quarta-feira, outubro 10, 2007

Simon Wiesenthal


De ascendência judaica e nacionalidade austríaca, Simon Wiesenthal, nasceu no último dia de Dezembro de 1908, em Buczacz, localidade então parte do desaparecido império austro-húngaro e agora inserida na zona Oeste da Ucrânia, onde viveu uma breve primeira infância de desafogo económico, graças à atividade comerciante da sua família. O seu próprio pai, Asher Wiesenthal, havia fugido em 1905, às diversas perseguições montadas aos judeus pela Rússia czarista. Infelizmente, chamado para combater após o rebentar, em 1914, do conflito bélico mundial, acabaria por ser morto em combate na frente leste em 1915. Posteriormente, a Rússia czarista conquistaria a zona onde Simon e a sua família residia, obrigando-os a se refugiarem em Viena, na Áustria. Após a retirada da Rússia, em 1917, ele, a sua mãe e o irmão, regressariam de novo à sua cidade natal, situada numa zona que, posteriormente, estaria constantemente sob a jurisdição de diferentes nações circundantes até 1923, quando passaria a pertencer à Polónia.
Durante este período entre guerras, Simon Wiesenthal, completaria a sua formação académica, tendo, nomeadamente, devido ao facto de ter ascendência judaica, sido obrigado a fazê-lo em diferentes localidades, como Praga, Cracóvia, Kiev e Odessa.
Regressou a Lwow, onde abriria um gabinete de arquitetura, pouco depois de se casar em 1936. Durante os três anos que se seguiriam Simon Wiesenthal revelar-se-ia um arquitecto de grande nível, especializando-se na elaboração de projetos de vivendas elegantes, muitas das quais seriam construídas por judeus polacos ricos, apesar das crescentes ameaças do Nazismo.
Quando a guerra rebentou, a cidade onde Simon residia, Lwow, passar-se-ia a designar Lviv, por ter sido ocupada pela União Soviética, na sequência do Pacto Germano-Soviético Molotov-Ribbentrop. O seu padrasto e o seu meio-irmão foram assassinados por agentes do NKVD, a polícia secreta soviética, na sequência de um conjunto de purgas destinadas a eliminar todos os polacos que fossem considerados “inimigos do povo”. Wiesenthal foi forçado a encerrar a sua firma e a trabalhar numa fábrica.
Por diversas vezes Simon Wiesenthal escapou à morte à última hora. Ainda sob a ocupação soviética, conseguiu subornar um comissário do NKVD, de forma a evitar que ele, a esposa e a mãe fossem deportados para um gulag na Sibéria. No entanto, quando a Alemanha nazi invadiu a União Soviética em Junho de 1941, ele e a sua família foram capturados. Durante os anos seguintes, Simon Wiesenthal e a sua esposa, conseguiriam fintar a morte, da qual estiveram muito próximos, devido aos constantes assassinatos em série promovidos pelas forças de segurança nazis, sucessivas capturas e deslocações, residências temporárias em locais sem as condições mínimas de habitabilidade e má alimentação, para além das constantes sevícias e humilhações por parte dos ocupantes. Além do mais, Simon Wiesenthal foi, mais do que uma vez, internado em campos de concentração, salvando-se in extremis de ser executado em diversas ocasiões, sem falar no facto de ter sido separado de sua esposa, da qual não saberia mais do paradeiro até 1946. Julgou que esta havia morrido durante a revolta do guetto de Varsóvia, mas tanto ela como Simon, durante esses longos anos do Holocausto, acabariam por perder 89 familiares, incluindo as respectivas mães. O próprio Wiesenthal, por diversas vezes, chegou a tentar o suicídio. No momento em que foi libertado com a chegada das forças americanas a Mauthausen, na Áustria, ele havia sido feito prisioneiro em 12 campos de concentração, 5 deles de extermínio, onde ele pode acompanhar e sentir muito de perto os dramas pessoais de milhares de pessoas.
Após a sua libertação, a que se seguiria um período de recuperação física e adaptação à vida normal, Simon Wiesenthal decide colaborar ativamente com o exército norte-americano, ajudando a reunir documentação que seria essencial não só para os processos de Nuremberga, como para outros posteriores e noutras localidades. No seguimento disto, ele e outros voluntários, decidem fundar o Centro de Documentação Judaico em Linz, na Austria, em 1947, que lhe permitirá continuar esta importante e árdua tarefa. No entanto, devido a facto dos Estados Unidos e a União Soviética terem progressivamente perdido interesse em realizar futuros julgamentos de crimes de guerra, o grupo foi-se dissolvendo. Não obstante, Simon Wiesenthal irá continuar a juntar documentação importante para levar a sua missão avante, não só em nome da memória de todos aqueles que morreram, como também por se saber que um número apreciável de criminosos de guerra nazis, das mais diversas nacionalidades, continuava sem ser levado a julgamento ou tinha entretanto escapado da prisão. Muitos acabariam, por escolher outros países distantes para iniciar uma nova vida, muitas vezes sob uma nova identidade.
Entre estes encontrava-se Adolf Eichmann, que havia sido o principal elaborador da “Solução Final” de Wannsee, para além de ter estado em colaboração direta com outros criminosos mais famosos como Heinrich Himmler, que se havia suicidado pouco depois da sua detenção em 1945, Reinhard Heydrich, eliminado em 1942 por um grupo de resistentes checos e Ernst Katelbrunner, condenado à morte pelo Tribunal de Nuremberga. Após anos de investigação rigorosa, ainda que secreta, foi possível localizar na Argentina, Adolf Eichmann, que já aí havia inclusivé constituído família. Neste longo processo houve uma estreita colaboração entre o trabalho empenhado de Simon Wiesenthal e a Mossad, que acabaria por resultar na detenção e extradição do antigo criminoso de guerra para Israel, onde seria julgado e condenado à morte em 1962. É preciso salientar o papel pioneiro e ousado de Simon Wiesenthal, ao manter abertas investigações desta natureza, num tempo em que o clima político geral tendia gradualmente para uma atitude de acomodação e secundarização relativamente aos antigos criminosos de guerra.
Incentivado por este notável corolário de anos a fio de lenta, mas persistente, investigação Simon Wiesenthal decide reabrir o Centro de Documentação Judaico, onde agora se passará a ocupar de novos casos pendentes. Entre os seus maiores sucessos encontramos a captura de Karl Silberbauer, o oficial da Gestapo responsável pela detenção de Anne Frank. A confissão de Silberbauer, foi essencial para desacreditar todos aqueles que afirmavam que o Diário de Anne Frank, seria uma invenção. Ainda durante este período, são de assinalar a localização e posterior julgamento na R.F.A. dos 16 nazis responsáveis pelo massacre da população judaica de Lwow, a captura de Franz Stangl, o comandante dos campos de extermínio de Treblinka e Sobibor, e também a detenção de Hermine Braunsteiner, uma antiga supervisora de campo de prisioneiros, a viver então em Long Island, que havia ordenado a tortura e o assassinato de centenas de crianças em Majdanek.
Em virtude de haver nos Estados Unidos uma comunidade judaica com grande poder e intervenção nos mais variados aspectos da sua sociedade, é criado em 1977, o Simon Wiesenthal Center, em sua honra. Estando sediado em Los Angeles, esta instituição destina-se, para além de evitar que o Holocausto nazi caia no esquecimento, a contribuir para a prevenção de eventuais focos de anti semitismo e grupos de neo-nazis que poderão surgir, dirige os Museus da Tolerância existentes em Los Angeles e Jerusalém e pretende levar eventuais criminosos de guerra nazis sobreviventes à justiça.
Durante os anos 70, Wiesenthal envolveu-se na vida política austríaca, nomeadamente ao denunciar o facto de muitos elementos do governo socialista de Bruno Kreiskey, terem sido nazis quando a Áustria fazia parte do Terceiro Reich. Como consequência do seu forte empenhamento em que se fizesse justiça relativamente a um maior número possível de crimes de guerra, Simon Wiesenthal recebeu múltiplas ameaças de morte, que culminariam, entre outros aspectos na detonação de um engenho explosivo, colocado por neo-nazis alemães e austríacos, junto à sua casa em Viena.
Mesmo depois de entrar nos 90, Simon Wiesenthal, continuaria plenamente ativo na sua já longa missão, no seu pequeno gabinete do Centro de Documentação Judaico, agora localizado em Viena. Só mesmo no final da sua longa vida, em 2003, Wiesenthal decidiu suspender a sua atividade de detectar eventuais criminosos da época nazi que tivessem escapado à justiça, afirmando já ter encontrado todos aqueles que ele acharia fundamentais. Ele mesmo disse que já havia sobrevivido a todos eles e que se ainda houvesse alguns entre os vivos, estariam já demasiado velhos e débeis para serem julgados.
Viveu os seus últimos anos em Viena, com a sua mulher que morreria de causas naturais aos 95 anos em Novembro de 2003. Simon Wiesenthal acabaria por morrer durante o sono, quase dois anos depois, em Setembro de 2005, com a provecta idade de 96 anos. Poucas semanas depois do seu falecimento, foi descoberto em Espanha um dos últimos criminosos de guerra nazis ainda vivos: Aribert Heim. Este fora um dos médicos dos campos de concentração e, segundo se julga, terá sido o último caso de que Wiesenthal se ocupou antes de dar por encerrada a sua missão.
Tal como era seu desejo e de todos aqueles que viam nele um herói como poucos, o velho arquitecto seria enterrado em Israel na cidade de Herzliya, onde vivem muitos sobreviventes e seus descendentes do Holocausto.

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