, ainda que seja de facto o segundo.
 
Vinte anos depois (1992), surge outro álbum incontornável: "Magic and Loss". O que nele considero como o elemento mais valioso são as letras. Não é um disco fácil para certo tipo de ouvintes. É um disco destinado para quem "gosta de ler", para quem aprecia a profundidade de, por exemplo, uma boa conversa e não se fica pela superficialidade das coisas. É um álbum carregado de muito sentimento, muito literário. Os temas que, para mim, são mais marcantes e justificam a compra deste disco, perfazem a "sequência perfeita" do 3 ao 7, e dentro desta, os temas com mais força são o 3, o 4 e o 5. É verdade que o tema mais conhecido e que mais adesão conquista é o 2 ("What's Good"). Todavia, apesar de mostrar um "genuíno" Lou Reed, vejo-o como um tema feito para ser editado em single (tal como aconteceu) e, por isso, uma cedência ao "comercial", destinado a atrair as atenções da generalidade do público consumidor de música. Acredito que uma boa parte desse público, que aprecia mais discos onde haja ritmo e som, para não dizer irreverência e ambiente "festivo" ("borga e paródia"), tenha ficado desiludido com o "Magic and Loss"... Basta ver a forma (inicial, claro!) como grande parte da crítica recebeu os espectáculos que Lou Reed deu em Portugal na Primavera de 1992. Acharam que ele não estava a atravessar um bom momento... Que estava demasiado depressivo e mórbido "por ter chegado aos 50 anos"... Quase 30 anos passados, verificamos que foi um disco que envelheceu bem. Aliás, foi como certo vinho de qualidade - quanto mais velho melhor! Acredito que muitos dos que denegriram e desvalorizaram esse Lou Reed da fase "Magic and Loss" já engoliram várias vezes tudo o que disseram!!!

A temática do disco "Magic And Loss", segundo o que me foi possível apurar, gira à volta da morte de duas pessoas que eram importantes para Lou Reed. No entanto, as letras das suas canções, sobretudo as que eu a seguir selecionei deste álbum, acabam por ir mais longe do seu universo pessoal e adquirem um caráter quase paradigmático, ou seja, outros casos semelhantes podem ser identificados com elas.

Tema 3 - "The Power And The Glory".

 
Tema 4 - "Magician"

Tema 5 - "The Sword Of Damocles".

Tema 7 (aqui numa versão ao vivo durante a digressão de 1992) - "CremationAshes To Ashes".

Sem me querer estender demasiado, faço ainda referência ao disco "Set the Twilight Reeling" de 1996, onde encontramos dois temas que eu considero essenciais não só na carreira de Lou Reed, mas também na música do Século XX: o urgente "Finish Line", que ele dedicou a Sterling Morrison, seu colega nos Velvet Underground, e o introspectivo "Trade In". 

Lou Reed - "Finish Line" (1996).

Lou Reed - "Trade In" (1996).

Para quem tem um gosto literário mais apurado e aprecia Edgar Allan Poe, é de recomendar o seu álbum "The Raven" de 2003. As incursões literárias de Lou Reed são sempre algo a que não é possível estar indiferente!

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Economia de mercado e liberdade



Nesta parte final da “Grande Transformação”, o autor lança de novo um olhar muito crítico sobre o (então) mais ou menos meio século anterior. Refere a subordinação do Homem, enquanto ser humano dotado de toda uma complexidade de facetas e sentimentos, a uma economia de mercado regida por princípios contra-natura e muitas vezes desumanos. Esta economia de mercado, apesar de parecer aliciante à primeira vista, apenas o é para um núcleo muito restrito, mas dominador, de indivíduos. Estes enriquecem numa espiral aparentemente discreta, mas que é, na realidade, incontrolável, enquanto que uma larga maioria da Humanidade, usufrui de uma percentagem mínima dessa riqueza total, quando não vive na mais completa miséria.
Esta enorme massa anónima de indivíduos, vive mergulhada numa ilusão de progresso, contando sempre com a ideia, muitas vezes não concretizada, de que as dificuldades do momento são verdadeiramente passageiras. Na verdade, segundo o autor, esta economia de mercado, ao fim e ao cabo, não leva o ser humano a progredir realmente. Oferece um progresso aparente, que parece indicar que nada poderia ser melhor, quando, na verdade, mantém o ser humano permanentemente agrilhoado em correntes que, essas sim, vão mudando de cor e, não raras vezes, parecem tornar-se cada vez mais poderosas e subtis em simultâneo.Na sequência disto, o autor faz uma referência à ideia de “Liberdade”, como um pilar fundamental na completa realização da Humanidade a que, em princípio, todos parecem aspirar. No entanto, há noções divergentes de “Liberdade”. Por exemplo, há a liberdade obtida em função dos privilégios e do poder, que acaba por, na verdade, servir a uma minoria poderosa e aquela que, devidamente regulada, surge de uma interacção igualitária entre os vários parceiros sociais, onde cada indivíduo se sente como parte de um todo que não o descrimine pela negativa, apesar de ter a sua individualidade preservada. O autor refere a mistificação dos defensores da economia de mercado quando estes argumentam que esta é uma salvaguarda da liberdade dentro da sociedade, pois as desigualdades que se criam são desencadeadoras de extremismos de todo o tipo. Por outro lado, considera que os dois exemplos de regimes políticos mais extremistas de então, o fascismo e o regime soviético, falharam enquanto resposta aos eventuais vícios do liberalismo, este tão favorável à cada vez mais vigente economia de mercado que, ainda sob outros cambiantes, hoje ainda se mantém.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Três nações na disputa da hegemonia europeia

Numa importante parte da obra “A Grande Transformação”, faz-se um enfoque na componente das divisões no campo das relações laborais, como um reflexo das muito complexas divisões que se verificam na sociedade, regressando-se mais uma vez à ideia do Homem que se foi transformando, gradualmente, em máquina de produção transaccionável e sujeito às leis do mercado, simultaneamente impositivas e flexíveis.



Apesar de aqui se dar, como acontecera nos outros capítulos, uma preferência à realidade do mundo ocidental, em geral, é dado um especial destaque a três países fundamentais neste período: a Inglaterra, a França e a Alemanha. Não quer isto dizer que outros, como a Itália, sejam ignorados. O que acontece é que, durante estes 150 anos, entre o começo do século XIX e a Segunda Guerra Mundial, estes três países ocuparam um lugar exemplarmente importante no xadrez mundial. Eram três nações que representavam a ponta-da-lança em termos de desenvolvimento nos mais variados aspectos e, desta forma, que nelas se passava, ecoava nas outras que lhes eram próximas, quer em termos geográficos, quer em termos de relações comerciais e diplomáticas, quer em termos de interesses em comum.


Devido a esta importância central, estas três nações tinham entre si, há muito, um esquema de relações, extremamente complexo. Haviam estado, por diversas vezes, em guerra entre si, não raras vezes uma contra as outras duas que, oportuna e temporariamente se aliavam mutuamente, antes de surgir, entre estas duas últimas, novas sementes de rivalidade.


Basicamente, este século XIX avançava com esta realidade muito vincada nas suas costas. Basta referir, por exemplo, as Invasões Francesas, onde França se opunha à Inglaterra e a Alemanha. Por outro lado, enquanto a França se vinha recompondo do completo falhanço do seu sonho imperialista, a Inglaterra e a Alemanha disputavam, entre si, uma guerra surda no sentido de conseguirem uma hegemonia dentro do quadro europeu, nos mais variados campos. Um deles, senão o mais importante, consistia no domínio da zona marítima que servia as costas europeias.


A Inglaterra, uma nação pioneira no campo da Revolução Industrial, sentia uma necessidade absoluta de superar a sua insularidade geográfica, que tornava algo insegura a, então vital, manutenção do seu vasto império colonial. No entanto, a sua vasta extensão de zonas costeiras navegáveis, desde logo, dotou esta nação de um poderio naval invejado pela generalidade dos outros países e permitiu-lhe ser um competidor a não ignorar no campo das relações comerciais. Para além do mais, é preciso não esquecer que as Ilhas Britânicas constituiam um território quase imune a qualquer invasão inimiga. O Canal da Mancha desde sempre, foi a sua muralha natural mais preciosa e permitiu que a Inglaterra quase não conhecesse os horrores dos grandes conflitos, evitando, entre outras coisas, que os seus vastos recursos naturais sofressem danos maiores e as suas populações corressem os mesmos riscos a que as outras nações no continente europeu estavam expostas.


A Alemanha, por seu turno, encontrava-se fragmentada em vários pequenos estados, cada um deles com o seu passado cultural próprio, e, para adquirir a solidez necessária, havia quanto antes de conseguir uma forma de unificação. Tal foi conseguido, pela mão de Otto Von Bismark. Mesmo assim, era preciso não esquecer que, apesar desta união amigável, havia uma hegemonia prussiana sobre todos os outros estados germânicos. Conseguida a unificação, a “nova” Alemanha conseguia, finalmente, tirar partido da sua localização geográfica central e dos vastos e abundantes recursos do seu solo, nomeadamente no que respeita a minério. Tinha uma extensa zona costeira que lhe permitia manter sólidas relações com os grandes centros comerciais de então, sem esquecer o passado da Liga Hanseática que abrangia também importantes portos de mar holandeses. Por outro lado, o facto de fazer fronteira com um importante leque de nações, encorajava a um, inicialmente secreto, desejo expansionista.



Vale a pena não esquecer que, tal como a Inglaterra, tanto a França e, mais tarde, depois da década de 1880, a Alemanha, possuíam o seu importante quinhão de colónias, ainda que em menor número. Havia que assegurá-las, apesar de haver uma surda tentação de estender a sua influência para outras colónias pertencentes a outras nações.



À parte a curta, mas marcante, guerra de 1870-71 entre a Alemanha imperial e a França, que foi desvantajosa para esta última, o século XIX, em especial a sua segunda metade, foi um período de acalmia bélica. As “guerras” agora eram diplomáticas e comerciais e, assim se mantiveram durante muitas décadas, até tudo se desmoronar em 1914.

sexta-feira, agosto 26, 2011

Rod Stewart "Turn The Music Down" em CD: Uma fraude? Talvez não...

É natural que alguns compradores incautos, interessados em comprar mais uma colectânea de Rod Stewart, se sintam algo defraudados com a selecção de canções que se lhes apresenta neste disco. Outros, pelo contrário, abertos a novas descobertas e pequenas surpresas, ficarão algo agradados pelas verdadeiras raridades que este disco aloja. Isto acontece porque, na verdade, esta pequena colectânea de apenas 10 canções refere-se sobretudo a um grupo musical que, como muitos ao longo da História, lhe viu fugir a luz rigidamente selecta do sucesso e se viu enquadrado numa obscuridade, e consequente esquecimento, só muito raramente quebrada com ocasionais edições discográficas limitadas para coleccionadores e, nem sempre, nas melhores condições sonoras.

O grupo em questão respondia pelo nome de Python Lee Jackson. Quase ninguém, ainda para mais em terras portuguesas, terá ouvido falar em tal grupo musical e saberá, sequer, a sua localização espacio-temporal. Mesmo no panorama dominante da música anglo-americana, tal grupo surgirá quase como uma breve nota de fundo de página, quase ignorada mas incontornável, precisamente graças à acidental presença de Rod Stewart.

Na verdade, o veterano artista, que será a razão para muitos comprarem esta colectânea, é simplesmente um convidado, pois nunca foi membro dos Python Lee Jackson. Aliás, neste breve universo de 10 canções, Rod Stewart surge como vocalista em apenas 3, mais concretamente nos temas "The Blues", "Doing Fine (Cloud Nine)" e, claro está, no genial "In A Broken Dream". Nos outros 7 temas, incluindo o que dá o título a esta colectânea ("Turn The Music Down"), a parte vocal fica a cargo de um certo Dave Bentley, teclista, líder e principal compositor dos Python Lee Jackson. (em baixo) O disco é completamente desprovido de qualquer detalhe informativo, salvo nos (breves) créditos autorais dos temas seleccionados.

Como entra aqui Rod Stewart, numa banda a que ele nem sequer pertencia? A história por trás disto não é completamente clara, mas uns breves dados adicionais poderão fazer alguma luz sobre este episódio curioso.A banda Python Lee Jackson (em cima, em 1966) era originária da Austrália, mais concretamente, de Sydney. Terá iniciado as suas actividades em 1965, sob o breve nome de "Blues Breakers" em cuja formação já ponteava o elemento fundamental Dave Bentley. Era essencialmente um grupo que actuava ao vivo e chegaria a conquistar alguma popularidade em terras australianas. O seu estilo musical misturava rock, pop e, como marca distintiva, blues, que, na segunda metade dos anos 60, era um género que conquistava muitos adeptos e popularidade no panorama da música anglofona. Na Inglaterra, por exemplo, abundavam grupos de jovens cantores brancos que idolatravam a música negra e tentavam emular os seus (estes veteranos) cantores de blues. Os Yardbirds, (em baixo) com Eric Clapton e Keith Relf em destaque, eram um perfeito e bem sucedido exemplo destes numerosos bluesmen. O cantor Rod Stewart (em baixo), em início de carreira, também tentava singrar, com muito empenho e sacrifício, neste mundo peculiar do blues. A sua fama como um cantor e performer de excepção crescia a olhos vistos por entre a comunidade musical britânica, mas o seu verdadeiro reconhecimento público ainda estava para vir.

Terá sido esta popularidade verdadeiramente institucional do "Rhythm 'n Blues" nas ilhas britânicas, que terá levado Dave Bentley a regressar à sua terra natal, no ano de 1967, quando a sua banda original Python Lee Jackson, se encontrava num impasse sem futuro, ao fim de quase dois anos de actuações ao vivo. A formação original dissolveu-se por esta altura. Por coincidência, nesse mesmo ano de 1967, os Bee Gees (em cima), vindos igualmente da Austrália para a Inglaterra, iniciavam a sua longa carreira de sucessos internacionais, mas a história destes seguirá outros rumos que não interessa aqui referir.
Chegado a Inglaterra, Dave Bentley reúne de imediato os elementos de uma nova formação dos Python Lee Jackson, onde se incluía, entre outros, um ex-membro dos Easybeats, outra banda originária da Austrália e também, por essa altura, instalada em Londres desde 1966.
A carreira dos Python em terras britânicas, acabará por se desenrolar nos mesmos moldes da sua anterior versão australiana, com sucessivas actuações ao vivo, incluindo como "grupo de suporte" em espectáculos de outros artistas mais famosos, entre eles Georgie Fame, e actuações em bares londrinos.
Com o seu estilo musical onde predominava o blues, os Python Lee Jackson eram mais um entre muitos no muito competitivo mundo musical anglo-americano e, sem contrato discográfico, o seu destino mais provavel seria o fraco sucesso e rápido esquecimento nesse panorama musical da segunda metade da década de 60, onde tudo estava a evoluir e a passar de moda com uma rapidez alucinante.
A sorte de Dave Bentley e a sua banda pareceu tomar um rumo mais favorável, em 1968, quando o mítico D.J. John Peel (em cima) lhes reconhece grande potencial e qualidade (como acontecerá com tantos outros artistas ao longo da sua vida) e decide assinar-lhes um contrato numa sua então recém-fundada editora independente ("Dandelion Label"). A possibilidade de poder gravar um disco, nem que fosse um simples single, era o sonho de qualquer grupo musical que se prezasse e de, pelo menos, a sua existência poder ficar registada para a posteridade. Muitos, nem isso conseguiriam...
Conseguido o tão almejado contrato, havia que decidir o que gravar, se teria que ser composto "de raíz" por alguém da banda ou exterior a ela, sem esquecer se teria algum potencial comercial. Para uma banda como os Python Lee Jackson, cujo repertório ao vivo assentava muito na interpretação de temas de autoria alheia, a tarefa era, ao mesmo tempo, estimulante e hercúlea. Dave Bentley, tendo já composto alguns temas préviamente, decide tomar para si a função quer de compositor principal (não excluindo alguma participação adicional de um ou mais membros da sua banda), quer de responsável pela escolha dos temas de autoria alheia.
Eventualmente, o repertório que Dave Bentley tinha disponível no momento da assinatura do contrato com John Peel, num panorama musical em permanente transformação, correria o risco de soar algo "fora de moda" ou apenas "clássico", podendo não cativar o potencial público ouvinte (e comprador).
Havia por isso que compor, quanto antes, um novo tema que, apesar de ser original, não poderia estar desenquadrado do panorama musical então em voga. Com grande mestria, Dave Bentley compõe um novo tema a que John Peel, muito acertadamente, reconhece um enorme potencial. O seu título era "In A Broken Dream". Todavia, colocou-se a Dave Bentley um problema quase incontornável: a canção era da sua autoria, mas a sua voz e forma de cantar não lhe pareciam adequadas para o resultado pretendido. O tema era muito forte e exigia uma voz com certas peculiaridades. Dave Bentley tinha em mente uma voz que tivesse o potencial e o "arranque" no género de certos cantores como Joe Cocker e Stevie Winwood.
John Peel tem então a genial ideia de entrar em contacto com seu velho amigo Rod Stewart. Havia anos que Rod Stewart vinha conquistando um importante lugar entre os vocalistas da sua geração. A sua versatilidade em interpretar os mais diversos estilos, para além do blues, tinha atingido uma notável desenvoltura nesse Outono de 1968. De referir que, por essa altura, Rod Stewart era o vocalista de uma importante banda de rock-blues, denominada Jeff Beck Group.
Esta banda, constituida à volta do genial guitarrista Jeff Beck, vinha também adquirindo grande popularidade nos Estados Unidos. O próprio Rod Stewart, graças a uma série de digressões bem sucedidas, vinha adquirindo uma popularidade crescente junto do grande público, acabando por eclipsar todos os outros que com ele actuavam. Terá sido este curto mas crucial período no Jeff Beck Group, ao lado de Ronnie Wood (desde 1975 nos Rolling Stones), a plataforma de arranque fundamental para a sua nova carreira a solo, a partir do ano seguinte (1969). De referir que, excluindo a fase do Jeff Beck Group, a carreira de Stewart anterior a 1969, é algo enigmática, com os registos sonoros nem sempre organizados com o devido cuidado e rigor e a documentação informativa anexa muito pouco clara e com algumas contradições. Um período de formação que, todavia, convém conhecer. Em duas postagens anteriores neste blog, faço uma breve referência a essa fase.
A sua breve relação com os Python Lee Jackson, constitui mais uma faceta dessa fase algo obscura.
Regressemos a esse proverbial telefonema de John Peel a Rod Stewart durante o Outono de 1968. Nesse período, Stewart encontrava-se "vinculado" como vocalista principal ao Jeff Beck Group (em baixo), cujo primeiro LP "Truth" havia sido há pouco lançado, e os espectáculos e digressões se estavam a tornar muito frequentes, para além de algumas mudanças de pessoal.
Pode-se afirmar que a resposta afirmativa de Rod Stewart ao telefonema de John Peel foi muito oportuna, pois a banda Python Lee Jackson, já tinha agendada no estúdio a sessão de gravação destinada ao seu novo tema e o problema da "inadequação vocal" mantinha-se em aberto. Rod Stewart aceitou fazer um verdadeiro favor ao seu amigo de longa data e, por extensão, a Dave Bentley e à sua banda, pois tinha diversas obrigações para com a sua banda Jeff Beck Group. Podia, com toda a legitimidade, não ter aceite o pedido de John Peel, alegando razões contratuais, e a história seria outra...
Combinada a hora e o local, Rod Stewart aparece no estúdio para a sessão de gravação do tema "In A Broken Dream". Após conversar com Dave Bentley e se inteirar das devidas instruções, Rod Stewart e os Python Lee Jackson decidem começar por gravar a "demo" (primeira versão de demonstração básica) da canção. A intenção original deste pequeno "favor" de Stewart, era fazer um "guide vocal", a partir do qual o vocalista Dave Bentley e o resto da banda, construiriam a master final do tema.
O que se seguiu, foi um dos momentos mais inesquecíveis da História da Música Pop. Sem qualquer preparação prévia, sendo simplesmente fiel ao seu estilo habitual de interpretação, Rod Stewart canta, com toda a naturalidade, sem dificuldade e de uma vez o tema "In A Broken Dream". John Peel, Dave Bentley e a sua banda, ao acabar a gravação "demo", perceberam ter assistido a algo memorável e irrepetível. A "demo" tornou-se a "master" final, caso raro numa gravação de estúdio. Estavam todos satisfeitos com o resultado e, desta forma, não se gravou mais nenhum "take" de "In a Broken Dream".

Python Lee Jackson (feat. Rod Stewart) - In A Broken Dream (1968). Lançado depois em 1971.

A gravação do tema para o qual se havia agendado a sessão acabou por durar muito menos tempo do que o previsto. O que significou que sobrou um "tempo livre" não previsto. Desta forma, aproveitando a presença bem oportuna de Rod Stewart, a banda decide gravar, à experiência, mais dois temas, ambos de autoria alheia. Stewart não se fez de rogado e, por mais uns minutos, decidiu levar avante a sua missão de "cantor convidado" dos Python Lee Jackson, com muito bons resultados. Os temas eram o muito doloroso "The Blues" e o dinâmico e descontraído "Doing Fine (Cloud Nine)".

Python Lee Jackson (feat. Rod Stewart) - "The Blues" (1968).

Python Lee Jackson (feat. Rod Stewart) - "Doing Fine (Cloud Nine)" (1968).

No final daquela memorável sessão de gravação, chegou a ponderar-se a ideia de Rod Stewart ficar como vocalista adicional dos Python Lee Jackson. Acontece que, como já foi referido atrás, Stewart, nesse período, estava contratualmente obrigado ao Jeff Beck Group, havia todo um conjunto de espectáculos e digressões a cumprir, sem esquecer a ideia de, dentro de meses se proceder à gravação de um segundo LP (do Jeff Beck Group). Mais concretamente, se o single fosse lançado e resultasse num sucesso comercial, levando a que se solicitasse a realização de espectáculos e digressões (sempre essenciais!), Rod Stewart, elemento-chave, pelo menos nesse tema, não poderia participar.
Na sequência destes receios, John Peel decide cancelar o lançamento do tema, incluindo os outros dois onde Rod Stewart participava. Ficariam inéditos até ao começo da década de 70.
Dave Bentley e os Python Lee Jackson (em cima), durante o breve tempo em que estiveram na editora de John Peel, chegaram a compor e a gravar toda uma série de temas que acabaram por não ser lançados na altura inicialmente prevista. O grupo deixou a editora de John Peel durante a primeira metade de 1969.
No final de 1969, o produtor Miki Dallon, que havia lançado a editora independente "Young Blood", decide adquirir todas as gravações relacionadas com os Python Lee Jackson, com a intenção de eventualmente as editar. Lançou-as no mercado por volta de 1970/1971, na sua já referida editora, todavia, sem qualquer sucesso. Vários meses mais tarde, aproveitando o agora indiscutível sucesso de Rod Stewart, Miki Dallon é perseverante e decide dar mais uma oportunidade ao tema "In A Broken Dream", dando, desta vez, um merecido destaque à presença do referido cantor, sem esquecer de referir o nome da banda que o havia "convidado". Desta vez o resultado foi a sua rápida ascensão aos primeiros lugares das tabelas de vendas, pelo menos, dos dois lados do Atlântico. Por apenas uma vez na vida, Dave Bentley, ainda que fora de época, tem a oportunidade de sentir o sabor do sucesso, dado que, saliente-se uma vez mais, "In A Broken Dream" é da sua exclusiva autoria. Nessa altura, em 1972, Dave Bentley tinha regressado à Austrália e os Python Lee Jackson eram uma coisa enterrada no passado. Aliás, o seu nome só é resgatado do esquecimento graças a Rod Stewart, afinal um mero "cantor convidado", que uma feliz decisão no momento certo de John Peel (em baixo), permitiu salvar uma sessão de gravação, que se julgava ser mais difícil do que acabou por acontecer. As outras gravações ficariam à espera de melhores dias...
Desde então e, sobretudo com o advento do CD, essas gravações têm surgido dispersas e, muitas vezes sem o mínimo critério, nas mais variadas colectâneas. A colectânea "Turn The Music Down" é um exemplo acabado dessas colectâneas, onde se recorre a um estratagema de Marketing (a presença de Rod Stewart, neste caso), para se conseguir vender temas que, por si só não seriam vendáveis. Todavia, os 3 temas que Stewart interpreta nesta colectânea, como "cantor convidado", por si só, justificam muito a compra não só desta colectânea, como de qualquer outra onde eles surjam. Isto porque, entretanto, adquiriram o estatuto de verdadeiras raridades e são, devido às notórias diferenças entre si, demonstrativos da já conhecida versatilidade de Rod Stewart em se mover dentro dos mais diversos géneros musicais. Os restantes 7 temas não destoam dos outros 3 e permitem dar a conhecer um pouco da carreira do grupo Python Lee Jackson, que também é extremamente difícil de encontrar.
Apesar de esta colectânea já ter sido lançada algures nos anos 90, foram acabando por surgir, aqui e ali, outras mais recentes, exactamente com as mesmas músicas e qualidade sonora idêntica ou quase idêntica. Nas ditas zonas de "saldos e promoções" das grandes superfícies é provável que se encontre alguma coisa deste género.
Olho atento e paciência é tudo o que é preciso para se encontrar o que se realmente procura em qualquer aglomerado de discos, onde não pareça haver nada onde valha a pena investir tempo e dinheiro.
Cabe ao potencial comprador decidir se está perante uma fraude ou simplesmente uma oportunidade única de adquirir o que (já) não existe noutros lugares.

domingo, junho 05, 2011

Alguns impactos da Revolução Industrial no Século XIX

O tipo economia de mercado que dominou grande parte do século XIX e cujos efeitos se continuariam de certa forma a fazer sentir no século XX derivou, em muito, da Revolução Industrial iniciada no século XVIII. De referir, para pôr as coisas no seu devido lugar, que a dita “economia de mercado”, que é, desde há muito, uma realidade neste novo século XXI, deverá muito a essa primeira verdadeira economia de mercado, que havia encontrado terreno fértil nas profundas e múltiplas transformações originadas pela Revolução Industrial.



No entanto, a versão contemporânea de “economia de mercado” que hoje, neste Século XXI, nos envolve e domina, com todas as suas virtudes e defeitos surge num contexto histórico-social completamente diferente, para não falar do inevitável factor científico-tecnológico a condicionar, em grande parte, as sociedades mais desenvolvidas. A dita "globalização" que hoje é um lugar-comum incontestável, não existia no Século XIX, embora, fazendo-se uma breve retrospectiva, seja possível aí encontrar as suas mais remotas raízes.

A economia de mercado que dominou no século XIX desenvolveu-se numa sociedade onde a componente agrícola ainda assumia um papel preponderante, pelo menos nas sociedades ocidentais e mais desenvolvidas, que são usadas neste livro ("A Grande Transformação") como o principal ponto de referência comparativo.

É preciso ter sempre presente que a Revolução Industrial não se processou na mesma velocidade e de uma forma uniforme neste conjunto de países de referência. De qualquer forma, os efeitos da Revolução Industrial nos países por onde passou foram mais ou menos similares. As zonas urbanas e de maior densidade populacional, eram onde o grosso da actividade fabril mais se concentrava, o que ofereceu às cidades uma importância então inédita. As cidades já detinham o seu valor por nelas se encontrarem as instituições que representavam o poder central, tanto a nível político, militar e religioso de cada nação, para além de já serem, há muito, zonas de grande produção cultural e científica.

Esta conjuntura que começava a ganhar forma, era um perfeito contraponto à já milenar realidade em que a generalidade dos produtos e actividades de subsistência básicas se concentravam nas zonas rurais. As zonas urbanas dependiam quase exclusivamente destas e, apesar de nas cidades se alojarem, já há muito, os denominados ofícios e as actividades de manufacturas pré-industriais, os produtos básicos, provenientes das zonas rurais, eram aí simplesmente escoados através do comércio. Antes da Revolução Industrial, as cidades detinham uma importância secundária na cadeia de produção. Eram aglomerados habitacionais principalmente consumidores e onde o denominado “ócio” tinha o seu centro. As principais forças de trabalho concentravam-se onde havia mais “terra” ou solo arável, que era o que verdadeiramente representava a riqueza e o poder económico. Era mais rico quem tinha mais terra, ainda que nela não trabalhasse. Os pequenos proprietários, que trabalhavam os solos que possuíam, eram os maiores representantes do tipo de economia de auto-subsistência que, então, dominava.

A Revolução Industrial trouxe consigo uma gradual alteração deste quadro. Decididos a fugir a uma realidade feita de incertezas, situações de penúria recorrentes e não raras situações de injustiça e exploração abusiva da parte dos senhores das terras, um número crescente de pequenos agricultores e jornaleiros decide partir para os grandes núcleos urbanos, dando origem a uma situação, então, quase inédita, de êxodo rural. Muitos julgavam ver nessa nova actividade a tão desejada melhoria das condições de vida, outros achavam que, sendo a sua vida de trabalho de sol-a-sol uma vida desagradável e sem perspectivas de futuro, pior do que estavam não podiam ficar, caso abraçassem a nova condição de operários fabris. Muitos acabariam por ser desenganados e descobrir uma nova forma de exploração.

As cidades, como espaços onde se prometiam novas oportunidades, acabariam por sofrer um importante, senão explosivo, crescimento físico e populacional, graças a estes novos contingentes populacionais. Beneficiaram, inicialmente, com esta mão-de-obra adicional, mas também começaram a ser palco de novas situações de miséria, devido ao facto de, entre outros aspectos, os espaços laborais existentes não conseguirem absorver essa nova mão-de-obra disponível ao mesmo ritmo do seu crescimento.

A Revolução Industrial fazia surgir um novo tipo de ser humano que, em contraponto ao que antes produzia principalmente para si, agora, produzia para a entidade que o acolhia, neste caso a empresa detentora da fábrica, e lhe atribuía uma ou mais tarefas a desempenhar. Este novo tipo de indivíduo, já não via parar às suas mãos o produto real do seu trabalho que lhe permitia subsistir, mas antes um valor que era atribuído ao seu esforço, sob a forma de “salário”, a partir do qual obtinha a sua subsistência. Eis porque este, então, novo e cada vez mais numeroso tipo de trabalhador, era designado de “assalariado”. Para além disto, cada um destes trabalhadores perdia a sua individualidade enquanto ser trabalhador, para se tornar em mais um simples número contabilizável, ou seja, uma peça dentro de uma cada vez maior engrenagem produtiva.
A miséria vivida por aqueles que se aglomeravam nas zonas pobres das cidades era, muitas vezes, mais dura e permanente do que aquela que, de quando em quando, afligia os que viviam do básico trabalho da terra.

Com a criação dos denominados “bairros operários”, todo um conjunto de novos problemas e desafios se colocaram às autoridades locais de diversos países. A generalidade dos indivíduos que vinham habitar estes novos espaços, eram confrontados com um modelo habitacional preferencialmente concentrado, ou seja, um grande número de pessoas a viver numa área relativamente pequena. Este facto era, desde logo, gerador de uma crescente insatisfação, visto que uma parte substancial destes indivíduos provinha de zonas onde o modelo habitacional era disperso. Nos seus lugares de origem, apesar das eventuais dificuldades de vida, havia uma maior definição de “território individual”, ou seja, os lares podiam até ser diminutos, mas havia uma área circundante mais vasta que garantia uma maior privacidade dos indivíduos. Entre outros aspectos, o clima de promiscuidade que pudesse existir no seio de algumas famílias, agravava-se seriamente, dado que o espaço habitacional que lhes ficava reservado, encontrava-se a paredes-meias de, pelo menos, outra habitação ocupada por desconhecidos, quando não literalmente “entalado” no meio de várias habitações onde, por si só, a falta de espaço individual já era um problema frequente.

Numa situação destas, seria fácil, de quando em quando, desencadearem-se situações de violência, mesmo no seio das próprias famílias. Por outro lado, a experiência foi ensinando às autoridades, que uma concentração excessiva de seres humanos numa área restrita era altamente degradante do ponto de vista sanitário, para além de se converter num foco gerador de criminalidade. Desta forma, estes novos fluxos populacionais que, inicialmente, podiam representar o “sangue novo” de que as indústrias emergentes e as respectivas zonas urbanas tanto precisavam para funcionar e desenvolver, começavam a se revelar prejudiciais para a qualidade de vida de um sem-número de cidades e os respectivos habitantes de origem. Em muitos países, as autoridades locais tiveram de empreender um enorme esforço inédito de reordenação dos espaços urbanos, que muito contribuiu para dar às principais cidades do Mundo, a começar pelos países ocidentais, uma nova fisionomia que se tornaria imagem de marca da época contemporânea. O sucesso destas medidas de fundo foi, no entanto, muito variável de região para região.

sábado, maio 21, 2011

O que os jornais e as televisões não mostram

Primeiro temos o espaço físico: uma vasta construção cúbica, subdividida em várias secções, aparentemente fria e desinteressante, dado o seu despojamento decorativo exterior. Perfeitamente enquadrada no espaço museológico que a acolheu, este mesmo um imponente edifício de sabor austeramente industrial, onde a máquina subjuga completamente o Ser Humano dentro de um cenário onde as sólidas e escuras paredes de tijolo alojam um sem número de formas possíveis que o aço pôde adquirir às mãos do Homem, entrecortadas pelos números de diversos mostradores, através dos quais as tentaculares e agressivas máquinas comunicam com ele, que as concebeu, desenhou e montou. Exteriormente o espaço expositivo parece esteticamente silencioso, mas é, na verdade, um aviso para o que no seu interior nos é dado a observar. Há que estar preparado!


De seguida, somos acolhidos no seu interior, também ele desprovido de qualquer elemento decorativo, mas que, até certo ponto, nos faz lembrar a entrada para os bastidores de um qualquer teatro ou cinema imaginário. O espectáculo ou filme a que vamos assistir está ali, fragmentado nas diversas fotografias, para onde uma sinalética bem conseguida, ainda que subtil, nos direcciona.


Todo o fundo é preto, dominado pela sombra, como que a integrar-nos na dureza e, por vezes, na crueza das imagens que se nos apresentam. As luzes que aqui e ali vão surgindo, orientam o nosso olhar para os diversos retratos, uns mais gerais, outros mais em detalhe, de toda uma realidade que nos escapa no nosso quotidiano. As fotografias são, na sua base, de carácter documental. Mas têm em si um elemento artístico, difícil de definir, que muitas vezes só é captável numa fracção de segundo. Cada fotógrafo profissional tem de ter a intuição de saber apanhar esses breves momentos irrepetíveis. Um segundo antes ou depois e a imagem já não é a mesma. Por vezes, a escolha da ou das imagens a seleccionar pode ser feita à posteriori, por entre um conjunto quase infinito de instantâneos e aqui, também, é posta à prova a sensibilidade do ou dos fotógrafos que se entregam a essa tarefa, igualmente tão complicada, embora menos arriscada do que a sua eventual captação in loco. Quantos fotógrafos já não perderam a vida a tentar encontrar o instantâneo ideal?


Em concreto, o visitante é levado a conhecer de perto alguns dos factos mais recentes ocorridos em diversas partes do mundo, bem como a ser confrontado com algumas facetas de realidades que há muito se vão sucedendo e que, em geral, causam espanto a quem não conviva com essas realidades. Cada um de nós vê o outro lado daquilo que, muitas vezes as televisões e os jornais só referem de uma forma superficial e, quase sempre, filtrada. Talvez… para não chocar tanto os espíritos mais sensíveis… Ali o visitante observa fragmentos da realidade tal como ela é. Por vezes, a sensibilidade, no sentido negativo do termo, ou seja, enquanto fragilidade e falta de resistência e força de carácter, é perpetuada pela constante e obstinada fuga às imagens das verdadeiras da realidade deste Mundo. Tantas vezes o espírito precisa de ser sujeito a estas provas ocasionais, para ganhar um pouco mais de resistência, perder um pouco da fragilizadora ingenuidade e, assim, aprender a crescer mais um pouco.


Ao mesmo tempo, o visitante é levado a visualizar a beleza, por vezes macabra, que consegue, mesmo assim, ser captada em situações supostamente trágicas e desprovidas de qualquer beleza. Eis, talvez, porque esta exposição fotográfica, organizada anualmente em várias partes do mundo, apesar de não ser, em si, muito grande em extensão, é considerada “a maior exposição fotográfica do mundo”. Poucas fotografias conseguem, unitariamente, aglomerar em si a força de centenas, milhares ou milhões juntas.

segunda-feira, março 21, 2011

Guerras surdas e paz aparente


Este livro foi concebido e escrito durante a maior conflagração bélica do Século XX: Segunda Guerra Mundial. De referir que, quando o autor a concluiu para ser publicada, este conflito ainda não tinha terminado e, apesar de nesse ano (1944) a vantagem já pender claramente para o lado aliado, não havia ainda certezas absolutas quanto ao seu desfecho. O autor, imbuído de toda a angústia e sentimento de urgência que a conjuntura incutia no seu espírito fervilhante de cultura e experiência de vida, decide, ao elaborar mais esta obra, tentar compreender, ajudando assim os futuros leitores a também compreender, o que havia levado à situação, então, actual.
O autor olha para trás no tempo, e encontra as raízes dessa conjuntura conflituosa bem firmadas no Século XIX e no “concerto europeu” em que se vivia desde o fim das invasões napoleónicas até ao rebentar da 1ª Grande Guerra. Os ditos “cem anos de paz” haviam sido antes um crescendo de tensões e rivalidades entre as várias nações europeias, mal resolvidas, aqui e ali, através de diversos tratados e alianças, vagamente abalados por alguns conflitos internos e locais. A Primeira Guerra Mundial, para o autor, não surge mais do que um desfecho lógico de toda essa conflitualidade surda, que parecia contradizer um aparente clima de paz. Chega ainda a partilhar, com outros historiadores, a teoria de que o Século XIX, na verdade, se havia prolongado pelo, então, novo Século XX, o qual só se havia verdadeiramente iniciado com o conflito 1914-1918. O autor vai ainda mais longe ao afirmar que o período entre-guerras (décadas de 20 e 30) não seria mais do que um avolumar de questões que não haviam ficado resolvidas, materializando-se em novas turbulências, nem sempre muito veladas, e de que a segunda conflagração mundial em que se vivia, não era mais do que uma muito expressiva confirmação. Vai ainda mais longe ao afirmar que esse, então, presente conflito trazia no seu âmago ainda sequelas desse tão peculiar Século XIX, feito de uma paz mais aparente do que real.