sábado, junho 12, 2021

Love e "Forever Changes"



Arthur Lee.

Arthur Lee.

No dia 3 de Agosto de 2006, Arthur Lee faleceu vítima de leucemia, após vários meses de tratamento intensivo, incluindo um transplante de medula óssea e a utilização de uma nova terapia à base de células extraídas de cordão umbilical. A sua morte significou, igualmente, o desaparecimento de uma das lendas vivas da música contemporânea, bem como o encerramento de todo um ciclo musical iniciado na primeira metade dos anos 60. Apesar da sua importância enquanto cantor e compositor ir muito para além disso, a figura e a obra de Arthur Lee está directamente associada a uma das obras-primas musicais de sempre: o álbum “Forever Changes”. Muitos defendem que, só com este álbum, o seu nome ficaria escrito nos anais da música e mesmo da cultura dos últimos cem anos. É actualmente, e quase unanimemente, considerado um dos melhores álbuns de sempre, tendo sido, mais do que uma vez, considerado por revistas da especialidade “o melhor álbum de rock de sempre”.
Claro que a história não foi sempre assim. “Forever Changes” era o terceiro disco oficial dos “Love”, uma banda (que se poderia caracterizar como sendo) de rock, constituída e liderada pela figura de Arthur Lee em 1965.Love em 1965 - 1966.

Johnny Echols, Don Conka (?), Arthur Lee e John Fleckenstein (?) no tempo dos "Grass Roots".

Esta banda era a continuação de uma outra, “The Grass Roots”, constituída mais ou menos um ano antes, mas cujo nome teve de ser alterado para “Love”, devido ao facto de, entretanto, ter surgido uma outra com o mesmo nome, mas com a diferença de ter tido sucesso imediato.
É claro que a qualidade e a peculiaridade, sem falar no ecletismo, da banda de Arthur Lee, não se devia só a este artista, pois ele teve o apoio de um conjunto de músicos talentosos que o ajudaram a levar avante o seu projecto. O núcleo da banda, para além de Arthur Lee, girava igualmente à volta de Bryan MacLean (em baixo), o outro compositor principal, que havia chegado aos "Grass Roots" logo antes de se passarem a chamar de "Love".
Bryan MacLean.
Nesse tempo, para além de Bryan MacLean e Arthur Lee, a banda contava ainda com Johnny Echols (em baixo) na guitarra e Don Conka na bateria, dois grandes amigos de juventude de Lee, para além de John Fleckenstein no baixo.
Johnny Echols.
Pouco depois da sua mudança de nome e quando começavam a se dar a conhecer, Don Conka, já a braços com uma dependência grave de heroína que o tornava cada vez mais errático nas suas aparições ao vivo e em estúdio, é convidado a sair do grupo. 
Love - "Signed D.C." (1966). "Sometimes I feel so lonely"; "My soul belongs to the dealer/He keeps my mind as well"; "I can't unfold my arms/I've got one foot in the graveyard"; "No one cares for me".

O tema "Signed D.C.", do 1º LP de 1966, referia-se a ele. Para o seu lugar, é contratado Alban "Snoopy" Pfisterer (em baixo), ironicamente um pianista com formação clássica.

Alban "Snoopy" Pfisterer.
Entretanto, começam-se a fazer planos para se iniciarem as gravações do primeiro álbum, simplesmente intitulado "Love". Devido a razões não especificadas, John Fleckenstein é levado a também saír desta banda logo antes de se iniciarem as gravações desse primeiro álbum. Arthur Lee passaria a também se ocupar do baixo eléctrico, enquanto não fosse encontrado um substituto convincente para este instrumento.
Por fim, este é encontrado no experiente baixista Ken Forssi (em cima), que chega mesmo a tempo de participar nas gravações do primeiro disco. É esta a formação que aparece tanto na capa do primeiro disco, como nas primeiras fotografias promocionais da banda.
Da esquerda para a direita: Ken Forssi, Arthur Lee, Alban "Snoopy" Pfisterer, Johnny Echols e Bryan MacLean.

Logo a seguir ao lançamento do primeiro disco, o grupo decide incluir entre os seus membros o baterista Michael Stuart (em baixo), até então membro de uma banda de "garage rock" denominada "The Sons Of Adam". Nesta banda, também se destacava Randy Holden, guitarrista lendário que, depois integraria a banda "Blue Cheer". Este grupo, do qual não existem muitos registos sonoros gravados, não era mais do que uma entre outras bandas que actuavam, com frequência, nos mesmos lugares que os "Love".
Michael Stuart


The Sons Of Adam - Take My Hand (1965).

The Sons Of Adam em 1966. Joe Kooken, Randy Holden, Mike Port e Michael Stuart (da esquerda para a direita).

Michael Stuart já era, há algum tempo, conhecido de Alban "Snoopy" Pfisterer e Ken Forssi. Isso facilitou a sua rápida integração na banda. A sua competência na bateria, onde se destaca quer a sua variedade de estilos desde o jazz ao rock pesado, quer a sua capacidade de improvisação, seria um dos elementos que mais definiria o som dos "Love".
Michael Stuart.

Love - !Que Vida! (1966). Ouça-se com atenção a execução da bateria de Michael Stuart.

Desta forma, Alban "Snoopy" Pfisterer, transita para os teclados, onde ele era verdadeiramente exímio. A decisão de aumentar a importância dos teclados na sua música, levaria os "Love" a não pôr de parte a ideia de incluir também instrumentos de sopro. Na sequência disto, decidem convidar também um outro músico, Tjay Cantrelli (em baixo, à direita), este um saxofonista e flautista com formação jazzística e já deles conhecido há vários anos. Assim a banda "Love" vê os seus elementos integrantes aumentados para sete, operando-se igualmente uma mudança quase radical no seu som, chegando-se a aproximar daquilo que, mais tarde, seria caracterizado como "Fusão" ("Fusion"), ou seja, uma fusão de música rock e jazz. Esta (curta) fase aparece eternizada no álbum "Da Capo", gravado e lançado na segunda metade de 1966. Foi também um período marcado por constantes digressões que, para além de darem a conhecer os "Love" a uma audiência cada vez maior, contribuíram para um aumentar das tensões no interior do grupo, agravadas pelo uso crescente de drogas cada vez mais pesadas e uma vida pouco regrada. Isto contribuiria, decerto, para a saída de Alban "Snoopy" Pfisterer e Tjay Cantrelli.



Da esquerda para a direita: Johnny Echols, Bryan MacLean, Ken Forssi, Arthur Lee e Michael Stuart.
Aquando da gravação do álbum “Forever Changes”, o grupo era constituído, para além de Arthur Lee na voz e na guitarra, Johnny Echols, na guitarra principal, Bryan MacLean na guitarra-ritmo, Ken Forssi no baixo e Michael Stuart na bateria e percussão.
Da esquerda para a direita: Michael Stuart, Johnny Echols, Ken Forssi, Bryan MacLean e Arthur Lee em 1967.
O álbum “Forever Changes”, foi lançado em Novembro de 1967, tendo as suas gravações se iniciado em Junho desse mesmo ano, com diversas paragens pelo meio. Não se pode dizer que a banda estivesse a atravessar o seu melhor momento. Apesar de todo o culto que se havia constituído à volta dos “Love”, os seus dois álbuns anteriores não haviam sido um sucesso em termos de vendas, apesar de alguns singles terem, ocasionalmente, beliscado os lugares inferiores das tabelas de êxitos. Aliás, o grosso dos fãs não se encontrava em território americano, mas antes na Europa, com especial destaque para as ilhas britânicas, onde se contavam diversos músicos que citavam, com frequência, Arthur Lee e os “Love” entre as suas principais influências. Basta citar Syd Barrett, o primeiro mas breve líder dos “Pink Floyd”, e Jimi Hendrix, que também havia estado em algumas bandas anteriores de Arthur Lee, antes de iniciar a sua meteórica carreira a solo, entre 1966 e 1970.Por outro lado, as constantes digressões e pressões próprias da vida artística, haviam introduzido no grupo grandes doses de álcool e, sobretudo, drogas cada vez mais duras, ao ponto de afectar a performance dos seus membros, quer ao vivo quer em estúdio. Terá sido, aliás esta a razão principal para os membros dos “Love”, à excepção de Arthur Lee e Bryan MacLean, não terem participado nas primeiras sessões de gravação de dois dos temas a incluir no álbum final. Aqui houve o breve recurso a alguns músicos de estúdio. Nas sessões seguintes, que se arrastariam, com diversos intervalos pelo meio, até Setembro de 1967, todos os elementos dos “Love” puderam fazer a sua devida participação, com a condição de estarem na sua melhor forma possível.

Um aspecto que enriqueceu ainda mais a singularidade deste disco foi a utilização de uma orquestra de cordas e metais, dirigida por David Angel, o que contribuiu para aumentar tanto a expressividade como a carga dramática dos temas. Este álbum, mais do que os dois anteriores, é profundamente dominado pela personna de Arthur Lee. Mesmo nos temas que não são originalmente da sua autoria e onde a sua voz não é a principal, a sua influência é incontestável. O essencial das letras das canções, centra-se numa visão, mais pessimista do que optimista dos tempos que então corriam. Arthur Lee, inclusive, sentia que iria morrer em breve e, dessa forma, essas seriam as suas últimas palavras, o que, felizmente, acabaria por não acontecer. Mesmo assim, apesar de terem como ponto de partida a realidade do ano da sua edição, neste caso 1967, as letras de "Forever Changes" permanecem, até hoje, profundamente actuais. Musicalmente, é o album mais difícil de definir dos "Love". Nele entrecruzam-se muitas influências, desde o rock psicadélico até ao country, passando mesmo pela música clássica.

Mais uma vez, o então novo álbum dos "Love" não obteve o sucesso de vendas esperado, apesar de, já nessa altura, começarem a surgir algumas vozes elogiando a sua genialidade, não detectada à primeira audição. Terá sido esta nova falta de êxito, associada ao clima de grande tensão e instabilidade vivida então dentro da banda, que terá precipitado o fim dos "Love" em 1968

Love - "Your Mind And We Belong Together" (1968).

A partir de então, os caminhos dos seus membros começam a se afastar. Terá sido só a partir de então que a obra musical deste grupo começou a receber a gradualmente a devida consideração. É verdade que, pouco tempo depois, Arthur Lee decidiu refundar os "Love", com elementos completamente novos. O problema foi que a "chama" já se tinha extinto e não se conseguiu produzir de novo a riqueza e coesão existente na formação original. Desta forma, o álbum "Four Sail" (em baixo), editado em 1969, foi um novo fracasso discográfico.

Ao longo da década de 70, foram surgindo cada vez mais músicos reconhecendo o legado da formação original dos "Love" e Arthur Lee, em grande parte devido ao seu espírito de liderança, adquiriu um crescente estatuto de "lenda artística", nunca alcançado durante o irrepetível período de 1965-1968. Assim, o número de apreciadores dos "Love" originais, agora tornados quase míticos, não pararia de aumentar. Isto contribuiu para incentivar as diversas tentativas, mal sucedidas, de voltar a reunir a banda, não só da parte de Arthur Lee, como de Bryan MacLean. O destino e a sorte dos seus membros originais decerto que não ajudou muito a concretizar esse sonho de muitos fãs. Arthur Lee, foi detido em 1996, por uso e porte de arma ilegal, tendo acabado por ser condenado a cinco anos de prisão efectiva, consequência também de recorrentes problemas legais no passado. Durante a sua detenção, recusaria quaisquer entrevistas.
Desta forma, quando, em 1997, se comemoraram os 30 anos do lançamento do álbum "Forever Changes" dos "Love", quem acabou por se mostrar disponível para dar entrevistas foi, ironicamente, Bryan MacLean. Desde os tempos dos "Love", Bryan MacLean, surgia sempre na sombra da figura lendária de Arthur Lee. Dizia-se mesmo que existia uma surda competição entre os dois, quase sempre vantajosa para Arthur Lee, compositor prolífico e homem com uma personalidade de líder. Era sempre Arthur Lee quem acabava por dar as cartas e ditar as regras no seio dos grupos a que pertencia. Desta forma, durante muito tempo, a história de tudo o que se relacionasse com os "Love", era contada na sua perspectiva.
Estando agora Arthur Lee a cumprir pena de prisão e indisponível para quaisquer entrevistas, quem passou a ser o detentor por excelência de todas as memórias dos "Love" seria Bryan MacLean.
Bryan MacLean
 Sendo assim, seria a vez dele contar o seu lado da história, revelando factos e perspectivas até então ignoradas. Com os 30 anos do álbum "Forever Changes" na ordem do dia, Bryan MacLean foi muito requisitado para entrevistas, com destaque para uma magnífica entrevista para a revista "MOJO". Bryan MacLean encontrava-se a atravessar uma das melhores fases da sua vida. Considerava-se um homem renascido. Havia, segundo disse, ultrapassado todos os problemas relacionados com drogas e álcool que o haviam atormentado durante muitos anos.
Sentia-se um homem feliz e em paz com o seu passado. Aproximou-se da religião, que ele considerou um factor importante nesta sua nova fase positiva. Reconciliou-se com algumas pessoas com as quais havia tido conflitos e cortado relações em épocas passadas "menos felizes".
Bryan MacLean em 1997/1998
Havia finalmente redescoberto a felicidade e transmitia uma imagem de homem rejuvenescido e de grande generosidade. Sempre que possível, mostrava-se disponível e empenhado em colaborar em entrevistas, não só da parte de revistas especializadas, como também de investigadores da história não só dos "Love", como também acerca da música dos anos 60. Desde meados da década de 90, Bryan MacLean havia autorizado e incentivado a reedição de muitas canções inéditas suas, com destaque para o seu tempo nos "Love".


Bryan Maclean - Barber John (1967).

Estava igualmente aberto a muitos outros projectos para o futuro, que lhe parecia auspicioso. Infelizmente, esta sua nova vida não duraria muito. Faleceria inesperada e repentinamente, no dia 25 de Dezembro de 1998, enquanto dava uma das suas entrevistas, precisamente numa fase em que se sentia plenamente realizado e em boa forma física.
Bryan MacLean  (1946-1998)

É preciso também referir que, durante este período, faleceria outro dos elementos fundadores dos "Love", neste caso o ex-baixista Ken Forssi, em Janeiro de 1998, vítima de um tumor cerebral, depois de uma vida marcada por problemas com drogas, assaltos e consequentes estadias em prisões, bem como problemas mentais e incapacidade em permanecer num emprego por muito tempo, ficando assim definitivamente impossibilitada uma futura reunião da banda original.
Ken Forssi (1943-1998)

Após a sua libertação, em 2001, Arthur Lee entrou num novo período de verdadeiro renascimento musical. Voltou a reconstituir de novo o seu grupo "Arthur Lee and Love", entrando numa nova fase de digressões mundiais, tendo mesmo passado por Portugal no ano de 2004.
Arthur Lee.

Os seus espectáculos são unânimemente elogiados pela crítica. Vale a pena também salientar o facto de, nos seus últimos anos de vida, Arthur Lee ter interpretado ao vivo, na íntegra, esse momento musical irrepetível que foi "Forever Changes", para além de ter passado a integrar na sua banda um dos últimos sobreviventes dos membros fundadores dos "Love" originais, neste caso John Echols (em baixo).
John (Johnny) Echols.

  O antigo baterista Michael Stuart (em baixo), decide sair do seu longo anonimato e publicar um livro autobiográfico sobre a sua experiência nos "Love", colocando um grande destaque no periodo abrangido pela concepção, gravação, edição e posterior recepção do álbum "Forever Changes", o qual, naquele tempo, não lhe parecia muito perfeito. Acabaria por mudar de opinião posteriormente, pois "se a maioria esmagadora das pessoas achava "Forever Changes" uma obra-prima, ele provavelmente estaria errado". Michael Stuart havia igualmente passado a assinar com o seu nome verdadeiro que é Michael Stuart-Ware.

Michael Stuart-Ware.

Michael Stuart-Ware.
Pelo meio, foi sendo preparado um documentário sobre os anos cruciais dos "Love", com a participação de todos os elementos ainda vivos da banda original, incluindo neste caso, para além do seu líder, John Echols e Michael Stuart-Ware (em cima), e também os produtores Bruce Botnick e Jac Holzman, sem esquecer David Angel, responsável pela memorável orquestração de "Forever Changes". Pode-se afirmar que Arthur Lee estava, finalmente, a obter o reconhecimento devido, quando uma leucemia mielóide pôs termo à sua vida no dia 3 de Agosto de 2006.
Arthur Lee (1945-2006).

Mas vamos agora ao que interessa: as minhas músicas selecionadas do "Forever Changes" dos Love.

Love - Alone Again Or (1967). Aqui a voz de Bryan MacLean surge em grande destaque.

Love - A House Is Not A Motel (1967). "The news of today, will be the movies for tomorrow".

Love - Andmoreagain (1967).

Love - The Red Telephone (1967). "Sitting on a hillside/Watching all the people die/I feel much better on the other side"; "I believe in magic (magick?)/Because it is so quick"; "And if you think I'm happy/Paint me (white) (yellow)"; "Sometimes I deal with numbers/And if you wanna count me/Count me out".

Love - Maybe The People Would Be The Times Or Between Clark And Hilldale (1967).

Love - Live And Let Live (1967).

Love - Bummer In The Summer (1967).


Documentário sobre o grupo musical Love, com muitos dos elementos intervenientes então ainda vivos, com destaque para Arthur Lee.

sábado, maio 29, 2021

Bee Gees - "Bee Gee's First" (1967) e "Horizontal" (1968)



Em Janeiro de 1968, era editado o álbum “Horizontal” dos Bee Gees. Na carreira deste grupo, este disco é geralmente considerado o segundo, depois de um que teve precisamente o título “Bee Gees’ First” ou simplesmente “First”. Esta informação não é totalmente correcta e tem induzido muita gente em erro. Na verdade, os dois álbuns referidos são simplesmente os dois primeiros da sua fase britânica ou carreira na Europa Ocidental, que, em virtude do sucesso obtido, se prolongou, como uma linha contínua, terminada na primeira década deste século, devido à morte de Maurice Gibb em Janeiro de 2003, com alguns interregnos e fases menos bem sucedidas pelo meio. Robin Gibb, depois de ter uma carreira paralela a solo, mais bem sucedida do que a dos outros irmãos, faleceria em 2012.

Na verdade, a sua carreira não se iniciou só em 1967. Tendo nascido em Inglaterra, de um casal de músicos, os irmãos Barry, Robin and Maurice Gibb, haviam emigrado, no ano de 1958, para a Austrália. De referir que, por volta desta altura, nasceria um quarto irmão, Andy Gibb, que nunca fez parte do grupo musical “Bee Gees” e que morreria, prematuramente, aos 30 anos, em 1988, depois de uma carreira a solo muito instável.

Desde muito novos, revelaram um talento inato para a música, tendo começado, desde logo, a cantar e a tocar. No começo da década de 60, ganharam, por mais do que uma vez, concursos locais de novos talentos. Do seu repertório faziam parte diversos êxitos então muito em voga. Aliás, existem diversos documentos filmados de algumas das suas actuações ao vivo, inclusive, transmitidas na televisão australiana. 

The Bee Gees - "Hilly-Billy-Ding-Dong-Choo-Choo" (1963).

Apesar de ainda adolescentes, não deixaram de despertar interesse nas editoras discográficas locais. O irmão mais velho, Barry Gibb, começaria, desde logo, a escrever canções e foi a partir daqui que eles obtiveram o seu primeiro contrato discográfico, em 1963, com a editora “Festival”. Daí que, em rigor, se pode afirmar que a sua carreira musical começou neste preciso ano, pelo menos a nível discográfico.
Bee Gees - "Timber!" (1963).

Bee Gees - "Take Hold Of That Star" (1963).

Bee Gees - "Peace Of Mind" (1964).

Bee Gees - "Turn Around Look At Me" (1964).

Bee Gees - "Theme From Jaimie McPheeters" (1964).
Bee Gees - "Wine & Women" (1965). O seu primeiro hit australiano. 

Bee Gees - "Follow The Wind" (1965). Influência óbvia do tema "Blowing In The Wind" de Bob Dylan.

Bee Gees - "I Was A Lover, A Leader Of Men" (1965).

Bee Gees - "How Love Was True" (1965).

Bee Gees - "I Don't Know Why I Bother With Myself" (1966). 

Bee Gees - "Tint Of Blue" (1966). 

Bee Gees - "Glass House" (1966).

Bee Gees - "All By Myself" (1966). Uma das primeiras canções assinadas pelo irmão Maurice Gibb (1949-2003).

Bee Gees - "Coalman" (1966).

Bee Gees - "I Am The World" (1966).

Bee Gees - "Second Hand People" (1966).

Bee Gees - "In The Morning" (1965-1966).

Gravariam, até 1966, toda uma série de canções, na sua esmagadora maioria escritas pelo irmão Barry Gibb, distribuídas por mais de uma dezena de singles e dois LPs, o que não deixa de ser notável. Foi nesta fase crucial que eles desenvolveram o estilo vocal e de composição musical que caracterizaria muita da sua vasta carreira futura. Acontece que, durante estes quase quatro anos, eles eram praticamente só conhecidos a nível local e correriam o risco de não ser mais do que uma das muitas bandas que tentavam, nessa época, singrar no mundo da música, quase sem sucesso, se não fosse a sua decisão ousada de regressar ao seu país de origem.

Desembarcariam nas Ilhas Britânicas, no começo de 1967, trazendo na bagagem as muitas gravações editadas até então. Nessa fase tinham como grande referência musical os “Beatles”. Aliás, o próprio Maurice Gibb afirmaria, mais tarde, que, na sua fase australiana, eles se caracterizavam como um grupo de jovens músicos tentando ser como os seus ídolos. De facto, se se reparar nos temas gravados em 1965 e 1966, é quase possível considerá-los uma espécie de “Beatles australianos”. Estando já, decerto, previamente informados de que o manager dos “Beatles” era Brian Epstein, vai ser precisamente à porta deste que eles irão bater.
A sua intenção era, sem dúvida, apostar numa carreira no mercado discográfico anglo-americano, que já era muito poderoso nessa época. Pode-se afirmar que muitos dos cantores e grupos musicais cuja obra não circulasse neste vastíssimo e dominante mercado editorial, acabavam por ser como que “virtualmente inexistentes” ou apenas localmente divulgados.

Após escutar muitas das suas gravações da fase australiana, Brian Epstein reconheceu-lhes uma grande qualidade e potencial sucesso. Acabou por encaminhá-los para um seu amigo, também produtor, Robert Stigwood, o qual também os reconheceu como um grupo de grande valor, em todos os aspectos. Este Robert Stigwood seria, a partir de então e por muitos anos, o seu produtor por excelência. Curiosamente, Stigwood era australiano de nascença.
Paralelamente, os irmãos Gibb haviam tomado conhecimento com dois outros músicos australianos e, como eles, a viver em Inglaterra, embora de nacionalidade efectivamente australiana. Eles eram Vince Melouney, guitarrista, e Colin Petersen, baterista, ambos já com alguma experiência musical noutros grupos.
Segundo documentam algumas fotos promocionais, durante um breve período, nos meses imediatamente subsequentes à sua chegada à Inglaterra, os Bee Gees, muito à maneira dos seus ídolos "Beatles", surgem como um quarteto, com Colin Petersen na bateria. Nesta breve fase, já com contrato assegurado, estavam ainda a promover o seu "tema-passaporte" "Spicks And Specks", já lançado no ano anterior (1966) na Austrália. 

Bee Gees - "Spicks And Specks" (1966/1967). Na capa desta coletânea os Bee Gees surgem como um quarteto com Colin Petersen à direita.

De qualquer forma, já tinham, entre o seu seu círculo de relações, um certo Vince Melouney, guitarrista e cantor australiano, também já com uma carreira no seu país de origem, sob o nome de "Vince Maloney". Logo que este decidiu retomar o seu apelido de origem, ingressou, oficialmente, nos Bee Gees

Bee Gees - "All Around My Clock" (1967).

Bee Gees - "Gilbert Green" (1967).

Desde logo, começam a escrever e a gravar as canções que iriam constituir o material incluído no seu LP “Bee Gees’ First”, o qual não era, em rigor, o seu primeiro. Acontece que os “Bee Gees” agora moviam-se dentro de um outro circuito discográfico, que os daria a conhecer a um público mais vasto e a promovê-los devidamente, através de, nomeadamente, um maior número de actuações ao vivo mais frequentes. Numa certa perspectiva, pode-se afirmar que a sua carreira levaria o impulso necessário a partir do momento em que as suas canções começam a ser gravadas e editadas no mercado anglo-americano, porque foi aqui que os “Bee Gees” começaram a ser, efectivamente, famosos. Aliás, a sua fase australiana só ganhou importância posterior, em virtude do sucesso mundial obtido logo a partir de 1967.

Bee Gees - "Turn Of The Century" (1967).

Bee Gees - "Holiday" (1967).

Bee Gees - "One Minute Woman" (1967).

Bee Gees - "Craise Finton Kirk Royal Academy Of Arts" (1967).

Como se veio a verificar, o seu LP "Bee Gees' First" tornou-se num sucesso à escala mundial. Não só devido à qualidade das canções, mas também devido a uma eficiente campanha de divulgação, que incluía espectáculos ao vivo e na televisão. O efeito da "novidade" também teve aqui o seu papel importante. Mesmo assim há que compreender que, quando um grupo musical grava o seu primeiro disco ou, como aqui acontecia, relançava a sua carreira num contexto e em moldes diferentes, era sempre um "tiro no escuro". A capa deste disco foi concebida e desenhada por Klaus Voormann, o tal grande amigo dos Beatles, que estes conheceram na sua fase de espetáculos em Hamburgo (por volta de 1961) e cuja namorada de então, Astrid, foi responsável pela sua mudança de penteado, que tanto impacto haveria de causar no Mundo. De referir que esta namorada foi, segundo se diz, "roubada" a Klaus por um certo "5º Beatle" e baixista Stuart ("Stu") Sutcliffe, que acabaria por morrer em Hamburgo, pouco tempo depois de iniciar uma muito breve carreira de pintor e desenhador...

Bee Gees - "New York Mining Disaster" (1967). Este foi, de facto, o primeiro grande êxito dos Bee Gees...

Bee Gees - "To Love Somebody" (1967). ...logo seguido por este.

Bee Gees - "I Can't See Nobody" (1967). A cantora Nina Simone (1933-2003) lançaria, em 1969, uma das mais bem conseguidas covers deste tema.

Bee Gees - "Close Another Door" (1967).

A sua experiência de gravação em estúdio era, de igual modo, bastante superior à de muitos cantores e músicos da sua faixa etária. Ao contrário do que muitos, ainda hoje, julgam, o "Bee Gees' First" foi, de facto, o seu terceiro LP gravado. Acontece que, no universo das reedições em CD, este "primeiro" trabalho surge como o mais antigo que se conhece dos Bee Gees, o que tem continuado a induzir muita gente, incluindo fãs, em erro. Desta forma, "Horizontal", o disco que se lhe seguiu, foi, na verdade, o seu quarto LP

Bee Gees - "And The Sun Will Shine" (1967-1968).

Bee Gees - "Lemons Never Forget" (1967-1968).

Bee Gees - "Birdie Told Me" (1967-1968).

Bee Gees - "Massachusetts" (1967-1968).

Bee Gees - "Day Time Girl" (1967-1968).

Bee Gees - "Horizontal" (1967-1968).

O "Horizontal", gravado nos últimos meses de 1967, e editado em Janeiro de 1968, foi já criado num contexto de êxito confirmado e foi a sua verdadeira primeira consagração mundial.  Essa crescente confiança em si mesmos, reflectiu-se no próprio LP, mais conciso e ambicioso do que o anterior. Quase todos os seus temas, talvez exceptuando "Harry Braff" e, de certa forma, "The Earnest Of Being George", merecem destaque pela qualidade e elaboração, tanto em termos de música como de letras. No entanto, mesmo os dois fillers atrás referidos, conseguem a sua "tábua de salvação" nos sólidos arranjos instrumentais.

Bee Gees - "Out Of Line" (1967-2006). Este tema poderia muito bem ser o único êxito de outro qualquer grupo. Mesmo tratando-se de, provavelmente, uma demo, mesmo aqui, os Bee Gees são bons... Conseguem ter a qualidade de temas finais!

Bee Gees - "Words" (1967). 

Bee Gees
- "Sir Geoffrey Saved The World" (1967). O lado B do single "World". Não ficava nada mal como lado A ou integrando algum LP.

Bee Gees - "Mrs. Gillespie's Refrigerator" (1967-2006). Trata-se apenas de uma demo, cuja a letra é, na melhor das hipóteses, surrealista, senão mesmo algo bacoca e a roçar o ridículo. Todavia, mesmo aqui, os Bee Gees mostram a sua excelência. Até 2006, a única versão deste tema que existia era de um grupo, quase desconhecido, chamado "The Sands", lançada em 1967. Aliás, pensa-se que este tema foi escrito precisamente a pensar nesse grupo psicadélico britânico que se estava a lançar... e que não passou daí... A versão desses "The Sands" é completamente "metida no chinelo" ao ouvir-se a demo original dos Bee Gees!

The Sands - "Mrs. Gillespie's Refrigerator" (1967). No encerramento desta versão, ouvem-se "ecos" de um outro tema, lançado no ano anterior (1966), por um certo Lee Mallory (1945-2005): "That's The Way Its Gonna Be". Este tema teve, por sua vez, a autoria de um outro nome muito injustamente esquecido: Phil Ochs (1940-1976). Todavia, quem o interpretaria, em "demo", durante as sessões de gravação do single do já referido Lee Mallory e que serviria como "guide vocal" deste, seria o genial e também muito injustamente esquecido Curt Boettcher (1944-1987).

The Sands por volta de 1967.


Bee Gees - "God's Good Grace" (1970/1971). Eis um exemplo de tema inédito dos Bee Gees que já era tempo de ter um lançamento oficial. Muitas vezes, é entre os temas inéditos que se encontram os melhores... Por sinal, este tema vem mesmo a calhar para o período que atualmente (2021) nós vivemos. Ventos de guerra soam aqui e ali em diversas partes do mundo... Tal como a letra diz: "And Tough I Was Not Born/ To Fight In World War 2/All I Know In My Mind/We Don't Want Another Like That To Pursue". A voz em destaque neste tema é, como no vídeo se faz questão de salientar, é Robin Gibb (1949-2012). Muitos consideram-no a melhor e mais original voz dos Bee Gees.

Eis a letra:

Thank God’s good grace we’re beginning
Thank God’s good grace I’m alive
Thank God’s good grace we are winning
Our will to survive

And though I was not born
To fight in World War II
All I know in my mind
We don’t want another like that to pursue
We don’t want another like that to pursue

Thank God’s good grace that we’re seeing
The terrible mess we are in
Thank God’s good grace we are leading
Our course to begin

And they can’t make films
As good as you see on the street
If you want to do some good
It will take a lifetime
It will take a lifetime

Thank God’s good grace we’re beginning
Thank God’s good grace I’m alive
Thank God’s good grace we are winning
Our will to survive

Thank God’s good grace
Thank God’s good grace
Thank God’s good grace
Thank God’s good grace

Thank God’s good grace...

Bee Gees - "My World" (1972).

Bee Gees - "Road To Alaska" (1972)

Bee Gees - "Country Lanes" (1975).

Robin Gibb - "Juliet" (1983).

Bee Gees - "Ordinary Lives" (1989).

Bee Gees - "This Is Where I Came In" (2001).


quarta-feira, maio 05, 2021

Finlândia: Uma outra frente de guerra.

"Soldados" finlandeses. A sua condição real era mais equiparável à de legionários ou milicianos, dado o seu fraco armamento e um treino militar muito básico e, por isso deficitário.





Quando a 2ª Grande Guerra despoletou, em 1939, muitos referem como o único acontecimento bélico determinante dessa fase, a invasão da Polónia pela Alemanha nazi em 1 de Setembro desse mesmo ano. Na realidade, a partilha da Polónia no pacto Germano-Soviético que precipitou o desencadear de mais este conflito, seria também o primeiro passo para a formação de uma outra zona de conflito: a Finlândia. Este pequeno país, o mais oriental da zona a que se dá o nome de Escandinávia, havia estado, entre 1809 e 1917, sob o domínio do vasto império russo, após ter estado nas mãos da Suécia. Só obteria a sua verdadeira independência no ano de 1917, após a revolução de Outubro, que levaria à desagregação do império dos Czares. 
    
    Para a constituição desta nova nação, muito terá contribuído a conjuntura favorável da desagregação dos grandes impérios derrotados no conflito bélico de 1914-18 que então terminava. Na sequência da criação de novos países, a Finlândia viu reconhecida a sua independência e, após um breve período monárquico entre Outubro e Dezembro de 1918, veria instaurado o regime republicano daí em diante, tendo o seu primeiro presidente sido eleito logo no começo de 1919. Ainda no ano de 1918, a Finlândia seria palco de uma breve mas dura guerra civil, entre os “Brancos”, essencialmente constituídos pela classe burguesa e apoiados pela Alemanha Imperial, e os “Vermelhos”, vasta e heterogénea facção constituída por operários e trabalhadores rurais sem propriedade, grandemente apoiada pela então nova Rússia bolchevique. Os “Brancos” acabariam por vencer os “Vermelhos” num breve espaço de tempo, mas as sequelas políticas e sociais desta guerra civil perdurariam por décadas. Por outro lado, manter-se-ia um clima de relações muito tensas entre a Finlândia e a União Soviética pelos anos que se seguiriam. 
    
    Outro factor que aumentaria este clima de hostilidade mútua seria o facto de os governos eleitos desde a sua independência serem dominados por uma corrente ideológica anti-comunista. Esta situação manter-se-ia mais ou menos inalterada até o desencadear da 2ª Guerra Mundial. A partir de então, tendo a União Soviética, na sequência do acordo Germano-Soviético, invadido a metade Leste da Polónia, aquela começa a tentar entrar em negociações com a Finlândia. Sob o pretexto da necessidade de garantir a defesa das suas fronteiras ocidentais, devido a um então ainda não assumido receio relativamente ao expansionismo germânico, a União Soviética pretendia instalar bases militares em diversos locais estratégicos mais a Norte. O governo finlandês não concordaria com as exigências territoriais da União Soviética

Encontro entre as tropas finlandesas e elementos da imprensa estrangeira, a 29 de Novembro de 1939, na sequência de um incidente em Mainila, uma aldeia soviética localizada junto à fronteira com a Finlândia, ocorrido três dias antes, e que seria o "pretexto" para o desencadear das hostilidades por parte das forças soviéticas. Na verdade, o que tinha acontecido foi que as forças soviéticas, num eventual exercício com fogo de artilharia (e por um erro de cálculo? Ou seria afinal já algo previamente orquestrado?), acabaram por atingir esta povoação russa.
Sem hesitação, o lado soviético tratou de atribuir este "ato de agressão puramente deliberado" ao lado finlandês o qual, assim, passaria por "agressor", tendo este, obviamente, negado veementemente tal ação. Como era de esperar, todo o esforço diplomático empreendido pelo lado finlandês não teve sucesso, pois a União Soviética, logo de seguida, renunciaria unilateralmente ao "Pacto De Não-Agressão" com a Finlândia, que havia sido assinado em 1932.
Desta forma, o encontro com a imprensa estrangeira não evitaria o desencadear da subsequente "Guerra de Inverno" (1939-1940), mas revelar-se-ia oportuno para confirmar que a Finlândia, um dia depois (30 de Novembro de 1939), é que acabaria por ser vítima de um "ato de agressão puramente deliberado".

Explosão de um projétil soviético num aquartelamento finlandês.

    Na sequência disto, desenvolveu-se um clima de desconfiança mútua, que havia de culminar no desencadear de uma nova frente de batalha, a que se deu o nome de “Guerra de Inverno”, no dia 30 de Novembro de 1939. A partir desse dia, a União Soviética começa a invadir as zonas finlandesas que então requeria. Do outro lado, a nação finlandesa, militarmente pouco poderosa, mas profundamente conhecedora do seu terreno, decide iniciar uma defesa encarniçada das suas zonas fronteiriças de então.


                                 Tropas finlandesas.


Tanque soviético T- 26.

O que havia ocorrido na região russo-finlandesa durante o chamado "Drole de Guerre" ou "Guerra Falsa" (supostamente um período em que os combates haviam, temporariamente, cessado) (1939-1940), na verdade, era uma pequena mas muito expressiva amostra do que ocorreria, mais tarde, em quase todos os cenários de guerra até 1945. Isto é a prova de que o "Drole de Guerre", afinal, não passou de um mito.

Reportagem animada acerca da referida "Guerra de Inverno" (1939-1940), entre a Finlândia e a União Soviética.

Este breve, mas muito violento, conflito local estender-se-ia apenas até Março de 1940, quando o exausto e desorganizado exército finlandês, se vê forçado a aceitar um armistício com a União Soviética

A bandeira nacional finlandesa a "meia-haste" na sequência do armistício com a União Soviética, em 1940, o qual implicaria importantes perdas territoriais (11% do território original) por parte da Finlândia.

Na sequência deste acordo de paz, a Finlândia perderá diversas partes da sua zona mais oriental, desencadeando-se um dos primeiros movimentos de refugiados de todo o conflito mundial. 

Despojos dos refugiados finlandeses, provenientes das zonas orientais cedidas à União Soviética, na sequência do referido acordo de paz, em 1940.

Mais tarde, na sequência da invasão da União Soviética pelo 3º Reich, tendo-se iniciado a denominada "Guerra da Continuação" (1941-1944), a Finlândia recuperará, por breves anos, estas zonas estratégicas, mas depois seria forçada a abdicar delas, quando, em 1944, o Exército Vermelho avançou para Ocidente. 


Uma coluna militar soviética após uma emboscada por parte das forças finlandesas.

Soldados soviéticos prisioneiros, muitos deles feridos.

Soldados finlandeses em 1944, numa posição defensiva, envergando uniformes fornecidos pelo exército germânico.





Cartaz relativo aos bombardeamentos da aviação soviética, que haviam começado a 30 de Novembro de 1939. A cidade de Helsínquia seria, após o início da 2ª Guerra Mundial, a segunda cidade a sofrer sérios ataques aéreos, a seguir a Varsóvia. Esta situação causaria um imenso escândalo por entre as nações aliadas e seria a principal razão para a expulsão da União Soviética da Sociedade das Nações.

Reportagem relativa à expulsão da União Soviética da Sociedade das Nações, na sequência dos ataques aéreos sobre a Finlândia, em 1939.

Igreja bombardeada, localizada longe de Helsínquia.

Inspeção aos destroços de um avião soviético.

Tropas finlandesas observando os incêndios provocados pelos bombardeamentos da aviação soviética, em 1939.

Logo na tarde de 30 de Novembro de 1939, Helsínquia é alvo de um violento bombardeamento, por parte da União Soviética. Na imprensa da época, foi comparado ao que a Alemanha nazi havia feito a Varsóvia, poucos meses antes.









Mais uma vez, era a população civil quem mais sofria com os bombardeamentos...

Após 1940, a Finlândia atravessaria um período em que os bombardeamentos pela aviação soviética eram muito esporádicos. Mesmo assim, a ameaça mantinha-se no ar...




Após um período de relativa acalmia, os bombardeamentos sobre Helsínquia regressaram em força, em 1944.



O edifício principal da Universidade de Helsínquia em chamas, em 1944.

Os bombardeamentos aéreos foram mais destruidores em Fevereiro de 1944.



Mobiliário e outros objetos resgatados dos edifícios da Universidade de Helsínquia.








De referir que, quer durante a "Guerra de Inverno" de 1939-1940, quer na fase de 1944, quando a União Soviética já assumia uma nova posição atacante, a Finlândia sofreria alguns bombardeamentos aéreos, nomeadamente na sua capital Helsínquia. A intenção era, obviamente, forçar este país a uma rendição mais imediata. O que acabaria por acontecer em 1944.

Avião bombardeiro da Força Aérea Soviética  "Mitchel" de fabrico norte-americano.

Holofote pertencente à defesa antiaérea da zona metropolitana de Helsínquia.

Canhões antiaéreos em ação durante um bombardeamento noturno. Este modelo de canhões era da marca "Bofors", semelhantes a muitos usados pela Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial. Aliás, o seu muito obsoleto armamento defensivo havia sido reforçado, desde 1939, graças a um movimento de solidariedade por parte de diversas nações europeias, que estavam conscientes da grande desvantagem, em termos de capacidade bélica, da Finlândia relativamente ao "gigante" soviético.

No entanto, devido ao facto de a força de bombardeiros soviética estar a "anos-luz" da capacidade e organização da anglo-americana, bem como das parcas defesas anti-aéreas finlandesas serem suficientes, os danos causados foram mínimos, quando comparados com o que aconteceria com outras cidades europeias durante a Segunda Guerra Mundial. De referir ainda, que os símbolos visíveis nos caças defensivos finlandeses, apesar das fortes semelhanças, não tinham nada que ver com o nazismo. Tratava-se apenas de um símbolo da Força Aérea Finlandesa, sem nenhum significado ideológico.Aviões de guerra finlandeses com o símbolo original da Força Aérea Finlandesa, igual ao da cruz suástica ou gamada germânica.

Apesar de tudo, quando terminou a 2ª Guerra Mundial, devido a estas grandes semelhanças e ao forte repúdio pela simbologia nazi que se lhe seguiu, a Finlândia teve de eliminar definitivamente este símbolo dos seus aviões.

O conde Carl Gustaf Mannerheim (1867-1951), comandante supremo das forças finlandesas. Seria, posteriormente (1944-1946), Presidente da Finlândia.



Não se pode afirmar que a Finlândia estivesse, de facto, em confronto com os Aliados. Aliás, este país nunca participaria nos grandes teatros de guerra, onde a Alemanha nazi e os seus aliados, incluindo a Itália e a Roménia fascistas, marcaram presença. A sua atuação foi mais localizada na sua região fronteiriça oriental. Acontece que, antes de 1944 e enquanto o Exército Vermelho se mantinha numa posição defensiva, antes de este, a partir de 1943, avançar imparável para Ocidente, este país havia mantido relações de proximidade com a Alemanha nazi. 

O conde Mannerheim e Adolf Hitler, aquando da visita deste à Finlândia.


Só em 1944 a Finlândia cessaria as relações de proximidade e aliança com o Eixo e se declararia apoiante do lado dos Aliados. Desta forma, quando se teve de render às forças soviéticas e como estas faziam parte do lado aliado, a Finlândia acabaria por ficar do lado dos derrotados. Apesar de não ter sofrido sanções como aconteceria com as forças do Eixo, a Finlândia perderia vastas zonas territoriais da sua parte oriental para a União Soviética, desta vez definitivamente, embora, em alguns círculos, esta questão nunca tenha ficado definitivamente encerrada. Há ainda quem defenda a "restituição" total destas terras à Finlândia.  Entre estas estava a maior parte uma das suas zonas mais históricas, conhecida pelo nome de Karelia, que teria sido uma fonte de inspiração para o compositor finlandês Jan Sibelius.
Jean Sibelius - "Karelia Suite - Intermezzo".

The Nice - "Intermezzo From The Karelia Suite (Jean Sibelius)" (1968). Interpretação genial da peça de Sibelius feita por esta banda britânica de rock "progressive", onde liderava o famoso e virtuoso teclista Keith Emerson (1944-2016), o qual, em 1970, fundaria o memorável grupo "Emerson, Lake & Palmer", com o vocalista, guitarrista e baixista Greg Lake (que antes, em 1969-1970, havia sido o vocalista principal da banda "King Crimson" esta liderada pelo génio Robert Fripp (1948-) e o baterista e percursionista Carl Palmer.