domingo, dezembro 27, 2020

A imagem de Nuremberga


Uma das entradas na "Cidade Velha" de Nuremberga antes dos bombardeamentos da 2ª Guerra Mundial.

                  
Fotografia a cores de Nuremberga antes dos bombardeamentos da 2ª Guerra Mundial. Reparar no edifício que surge à direita. Era um moinho de água. Vai aparecer mais adiante numa foto obtida a seguir ao final da Guerra... 










Nuremberga. Ponte coberta (1935-1940).



A cidade de Nuremberga é frequentemente referida na História como o cenário principal dos famosos julgamentos de muitos (não todos) principais líderes e colaboradores nazis, que tiveram lugar a partir de 1945





Tal referência tão valorizadora, também teve como efeito a sua redenção, enquanto cidade histórica, relativamente ao facto de ter sido, durante anos, uma das cidades mais importantes do movimento nazi na Alemanha, senão a sua verdadeira “capital”, título que geralmente era atribuído a Munique




Estão gravados na História Universal os frequentes e megalómanos desfiles de tropas e forças paramilitares do regime de Hitler, sempre com a presença assídua do mesmo, sobretudo antes do rebentar da 2ª Guerra Mundial. Basta referir que aí foi construído, em tempo record, o maior parque de desfiles da Europa, destinado precisamente ao ponto culminante das celebrações nazis, que também incluíam desfiles pelas ruas de Nuremberga, onde os jogos cénicos eram essenciais. 

À direita, a secção Oeste dos edifícios da Câmara Municipal ("Altes Rathaus") enfeitada com bandeiras nazis.




Desfile nazi na grande praça Hauptmarkt. À direita, vê-se parte do conjunto dos edifícios que originalmente existiam no espaço hoje ocupado pela Nova Câmara Municipal ("Neues Rathaus") de Nuremberga. 


Terá residido aqui uma das principais razões que levaram a escolher esta cidade para acolher os principais julgamentos dos dirigentes e políticos, sobretudo entre 1945 e 1946.

Outra razão terá sido o facto de, no final da Guerra, não haver, no núcleo de localidades seleccionadas, incluindo Berlim, nenhum edifício suficientemente grande que oferecesse condições logísticas para a realização um evento, de tão elevada importância, num curto espaço de tempo. Esta circunstância devia-se ao facto de, nas cidades propostas, mais de três quartos dos seus edifícios estarem completamente destruídos ou seriamente danificados. 



No centro da imagem observa-se, quase irreconhecível, a praça Hauptmarkt, em 1945. Nesse local, o único elemento que permanecia salvaguardado, dentro de um bloco de betão, era a fonte Schöner Brunnen.

Fotografia sobre as margens rio Pegnitz que atravessa Nuremberga, depois da Guerra. Em primeiro plano, surgem os restos de um moinho de água, onde se vê um soldado americano, já referido numa foto que surge no começo desta postagem.


O edifício muito arruinado, que se vê à esquerda, é o antigo armazém de carne medieval, conhecido pelo nome de Fleischhaus. A ponte que surge mais no meio da imagem é a Fleischbrucke. No extremo direito da foto, vê-se parte dos destroços do moinho de água referido na foto anterior.

Perspetiva sobre a Cidade Velha de Nuremberga, de Norte para Sul, obtida a partir da praça Egidienplatz, onde existe ainda hoje uma estátua equestre, a que se fará referência mais adiante.


Entrada do exército americano em Nuremberga, em 1945. O edifício que se vê, muito danificado, no centro da imagem é o antigo armazém medieval "Mauthalle".

O referido edifício "Mauthalle", visto da mesma perspetiva, nos primeiros anos da Guerra.

O referido edifício "Mauthalle", em chamas.

Não se poderá dizer que Nuremberga estivesse de alguma forma intacta, muito pelo contrário. A sua Cidade Velha estava destruída numa dimensão na zona dos 90% e, fora deste núcleo urbano, a situação não era melhor. 

O referido tribunal ("Justizpalast") de Nuremberga, onde decorreram os principais julgamentos em 1945 e 1946. Por trás observa-se o semicírculo da prisão anexa.

No entanto, foi encontrado, exactamente no extremo Oeste da sua "Cidade Velha", o seu mais amplo tribunal, o "Justizpalast", dotado de prisão anexa, que surgia como o mais próximo do ideal pretendido. À data da sua selecção, este edifício não estava propriamente em condição pristina. 



Imagens das obras de restauro e adaptação do referido tribunal.


Também havia sofrido alguns danos, embora apenas de proximidade, mas não havia sido atingido pelo fogo, ao contrário do que se encontrava espalhado pela respectiva urbe. Aliás, este tribunal fazia parte de um complexo de vários edifícios construído junto a uma via principal de ligação entre Nuremberga e a pequena cidade próxima de Fürth. Mas, como os efeitos dos abalos dos bombardeamentos próximos não tinham afectado a sua estrutura, salvo algum estuque rachado e desprendido, a sua escolha foi feita sem hesitação.




Imagens do exterior do tribunal de Nuremberga, no decurso dos julgamentos.

De facto, no meio da destruição circundante, um edifício desta envergadura ainda de pé, destacava-se logo de imediato. Nuremberga foi, desde o começo da Guerra, um alvo previsível de bombardeamento. Não só pelo seu interesse industrial, mas também pelo simbolismo que ela carregava, embora, à partida e teoricamente, Munique surgisse mais destacada. De qualquer forma, e ainda hoje assim acontece, Nuremberga apenas tinha à sua frente, na região da Baviera, a cidade de Munique, quer em termos de tamanho quer em termos de importância histórica. É preciso não esquecer que os limites geográficos do que é vulgarmente designado de “Baviera” (“Bayern”) eram, antes de 1945, um pouco diferentes dos atuais. O mesmo se aplica a quase todos os outros ditos “estados federados” da Alemanha actual.




Várias imagens da grande praça Hauptmarkt de Nuremberga. Destaque para a fonte "Schöner Brunnen". A imagem inferior é de 1943 e mostra a referida fonte envolvida numa proteção de betão contra os já cada vez mais frequentes bombardeamentos. 

Nos primeiros tempos da Guerra, a única nação com a qual a Alemanha teria de contar, em matéria de ataques aéreos, era a Grã-Bretanha. Isto delineou desde logo, o possível destino de Nuremberga. Foi, desde logo, uma das poucas cidades da Alemanha a ter um sistema defensivo antiaéreo próximo do que era considerado o melhor naquele país, cujo paradigma era um pequeno punhado de localidades onde surgiam à cabeça Berlim e Hamburgo. Logo na Primavera de 1940 e por ordem expressa do “Führer” Adolf Hitler, foi das primeiras cidades a construir um sistema de abrigos antiaéreos de complexidade notória e, parte das suas zonas subterrâneas, foi seleccionada para armazenar bens culturais da mais diversa ordem, provenientes não só dessa localidade e de outras da Baviera, como Munique e Augsburg, como também de outros lugares mais afastados do solo germânico. No que se refere a este último pormenor, a cadência e o volume não parariam de aumentar ao longo do desenrolar do conflito.

De qualquer forma, inicialmente, as coisas não se processaram em Nuremberga exactamente como se previa.

            Esta cidade, bem como as outras desta região, estavam localizadas numa área demasiado a Sul para o alcance das formações dos bombardeiros britânicos então disponíveis. A R.A.F., quando começou a Guerra estava, em muitos aspectos, atrás das forças germânicas. A força aérea germânica, a Luftwaffe, era das mais avançadas e modernas da época. A Guerra Civil Espanhola, que tinha terminado há pouco, foi o palco onde exibiu a sua faceta mais temível, parecendo mesmo invencível. A Grã-Bretanha percebeu logo a natureza do inimigo que tinha em frente, e o esforço de propaganda da Alemanha nazi, onde muito se destacou Joseph Goebbels, até ao inicio das hostilidades, encarregar-se-ia de propalar essa imagem de, afinal aparente, invencibilidade. Perante um inimigo desta natureza, só havia dois comportamentos a adoptar: ou esperar sentado pela sua chegada, como quem espera uma morte certa, rezando para que não seja muito dolorosa, ou recorrer a todos os meios, recursos e estratégias possíveis, fazendo um esforço concertado máximo e numa corrida contra o tempo, sem ter qualquer certeza concreta de uma possível vitória. Os Aliados podiam ser derrotados mas, até que um tal desfecho ocorresse, não poupariam esforços para se manter em luta até ao fim. O seu potencial verdadeiro não tardaria a se revelar com cada vez maior certeza e evidência. As dúvidas iniciais não cessariam de se evaporar ao longo do decorrer do conflito.

            Todavia, de início, a R.A.F. não dispunha de um avanço tecnológico muito animador, no final do Verão de 1939, apesar de estar a tentar, já há algum tempo, fazer um esforço de modernização. De referir que, em matéria aeronáutica, o seu potencial não era de menosprezar. A sua Royal Navy, surgia como uma força temível, frente à Kriegsmarine alemã, esta durante muito tempo estagnada por imposições do Tratado de Versalhes. A R.A.F., apesar de parecer mais frágil, era já uma peça fundamental de auxílio à Royal Navy. Os investimentos da Coroa Britânica haviam sido, neste campo, preferencialmente em matéria defensiva. Para além disso, esta nação era pioneira no campo da tecnologia do radar, mais do que os seus potenciais inimigos julgavam.

            No entanto, no que respeita a uma força de bombardeiros, a situação da R.A.F. estava longe de ser animadora ou promissora. Os seus aparelhos eram bimotores e com limitada capacidade de voo, o que lhe dava um alcance reduzido. Era, na prática, uma força secundária, relativamente ao seu “Comando de Caças”, onde já se destacavam modelos de aviões como o Supermarine Spitfire e o Hawker Hurricane, que se revelariam essenciais na defesa das Ilhas Britânicas, e havia sido subestimado pelos seus inimigos, mais preocupados com a sua poderosa Marinha.

Neste quadro, a situação ficou ainda mais complicada após a operação de retirada de Dunquerque, na Primavera de 1940. As linhas defensivas antiaéreas germânicas, onde se incluíam as estações de radar, que não só detetavam os movimentos da aviação inimiga, como orientavam as esquadrilhas atacantes da Luftwaffe, estendia-se até aos limites costeiros da França e da Holanda.

Havia, por isso, uma grande distância de ida e volta, a percorrer sobre espaço aéreo inimigo, o que obrigava a manobras de diversão complicadas, da parte das formações de bombardeiros aliadas que, ainda tinham dificuldade em encontrar os seus alvos. Este problema das longas distâncias a percorrer sobre solo inimigo, seria, todavia, progressivamente colmatado, pelos progressos tecnológicos da parte dos Aliados, onde também ultrapassariam o Eixo. A conquista progressiva de terreno, incluindo a Itália e, mais tarde, a França, acabaria por colocar toda a área do Reich ao alcance das forças aéreas aliadas.

Nuremberga revelou-se, logo desde início, um verdadeiro “osso duro de roer” para as esquadrilhas de bombardeiros aliadas. Para além da já referida distância, esta cidade era difícil de localizar em voos nocturnos devido, acima de tudo, às suas condições geográficas. Para além disto, possuía uma defesa antiaérea das mais difíceis de transpor, em grande parte devido ao estatuto que tinha dentro do 3º Reich. O próprio castelo medieval do Burg, uma zona elevada no extremo Norte da cidade, era usado como bateria antiaérea.

O facto de uma formação de bombardeiros não conseguir encontrar o alvo da sua missão é sempre uma boa notícia para a cidade em questão. Contudo, já não o é para a zona que a rodeia. Ainda que Nuremberga, inicialmente, não fosse fácil de encontrar, a sua área geográfica foi crescentemente bombardeada ao longo da Guerra. Isto levava a que outras localidades próximas, incluindo Fürth e diversas aldeias, acabassem por sofrer danos. Por mais do que uma vez, diversos bombardeiros confundiram essas localidades com Nuremberga e várias de entre aquelas receberam cargas desproporcionadamente fortes para a sua extensão.

Imagem subsequente a um dos bombardeamentos realizados contra Nuremberga, durante o ano de 1943.

Mesmo assim, Nuremberga não foi poupada a destruições, ainda que episódicas, aqui e ali, sobretudo a partir de 1942. Pode-se afirmar que esta localidade foi sendo alvo de uma guerra aérea de desgaste, mas os bombardeiros aliados, durante quase todo o conflito, nunca haviam conseguido nesta cidade um resultado de destruição de assinalar, ao contrário do que já vinha acontecendo com outras localidades, em especial logo durante esse ano decisivo de 1943. Inclusive, foi num ataque aéreo a Nuremberga, cuidadosamente planeado para ser uma operação devastadora, não só pelo número de bombardeiros envolvidos (totalizavam 779), que a R.A.F. sofreu a sua maior perda de sempre em matéria de aparelhos e tripulações. Foram abatidos 96 bombardeiros e tudo isto numa só operação, tendo a cidade de Nuremberga sofrido apenas alguns danos “leves” – nunca tal tinha acontecido ao Comando de Bombardeiros britânico. Foi na noite de 30 para 31 de Março de 1944 e, chegou a causar uma grande celeuma dentro das mais altas patentes dos Aliados. Chegou a desconfiar-se de atos de espionagem e fugas de informação. Um excelente livro de Martin Middlebrook, “The Nuremberg Raid”, conta ao detalhe muito da situação deste desaire sofrido pelo Comando de Bombardeiros britânico.

Terá sido na sequência desta operação falhada que a R.A.F., por enquanto, passaria a investir em força, durante 1944, noutras localidades. Há que ter bem presente que, a partir da primavera de 1944 começaram, num esforço hercúleo e notável, os preparativos para aquilo que seria a “Operação Overlord”, como ficou designado o decisivo desembarque na Normandia, em Junho de 1944. O Comando de Bombardeiros, foi chamado a colaborar num esforço conjunto com a força aérea dos Estados Unidos, em ataques de maior precisão contra alvos estratégicos e vias de comunicações consideradas vitais para o 3º Reich, muito para o desagrado de alguns, como Sir Arthur Harris, que continuava a advogar a continuação do bombardeio sistemático dos centros urbanos germânicos e seus aliados.

Isto fez com que a generalidade das cidades alemãs atravessasse um período de maior acalmia, durante a primavera e grande parte do verão de 1944. A partir do final de Agosto de 1944, com a libertação consolidada da França, o objectivo da parte dos Aliados era acabar vitoriosamente com o conflito, até Dezembro desse ano, por todos os meios possíveis. Residiria aqui um dos elementos motivadores para um novo recrudescer, nesses oito meses finais, do bombardeamento dos centros urbanos da Alemanha. Nesta fase, a R.A.F. e a U.S.A.F. estiveram em consonância quase perfeita.

Contudo, devido quer à resiliência do inimigo germânico, na defesa de pontos estratégicos do seu território, como as suas fronteiras e o importante Reno, quer a súbitos contra-ataques da parte daquele, como a Invasão das Ardenas e a derrota de uma importante missão de paraquedistas aliados na Holanda (operação “Market Garden”, em Arnhem), o objectivo de terminar a Guerra até Dezembro de 1944, fica posto de parte. Mas, mesmo assim, a situação já estava definitivamente a favor dos Aliados. Era só uma questão de tempo.

Perspetiva sobre a rua "KönigsstraBe", situada na parte Sul da Cidade Velha, antes da Guerra, onde se destacam o antigo armazém medieval "Mauthalle" (à esquerda) e as duas torres principais da igreja St. Lorenzkirche (ao fundo).

O mesmo local, no final da Guerra. 

O edifício "Mauthalle" em 1945. O seu telhado original já havia sido destruído em 1943. O edifício foi rapidamente restaurado com um telhado provisório, que alterou a forma originalmente triangular dos frontões, antes de ser ainda mais gravemente danificado em 1945 

O interior da igreja St. Lorenzkirche, antes da Guerra.

O interior da igreja St. Lorenzkirche, após um bombardeamento.

Perspetiva sobre o lado Oeste do conjunto dos edifícios que compunham originalmente a Câmara Municipal ("Altes Rathaus") de Nuremberga, antes da Guerra.

O Salão Principal da Câmara Municipal ("Altes Rathaus") de Nuremberga, antes da Guerra.


Duas imagens a cores do interior do Salão Principal da Câmara Municipal ("Altes Rathaus") de Nuremberga, antes da Guerra.


A parte Oeste da Câmara Municipal ("Altes Rathaus") de Nuremberga, depois da Guerra.

Aspeto dos incêndios subsequentes a mais um bombardeamento noturno.


A casa de Albrecht Dürer, onde ele também tinha um dos seus principais ateliers, depois da Guerra.

O muito destruído edifício "Fleischhaus" (armazém de carne medieval) depois da Guerra.

Perspetiva sobre a zona da ponte de pedra renascentista "FleischBrücke", antes da Guerra. À esquerda, vê-se parte do edifício medieval "Fleischhaus", com o seu portão lateral encimado pela estátua de um boi, o "Ochsenportal", que dava o nome a este local. Mais ao centro, vê-se um pouco da grande praça Hauptmarkt, onde esta rua desembocava.

Logo no dia 2 de Janeiro de 1945, Nuremberga foi alvo de um esmagador bombardeamento, que muito contribuiu para o estado em que se encontrava no final do conflito. Com a Luftwaffe desorganizada e as defesas aéreas no terreno fragmentadas, não foi difícil para os Pathfiders da R.A.F., fazer uma marcação de alvo de uma precisão até então inédita, no caso desta cidade, do seu centro urbano. Como é possível verificar na imagem seguinte, a força de aproximadamente 500 bombardeiros centrou o seu ataque bem sobre a Cidade Velha. Chegou a gerar-se, em vários locais, um fenómeno denominado "tempestade de fogo" ("firestorm"). Trata-se de um efeito medonho provocado pela concentração uniforme de vários incêndios numa vasta área. É algo similar a um tornado, onde o fogo parece ganhar vida, produzindo um vento próprio com capacidade para arrastar até grandes volumes para o interior da conflagração e criando uma área de autêntico "microclima" onde as temperaturas atingem valores à volta dos 1000 graus centígrados e os materiais inflamáveis entram em combustão quase por magia. Diversos artigos falam ainda sobre os efeitos que este tipo de fenómeno provoca no corpo das vítimas, que têm o azar de ser os protagonistas de uma situação de "tempestade de fogo"... A destruição conseguida em Nuremberga foi da ordem dos 90%. Foram precisos vários dias para extinguir todos os incêndios.

As áreas coloridas representam a destruição provocada pelo devastador bombardeamento de 2 de Janeiro de 1945.

Ainda haveria alguns bombardeamentos adicionais até ao final do conflito. Foi ainda sobre Nuremberga que as forças que restavam à Luftwaffe, ainda conseguiriam infringir ao Comando de Bombardeiros britânico uma das suas últimas perdas em aparelhos na noite de 16 de Março de 1945. Nesta fase do conflito, já era corrente as formações aéreas aliadas executarem missões de bombardeamento em vários alvos no mesmo dia. Já não era só iniciar um bombardeamento num alvo escolhido ao acaso para confundir as defesas antiaéreas alemãs acerca de qual seria o verdadeiro alvo de cada missão em concreto. As formações de caças germânicas já não tinham a certeza de nada e quase agiam de acordo com cada situação em concreto.

Nessa noite, 16 de Março, o alvo verdadeiro da R.A.F. contra todas as expectativas germânicas, foi Würzburg. Esta cidade, como tinha sido raramente alvo de ataques aéreos ao longo de todo o conflito, excluindo os falsos alarmes, era das menos preparadas para uma eventualidade dessas. Foi destruída a mais de 90% num bombardeamento maioritariamente incendiário. 

Um aspeto de Würzburg antes de 1945.









A defesa de caças germânicos julgou tratar-se de mais um ataque de diversão e que o alvo principal era Nuremberga. De facto, uma formação menor de bombardeiros destacada da força principal, lança um ataque, afinal secundário, contra esta cidade. Como Nuremberga era, para os nazis, mais importante do que Würzburg, uma força restante de caças germânicos recebeu-os com uma eficiência já quase impossível, nas sua condições de então. Mas nesta cidade, ao contrário da outra mais a Norte, já havia pouco para destruir.

A muito feroz Batalha de Nuremberga, que decorreu entre 16 e 20 de Abril de 1945, finda a qual o exército americano conquistou a cidade, acabaria por destruir ainda mais o pouco que havia restado dos bombardeamentos anteriores.



Perspetiva sobre o rio Pegnitz, depois da Guerra, onde são visíveis, no canto inferior direito, o que restava do moinho de água já referido atrás. Na metade esquerda da imagem, descortinam-se as torres da igreja St. Sebalduskirche.

Na imagem, surge a rua "KönigsstraBe", depois de um bombardeamento. A silhueta que se observa através do fumo, é da igreja St. Lorenzkirche.

Perspetiva muito elucidativa da realidade em Nuremberga, depois da Guerra, com gente a tentar sobreviver no meio das ruínas. Ao fundo, à esquerda, surge a silhueta do Burg (castelo) e, no centro, as torres da igreja St. Sebalduskirche.

Perspetiva sobre uma zona muito arruinada de Nuremberga, depois da Guerra. Na metade esquerda da imagem, observam-se a igreja St. Sebalduskirche e parte da fachada da igreja Frauenkirche. Ao fundo, mais à direita, descortinam-se as torres do Burg (castelo).



Imagens de Nuremberga no pós-guerra.


A Nuremberga que hoje nós encontramos, é uma cidade que ao longo dos anos vai tentando manter viva a sua tradição e história, valorizando tudo aquilo que a afaste de qualquer conotação com o nazismo. Tendo sido um dos principais locais onde este foi liquidado a partir de 1945 (ainda que mais simbolicamente, porque ainda existe um pouco por todo o Mundo), cabe-lhe precisamente esse papel. Temos de reconhecer que Nuremberga tem desempenhado bem esse dever. Aliás, durante a sua reconstrução, houve uma política arquitectónica bem inteligente que impôs como regra, em especial dentro da área da chamada Cidade Velha, a construção de edifícios que não ofendessem a imagem histórica da sua imagem passada, resultando isto na bem-vinda ausência de arranha-céus e de edifícios funcionais dentro do estilo “plattenbau”, como aconteceu num grande número de cidades germânicas onde a Guerra deixou a sua destruidora pegada.

A Cidade Velha de Nuremberga, vista a partir do Sul. Ao fundo, numa zona elevada, vê-se o conjunto dos edifícios que compunham o seu castelo, também conhecido por "Burg".

Pode-se afirmar que o “skyline” secular de Nuremberga foi na sua maior parte preservado. Todavia, deve-se ter bem presente que o que se encontra pelas ruas de Nuremberga é, na sua maioria, uma réplica aproximada do que aqui existia antes da Guerra. Poderão aqui e ali aparecer réplicas e restauros mais ou menos fiéis ao original, mas houve a necessidade também de adaptar as reconstruções e o delineamento das ruas às exigências de uma cidade moderna. Tentou fazer-se um compromisso entre um Passado fragmentado e um Futuro urgente, pois havia uma carência óbvia de alojamentos, que terá levado a que algumas ruas tenham um delineamento e uma largura um tanto diferentes das antecessoras e terão outras ruas mais estreitas mesmo desaparecido. Neste último caso, fez-se o que era esperado na generalidade das cidades da Alemanha que urgia reconstruir. No entanto, Nuremberga entraria em consonância com outras cidades, no que respeita à contenção de custos, umas vezes maior outras vezes menor, pois surgiam sempre, aqui e ali, outras prioridades na gestão de uma urbe. Daí se explicam os casos em que a recuperação de certos edifícios e monumentos, tenha ficado muito aquém das expectativas. 

Nuremberga. O edifício Pellerhaus, já durante  a Guerra (1943), mas antes da sua destruição.

Tal como aconteceu com a histórica “Pellerhaus”, antes que antes combinava elementos arquitectónicos da Renascença. Este edifício do século XVII, constituía, pela sua quase única fachada, um verdadeiro ex-libris de Nuremberga. A sua reconstrução foi feita num estilo mais simples e funcional, de acordo com um projecto de meados da década de 1950. Não havia verbas disponíveis nem prazo suficiente para a reconstruir na sua forma original. O resultado, como era de esperar, desagradou, e ainda hoje desagrada, a muitos habitantes e conhecedores da história de Nuremberga.

 

Nuremberga. O edifício Pellerhaus, tal como ficou depois da sua pouco consensual reconstrução.

Este edifício havia tido várias funções ao longo da sua história, como a de ter sido a residência de Martin Peller (negociante de Nuremberga), mandada construir por ele próprio, por volta de 1600, e que seria a habitação desta família por mais de 200 anos, de onde lhe veio o nome (“Peller”). De referir que, quando Martin Peller a construiu, originou-se um conflito aberto com os seus vizinhos da Egidienplatz, pois estes não gostaram do destaque que esta fazia no conjunto desta praça, alegando que desrespeitava uma certas “Leis de Nuremberga” relativas à construção de edifícios nesta cidade. Em várias ocasiões, a casa chegou a ser ameaçada de demolição pelos poderes centrais. Ironicamente, tornar-se-ia um dos grandes ex-libris da Cidade Velha de Nuremberga, ao ponto de a Câmara Municipal desta a ter comprado no final da década de 1920. Quando se iniciou a Guerra, era um edifício destinado a armazenar arquivos, mas igualmente com funções museológicas, graças não só à sua fachada, como também ao seu interior ricamente decorado, onde se destacavam os empanelamentos em madeira trabalhada e pintada à mão, sem falar nas suas outras secções, como um pátio interior dos mais interessantes de toda a Europa, o denominado “Pellerhof”. Originalmente combinava vários estilos arquitectónicos, nomeadamente da Renascença e do Gótico Tardio, sem esquecer alguns elementos aqui e ali de Barroco. 

O pátio interior "Pellerhof" original. 

Até à sua destruição, estava quase inalterada relativamente ao projecto inicial de Martin Peller. Esta ocorreria a partir de um bombardeamento diurno da aviação americana, em Outubro de 1944, onde ficaria estruturalmente danificada por impacto direto de bombas explosivas. A sua destruição final dar-se-ia na sequência do já referido bombardeamento da R.A.F. em 2 de Janeiro de 1945, em que arderia até aos alicerces. No dia seguinte, as suas paredes exteriores entrariam em derrocada e da sua fachada só restaria a parte do piso térreo. A “Peller Haus” tal como era conhecida, desapareceria literalmente no amontoado informe de escombros em que a Egidienplatz, bem como muitas outras partes da Cidade Velha de Nuremberga, se havia transformado, onde só faziam diferença as paredes exteriores da próxima igreja barroca St. Egidienkirche e o monumento equestre fronteiro do imperador Wilhelm I.


Duas perspetivas opostas do pátio interior “Pellerhof”, tal como se encontrava após a Guerra.

O pouco que restava da fachada da “Pellerhaus”, após 1945.


Estátua equestre do imperador Wilhelm Ifronteira à "Pellerhaus". após os bombardeamentos da Guerra.


A igreja barroca St. Egidienkirche (à direita), o monumento equestre do imperador Wilhelm I. e as ruínas restantes da Pellerhaus (à esquerda).

O interior da igreja barroca St. Egidienkirche, antes da Guerra.

O interior da igreja barroca St. Egidienkirche, tal como se encontrava no final da Guerra.


Perspetiva sobre praça Egidienplatz onde se destacam as ruínas da "Pellerhaus" (ao centro) e da igreja St. Egidienkirche (à direita).


Logo a partir de 1950, e na sequência das diversas reconstruções que já vinham ocorrendo desde 1945, decide-se elaborar um plano para a reconstrução da praça Egidienplatz, abrindo-se, desde logo, uma série de concursos relativamente a quem seria destinada tal empreendimento. Um elemento incontornável era sempre a “Peller Haus”, que ocupava um lugar de destaque no conjunto dos edifícios que constituíam o pano de fundo desta praça, para além da já referida St. Egidienkirche, cujos trabalhos de recuperação já haviam começado.

Nuremberga. O "Pellerhof", pátio interior do edifício Pellerhaus, após a conclusão das obras de restauro, já neste século.

Já no século XXI, é posta em prática a ideia de reconstruir o pátio interior daquele edifício, o sempre recordado “Pellerhof”, uma obra ambiciosa e extremamente onerosa, mas de grande valor histórico. Devido ao apoio financeiro conseguido a partir de doações da parte de particulares, foi possível levar avante, durante anos, este projecto ambicioso, que acabaria por ser inaugurado em 2018. Esta obra fez renascer, na mente de todos os que a incentivaram, a esperança de verem finalmente reconstruída a fachada original da “Pellerhaus”.

Nuremberga. Fachada do edifício Pellerhaus, antes da Guerra.

Foi como consequência de caminhos gravemente errados seguidos em épocas de muito má memória pelos dirigentes do seu país, que Nuremberga foi uma das cidades do Mundo que maiores danos sofreu no seu património. Apesar de ser uma cidade incontestavelmente viva em matéria de cultura, tradição e turismo, a Nuremberga de hoje é, literalmente, uma sombra daquilo que foi em termos arquitectónicos. Em boa parte porque muito da sua silhueta urbana actual segue vagamente os contornos da sua skyline de vários séculos.

Perspetiva sobre a "Cidade Velha" de Nuremberga, obtida a partir da torre Norte da igreja St. Sebalduskirche. Na parte inferior da imagem, à esquerda, observa-se a praça Albrecht-Dürer-Platz. 


Na imagem acima e de na em baixo, duas perspetivas dos edifícios originais do Museu Nacional Germânico ("Germanisches Nationalmuseum") de Nuremberga, junto à parte Sul da muralha da "Cidade Velha", tal como se encontravam pouco antes da Guerra. 


Exemplo de uma rua de Nuremberga, antes da Guerra, onde é possível observar e perceber a antiguidade original das fachadas dos edifícios que antes existiam na "Cidade Velha" e que, nos nossos dias, muito raramente se encontra.


Rua situada na encosta do Castelo ("Burg") de Nuremberga, de onde é possível observar parte dos seus edifícios, com destaque para a Torre Sinwell ("Sinwellturm"), antes da Guerra.

De qualquer forma, se se fizer a comparação com fotografias históricas, sobretudo coloridas, que se conservaram e vão sendo redescobertas nas últimas décadas, a diferença salta à vista, nomeadamente na quase ausência total daquela tonalidade que caracteriza o antigo e secular.

Perspetiva sobre a denominada "Cidade Velha" de Nuremberga, após se terem efetuado as principais obras de reconstrução (ca. 1970). Apesar da skyline original ter sido respeitada, nomeadamente proibindo a edificação das muito disseminadas "torres de betão", muitos elementos arquitetónicos originais não foram recuperados e foi alterado o traçado de diversas ruas, para as tornar mais adequadas ao transito automóvel.

Em suma, Nuremberga é um bom exemplo de um lugar único no Mundo, que sofreu subitamente um desvio de uma longa linha de séculos de História, para incorporar, durante um breve período de tempo, o nazismo em muito da sua essência, sofreu as consequências diretas e indiretas desse caminho escolhido, simbolizou o fim desse horrível trajeto ajustando, dessa forma, contas com a História que havia renegado e soube recuperar e também reconstruir a sua identidade.

O famoso "Mercado de Natal", que se realiza todos os anos em Nuremberga.

sexta-feira, outubro 16, 2020

Beatles: a sua melhor canção que eles nunca gravaram


A seguir ao Verão de 1966, os Beatles decidem abandonar as suas atuações ao vivo e concentrar-se no trabalho de estúdio. Uma das razões para esta decisão tão abrupta e inesperada, que deixaria muitos dos seus fãs temporariamente desesperados, foi precisamente as condições em que decorriam os seus espetáculos. A histeria do público, perante a simples presença dos seus ídolos, provocava um ruído ensurdecedor que se estendia ao palco onde eles tocavam, para não falar nos comportamentos desvairados de alguns fãs menos contidos a implicarem medidas de segurança adicionais. Os próprios Beatles afirmavam que, por vezes, já nem se conseguiam ouvir uns aos outros, o que, segundo eles, não beneficiava a qualidade da interpretação das suas músicas e não lhes permitia melhorar nem evoluir enquanto músicos. Por outro lado, era certo que, se em palco o ruído já afetava a sua audição mútua, o público provavelmente já quase não escutaria as suas músicas. Eles atuavam ao vivo para serem ouvidos e a noção de que isso já quase era improvável, aumentava-lhes ainda mais a frustração. Ou seja, atuar ao vivo acabaria por não ser mais do que uma perda de tempo. Por outro lado, as digressões eram extenuantes e, decerto, havia um grande cansaço acumulado. Cada vez mais estavam convencidos de que o trabalho de estúdio era realmente mais produtivo. Decerto que também pesaria nessa decisão, o facto de a música, nesses meados dos anos 1960 estar a evoluir a uma velocidade vertiginosa. Eram eles que estavam na dianteira dessa transformação, mas também havia todo um mundo de grupos musicais, sobretudo no panorama dominante da música anglo-americana, que iam contribuindo com as suas pequenas partes para esse ambiente de mudança. Os Beatles influenciavam, mas também eram influenciados pelos seus pares, sentindo a necessidade de não perderem a direção desses ventos de mudança fecundos. O seu manager Brian Epstein não terá ficado particularmente satisfeito com esta decisão irrevogável de deixarem de atuar ao vivo. Todavia, ainda que a contragosto, não deixaria de os acompanhar nas suas novas estratégias. Pelo contrário, o produtor George Martin, considerou muito positiva este assumido investimento na qualidade das canções a gravar que os músicos dos Beatles empreendiam, a partir de então. Isto, desde logo, demarcava-os da generalidade de muitos dos outros grupos musicais que então proliferavam. Aliás, foi precisamente a partir do final de 1966, que se consolidou verdadeiramente a parceria Beatles - George Martin, ao ponto de este último poder ser considerado como um membro permanente do grupo: quase um "quinto Beatle".

É nesta nova fase, que os Beatles começam a delinear as bases para a sua evolução musical futura, que daria frutos logo no ano seguinte de 1967. Sem nos estendermos muito sobre a estonteante "revolução cultural" que foi esse ano, ainda hoje enigmático, de 1967, basta referir que a profusão de novos grupos musicais, muitos deles de curta duração, foi verdadeiramente inédita, bem como a multiplicidade de caminhos que se abriam para a própria música. Se os Beatles já eram um grupo de grande sucesso, em 1967 eles veriam o seu sucesso a se estender à escala quase planetária. Verdadeiramente sintomático do estatuto que eles haviam alcançado, foi a transmissão televisiva de caráter mundial, no Verão desse ano, do seu "All You Need Is Love". Haviam-se convertido numa verdadeira "instituição musical". O álbum "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band", teve aqui um papel fulcral. A sua música começaria a ser escutada e devidamente apreciada por outros públicos e gerações.

Na esteira desta sua verdadeira consagração enquanto grupo musical, juntamente com os dividendos financeiros e mediáticos, que daí advieram, os Beatles quiseram ser mais ambiciosos. Foi, a partir daqui que eles começaram a delinear as bases da sua editora discográfica, que viria a ser conhecida por "Apple". A sua intenção inicial era ajudar músicos e grupos musicais que não haviam conseguido contrato com as grandes editoras. Estavam conscientes de que poderiam descobrir, naquela realidade já então muito competitiva, possíveis talentos a quem valeria a pena dar uma oportunidade de saborear um pouco da aura de sucesso incontestado que envolvia os Beatles

Um destes cantores, foi Jackie Lomax. Tinha feito parte de um grupo chamado "The Undertakers", que havia tentado singrar, com sucesso mínimo, no panorama da fervilhante música britânica, tendo inclusive tentado a sorte, de 1965 a 1967, nos Estados Unidos. Dissolvidos os "The Undertakers" e, graças a conexões com a empresa de Brian Epstein, Lomax regressa à Inglaterra em 1967 e entra em contacto com os Beatles. Como já foi dito atrás, estes estavam então a construir a Apple Records e buscavam novos talentos, incluindo no que respeita à composição.


 "Sour Milk Sea".

Inicialmente, era uma balada e chegou a ser considerada a sua inclusão no duplo "White Album", cujas gravações decorreram entre Maio e Outubro de 1968. Excluída esta hipótese, a canção é sujeita a arranjos adicionais e é escolhida como o tema de lançamento de Jackie Lomax, artista então recém-chegado à Apple Records. A canção era da autoria de George Harrison, que também produziu a sua gravação. 
Na sua gravação participaram os Beatles, à excepção de John Lennon. George Harrison tocava guitarra acústica e guitarra-ritmo, Paul McCartney acompanhava no baixo e a Ringo Starr coube a bateria.
No piano, participou Nicky Hopkins (1944-1994), um dos melhores teclistas ingleses de sempre. A sua presença enquanto músico de estúdio, fora muito requisitada, em especial durante a segunda metade dos anos 60 e a primeira dos anos 70. Tendo participado em diversos temas dos Rolling Stones (o piano de "She's A Rainbow" é tocado por ele), Donovan (com destaque para os anos 1968 e 1969) e nos primeiros discos a solo de John Lennon, para além de muitos outros. 
Na guitarra solo, encontrava-se Eric Clapton, que executaria aqui uma das suas melhores performances.
Quanto ao órgão eletrónico, não existem referências acerca de quem este ficou a cargo (terá sido também Nicky Hopkins?).



Logo de seguida, é planeado o lançamento de um LP de Jackie Lomax, que seria entitulado "Is This What You Want?". Este disco continha o famoso síngle, gravado em Inglaterra e lançado no Outono de 1968. As outras canções do álbum, são gravadas nos Estados Unidos, recorrendo a músicos de estúdio, com destaque para o agrupamento variável "The Wrecking Crew", um conjunto informal de "session musicians" onde, entre outros, ponteava o veterano e consagrado baterista Hal Blaine, o seu "protegido" e também baterista Jim Gordon, o guitarrista (mas mais conhecido como cantor de música "Country") Glen Campbell, o baixista Joe Osborn, a também baixista e guitarrista Carol Kaye e os teclistas Leon Russell e Mac Rabennack (este último ficaria conhecido sob o nome artístico de Dr. John).

O disco, apesar de bem recebido pela crítica, não tem o sucesso esperado, aquando do seu lançamento no começo de 1969.

A carreira de Jackie Lomax, após a sua saída da Apple em 1970, na sequência da separação dos Beatles, não teve grande sucesso e também não foi livre de problemas de natureza diversa. Pouco depois, formou um grupo denominado "Heavy Jelly", que não teria uma existência muito pacífica e se dissolveu em meados da década de 1970, após diversas mudanças de formação, que haviam comprometido a sua estabilidade. Um número apreciável de gravações, que haviam ficado inéditas durante décadas, foram recentemente lançadas em disco, algumas já postumamente.

Esteve longos períodos sem gravar, tendo participado, aqui e ali, como músico de estúdio.

O cantor Jackie Lomax faleceria em 2013, aos 69 anos de idade.

sexta-feira, agosto 28, 2020

Monty Python e Mr. Bean no seu melhor

 Inesquecíveis!!!

"The Galaxy Song" (1983).

"The Penis Song" (1983).

"Every Sperm Is Sacred" (1983).

"Mr. Bean being arrested" (1997).

"Mr. Bean at the kitchen with the turkey" (1997).

"Mr. Bean and the painting disaster with 'Whistler's Mother'" (1997).

"Mr. Bean and the mission to save the painting presentation scheduled for the next day" (1997).

"Mr. Bean speech about the painting "Whistlers Mother" in front of the buyer played by Burt Reynolds" (1997).

"Mr. Bean's operation as a doctor" (1997).

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

Revista MOJO e os Small Faces: Uma seleção fantástica

Este número da revista MOJO saído em 2014, mesmo para quem não tenha o hábito de comprar revistas desta natureza, é ESSENCIAL. O CD que acompanha este número constitui uma das mais perfeitas coletâneas que esta revista já lançou em exclusivo.



Small Faces - "Here Come The Nice" (1967). Destaque para o vocalista e guitarrista Steve Marriott (1947-1991).

Noutra postagem, centrada em Rod Stewart e nos Small Faces, faço referência a uma editora que, durante algum tempo, os acolheu: a "Immediate Records". De seguida, alguns exemplos de outros artistas que fizeram parte do repertório dessa editora, agora quase mítica, mas cuja história não acabou da melhor maneira. Todos estão incluídos na coletânea acima referida.

Billy Nichols (com acompanhamento instrumental dos Small Faces) - "Come Again" (1968).

Billy Nichols (com acompanhamento instrumental dos Small Faces) - "Feeling Easy" (1968).

Billy Nichols - "London Social Degree" (1968).

Billy Nichols (com acompanhamento instrumental dos Small Faces) - "Girl From New York City" (1968).

Twice As Much - Sitting On A Fence (1966). Tema da autoria de Mick Jagger e Keith Richards (ou seja, os Rolling Stones). Acompanhamento à viola de Jimmy Page, um músico de estúdio, então, muito requisitado. Depois, este integraria o grupo Yardbirds, como 3º guitarrista solo (a seguir a Eric Clapton e Jeff Beck), antes de formar os Led Zeppelin com Robert Plant (voz e percussão), John Paul Jones (vários instrumentos, sobretudo baixo e teclados) e John Bonham (bateria e percussão). O resto é História... Não é este, de facto, o tema que aparece na seleção da MOJO, mas é o meu tema de eleição destes Twice As Much.

Twice As Much - Step Out Of Line (1966). Seguido deste!

The Fleur De Lys (com acompanhamento na guitarra "lead" de Jimmy Page) - Circles (1966). Versão muito melhor do que a original dos The Who (Roger Daltrey (voz), Pete Townsend (guitarras e outros instrumentos), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria e percussão).

Les Fleur de Lys (com acompanhamento na guitarra-ritmo de Jimmy Page) - Moondreams (1965). Um ano antes, pareciam um grupo completamente diferente...  O nome era algo original, mas não se revelou suficiente em matéria de sucesso de vendas. Ao mudarem o artigo de "les" para "the", assumiram-se, em definitivo como um grupo "mod", mas isso não lhes aumentou muito mais o seu sucesso...

Chris Farlowe - "My Way Of Giving" (1967). Tema originalmente composto e interpretado por Steve Marriott e Ronnie Lane, dois elementos dos Small Faces. A voz de Chris Farlowe tem sido comparada à de Tom Jones. Ambos nasceram no mesmo ano (1940), mas há quem considere Chris Farlowe o mais genuíno dos dois. Talvez pela sua postura um tanto avessa ao demasiado óbvio e muito comercial. Integraria, entre outros, o grupo Colosseum. Há quem o considere um "cavaleiro solitário".

Nicky Scott - "Backstreet Girl" (1967). Tema composto e interpretado originalmente pelos Rolling Stones.

Humble Pie - "Wrist Job" (1969). Quando Steve Marriott saiu, abruptamente, dos Small Faces, em 1969, formou este grupo, que também incluía Peter Frampton, na sua formação inicial.

Duncan Browne - "On The Bombsite" (1968).

Amen Corner - "Hello Suzie" (1969). O grupo que lançaria o cantor Andy Fairweather Low. Os Amen Corner, também chegaram a ser conhecidos por "The Real Magnificent Seven" (algo como "Os Verdadeiros Sete Magníficos").

Rod Stewart - "So Much To Say" (1968). O lado B do single "Little Misunderstood", o único que Rod Stewart lançou através da "Immediate Records".

Murray Head - "She Was Perfection" (1967). Em 1969, este Murray Head seria a voz principal no tema "Superstar", que seria o "tiro de partida" para o lançamento do musical "Jesus Christ Superstar", da autoria do compositor britânico Andrew Lloyd Webber.

Murray Head - "Superstar" (1969). Eis o tal tema, do musical "Jesus Christ Superstar", da autoria do compositor britânico Andrew Lloyd Webber, a que ele seria, definitivamente, mais associado.

Tales Of Justine - "Monday Morning" (1967).

The Nice - "The Thoughts Of Emerlist Davjack" (1967). Um dos primeiros êxitos da banda que, finalmente, daria a fama a Keith Emerson, teclista de referência que, em 1970, fundará o grupo de música "progressive" Emerson, Lake & Palmer (ELP). Segundo consta, o seu nome "The Nice", derivou de um dos êxitos dos Small Faces, "Here Come The Nice", seus "colegas", então, de editora.

Nico - "I'm Not Sayin'" (1965). O single de estreia de Nico (1938-1988), alemã nascida em Colónia, ex-manequim, artista multifacetada e, de certa forma, outsider, que durante pouco mais ou menos 2 anos (entre 1965 e 1967), integrará os Velvet Underground, cuja participação ficaria documentada no icónico álbum com a capa de Andy Warhol, "The Velvet Underground & Nico", editado em 1967, quando ela já não estava no grupo. Depois de sair dos Velvet Underground, logo em 1967, Nico iniciaria a sua carreira a solo com um disco produzido pelo seu antigo "colega" John Cale, o importante "Chelsea Girl". 
De referir que, no ano seguinte, John Cale também se afastaria dos Velvet Underground devido a divergências com Lou Reed. Há quem diga que a saída dele representou o lento iniciar de uma rampa descendente até à sua dissolução que foi, de facto, em 1970, após o lançamento do álbum "Loaded" e a saída de Lou Reed, seguida pela de Sterling Morrison. É verdade que existem registos acerca da existência dos Velvet Underground depois de 1970, mas é preciso ter bem presente que essa entidade que respondia pelo nome também de "Velvet Undeground", não tinha nada a ver com o grupo original. Houve quem falasse em usurpação de nome. De facto, esses "Velvet Underground" pós-1970, tinham uma formação completamente diferente da original. É verdade que Maureen Tucker, a baterista e o único elemento fundador então restante, ainda ficará mais algum tempo no grupo, mas sairá pouco depois, ficando o grupo entregue à direção de um certo Doug Yule, baixista e cantor que, em 1968, fora substituir John Cale. A formação que, durante aproximadamente um ano e meio, constituiria esses "Velvet Underground" de fachada, estava longe de ser sólida e os dados não são muito precisos. Segundo o que foi possível apurar, para além de Doug Yule, a banda integrava Walter Powers, William "LocoAlexander, dois antigos membros de uma banda chamada "The Lost", e, na bateria, Bill Yule, este último irmão do novo líder. Todavia, quando se iniciaram as gravações de um LP, intitulado "Squeeze", lançado em 1971, já só Doug Yule integrava estes falsos "Velvet Underground". Este último álbum, desta forma, seria sobretudo um esforço a solo de Doug Yule. Não se conhecem os músicos de estúdio que o acompanhavam neste LP, considerado uma adulteração do "bom nome" dos Velvet Underground e estará aqui a razão de se ter esperado longas décadas até ser reeditado, numa versão "económica", em CD. Os verdadeiros fãs dos Velvet Underground, sempre rejeitaram veementemente este "Squeeze". Aliás, Doug Yule é considerado uma espécie de "mau da fita" e mesmo "usurpador" e "oportunista", na história dos Velvet Underground...
Quando a Nico, a seguir ao álbum "Chelsea Girl", considerado, por muitos, o mais "fácil" e "aderível" de toda a sua carreira, avançaria por um rumo criativo muito peculiar, que produzirá um estilo de música estranha, não muito agradável para a generalidade dos ouvintes, inclusive "fortemente depressiva", permanecendo uma eterna "outsider" muito problemática. Logo no disco seguinte "Marble Index", lançado em 1968, se começariam a desenhar os principais cambiantes e idiossincrasias que marcariam a sua carreira nos anos posteriores. De assinalar a sua participação no disco "June 1, 1974", gravado ao vivo, ao lado de John Cale, Brian Eno e Kevin Ayers. Manteria uma reputação, no mínimo, de mulher reclusiva e enigmática.
 Voltaria a ser notícia em 1988, aquando da sua morte, meses antes de completar 50 anos, vítima de uma "queda de bicicleta", quando, segundo o seu filho, ela ia à cidade "comprar mais uma dose de marijuana".
Nico - "The Last Mile" (1965). O lado B do single anterior. Não vinha incluído na seleção referida da revista MOJO, mas acho esta canção ainda mais interessante do que a do lado A. Em ambos os lados deste single de estreia, a parte das guitarras ficou a cargo de um certo músico de estúdio, então muito requisitado, chamado Jimmy Page. A letra é enigmática e a interpretação é "haunting"!... 

sábado, dezembro 21, 2013

Um pormenor esquecido de Portalegre

Construção original

Fachada principal desativada

Zona posterior ainda em funcionamento
Apesar do Caramulo ter sido, em tempos, um centro de cura do flagelo da tuberculose e, decerto, o que mais se destaca no nosso país, houve outros espaços que sabe bem trazer à memória. Não me estou a lembrar, neste momento, de todos eles e também seria demasiado exaustivo enumerá-los num breve post. Será mais interessante relembrá-los, de quando em quando, em textos separados. Hoje lembrei-me de mais um desses espaços, por sinal um dos mais enigmáticos e que, decerto muitos se esqueceram. Trata-se do Sanatório de Portalegre, mais conhecido como "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Sim! Ao contrário do que alguns possam julgar, Portalegre também tinha um sanatório. É dos que menos se fala, talvez precisamente por se localizar num local que muitos consideram "de província". 

Onde se localizou este espaço? 

Numa colina situada no extremo de Portalegre e que se precipita sobre uma espécie de vale. Também é enriquecida por zonas verdes e localiza-se aí a Sé de Portalegre, com as suas duas torres. Nessa mesma elevação, mais afastado para o extremo dessa colina, encontramos um edifício de formato mais ou menos rectangular cuja fachada principal dá para o vale e parece meia tapada por algumas árvores. Foi esse o "Sanatório Rodrigues de Gusmão". Se estivermos no cimo da Serra de Portalegre ou se passarmos numa das estradas que circundam essa colina, não será difícil descortiná-lo. 
O edifício ainda se encontra apartado do resto do aglomerado habitacional próximo, herança dos seus "gloriosos" tempos. Tem um aspecto vagamente enigmático, mas também algo de sombrio, sobretudo se olharmos para a parte semi-coberta. A melhor altura do dia para o contemplarmos é da parte da tarde. Ao fim do dia, quando o sol se põe, adquire uma aura estranha, que parece contradizer a sua intencional discrição. Os vidros da secção posterior, um acrescento decerto à construção original, parecem brilhar, devolvendo, por momentos, qualquer coisa de vivo a um espaço que ficou enterrado num passado vagamente sinistro. 
O Sanatório Rodrigues de Gusmão, se não me falha a memória, foi inaugurado em 1909, portanto pertencia ainda àquela primeira leva de sanatórios anterior à criação da Estância do Caramulo. Todavia, pouco ou nada se fala dele. Terá tido uma existência sem sobressaltos, decerto foi sujeito algumas obras de melhoramento, que lhe acrescentaram a parte traseira e modernizaram os equipamentos. A construção que hoje lá observamos deve estar algo diferente da original de 1909, independentemente de algum restauro efectuado. 
Deu "sinais de vida" ainda durante a sua última década de vida, quando o seu diretor de então, o Dr. Emílio Moreira, decidiu empreender a realização da "Semana da Tuberculose e Doenças Pulmonares do Distrito de Portalegre", entre 1966 e 1973. Discreto como foi, discretamente cessou funções após 1974. Actualmente é aí que se localiza um centro de prevenção e tratamento para toxicodependentes. No entanto, julgo que esta instituição se encontra apenas circunscrita à parte traseira, mais recente, do antigo sanatório e que é visível para quem entra pelo parque de estacionamento. A "parte nobre" do edifício, parece estar silenciosamente devoluta. Até quando? Ninguém sabe...

A propósito do "Perfect Day" de Lou Reed


Transformer (1972) 

Magic and Loss (1992)
          
                Set The Twilight Reeling (1996)

         
       The Raven (2003)




Canção intemporal, esse "Perfect Day" de Lou Reed! Apesar de não ser um fã de Lou Reed, nem possuir a maior parte da sua discografia a solo, fui encontrando, ao longo do pouco que dele tenho, aqui e ali, vários outros momentos inesquecíveis. Os meus critérios de avaliação poder ser discutíveis para um bom conhecedor da carreira deste músico. Quanto a álbuns, considero o "Transformer" de 1972, o disco de Lou Reed que, no mínimo, se deverá ter. Eu considero o "Transformer" o primeiro "verdadeiro" disco a solo deste músico, ainda que seja de facto o segundo.
 
Vinte anos depois (1992), surge outro álbum incontornável: "Magic and Loss". O que nele considero como o elemento mais valioso são as letras. Não é um disco fácil para certo tipo de ouvintes. É um disco destinado para quem "gosta de ler", para quem aprecia a profundidade de, por exemplo, uma boa conversa e não se fica pela superficialidade das coisas. É um álbum carregado de muito sentimento, muito literário. Os temas que, para mim, são mais marcantes e justificam a compra deste disco, perfazem a "sequência perfeita" do 3 ao 7, e dentro desta, os temas com mais força são o 3, o 4 e o 5. É verdade que o tema mais conhecido e que mais adesão conquista é o 2 ("What's Good"). Todavia, apesar de mostrar um "genuíno" Lou Reed, vejo-o como um tema feito para ser editado em single (tal como aconteceu) e, por isso, uma cedência ao "comercial", destinado a atrair as atenções da generalidade do público consumidor de música. Acredito que uma boa parte desse público, que aprecia mais discos onde haja ritmo e som, para não dizer irreverência e ambiente "festivo" ("borga e paródia"), tenha ficado desiludido com o "Magic and Loss"... Basta ver a forma (inicial, claro!) como grande parte da crítica recebeu os espectáculos que Lou Reed deu em Portugal na Primavera de 1992. Acharam que ele não estava a atravessar um bom momento... Que estava demasiado depressivo e mórbido "por ter chegado aos 50 anos"... Quase 30 anos passados, verificamos que foi um disco que envelheceu bem. Aliás, foi como certo vinho de qualidade - quanto mais velho melhor! Acredito que muitos dos que denegriram e desvalorizaram esse Lou Reed da fase "Magic and Loss" já engoliram várias vezes tudo o que disseram!!!

A temática do disco "Magic And Loss", segundo o que me foi possível apurar, gira à volta da morte de duas pessoas que eram importantes para Lou Reed. No entanto, as letras das suas canções, sobretudo as que eu a seguir selecionei deste álbum, acabam por ir mais longe do seu universo pessoal e adquirem um caráter quase paradigmático, ou seja, outros casos semelhantes podem ser identificados com elas.

Tema 3 - "The Power And The Glory".

 
Tema 4 - "Magician"

Tema 5 - "The Sword Of Damocles".

Tema 7 (aqui numa versão ao vivo durante a digressão de 1992) - "CremationAshes To Ashes".

Sem me querer estender demasiado, faço ainda referência ao disco "Set the Twilight Reeling" de 1996, onde encontramos dois temas que eu considero essenciais não só na carreira de Lou Reed, mas também na música do Século XX: o urgente "Finish Line", que ele dedicou a Sterling Morrison, seu colega nos Velvet Underground, e o introspectivo "Trade In". 

Lou Reed - "Finish Line" (1996).

Lou Reed - "Trade In" (1996).

Para quem tem um gosto literário mais apurado e aprecia Edgar Allan Poe, é de recomendar o seu álbum "The Raven" de 2003. As incursões literárias de Lou Reed são sempre algo a que não é possível estar indiferente!