terça-feira, setembro 15, 2015

Não se deve julgar um disco apenas pela capa!

Houve discos, cujo sucesso de vendas imediato resultou de uma capa particularmente apelativa ou ousada, apesar de a música neles contida estar longe de se aproximar de qualquer mínimo de qualidade. Também a ousadia, para lá de determinados limites, e o eventual mau gosto estético ou simplesmente falta de inspiração gráfica, condenou muitas obras discográficas, algumas verdadeiras obras de arte, ao mais completo fracasso, mesmo que o seu valor real só tenha sido reconhecido muito tempo depois. Não raras vezes, esses reconhecimentos só chegariam quando os seus principais músicos e compositores, ou parte deles, já não se encontravam no mundo dos vivos, estavam já prestes a partir ou, simplesmente, já se haviam esquecido dessas experiências musicais, que eles haviam remetido ao irremediável fracasso. Claro que havia, quase sempre, outros fatores adicionais a condicionarem, mais ou menos, esses sucessos ou fracassos discográficos, incluindo a imagem pública, ou a ausência dela, desses cantores divulgada pelos mass-média, durante a sua carreira. Mas isso levar-nos-ia para outras paragens e interpretações que não cabe agora referir.

O exemplo que agora aqui se referirá, poderia perfeitamente ser enquadrado nesse vasto conjunto de obras discográficas, cuja capa poderia afastar, e já terá afastado, um apreciável número de potenciais ouvintes.

                   

Trata-se do álbum "Revolution!" do grupo norte-americano Paul Revere and The Raiders, editado em Agosto de 1967. Quando este LP chegou às lojas, a banda já trazia, atrás de si, uma importante carreira musical feita de sucessos. Aliás, eram um dos mais populares grupos dos EUA, sobretudo em meados da década de 1960. "Steppin' Out" e "Just Like Me", em 1965 e "Kicks" e "Louie, Go Home", em 1966, só para citar alguns exemplos. A sua popularidade não era só devida aos êxitos discográficos. Os seus espetáculos ao vivo e, sobretudo, as suas aparições televisivas, era o que mais contribuía para o seu destaque entre os demais grupos norte-americanos, entretanto surgidos na sequência da chamada "invasão britânica". Isto para não falar na sua apresentação em uniformes que remetiam para a época das "Guerras da Independência dos Estados Unidos", onde se teria destacado um outro "Paul Revere", que se tornou, desde então, parte do vasto conjunto de figuras ilustres da história daquele país. 


Foi precisamente recorrendo ao nome de um dos elementos fundadores da banda, Paul Revere Dick (1938-2014), que se obteve, a partir de 1960, um nome considerado sonante para uma banda que pretendia destacar-se por entre a verdadeira "selva musical" que fervilhava nos anos 60: "Paul Revere and The Raiders". Um nome muito mais forte e memorável do que o seu nome original "The Downbeats", estes criados em 1958. Já nesta altura, integrava a banda um elemento central, quer na imagem do grupo, quer na composição e interpretação dos seus temas: Mark Lindsay.

Mark Lindsay, com Paul Revere ao fundo.
                 
De facto, apesar de Paul Revere emprestar o seu nome e imagem à banda da qual era, oficialmente, o líder e, com a sua aparência e imagem sorridente, ser a sua suposta imagem de marca, quem era o seu verdadeiro "frontman", para além de vocalista, poli-instrumentista e principal compositor, era Mark Lindsay. Além do mais, Paul Revere era o mais velho e tinha uma visível diferença de idade em relação aos outros elementos da banda, o que o destacava, desvantajosamente, relativamente ao público jovem, que constituía a parte principal dos seus fãs. Não assumidamente, Paul Revere ter-se-ia sentido, de quando em quando, algo deslocado em relação ao resto da banda, principalmente porque era afinal Mark Lindsay quem vinha obtendo o estatuto de figura central no grupo. Aliás, era Mark quem centrava todas as atenções nos espetáculos, quer ao vivo, quer na televisão e era, desta forma, o mais mediático dos "Raiders". Inclusive, era Mark quem recebia a esmagadora maioria das cartas dos fãs. Não é de espantar que, a determinada altura, nas capas dos discos, o nome do grupo aparecesse "Paul Revere and The Raiders/ featuring Mark Lindsay". 

Paul Revere e Mark Lindsay em 1968.
Por outro lado, nas diversas entradas e saídas de elementos da banda, foi sempre a dupla Mark Lindsay - Paul Revere, o núcleo que se manteve ao longo de grande parte do seu tempo de existência. Um dava o nome e o outro era a "estrela".


De uma forma resumida, deve-se referir que, inicialmente, era, de facto, Paul Revere o líder da banda, quando esta era sobretudo instrumental e o seu órgão ocupava o lugar de maior destaque. Com a evolução dos gostos musicais e, sobretudo, o aparecimento, a partir de 1963, dos ecos das bandas britânicas, nomeadamente o chamado "mersey sound", onde se incluíam os Beatles, as guitarras começaram a ganhar maior destaque. Desta forma, Paul Revere passaria a ocupar uma posição mais de "background", enquanto Mark Lindsay, o principal cantor, começa a ocupar a linha da frente no novo som que começavam a adoptar. Assumiram-se como uma das "respostas" americanas à dita "invasão britânica".



Todavia, a imagem de aparente união entre os seus elementos, era reforçada pelas encenações, vagamente cómicas, que o grupo fazia para efeitos mediáticos. De facto, a imagem algo divertida que o grupo cultivava, facilitava-lhes uma maior aceitação no seu país, onde as gerações mais velhas ainda olhavam as novas ondas musicais com suspeita e, sobretudo, não serem levados "tão a sério" aos olhos do público.
Isto permitia-lhes, entre outras coisas, distinguirem-se, aparentemente, de outros grupos com uma imagem e um som mais "hard". Não aparentavam querer revoltar-se contra o "sistema", não pareciam rebeldes e, por isso, menos ameaçadores para a "moral e os bons costumes". Pareciam estar apenas a interpretar um papel de músicos que só queriam divertir-se a cantar e a dar espetáculos e proporcionar momentos de boa disposição onde as "substâncias ilícitas" não entravam.


As suas fardas também lhes davam um toque vagamente "retro" e de um certo tipo de conservadorismo simpático que, juntando aos uniformes o nome "Paul Revere", pareciam homenagear os tempos primordiais dos Estados Unidos, onde George Washington se destacava e, desta forma, reforçar as suas raízes americanas. Em suma, davam uma imagem adicional de patriotismo, temperada com condimentos de "saudável boa disposição", apesar dos penteados "um bocado compridos" para os mais conservadores. Esta imagem fora, sobretudo, cimentada durante o período em que o quinteto teve a sua formação considerada "clássica" e de maior sucesso, mais ou menos entre 1963 e 1967.

Todavia, esta imagem também se revelaria um elemento negativo quanto a manterem-se na ribalta e com um sucesso duradouro, pois começaram a ficar "datados" e fora de moda em face das novas ondas que começavam a ganhar peso, sobretudo a partir de 1966

Apesar de tudo, em retrospetiva, é possível vislumbrar, nas suas fardas, uma premonição de um certo tipo de vestuário que fez furor durante os primeiros tempos do psicadelismo que se seguiria, muito por influência dos Beatles, no período "Sgt. Pepper's". Todavia, a comparação fica por aí...

Era esta a imagem que, na altura, a generalidade do público, tinha do grupo "Paul Revere and The Raiders" e que a capas dos discos pretendiam transmitir. Todavia, essa imagem era cada vez mais uma fachada, que apresentava sinais de esgotamento. 


De facto, em 1967, "Paul Revere and The Raiders", tal como se haviam dado a conhecer, estavam a tornar-se um grupo da "velha guarda" e a união que aparentavam já não correspondia à realidade. Dentro do grupo, as relações haviam começado a azedar. Os músicos do grupo, nomeadamente Mark Lindsay, sentiam-se cada vez mais insatisfeitos com as limitações que lhes eram impostas, em especial quanto à falta de liberdade criativa e, claro, estarem presos a uma imagem mediática da qual se estavam a fartar.

Tal como Mark Lindsay afirmou, o facto de estarem, desde há muito, vocacionados para satisfazer as supostas exigências de um público preferencialmente "teen", apesar de lhes ter proporcionado uma série de êxitos, estava-se a revelar cada vez mais limitativo. Mais concretamente, a falta de liberdade criativa e as exigências contratuais, que implicavam prazos de gravação limitados e atuações ao vivo demasiado frequentes e cansativas, que não davam espaço para compor devidamente novos temas, o que, não raras vezes, implicavam o recurso a autores exteriores à banda.
O próprio grupo, participava cada vez menos diretamente nas gravações em estúdio e mesmo na escolha dos temas, limitando-se a seguir uma espécie de "fórmula de sucesso" já previamente elaborada. Ou seja, quando gravavam, viam-se confrontados com uma espécie de facto consumado, completamente subordinados às exigências da editora, cujo principal objetivo seria simplesmente obter lucro da forma mais rápida e fácil. Sendo Mark Lindsay o elemento mais prolífico e criativo no interior da banda, ele sentia que eles se vinham transformando, como muitos outros seus contemporâneos, num mero objeto de consumo fácil, quase como "de usar e deitar fora", condenados a desaparecer logo que deixassem de ser lucrativos e, desta forma, sem perspetiva de "crescimento" futuro. Em suma, Mark Lindsay e os outros identificavam-se cada vez menos consigo próprios.

Essa aparente estagnação começou a traduzir-se num desânimo crescente. Exteriormente, o grupo ainda estava no auge, mas os sinais de queda avizinhavam-se. Tudo isto culminaria no começo de 1967, quando, num curto espaço de tempo, saem três elementos da banda, que ficaria reduzida ao núcleo básico de Mark Lindsay e Paul Revere. Este facto, associado à estagnação criativa, parecia ditar o fim de Paul Revere and The Raiders.
Como Mark Lindsay afirmou, em entrevistas recentes, tal como acontecia com o panorama musical circundante, havia uma necessidade de evolução musical, de experimentar novos estilos de composição e arranjo musical. Por outro lado, mesmo os gostos do público juvenil eram voláteis e, com  as novas sonoridades que esse ano (1967) trazia, "Paul Revere and The Raiders" corria o risco de se tornar em mais uma banda obsoleta

Com o grupo reduzido a dois elementos e com obrigações contratuais, havia que preencher quanto antes os três lugares deixados vazios, nem que fosse só para evitar o cancelamento de futuros espetáculos já agendados, o que representaria um avultado prejuízo. Todavia, Mark Lindsay compreendeu que, mesmo com o quinteto reformado, os problemas de sempre manter-se-iam e a banda não tardaria a chegar à sua dissolução definitiva. As coisas não podiam simplesmente acabar dessa forma tão abrupta. Havia ainda muito para investir, ainda que noutros moldes criativos. Desta forma, Mark Lindsay não hesitou em experimentar novos terrenos musicais.


Terry Melcher, jovem produtor e também músico, compreendeu perfeitamente a necessidade de tentar fazer algo de novo daí em diante. Desta forma, Lindsay e Melcher formarão uma parceria quer no que se refere à composição de novas canções, quer na sua concretização em estúdio, tentando não se deixar espartilhar demasiado por prazos nem orçamentos. Será, graças a este novo método de trabalho, que se concretizaria o projeto do álbum "Revolution!".
As gravações, que se prolongaram, espaçadamente, de Dezembro de 1966 a Maio de 1967, representaram uma nova etapa na carreira da banda. Coincidência ou não, foi durante este período que os Beatles gravaram grande parte do seu álbum referencial "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band". Por outro lado, já se estava a difundir a prática de gravar discos que não podiam, de forma alguma, ficar concluídos em apenas cinco dias... Basta apenas lembrar o caso da obra-prima dos Beach Boys, Pet Sounds, saída no Verão de 1966. O perfeccionismo começava a ganhar mais terreno...

A partir daí, sob o nome "Paul Revere and The Raiders", passaria a haver duas entidades distintas. Uma era o quinteto que aparecia em palco e na televisão, muitas vezes a fazer "playback" sobre canções pré-gravadas em estúdio; a outra era constituída pela dita "banda de estúdio". De uma forma resumida, a banda que se ouvia no disco era, essencialmente, o vocalista e compositor Mark Lindsay, em parceria direta, quer a nível vocal, quer instrumental, com o produtor Terry Melcher, secundados por uma vasta equipa de músicos que gravava os temas em estúdio, onde ponteava muita da excelência instrumental daquele tempo. Só nas guitarras, participaram uma dezena de músicos, alguns assinaláveis, como Taj Mahal, Ry Cooder e Glen Campbell. Na bateria, também houve vários, nomeadamente o já veterano Hal Blaine, Jim Keltner e o muito requisitado Jim Gordon. Outras equipas variáveis de músicos também participavam nas outras partes instrumentais. A título de exemplo, basta referir que, quase de tema para tema, os músicos mudavam, de forma a se conseguir a perfeição. Numa só música, podia haver mais do que um baterista a fazer as várias partes rítmicas. O próprio Mark Lindsay participou, aqui e ali, nas percussões.
Hal Blaine e Glen Campbell
O disco seria então lançado, mais uma vez, sob o nome "Paul Revere and The Raiders/ featuring Mark Lindsay". Aliás, este nome correspondia muito mais à verdade do que havia acontecido com os álbuns anteriores. Na gravação deste disco, de certa forma, fora Mark Lindsay a dar o seu maior contributo, ainda que com a parceria direta do produtor Terry Melcher. Era verdade que a autoria das composições ficou atribuída a Mark Lindsay, todavia, como este não se cansará de sublinhar, foi a colaboração direta de Terry Melcher, sobretudo na composição das músicas e nos seus detalhados arranjos, que lhe permitiu chegar a algum lado. É preciso ainda referir que as partes vocais ficaram todas a cargo desta dupla, bastando para isso recorrer a uma técnica de estúdio, então inovadora, denominada "overdubbing". Esta técnica permite a um simples cantor fazer uma multidão de vozes e a um guitarrista isolado, tocar várias partes em simultâneo num tema. Aliás, um dos elementos que presidiu às gravações dos temas contidos no álbum "Revolution!", foi precisamente a experimentação.

Uma dessas experimentações, foi cantar os temas em "sotaque britânico". Exemplo disso é o tema "Mo'reen", onde é clara a influência de certos grupos ingleses, nomeadamente os Hollies. Outro exemplo de experimentação, é o recurso à distorção vocal no tema "Tighter", neste caso recorrendo a outra inovação técnica da época, denominada "efeito Leslie".
Um dos temas mais bem conseguidos durante as gravações do "Revolution!" foi o "Try Some Of Mine", mas que, não se sabe porquê, ficou fora do álbum final.
O disco encerra com a canção "I Hear A Voice", que constituirá uma surpresa para quem o escutar pela primeira vez. O vasto coro de vozes que aí se escuta, resultou de um "overdubbing" feito apenas às vozes de Mark Lindsay e Terry Melcher. Também foi Terry Melcher quem se ocupou da parte do piano. Sem margem para dúvidas, se "I Hear A Voice" tivesse sido gravada, na época, por qualquer outro grupo mais famoso, como os Pink Floyd, os Beach Boys, os Bee Gees ou mesmo os Buffalo Springfield (de Stephen Stills e Neil Young) e os Association, seria hoje considerada uma das grandes canções daquele tempo. Infelizmente, ficou enterrada no final do lado B de um disco de Paul Revere and The Raiders com uma capa nada apelativa e em fase descendente... É óbvio que ninguém acabou por lhe dar qualquer importância!

Referiu-se que as partes vocais ficaram todas a cargo de Mark Lindsay e Terry Melcher... Todas, excepto uma. Dado que o álbum aparecia sob a sigla "Paul Revere and The Raiders" e, à excepção de Lindsay, o resto do grupo "oficial" quase não havia participado nas gravações, os dois acharam por bem não pôr Paul Revere completamente à margem de todo o processo. Desta forma, Paul Revere teve a sua oportunidade de brilhar no tema "Ain't Nobody Who Can Do It Like Leslie Can". Tratava-se de uma canção com um sabor algo "retro" e muito bem-disposta, que assentou como uma luva ao estilo vocal de Paul Revere. Como Mark Lindsay afirmaria mais tarde, Revere fez uma breve passagem pelo estúdio, interpretou a canção que lhe foi destinada sem qualquer problema e saiu logo cumprida a sua parte. "Ainda hoje não sei se ele realmente gostou ou não da canção que eu e o Terry lhe demos para ele cantar!"
Paul Revere e Mark Lindsay em 1973

O título do álbum ("Revolution!") também foi escolha de Mark Lindsay, com plena concordância do resto do grupo e da produção. Todavia, o mesmo não aconteceu com a respetiva capa... Mark Lindsay detestou desde o começo a fotografia escolhida. Achou-a ridícula, desfasada da então atual realidade do grupo, apesar de retratar a banda com os três novos músicos contratados, e que, acima de tudo, não correspondia ao passo em frente que se pretendeu dar com o conjunto de músicas contidas neste disco. Mais uma vez, a "imagem de marca" que o grupo havia cultivado no passado, continuava a persegui-los como uma maldição...

Mark Lindsay não será afinal, o único a acreditar que a foto da capa terá contribuído muito para que este disco tivesse um êxito muito menor do que o esperado e tenha sido injustamente esquecido e menosprezado durante muito tempo. "Odeio a capa que eles escolheram!!!"



Uma nova reedição deste disco, feita no ano corrente (2015), vai tentando fazer justiça à real qualidade do trabalho nele contido. É um disco a ouvir e a comprar, mesmo por quem não aprecie o estilo musical "clássico" de "Paul Revere and The Raiders", nem a imagem de marca que este grupo havia deixado na fase anterior à concepção e gravação de "Revolution!".

A capa é enganadora e, neste caso e muitos outros, não se deverá julgar um disco apenas pela capa!

Paul Revere and The Raiders, em 1967, por alturas da saída do Lp "Revolution!".
Paul Revere, numa imagem mais recente, à frente duma nova versão do grupo.
"Paul Revere and The Raiders" não eram tão famosos nem inovadores como outros grupos, como os Beatles, os Rolling Stones e os Pink Floyd, nem tão "profundos" e "densos" como outros grupos e cantores norte-americanos, na linha dos Byrds, Bob Dylan e, nem de longe, Doors e, muito menos, Velvet Underground. Todavia, tal como outros cantores e grupos, acabaram por deixar a sua marca na história da música da segunda metade do Século XX.