Segunda-feira, Março 31, 2008

O homem que nunca existiu

A partir do Outono de 1942, as tropas aliadas acantonadas em África haviam entrado numa dinâmica de vitória sobre as antes poderosas forças militares do Eixo, representadas, maioritariamente, pelo “Afrika Korps”, este sob o comando de Erwin Rommel, a “Raposa do Deserto”.

Graças a um longo esforço táctico do Marechal Bernard Montgomery e os seus "Desert Rats" a Leste, depois auxiliado pelas forças americanas de Dwight Eisenhower, a Oeste, foi possível derrotar o exército alemão na costa Norte de África, depois de o encurralar na zona da Tunísia. A partir daqui, os altos comandos aliados puderam desviar o centro das suas atenções para a vasta Europa, então sob o domínio (decrescente) do 3º Reich.



Desde há anos que se tentavam estudar os possíveis pontos de invasão do vasto continente europeu. Agora, com apenas o estreito Mediterrâneo a separar os Aliados dos seus próximos objectivos, não foi difícil lançar sobre a mesa as várias hipóteses possíveis. Entre estas estavam o Sul de França, através da Córsega e da Sardenha, a zona costeira Sudoeste da Itália através também da Sardenha, a Grécia, que permitiria chegar aos Balcãs, e a Sicília, que seria outra porta de entrada para a península itálica.
Hitler e o seu Alto Comando temiam a criação de uma nova frente de guerra, sobretudo depois do recém-ocorrido “desastre de Estalinegrado” onde o essencial do antes glorioso “6º Exército” havia ficado encurralado e forçado à rendição. Por outro lado, haviam chegado, com cada vez mais frequência, informações de que estas zonas mais a Sul estariam um tanto quanto desguarnecidas. Desta forma, as áreas estratégicas e que pudessem ser usadas numa hipotética invasão, foram alvo de um gradual, mas lento, consolidar.
Conseguida a vitória sobre as forças do Eixo em África, os Aliados começaram a aumentar o já grande afluxo de tropas, material bélico e combustível nesta zona, com vista à preparação das próximas operações. Era mais do que sabido que Hitler e os seus oficiais não ignoravam as intenções aliadas e que todos aqueles movimentos em África se destinavam a levá-los avante. Os Aliados, por sua vez, sabiam perfeitamente que não seria fácil esconder as suas manobras preparativas do inimigo por muito tempo. Estes já sabiam que, da forma como as forças do Eixo estavam posicionadas, não seria muito difícil prever a necessidade de uma operação de elevado calibre e, sobretudo muito custosa em termos de efectivos militares e material bélico. Além do mais, da forma como a situação se lhes apresentava, era certo que a batalha poder-se-ia estender por longos meses.
Havia, por isso, de conseguir uma zona mais desanuviada em termos defensivos, que pudesse ser utilizada, sem grandes perdas, como uma porta de entrada. Ficou decidido, entretanto, que o ponto estratégico a invadir seria a Sicília. Acontece que, então, Hitler não punha de parte a hipótese de esta poder vir a ser um ponto de ataque aliado, dada a relativa proximidade com a costa africana. Diversos oficiais de alta patente no local, como Albert Kesselring, estavam plenamente convictos de que isto podia acontecer num futuro não muito distante.

Os Aliados tinham ainda muito bem viva na memória o trágico desastre de Dieppe, ocorrido no ano anterior, que serviu de aviso para se evitar incursões demasiado prematuras e sem uma prévia preparação de retaguarda e estudo do terreno e das forças a combater. Deveria haver uma maior relação de proximidade com os serviços secretos e de espionagem. Por outro lado, qualquer adiamento na concretização dos objectivos que se seguiriam, convergentes no sentido de se abrir uma nova frente de batalha na Europa, tornaria as coisas gradualmente mais complicadas.
Uma táctica que poderia ser muito útil seria conseguir convencer as forças do Eixo que estaria planeado um ataque aliado para um ou mais alvos diferentes, do realmente escolhido. Com isto, conseguir-se-ia um desvio de importantes contingentes de tropas e material bélico e, mais importante ainda, a sua dispersão, retirando-lhes qualquer possibilidade de se reunirem de novo atempadamente.

Como conseguir isto? Como conseguir enganar a vasta e poderosa rede de espiões alemães e seus colaboradores espalhada pela Europa, mesmo incluindo os países neutros? A ideia seria fazer chegar ao conhecimento desta rede, conhecida por “Abwher”, uma série de documentos com informações falsas e convincentes os quais, por sua vez, chegariam ao conhecimento do Alto Comando alemão e de Hitler. A própria forma de os fazer chegar, não poderia deixar qualquer rasto de dúvida.

Foi na sequência destas circunstâncias que se decidiu criar a pessoa fictícia de “Major William Martin”. Este suposto “William Martin”, era galês, natural de Cardiff e tinha nascido em Março de 1907. Pertencia à Royal Navy, tinha conhecimentos profundos e de longa data em aeronáutica e também uma formação especializada, essencial para o desempenho de missões secretas e de alto-risco.

O principal autor desta magnífica proeza era o Lugar-Comandante da Marinha Ewen Montagu, visível em cima, numa fotografia tirada anos depois da guerra. Ele e a sua equipa, criaram o “Major William Martin”, que trazia consigo documentação ultra-secreta e de alta prioridade, relacionada com futuras operações a executar pelas forças aliadas estacionadas em África. Infelizmente, o avião onde ele seguia, despenhou-se no Mediterrâneo e, apesar do colete de salva-vidas, ele morreu afogado. Na sua documentação, surgiam detalhes muito expressivos e convincentes, quanto a uma operação de invasão por mar em duas frentes: uma deveria desembarcar na ilha da Sardenha e a outra na Grécia, na zona do Peloponeso. Em paralelo, far-se-ia um falso ataque de diversão na Sicília, para desviar a atenção quanto ao “verdadeiro” objectivo. Por outras palavras, segundo os documentos forjados, a Sicília havia sido posta de parte.
Quem haveria de encarnar essa trágica personagem do “Major William Martin”? À partida, a tarefa não parecia nada fácil. Ninguém seria facilmente convencido a fazer um mergulho certo para a morte, por mais patriótico que fosse. Teria de ser, por isso, alguém já morto. Por outro lado, o cadáver deveria apresentar sinais inequívocos de morte por afogamento. Para encontrar este cadáver ideal, o Comandante Ewen Montagu e a sua equipa contariam com a prestimosa colaboração do patologista de renome Sir Bernard Spilsbury.
Acabariam por encontrá-lo no cadáver de um vagabundo alcoólico, vitimado por pneumonia induzida por veneno de rato. Segundo se sabia, este indivíduo desequilibrado havia cometido suicídio, na sequência de ter sido rejeitado para o serviço militar por clara inaptidão. O líquido que se encontrava nos pulmões poderia facilmente ser confundido como uma consequência de afogamento. A pedido do Comandante Ewen Montagu, a verdadeira família acabou por autorizar a utilização do cadáver, com a condição da sua identidade não ser revelada.
Encontrado o “protagonista”, houve que criar uma nova vida e história pessoal para este “William Martin”. Para isso, arranjou-se uma farda com o seu nome gravado, em cujos bolsos seriam colocados documentos pessoais falsos, objectos pessoais que traduzissem uma vida pessoal igual a tantos outros militares em serviço, sem esquecer também o pormenor da noiva e do pai, também fictícios.
Relativamente aos documentos forjados, estes foram colocados numa pasta de couro, ligada à cintura de “William Martin” por uma correia, de forma a que não se separasse durante o “trajecto”.
Para conservar o corpo, recorreu-se a um recipiente contendo gelo seco. O objectivo agora era conseguir lançar “William Martin” no mar, de forma a que este chegasse a um local onde pudesse ser interceptado por pessoas estreitamente ligadas aos serviços de inteligência do Reich. Como se sabia da existência de alguns agentes secretos alemães no Sul de Espanha particularmente activos, decidiu-se que o corpo seria lançado com a documentação no Mediterrâneo, a várias milhas da costa espanhola de Huelva. Teoricamente, a Espanha estava na condição de país neutral, mas eram sobejamente conhecidas as suas simpatias com o 3º Reich.

Como acontecia com a generalidade das operações executadas durante este conflito bélico, foi dado a esta o nome de "Operation Mincemeat" ou seja, "Operação Carne Picada". Para o início desta operação, foi escolhida a data de 27 de Abril de 1943. Para transportar o recipiente contendo "William Martin", foi escolhido o submarido britânico P219. Quase ninguém da sua tripulação sabia verdadeiramente qual o objectivo desta estranha missão. Pensavam que, dentro do recipiente vinha "um aparelho para fins meteorológicos". Após alguns dias, chegariam ao local, sem serem detectados. À noite, a 30 de Abril de 1943, "William Martin" partiu para a sua primeira e última missão.
A partir daqui, os dados ficaram lançados. O corpo acabaria por ser descoberto por um pescador espanhol, ao largo da costa de Huelva, como era intenção dos serviços secretos ingleses. O médico que o analisou o cadáver do suposto “Major”, confirmou que a sua morte teria ocorrido, de facto, por afogamento, há poucos dias.

Quase de imediato, o cônsul inglês na Espanha tomou conhecimento da descoberta do cadáver do “Major William Martin” e logo a deu a conhecer às autoridades britânicas. Não tardou que o Comandante Montagu ficasse ao corrente de que, por enquanto, a operação “Mincemeat” estaria a resultar. Entre as suas primeiras medidas, enviou uma mensagem secreta quase codificada a Winston Churchill, de que a “Carne Picada foi engolida”. Para reforçar a ideia de que “William Martin” estaria na posse de documentos de elevada importância, logo foi exigida a restituição, o mais urgente possível da pasta que se encontrava amarrada à cintura de “William Martin”.
Agora, havia que garantir a credibilidade quanto ao falecimento “em missão” do “Major William Martin” e que este havia sido particularmente inesperado e lesivo para as forças aliadas. Desta forma, no dia 4 de Maio de 1943, “William Martin” foi enterrado no cemitério de Huelva com honras militares. Durante alguns dias a campa do falecido “Major”, foi alvo de frequentes visitas tanto por parte de militares aliados, como por elementos dos respectivos consulados, como forma de dissuadir eventuais tentativas de profanação por parte gente ligada ou simplesmente simpatizante com as forças do Eixo.

O problema agora, para o Comandante Montagu e outros responsáveis dos serviços secretos britânicos, seria obter a confirmação de se os serviços secretos alemães e, posteriormente, o Alto Comando Alemão e sobretudo Hitler, haviam tomado conhecimento da documentação forjada que vinha no interior da pasta e se o “isco” havia sido de facto “engolido” pelas altas esferas germânicas.

O Comandante Montagu não obteria, até ao dia 8 de Maio de 1945, quando se deu a vitória final na Europa, uma confirmação evidente da extensão do resultado desta manobra de desinformação. No entanto, uma análise detalhada dos peritos dos serviços de inteligência britânicos, confirmou que, apesar de não faltar um único elemento da documentação forjada, esta havia sido cuidadosamente examinada pelos serviços secretos germânicos e, muito provavelmente, fotografada e as fotografias teriam chegado a Berlim. Foi o que de facto aconteceu.

Por outro lado, nas semanas subsequentes à descoberta do cadáver do “Major William Martin”, chegaram às autoridades militares aliadas, informações de um monumental movimento de tropas e armamento de todo o tipo da Wehrmacht e da Luftwaffe em direcção a regiões como a Grécia, a Sardenha e a Córsega, tendo sido muitas destas valiosas forças militares desviadas da Sicília. De facto, Hitler havia ordenado um reforço importante das defesas terrestres das zonas referidas nos documentos forjados na posse do “Major William Martin”. Desguarneceria a Sicília da maior parte das forças antes aí acantonadas, na convicção de que qualquer ataque que aí se registasse não seria mais do que um engodo. Chegou mesmo a desviar uma parte do armamento que se destinava a guarnecer a frente Leste, nomeadamente, diversos tanques e blindados, inicialmente destinados à preparação de uma outra operação denominada “Citadela”, que resultaria na famosa “Batalha de Kursk”, que ocorreria daí a mais ou menos dois meses.


Foi também, dois meses depois, a 9 de Julho de 1943, que os Aliados lançaram a prevista “Operação Husky”, que não era mais do que o nome de código para a invasão da Sicília. Plenamente confiantes na pouca concentração de forças bélicas nesse ponto estratégico, os Aliados efectuam uma deslocação de homens e material, espectacular do ponto de vista numérico, num ataque concentrado à Sicília. Encontrariam uma fraca resistência por parte das forças aí acantonadas e demorariam apenas mais ou menos um mês a conquistar esta ilha. Esta invasão de surpresa, precipitaria a “queda” de Benito Mussolini pouco depois e a formação da tão temida por Hitler “segunda frente” de combate.
O impacto real desta operação “Mincemeat”, acabaria por se fazer sentir ainda muito para além da bem sucedida “Missão Husky”. Isto verificar-se-ia, por exemplo, no próprio sucesso da “Missão Overlord” que culminaria no histórico desembarque na Normandia, o “Dia D”, em 1944. As forças germânicas haviam sido, com sucesso, convencidas de que o desembarque seria em Pas-de-Calais, mais a Nordeste da França, o que, mais uma vez, originou um novo desvio e dispersão de homens e material bélico para longe de onde era necessário. Numa ou noutra ocasião, cometeu-se o erro, quase fatal, de deixar documentação onde surgia, inequivocamente e com algum detalhe, que o desembarque real seria na Normandia. Os responsáveis tanto da inteligência como do exército germânicos, tomaram-nos como sendo antes mais uma tentativa de desinformação, na mesma linha da “Operação Carne Picada”. Acabariam por ficar ainda mais convictos de que o real desembarque seria em Pas-de-Calais, que foi fundamental para o sucesso no desembarque nas praias da Normandia.

Segunda-feira, Março 24, 2008

Uma realidade esquecida

Antes do aparecimento dos antibióticos, a realidade do tratamento da tuberculose era feita, muitas vezes, de esperanças goradas. Na prática, esta doença não tinha cura ou, pelo menos, não se dispunha de um medicamento que atacasse directamente o micróbio que a provocava. É verdade que já existia, desde a década de 20, a denominada vacina de B.C.G., mas esta era de carácter meramente preventivo, de eficácia nem sempre total. Por outras palavras, havia contribuído para um decréscimo no aparecimento de novos casos, mas de nada servia numa situação de doença efectiva diagnosticada.

Nesses tempos, em que a tuberculose era um grave problema de saúde pública, pelo menos no que se refere aos países dos chamados "1º e 2º mundos", devido à contagiosidade desta enfermidade, adoptava-se, como regra fundamental, a separação dos afectados dos sãos, de forma a não agravar a sua já grande disseminação. Começou-se por recorrer às zonas de isolamento dos hospitais. Para além disto, como se sabia que, em certas zonas geográficas, sobretudo junto ao mar e a grande altitude, a qualidade do ar, associada à exposição solar, tinha efeitos particularmente benéficos na evolução da doença, essas zonas foram excolhidas como as ideais para a construção de hospitais de isolamento especializados, a que se deu o nome de "sanatórios". Desta forma, um pouco por todo o mundo, surgiriam, desde os últimos anos do século XIX até meados do século XX, tanto sanatórios de altitude, como marítimos. Estes últimos tinham a particularidade adicional de serem os ideais para o tratamento de uma variedade de tuberculose, a que era dado o nome de "mal de Pott". Era a tuberculose óssea, que deixava sequelas incapacitantes e afectava muitas crianças e jovens. Fotografias antigas ainda mostram pessoas convalescentes com partes do corpo envoltas em ligaduras. Dois dos exemplos em terras portuguesas, foram o Sanatório Marítimo do Outão e o da Parede.

No entanto, foram os maioritários sanatórios de altitude, ou em zonas remotas densamente arborizadas, aqueles que mais fama conquistaram e os que representam melhor o imaginário de toda uma realidade, felizmente passada, mas com qualquer coisa de mítico, que muitos das novas gerações nunca hão de compreender porque nunca a conheceram. Por outro lado, como é natural, muitos dos que contactaram directamente com essa realidade, acabariam por remeter para os seus herméticos baús de memórias que, só a muito custo, são abertos. Foi um tempo de histórias e muitos dramas pessoais, só compreensíveis por quem os viveu de perto. Aqueles que tinham o grande azar de contraír essa doença iniciavam um longo calvário feito de incertezas, mas com determinação mantida a todo o custo. Tudo começava com um internamento hospitalar destinado, entre outras coisas, a fazer um diagnóstico mais preciso da situação e a preparar o encaminhamento para o tratamento sanatorial. Muitos só apareciam perante os médicos já numa fase em que a enfermidade caminhava em pleno, apesar de tantas vezes ser aconselhada uma detecção precoce, aos primeiros sintomas. Alguns ficavam mais algum tempo internados no hospital público, a fazer uma breve tentativa de fortalecimento para depois transitarem em definitivo para a sanatorização.

A partir daqui, iniciava-se uma verdadeira odisseia virtual em busca da cura, que podia durar vários anos e não surtir os resultados pretendidos. Não raras vezes, iam vários membros de uma mesma família. Do outro lado, ficavam os familiares e amigos numa permanente angústia, sempre aguardando notícias mais positivas. O tratamento era muito longo e, não raras vezes, dispendioso. Os enfermos eram obrigados a respeitar todo um esquema de tratamento rígido, não só em termos de horários, onde o grosso do tempo era ocupado na posição de deitado, quer nos respectivos quartos, quer nas galerias arejadas a contemplar a paisagem pretensamente relaxante. Apesar de tudo, era quase sempre um dia-a-dia algo duro de suportar, sobretudo por gente antes habituada a uma vida activa. Os tratamentos não eram também pêra doce. A medicação disponível não era muitas vezes nada agradável, em especial quando uma parte substancial desta era administrada através de injecções dolorosas. Para encimar todo este quotidiano algo monótono havia a parte da alimentação. Esta deveria ser substancial, o que, em muitos casos, podia ser sinónimo de lautas refeições várias vezes por dia. Este detalhe era especialmente penoso para os enfermos atacados pelo muito frequente fastio, habitual numa doença consumptiva como era a tuberculose, também conhecida por tísica. Para tornar as coisas mais duras, havia os diversos desarranjos orgânicos, quer provocados pelas oscilações da doença, quer pelos efeitos secundários das terapêuticas, sem falar na componente psíquica que, quase sempre, estava negativamente afectada.

As “armas” de que se dispunha para lidar com esta enfermidade consistiam essencialmente em medicamentos sintomáticos, isto é, destinados a atenuar as manifestações físicas da doença e minorar os seus efeitos nefastos na qualidade de vida dos doentes. De qualquer forma, grosso dos medicamentos e elixires a que se recorria durante esses lentos e morosos meses ou anos de tratamento, eram destinados a fortalecer o organismo, tentando aumentar-lhe as resistências imunológicas, de forma a que este, por si, pudesse debelar gradualmente a doença. Entre estes suplementos, existiam as injecções vitamínicas e os "licores de carne", estes últimos fortemente ricos em proteínas e ferro, que eram os antepassados dos actuais suplementos proteicos de vários sabores. Havia ainda um tipo de injecções complementares, à parte, de preparados à base de cálcio, com o intuito, tanto de suprimir as frequentes perdas deste mineral essencial, como de acelerar a calcificação ou cicatrização das lesões tuberculosas. Quando o repouso, a alimentação e os “bons ares”, complementados pela terapêutica medicamentosa disponível, não estivessem a dar o resultado pretendido, havia que recorrer a outros métodos mais drásticos. Estes recursos adicionais eram bastante complicados, dolorosos e não isentos de perigo. Alguns deles eram mesmo mutiladores e deixavam marcas físicas para toda a vida. E claro, para quem tinha de lidar com estas situações de perto, quer do lado dos médicos, quer do lado dos pacientes, também eram assustadores. O menos impressionante destes métodos físicos, era uma prodigiosa descoberta médico-tecnológica, descoberta na segunda metade do século XIX: o pneumotorax artificial ou terapêutico.

Este tratamento baseava-se na ideia fundamental de que uma das razões porque a tuberculose pulmonar era tão difícil de tratar e tão frequente, se devia ao facto de o sistema pulmonar estar permanentemente em movimento e, desta forma, o órgão doente não conseguir o repouso necessário para as lesões se curarem por elas próprias.

Desta forma, o pneumotorax terapêutico consistia em injectar um gás entre a pleura e o pulmão própriamente dito, de forma a colapsá-lo, ficando este mais encolhido e estático. Ficaria, de facto, provado que este método auxiliava as lesões cavitárias a fecharem e a cicatrizar por elas mesmas, reduzindo-se as áreas afectadas e propiciando-se o tão desejado processo de cura. No entanto, mesmo facilitado, este podia ainda chegar a durar alguns anos.
O aparelho destinado a administrar este tratamento, fora o resultado de uma prodigiosa criação do médico italiano Carlo Forlanini (1847-1918), nome pelo qual os primeiros protótipos deste aparelho ficaram conhecidos. O ano da sua invenção foi exactamente o mesmo em que Robert Koch descobriu o bacilo da tuberculose: 1882. Os exemplos acima visíveis resultaram dos diversos aperfeiçoamentos que este invento foi tendo ao longo dos anos com o intuito de se tornarem mais portáteis, resistentes e fáceis de manusear. O seu funcionamento básico manteve-se mais ou menos inalterado. As insuflações eram controladas por um manómetro, por sua vez regulado por água. Estas eram induzidas por uma pêra de borracha e introduzidas no tórax do paciente, através de uma grande agulha devidamente esterilizada.
Tratava-se de uma operação algo delicada e que necessitava de ser executada por médicos com larga experiência e perfeito conhecimento da morfologia do aparelho respiratório. Era também essencial o acompanhamento de uma rádiografia do paciente. Mesmo assim, não era totalmente isento de riscos e tinha os seus detractores. Mas era, de todos os métodos de colapsoterapia, o menos invasivo.
Quando esta terapêutica, apesar de mais algo morosa, não apresentasse os resultados desejados, havia outros métodos mais radicais, sempre com a intenção de tentar colapsar o órgão afectado. Era aqui que entravam os métodos cirúrgicos.
Uma das principais razões que comprometia a eficácia do pneumotorax, residia num dos efeitos secundários da própria tuberculose: a pleurisia. Esta provocava derrames na pleura, que originavam a formação de aderências ao pulmão, que anulavam qualquer tentativa de o comprimir. Desta forma, haveria a hipótese de se recorrer ao corte de aderências. Caso não fosse possível eliminar as aderências ou quando estas eram muito disseminadas, só existiria uma solução absolutamente radical: a toracoplastia. Consistia esta na remoção cirurgica de costelas, para obrigar o lado afectado a ficar comprimido definitivamente. Em suma, retiravam-se algumas partes, para salvar a vida de todo um organismo. De qualquer forma, deixava marcas físicas (e mesmo psíquicas) para toda a vida futura do paciente. Contudo, para que estes dois exemplos de operações fossem possíveis, havia que tomar em conta a resistência e o estado físico do doente. Senão seria pior a emenda que o soneto... No entanto, mesmo quando se pensava que os pacientes estariam preparados para tais operações de alto risco, não eram raros os casos em que estes faleciam tanto durante as longas horas de cirurgia contínua, como no pós-operatório. Também a própria doença se podia agravar e nada mais a deteria no seu caminhar para o temido desfecho final...

Também havia outras formas, algo originais, para tentar imobilizar, quer parcial, quer totalmente, o órgão afectado, como a introdução na cavidade pleural de óleo, bolas de parafina sólida e mesmo bolas de ping-pong, como atesta esta imagem radiográfica.

Com a chegada gradual dos antibióticos, a partir da segunda metade dos anos 40, estes métodos algo temíveis de tratamento começaram a ser abandonados. Os tratamentos básicos de repouso, alimentação, terapêutica reconstituinte e bons ares, eram cada vez mais complementados com os novos medicamentos tuberculostáticos, primeiro a estreptomicina, depois o P.A.S. e a izoniazida. Com este primeiro trio descoberto, estava constituida a primeira grande frente de ataque contra o bacilo de Koch. As estadias sanatoriais começaram a ser cada vez mais curtas, mas também a ser menos necessárias, pois esta nova terapia antibiótica também contribuía para tornar os casos declarados de tuberculose muito menos contagiosos.
Foi também o iniciar de uma lenta decadência do domínio dos sanatórios, que começaria a ganhar força com o seu progressivo encerramento a partir dos anos 50. Portugal também não escaparia a esta onda muito positiva. Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, praticamente todos os sanatórios que ainda existiam, muitos deles quase sem nenhum doente internado, acabariam por encerrar. Alguns seriam reconvertidos em novas unidades hospitalares, como o Hospital da Guarda e o Hospital dos Covões, em Coimbra. A maioria, sobretudo os que estavam longe dos grandes centros, seríam votados a um completo abandono, que ainda hoje se arrasta.

Terça-feira, Março 18, 2008

Alguns "mistérios" e esclarecimentos necessários

Já há muitos anos, têm aparecido, por entre o vasto mercado de edições em CD de baixo preço, diversas colectâneas de Rod Stewart que não mais terão contribuido do que para lançar alguma confusão entre quem pretende ter um conhecimento mais profundo da carreira deste artista. Não é que elas sejam desinteressantes - aliás os erros que dentro delas surgem constituem alguns dos mais cómicos episódios do mercado discográfico actual e, por outro lado, poderão ser reveladores de algumas situações não tão pouco frequentes como se julgue.

Todas estas colectâneas têm uma apresentação chamativa ao mostrarem uma fotografia inequívoca de Rod Stewart no seu melhor, mas que não corresponde em nada à época em que ele terá gravado as versões originais de muitos dos temas que aí surgem. Pode-se usar como paradigma a colectânea referida em baixo, dado que quase todas as outras pertencentes ao universo "low-price" incluirão os mesmos temas ou até excluem alguns.

O essencial dos temas aqui incluidos, provém de uma outra colectânea de baixo custo, lançada por volta de 1976, "A Shot Of Rythm And Blues", quando Rod Stewart já era uma figura consagrada mundialmente e, contra a qual, na altura, ele se terá insurgido. Estes temas haviam resultado de algumas sessões de gravação, decorridas no Verão de 1964, após Stewart ter assinado um contrato com a Decca Records e com o intuito de gravar o seu primeiro single a solo - "Good Morning Little Schoolgirl"/"I'm Gonna Move To The Outskirts Of Town". De referir que a colectânea acima visível, não inclui este seu primeiro single.
Com a óbvia excepção dos dois temas incluídos no single, todos os outros ficariam inéditos até 1976, quando surgiu a referida colectânea nos Estados Unidos. Os temas seriam sujeitos a um verdadeiro tratamento de choque, denominado "reforço instrumental", de forma a dar-lhes um som mais "moderno" e adquirir uma sonoridade estereofónica, visto que na sua versão de 1964, só existiam em “mono” e continham apenas um “naipe” básico de músicos. Desta forma, à revelia de quem os havia concebido e interpretado, entre outros aspectos, são gravados “por cima” novos instrumentos adicionais, reforçado o som da bateria e, inexplicavelmente, truncado o início instrumental de alguns dos temas. Esta “revisitação” de um material que se poderia considerar sem utilidade para todo o sempre, poder-lhe-á ter dado uma nova vida e actualidade, mas, segundo muitos críticos, desvirtuou-os completamente.

Para além dos remisturados temas inéditos de 1964, esta colectânia inclui na integra os temas dos dois outros singles gravados a solo: o primeiro, "The Day Will Come"/"Why Does It Go On", editado em Novembro de 1965 e o segundo, "Shake/I Just Got Some", editado em Abril de 1966. Nenhum deles teve êxito na época da sua edição original. Na colectânea acima referida, surgem sujeitos ao mesmo tratamento criticável de "reforço instrumental" e "estéreofonização", de forma a iludir a sua "idade" verdadeira. Durante este período de 1965/1966, Rod Stewart integrou também, ao lado de Long John Baldry, Julie Driscoll, Brian Auger e outros, um grupo de blues denominado "The Steampacket". Desta breve aventura, são seleccionados dois temas, ambos covers, de dois clássicos "Can I Get A Witness" e "Baby Take Me". Estes também foram sujeitos ao já referido "tratamento de choque" da remistura.

Profundamente remisturado e sonoramente actualizado, surge também aqui o histórico dueto entre Rod Stewart e P.P. Arnold, proveniente de uma sessão de gravação produzida por Mick Jagger, no ano de 1967: "Come Home Baby".

"Just A Little Misunderstood", é a demo do tema que seria o lado A do seu quarto single, editado, depois de alguns meses de adiamento, em Março de 1968: "Little Miss Understood/So Much To Say (So Little Time)". Esta versão experimental surge aqui, tal como muitos dos outros temas escolhidos, sem a parte instrumental do piano com que originalmente abria.

Por fim surgem vários temas "misteriosos", mas muito conhecidos de quem alguma vez experimentou comprar uma das muitas diversas colectâneas de baixo preço sobre Rod Stewart. São eles: "Sparky Rides", "Red Ballroom" e "Wide Eyed Girl On The Wall". São três exemplos de que um erro estúpido cometido uma única vez, poder-se-á, por vezes, perpetuar e multiplicar para todo o sempre. Por outro lado, estes erros poderão ter explicação numa outra situação que valerá referir mais adiante.

O tema "Sparky Rides", na verdade, é a canção "Wham Bam Thank You Mam", que surgiu no lado b do último single do grupo Small Faces, lançado no começo de 1969, quando o seu líder Steve Marriott já tinha abandonado esta banda, para depois ir formar os Humble Pie com Peter Frampton. O tema surge aqui com som mais "potente" do que na sua edição originalmente lançada em 1969, graças, de novo, a uma forte dose do já referido tratamento de "reforço instrumental". O estranho título "Sparky Rides", deriva de uma má leitura do título abreviado de um outro tema também dos Small Faces: "Donkey Rides, A Penny, A Glass". Este último era o título do lado b do penúltimo single oficial dos Small Faces, lançado em finais de 1968.

O tema "Red Ballroom" é a repetição de um outro tema já também referido: "Come Home Baby". A única diferença reside no facto de esta "versão" ter sofrido um menor tratamento de "reforço instrumental" e, desta forma, apresentar um som muito mais próximo da versão originalmente gravada em 1967. O título "Red Ballroom", sem qualquer relação com a letra da canção, resulta também da má leitura do título de outro tema, também dos Small Faces, denominado "Red Balloon". Tratava-se de uma versão desta banda de um tema original de Tim Hardin (também autor de "Reason To Believe"), que havia ficado inédito quando os Small Faces se desfizeram no começo de 1969. O tema "Red Balloon" seria, meses mais tarde, recuperado no último, mas "póstumo", álbum duplo dos Small Faces "The Autumn Stone". Os dois temas atrás referidos surgem, nesta colectânea, sob a autoria errada de Rod Stewart.

O terceiro exemplo de tema "misterioso" é "Wide Eyed Girl On The Wall", tema dos Small Faces e não de Rod Stewart. Aqui, a autoria está correcta, visto que o tema a que se refere é da autoria da dupla Steve Marriott e Ronnie Lane, ou seja, os dois principais compositores e elementos da banda Small Faces. Acontece que o tema que aqui surge sob este título, apesar de ter a mesma autoria, é de novo "Wham Bam Thank You Mam", embora numa versão de estúdio anterior à final editada e sem o tratamento de "reforço instrumental" que recebeu sob o título de "Sparky Rides". O verdadeiro "Wide Eyed Girl On The Wall" é um tema instrumental, provavelmente inacabado, também incluído no álbum final dos Small Faces, "The Autumn Stone".

A razão para estes erros sistemáticos, prender-se-á com todo um conjunto de circunstâncias ocorridas entre 1967 e 1970, que tinham um denominador comum : a Immediate Records.

Esta editora independente havia sido criada pelo famoso e antigo produtor e manager dos Rolling Stones Andrew Loog Oldham, em 1965. Por esta editora discográfica passaram muitos nomes da música dos anos 60, muitos deles hoje esquecidos, apesar de também se incluirem cantores e grupos que teriam sucesso, em especial logo depois de terem feito aqui a sua estreia. Todos aqueles que queiram ter um conhecimento melhor deste período da história da música, não poderão ignorar, pelo menos, as diversas colectâneas actualmente existentes no mercado, onde surge o grosso do temas, sobretudo em single, que foram gravados para a Immediate Records.

Esta editora acabaria por ser extinta em 1970, devido sobretudo a problemas financeiros provenientes de uma má gestão. Muitos dos seus artistas não veriam, pelo menos durante longos anos, a cor do dinheiro das suas "royalties". Entre estes estavam os Small Faces, cujos elementos sobreviventes só conseguiram ver esta situação injusta resolvida há muito pouco tempo atrás.

Rod Stewart, depois do fim da aventura falhada dos Shotgun Express, em Janeiro de 1967, decide investir de novo na sua carreira a solo e após um período de incerteza, decide assinar um contrato com a então muito reputada Immediate Records. Em paralelo, havia ingressado, como vocalista principal no "Jeff Beck Group", onde se começaria verdadeiramente a fazer notar junto do grande público. Para respeitar o contrato com a sua nova editora decide iniciar as gravações do já atrás referido single, "Little Miss Understood"/"So Much To Say (So Little Time)". É numa destas sessões que surge a tal versão experimental do tema do lado A, que é utilizada em muitas colectâneas de baixo preço, quase sempre com a parte do inicio do piano (inexplicavelmente) truncada. Logo de seguida, desenrolar-se-ia a sessão de gravação produzida por Mick Jagger, de onde sairia o dueto com P.P. Arnold "Come Home Baby".
Acontece que nesse mesmo ano de 1967, os Small Faces, tendo rescindido o seu contrato com a Decca Records, também assinariam um novo contrato com a Immediate Records. Nesta editora gravariam, pelo menos, dois dos seus melhores álbuns, um deles o incontornável "Ogden's Nut Gone Flake" de 1968, para além de uma série de singles interessantes, antes de se dissolverem no começo de 1969.

Esta editora era um pequeno mundo, onde quase todos os seus protagonistas se conheciam uns aos outros, pelo menos de vista. Sendo Rod Stewart já uma figura peculiar e de elevado perfil e os Small Faces um dos mais famosos grupos da Immediate Records, não seria de espantar que os seus caminhos se cruzassem com frequência, tanto no estúdio como nas digressões. Por outro lado, as suas influências e referências musicais, nomeadamente a nível do blues, eram mais do que semelhantes.

Para além disto, a voz de então de Rod Stewart, apesar de inconfundível, tinha algumas sonoridades muito próximas com a de Steve Marriott, o líder e a voz principal dos Small Faces. Não admiraria que um ouvinte com menor cultura musical e pior ouvido (e nunca houve falta de gente assim), tendesse a confundi-los, por vezes. Por outro lado, o desgaste progressivo das fitas de gravação tenderia a apagar o brilho do som das suas vozes e, decerto, tornar mais fácil a confusão. Esta aparente similaridade entre as vozes de Stewart e Marriott, seria também um factor que incentivaria os outros três membros dos Small Faces a convidar o primeiro para lider do grupo que lhes sucederia, os Faces.

Acrescente-se a isto o facto de, após a dissolução dos Small Faces no começo de 1969, os laços de convívio e até de amizade entre os três membros restantes e a banda Jeff Beck Group, com Rod Stewart como vocalista principal, se haviam estreitado muito. Além disto, foi frequente, nesse período de 1969/1970, a sua participação conjunta em projectos musicais de curta duração, nomeadamente o há poucos anos descoberto Quiet Melon.

Paralelamente, dá-se a extinção da Immediate Records em 1970. Na sequência disto, houve que tomar a árdua tarefa de decidir o que fazer com o respectivo património, muito do qual terá sido vendido para tentar amortizar as muitas dívidas então pendentes. Por outro lado, é preciso não esquecer o elemento fundamental do muito material gravado proveniente dos diversos artistas e grupos que haviam sido editados pela Immediate ao longo daqueles breves cinco anos. É certo que, durante esse período confuso e incerto, muitas gravações, entre demos e masters, terão passado por diversas mãos, nem sempre as mais idóneas.

Entre estas terá estado quem terá visto nestas tapes uma possivel fonte de lucro, lançando compilações de critério duvidoso e sem o devido rigor. A colectânea de Rod Stewart supra-citada é um exemplo de uma de muitas das que foram convertidas para formato CD. Quem primeiro organizou a selecção básica, terá decerto também recorrido ao precioso filão da Immediate Records e acabaria por incluir nas gravações escolhidas algumas pertencentes ao repertório dos Small Faces, confundindo a voz de Steve Marriott com a de Rod Stewart que se havia tornado no vocalista principal do grupo Faces, sucessor da outra banda. Muito provavelmente, fitas relativas ao mesmo período estariam armazenadas no mesmo sítio (ou caixote) e numa desorganização completa, que era o que estava a acontecer com os bens pertencentes à Immediate Records. Isto terá facilitado, para um compilador pouco cuidadoso, a troca de títulos de vários temas. Para mais, esse mesmo compilador não terá conseguido entender a caligrafia de quem escrevera esses títulos nas etiquetas das caixas das respectivas tapes e acabou inventando, pelo menos, dois novos temas para o vasto repertório de Rod Stewart - os já referidos "Sparky Rides" e "Red Ballroom". Há erros para a eternidade...

Felizmente, uma editora muito competente, a Sanctuary Records, através da sua Castle Communications, acabou por ficar, gradualmente, com a posse de muito desse precioso material da Immediate Records, tendo, com alguma regularidade, editado diversas compilações bastante interessantes e essenciais.

Segunda-feira, Março 17, 2008

Uma outra frente de guerra.

Quando a 2ª Grande Guerra despoletou, em 1939, muitos referem como o único acontecimento bélico determinante dessa fase, a invasão da Polónia pela Alemanha nazi em 1 de Setembro desse mesmo ano. Na realidade, a partilha da Polónia no pacto Germano-Soviético que precipitou o desencadear de mais este conflito, seria também o primeiro passo para a formação de uma outra zona de conflito: a Finlândia.
Este pequeno país, o mais oriental da zona a que se dá o nome de Escandinávia, havia estado, entre 1809 e 1917, sob o domínio do vasto império russo, após ter estado nas mãos da Suécia. Só obteria a sua verdadeira independência no ano de 1917, após a revolução de Outubro, que levaria à desagregação do império dos Czares. Para a constituição desta nova nação, muito terá contribuído a conjuntura favorável da desagregação dos grandes impérios derrotados no conflito bélico de 1914-18 que então terminava. Na sequência da criação de novos países, a Finlândia viu reconhecida a sua independência e, após um breve período monárquico entre Outubro e Dezembro de 1918, veria instaurado o regime republicano daí em diante, tendo o seu primeiro presidente sido eleito logo no começo de 1919.
Ainda no ano de 1918, a Finlândia seria palco de uma breve mas dura guerra civil, entre os “Brancos”, essencialmente constituídos pela classe burguesa e apoiados pela Alemanha Imperial, e os “Vermelhos”, vasta e heterogénea facção constituída por operários e trabalhadores rurais sem propriedade, grandemente apoiada pela então nova Rússia bolchevique. Os “Brancos” acabariam por vencer os “Vermelhos” num breve espaço de tempo, mas as sequelas políticas e sociais desta guerra civil perdurariam por décadas. Por outro lado, manteria um clima de relações muito tensas entre a Finlândia e a União Soviética pelos anos que se seguiriam. Outro factor que aumentaria este clima de hostilidade mútua seria o facto de os governos eleitos desde a sua independência serem dominados por uma corrente ideológica anti-comunista.
Esta situação manter-se-ia mais ou menos inalterada até o desencadear da 2ª Guerra Mundial. A partir de então, tendo a União Soviética, na sequência do acordo Germano-Soviético, invadido a metade Leste da Polónia, aquela começa a tentar entrar em negociações com a Finlândia. Sob o pretexto da necessidade de garantir a defesa das suas fronteiras ocidentais, devido a um então ainda não assumido receio relativamente ao expansionismo germânico, a União Soviética pretendia instalar bases militares em diversos locais estratégicos mais a Norte.
O governo finlandês não concordaria com as exigências territoriais da União Soviética. Na sequência disto, desenvolveu-se um clima de desconfiança mútua, que havia de culminar no desencadear de uma nova frente de batalha, a que se deu o nome de “Guerra de Inverno”, no dia 30 de Novembro de 1939. A partir desse dia, a União Soviética começa a invadir as zonas finlandesas que então requeria. Do outro lado, a nação finlandesa, militarmente pouco poderosa, mas profundamente conhecedora do seu terreno, decide iniciar uma defesa encarniçada das suas zonas fronteiriças de então.Este breve conflito local estender-se-ia apenas até Março de 1940, quando o exausto e desorganizado exército finlandês, se vê forçado a aceitar um armistício com a União Soviética. Na sequência deste acordo, a Finlândia perderá diversas partes da sua zona mais ocidental, desencadeando-se um dos primeiros movimentos de refugiados de todo o conflito mundial. Mais tarde, na sequência da invasão da União Soviética pelo 3º Reich, recuperará, por breves anos, estas zonas estratégicas, mas depois seria forçada a abdicar delas, quando, em 1944, o Exército Vermelho avançou para Ocidente. De referir que, quer durante a "Guerra de Inverno" de 1939-1940, quer na fase de 1944, quando a União Soviética já assumia uma nova posição atacante, a Finlândia sofreria alguns bombardeamentos aéreos, nomeadamente na sua capital Helsínquia. A intenção era, obviamente, forçar este país a uma rendição mais imediata. No entanto, devido ao facto de a força de bombardeiros soviética estar a "anos-luz" da capacidade e organização da anglo-americana, bem como das parcas defesas anti-aéreas finlandesas serem suficientes, os danos causados foram mínimos. De referir ainda, que os símbolos visíveis nos caças defensivos finlandeses, apesar das fortes semelhanças, não tinham nada que ver com o nazismo. Tratava-se apenas de um símbolo da Força Aérea Finlandesa, sem nenhum significado ideológico. Apesar de tudo, quando terminou a 2ª Guerra Mundial, devido a estas grandes semelhanças e ao forte repúdio pela simbologia nazi que se lhe seguiu, a Finlândia teve de eliminar definitivamente este simbolo dos seus aviões.

Rod Stewart e os inícios da sua carreira

A primeira fase da carreira artística de Rod Stewart tem passado um tanto quanto ao lado de muitos, mesmo incluindo fãs. Quando se lança um olhar para os tempos anteriores a 1970, muitos não vêem mais do que um denso nevoeiro onde se distinguem apenas algumas formas enigmáticas.
A sua carreira de cantor começou a dar os seus primeiros passos ainda no tempo do liceu, ao formar grupos musicais de ocasião com alguns colegas e amigos que partilhavam os mesmos gostos musicais, com predomínio para o “skiffle”, que então fazia moda em terras britânicas.
Ao abandonar a escola ingressou em diversos trabalhos de curta duração, tendo, pelo meio, feito várias tentativas para fazer carreira no futebol, outra das suas grandes paixões. Algum tempo depois, decide investir no seu talento para a música e integra, pelo menos, uma de diversas bandas então existentes que tocavam jazz e blues, para além de viajar e fazerem diversos espectáculos dentro e fora das ilhas britânicas. Numa destas ocasiões, é preso por “vagabundagem” e repatriado para Inglaterra. A partir daqui, Stewart começa a tentar a sua sorte, igualmente, pelo circuito dos bares e pequenas casas de espectáculo. Começa a ser convidado a participar como mais um elemento convidado em algumas dessas bandas obscuras que actuavam, esporadicamente, nesses locais. Acabará mesmo, por essa altura, por participar na gravação de um “single”, de um grupo que não teria qualquer impacto comercial.
É numa dessas ocasiões que começa a chamar a atenção de um cantor branco de blues, que já era mais ou menos conhecido nos circuitos musicais britânicos: “Long” John Baldry. Este convidá-lo-ia a ingressar no seu grupo de então, “Hoochie Coochie Men”, onde chegaram a partilhar a voz principal, e isto constituiria o seu verdadeiro “pontapé-de-saída” no começo da sua longa carreira musical que perduraria até hoje. Rod Stewart tornar-se-ia uma presença cada vez mais notada nos diversos espectáculos de “rythmn’n blues” que se realizaram em Inglaterra, nesse começo de 1964, apesar de, inicialmente, devido à sua natural timidez, sofrer de um certo “stage-fright”, ou seja, receio de actuar em público.
Este contacto mais directo com o panorama musical de então, vai-lhe abrir as portas do estúdio onde ele gravaria o seu primeiro verdadeiro disco “single” a solo, no Verão de 1964. No lado A estava o tema “Good Morning Little Schoolgirl” e no lado B “I’m Gonna Move To The Outskirts Of Town”. No entanto, estes dois temas eram apenas uma selecção feita a partir de uma série de “demos”, essencialmente constituídas por “covers” de temas já existentes de blues, da autoria de nomes consagrados, como Jimmy Reed e Willy Dixon.
Só os dois temas incluídos nesse seu primeiro “single” a solo, receberiam o tratamento e os arranjos finais devidos, tendo os restantes ficado inéditos e inalterados por vários anos. Acabariam por surgir, por volta de 1976, numa colectânea de baixo custo editada por uma editora pequena. Por esta altura, em meados da década de 70, já Rod Stewart era um cantor consagrado.

Foi apenas com a sua posição de cantor principal no “Jeff Beck Group”, que Rod Stewart começou a ser verdadeiramente conhecido do grande público. Foi, decerto, devido à sua peculiar voz e à sua muito pessoal forma de interpretar temas de rock e blues, que os dois álbuns lançados por este grupo, em 1968 e 1969, foram um êxito muito expressivo nos dois lados do Atlântico. No entanto, uma reunião tão perfeita de vários talentos musicais, acabaria por desencadear um óbvio confronto de personalidades, o que esteve, com certeza, implicado na dissolução deste grupo, ao fim de apenas quase dois anos de reunião.
Dissolvido o “Jeff Beck Group”, Rod Stewart pode dedicar-se definitivamente à sua carreira a solo, com a gravação do seu primeiro álbum, saído no Outono de 1969. Este álbum seria primeiro lançado nos Estados Unidos, sob o título óbvio de “The Rod Stewart Álbum”, mas teria um título diferente na sua edição britânica, escolhido a partir de um dos seus temas: “An Old Raincoat Wouldn’t Let You Down”. E aqui começaria uma história de sucesso e consagração, já muito conhecida do público em geral.

Segunda-feira, Março 10, 2008

Os monotrématos

Em termos de reprodução, os mamíferos podem-se dividir em três grupos básicos: os placentários, que constituem a maioria esmagadora, os marsupiais e os monotrématos.
Os monotrématos constituem um grupo à parte na vasta família dos mamíferos. Como o próprio nome indica, apenas possuem um orifício, ou cloaca à semelhança das aves. A sua outra característica fundamental é o facto de serem ovíparos, isto é, nascerem a partir de ovos chocados no exterior. Estes dois aspectos constituem um elemento fundamental para caracterizar os monotrématos como um grupo de mamíferos primitivos. De facto, encontram-se mais próximos do elo evolutivo, que liga os mamíferos aos seus antepassados répteis e pertencem a uma vasta família cuja maioria dos seus membros já se extinguiu há muitos milhões de anos.
Desta forma, os monotrématos existentes podem ser considerados mais um exemplo de “fósseis vivos”, para além de serem um dos mais pequenos grupos em termos de espécies animais incluídas. Nos monotrématos incluem-se, fundamentalmente, apenas duas: os ornitorrincos e os equidnas. Estas duas espécies são endémicas tanto na Austrália, como na zona da Nova-Guiné, embora diversos fosseis encontrados noutras partes do globo, façam crer que já estiveram mais disseminados em tempos remotos.
O ornitorrinco é um animal cujo corpo se encontra perfeitamente adaptado à vida aquática, não só devido às pregas existentes nas suas patas, como ao seu focinho que termina num bico algo semelhante ao pato. O seu aspecto aparentemente inofensivo é contrariado pelos esporões defensivos que ele possui em cada uma das patas traseiras, que segregam um veneno bastante doloroso.

O seu aspecto algo bizarro deu origem a que, durante algum tempo, se considerasse um completo embuste as suas primeiras referências, feitas pelos primeiros colonos ocidentais a chegarem ao continente australiano.

O equidna também se destaca pelo seu aspecto algo peculiar, embora seja por vezes confundido com o ouriço-cacheiro, devido aos longos espinhos que cobrem o seu dorso e ao facto de também se enrolar sobre si mesmo quando ameaçado. O seu focinho termina num longo bico, que lhe dá igualmente uma fisionomia algo semelhante a um pequeno tamanduá.

Ao contrário do semi-aquático ornitorrinco, o equidna prefere as zonas mais secas e densamente florestadas, principalmente ao nível da vegetação rasteira, onde ele encontra os insectos que constituem a base da sua alimentação, com destaque para as formigas.

Love e "Forever Changes"


No dia 3 de Agosto de 2006, Arthur Lee faleceu vítima de leucemia, após vários meses de tratamento intensivo, incluindo um transplante de medula óssea e a utilização de uma nova terapia à base de células extraídas de cordão umbilical. A sua morte significou, igualmente, o desaparecimento de uma das lendas vivas da música contemporânea, bem como o encerramento de todo um ciclo musical iniciado na primeira metade dos anos 60. Apesar da sua importância enquanto cantor e compositor ir muito para além disso, a figura e a obra de Arthur Lee está directamente associada a uma das obras-primas musicais de sempre: o álbum “Forever Changes”. Muitos defendem que, só com este álbum, o seu nome ficaria escrito nos anais da música e mesmo da cultura dos últimos cem anos. É actualmente, e quase unanimemente, considerado um dos melhores álbuns de sempre, tendo sido, mais do que uma vez, considerado por revistas da especialidade “o melhor álbum de rock de sempre”.
Claro que a história não foi sempre assim. “Forever Changes” era o terceiro disco oficial dos “Love”, uma banda (que se poderia caracterizar como sendo) de rock, constituída e liderada pela figura de Arthur Lee em 1965.Esta banda era a continuação de uma outra, “The Grass Roots”, constituída mais ou menos um ano antes, mas cujo nome teve de ser alterado para “Love”, devido ao facto de, entretanto, ter surgido uma outra com o mesmo nome, mas com a diferença de ter tido sucesso imediato. É claro que a qualidade e a peculiaridade, sem falar no ecletismo, da banda de Arthur Lee, não se devia só a este artista, pois ele teve o apoio de um conjunto de músicos talentosos que o ajudaram a levar avante o seu projecto. O núcleo da banda, para além de Arthur Lee, girava igualmente à volta de Bryan MacLean (em baixo), o outro compositor principal, que havia chegado aos "Grass Roots" logo antes de se passarem a chamar de "Love". Nesse tempo, para além de Bryan MacLean e Arthur Lee, a banda contava ainda com Johnny Echols (em baixo) na guitarra e Don Conka na bateria, dois grandes amigos de juventude de Lee, para além de John Fleckenstein no baixo. Pouco depois da sua mudança de nome e quando começavam a se dar a conhecer, Don Conka, já a braços com uma dependência grave de heroína que o tornava cada vez mais errático nas suas aparições ao vivo e em estúdio, é convidado a saír do grupo. Para o seu lugar, é contratado Alban "Snoopy" Pfisterer (em baixo), irónicamente um pianista com formação clássica. Entretanto, começam-se a fazer planos para se iniciarem as gravações do primeiro álbum, simplesmente intitulado "Love". Devido a razões não especificadas, John Fleckenstein é levado a também saír desta banda logo antes de se iniciarem as gravações desse primeiro álbum. Arthur Lee passaria a também se ocupar do baixo eléctrico, enquanto não fosse encontrado um substituto convincente para este instrumento. Por fim, este é encontrado no experiente baixista Ken Forssi (em cima), que chega mesmo a tempo de participar nas gravações do primeiro disco. É esta a formação que aparece tanto na capa do primeiro disco, como nas primeiras fotografias promocionais da banda.Logo a seguir ao lançamento do primeiro disco, o grupo decide incluir entre os seus membros o baterista Michael Stuart (em baixo), até então membro de uma entre outras bandas que actuavam, com frequência, nos mesmos lugares que os "Love". Desta forma, Alban "Snoopy" Pfisterer, transita para os teclados, onde ele era verdadeiramente exímio. A decisão de aumentar a importância dos teclados na sua música, levaria os "Love" a não pôr de parte a ideia de incluir também instrumentos de sopro. Na sequência disto, decidem convidar também um outro músico, Tjay Cantrelli (em baixo, à direita), este um saxofonista e flautista com formação jazzística e já deles conhecido há vários anos. Assim a banda "Love" vê os seus elementos integrantes aumentados para sete, operando-se igualmente uma mudança quase radical no seu som, chegando-se a aproximar daquilo que, mais tarde, seria caracterizado como "Fusão" ("Fusion"), ou seja, uma fusão de música rock e jazz. Esta (curta) fase aparece eternizada no álbum "Da Capo", gravado na segunda metade de 1966 e lançado bem no começo de 1967. Foi também um período marcado por constantes digressões que, para além de darem a conhecer os "Love" a uma audiência cada vez maior, contribuíram para um aumentar das tensões no interior do grupo, agravadas pelo uso crescente de drogas cada vez mais pesadas e uma vida pouco regrada. Isto contribuiria, decerto, para a saída de Alban "Snoopy" Pfisterer e Tjay Cantrelli.

Aquando da gravação do álbum “Forever Changes”, o grupo era constituído, para além de Arthur Lee na voz e na guitarra, Johnny Echols, na guitarra principal, Bryan MacLean na guitarra-ritmo, Ken Forssi no baixo e Michael Stuart na bateria e percussão.
O álbum “Forever Changes”, foi lançado em Novembro de 1967, tendo as suas gravações se iniciado em Junho desse mesmo ano, com diversas paragens pelo meio. Não se pode dizer que a banda estivesse a atravessar o seu melhor momento. Apesar de todo o culto que se havia constituído à volta dos “Love”, os seus dois álbuns anteriores não haviam sido um sucesso em termos de vendas, apesar de alguns singles terem, ocasionalmente, beliscado os lugares inferiores das tabelas de êxitos. Aliás, o grosso dos fãs não se encontrava em território americano, mas antes na Europa, com especial destaque para as ilhas britânicas, onde se contavam diversos músicos que citavam, com frequência, Arthur Lee e os “Love” entre as suas principais influências. Basta citar Syd Barrett, o primeiro mas breve líder dos “Pink Floyd”, e Jimi Hendrix, que também havia estado em algumas bandas anteriores de Arthur Lee, antes de iniciar a sua meteórica carreira a solo, entre 1966 e 1970.Por outro lado, as constantes digressões e pressões próprias da vida artística, haviam introduzido no grupo grandes doses de álcool e, sobretudo, drogas cada vez mais duras, ao ponto de afectar a performance dos seus membros, quer ao vivo quer em estúdio. Terá sido, aliás esta a razão principal para os membros dos “Love”, à excepção de Arthur Lee e Bryan MacLean, não terem participado nas primeiras sessões de gravação de dois dos temas a incluir no álbum final. Aqui houve o breve recurso a alguns músicos de estúdio. Nas sessões seguintes, que se arrastariam, com diversos intervalos pelo meio, até Setembro de 1967, todos os elementos dos “Love” puderam fazer a sua devida participação, com a condição de estarem na sua melhor forma possível.

Um aspecto que enriqueceu ainda mais a singularidade deste disco foi a utilização de uma orquestra de cordas e metais, dirigida por David Angel, o que contribuiu para aumentar tanto a expressividade como a carga dramática dos temas. Este álbum, mais do que os dois anteriores, é profundamente dominado pela personna de Arthur Lee. Mesmo nos temas que não são originalmente da sua autoria e onde a sua voz não é a principal, a sua influência é incontestável. O essencial das letras das canções, centra-se numa visão, mais pessimista do que optimista dos tempos que então corriam. Arthur Lee, inclusive, sentia que iria morrer em breve e, dessa forma, essas seriam as suas últimas palavras, o que, felizmente, acabaria por não acontecer. Mesmo assim, apesar de terem como ponto de partida a realidade do ano da sua edição, neste caso 1967, as letras de "Forever Changes" permanecem, até hoje, profundamente actuais. Musicalmente, é o album mais difícil de definir dos "Love". Nele entrecruzam-se muitas influências, desde o rock psicadélico até ao country, passando mesmo pela música clássica.

Mais uma vez, o então novo álbum dos "Love" não obteve o sucesso de vendas esperado, apesar de, já nessa altura, começarem a surgir algumas vozes elogiando a sua genialidade, não detectada à primeira audição. Terá sido esta nova falta de êxito, associada ao clima de grande tensão e instabilidade vivida então dentro da banda, que terá precipitado o fim dos "Love" em 1968. A partir de então, os caminhos dos seus membros começam a se afastar. Terá sido só a partir de então que a obra musical deste grupo começou a receber a gradualmente a devida consideração. É verdade que, pouco tempo depois, Arthur Lee decidiu refundar os "Love", com elementos completamente novos. O problema foi que a "chama" já se tinha extinto e não se conseguiu produzir de novo a riqueza e coesão existente na formação original. Desta forma, o álbum "Four Sail", editado em 1969, foi um novo fracasso discográfico.

Ao longo da década de 70, foram surgindo cada vez mais músicos reconhecendo o legado da formação original dos "Love" e Arthur Lee, em grande parte devido ao seu espírito de liderança, adquiriu um crescente estatuto de "lenda artística", nunca alcançado durante o irrepetível período de 1965-1968. Assim, o número de apreciadores dos "Love" originais, agora tornados quase míticos, não pararia de aumentar. Isto contribuiu para incentivar as diversas tentativas, mal sucedidas, de voltar a reunir a banda, não só da parte de Arthur Lee, como de Bryan MacLean. O destino e a sorte dos seus membros originais decerto que não ajudou muito a concretizar esse sonho de muitos fãs. Arthur Lee, foi detido em 1996, por uso e porte de arma ilegal, tendo acabado por ser condenado a cinco anos de prisão efectiva, consequência também de recorrentes problemas legais no passado. Durante a sua detenção, recusaria quaisquer entrevistas. É preciso também referir que, durante este período, faleceriam dois dos elementos fundadores dos "Love", neste caso, Ken Forssi e Bryan MacLean, ambos em 1998, o primeiro em Janeiro, vítima de um tumor cerebral, e o segundo no dia 25 de Dezembro, ficando assim definitivamente impossibilitada uma futura reunião da banda original. Após a sua libertação, em 2001, Arthur Lee entrou num novo período de verdadeiro renascimento musical. Voltou a reconstituir de novo o seu grupo "Arthur Lee and Love", entrando numa nova fase de digressões mundiais, tendo mesmo passado por Portugal no ano de 2004.

Os seus espectáculos são unânimemente elogiados pela crítica. Vale a pena também salientar o facto de, nos seus últimos anos de vida, Arthur Lee ter interpretado ao vivo, na íntegra, esse momento musical irrepetível que foi "Forever Changes", para além de ter passado a integrar na sua banda um dos últimos sobreviventes dos membros fundadores dos "Love" originais, neste caso John Echols (em baixo). O antigo baterista Michael Stuart (em baixo), decide sair do seu longo anonimato e publicar um livro autobiográfico sobre a sua experiência nos "Love", colocando um grande destaque no periodo abrangido pela concepção, gravação, edição e posterior recepção do álbum "Forever Changes", o qual, naquele tempo, não lhe parecia muito perfeito. Acabaria por mudar de opinião posteriormente, pois "se a maioria esmagadora das pessoas achava "Forever Changes" uma obra-prima, ele provavelmente estaria errado".


Pelo meio, foi sendo preparado um documentário sobre os anos cruciais dos "Love", com a participação de todos os elementos ainda vivos da banda original, incluindo neste caso, para além do seu líder, John Echols e Michael Stuart (em cima), e também os produtores Bruce Botnick e Jac Holzman, sem esquecer David Angel, responsável pela memorável orquestração de "Forever Changes". Pode-se afirmar que Arthur Lee estava, finalmente, a obter o reconhecimento devido, quando uma leucemia mielóide pôs termo à sua vida no dia 3 de Agosto de 2006.

Segunda-feira, Março 03, 2008

Um animal extinto (ou não?)


Este animal era conhecido tanto por "lobo da Tasmânia" como por "tigre da Tasmânia". Estes nomes deviam-se, no caso do primeiro, à sua leve semelhança com um canídeo selvagem e, no caso do segundo, às riscas existentes na maior parte do seu dorso e da tonalidade do pelo não muito diferente da do tigre verdadeiro. Mas as comparações com aqueles dois carnívoros ficavam por aqui, pois este animal não tinha qualquer parentesco com eles.
O "tigre da Tasmânia" era um marsupial carnívoro, autóctone, claro está, da Tasmânia, que é uma vasta ilha a Sul da Austrália. Desta forma, só tinha um muito distante parentesco com os outros marsupiais existentes por estas coordenadas, entre os quais se encontram os cangurus, os vombates e os qualas. Era um animal que caçava preferencialmente depois do anoitecer, sendo, pelo contrário, algo esquivo durante a luz do dia. Tinha a característica de ser um predador bastante voraz e a particularidade, algo engraçada, de conseguir abrir as suas mandíbulas num ângulo muito superior à maioria dos outros carnívoros actualmente conhecidos.
Devido ao facto de caçar pela calada e ter estado implicado nos ataques a diversos animais de criação introduzidos nessas terras pelos colonizadores, foi considerado danoso para a economia local e encarado como um alvo a abater. Tarde demais, descobriu-se que esta culpa exclusiva era, muitas vezes, atribuída, injustamente, ao "tigre da Tasmânia". Na verdade, existiam também outros predadores implicados na morte e desaparecimento de galináceos e gado ovino, em especial o "dingo", este um descendente selvagem dos cães domésticos.

Foi vítima, entre o fim do século XIX e o princípio do século XX, de perseguições indiscriminadas e implacáveis por parte sobretudo de fazendeiros, criadores de gado e grandes proprietários. Para agravar as coisas, muitos deles foram incentivados, pelos governos centrais e locais, com a possibilidade de receberem prémios avultados por cada exemplar morto, inclusive se se tratasse de ninhadas completas. Há registos fotográficos, alguns revelando requintes de crueldade, onde surgem esses caçadores mostrando, com orgulho desmedido, os exemplares mortos, tanto com o fim de receberem o dinheiro prometido, como de mostrarem alguma valentia e ousadia.

Esta visão do “tigre da Tasmânia” como uma praga a combater até ao extermínio, perdurou, mesmo à revelia de recomendações oficiais em sentido contrário, até à década de 1930. Nesta altura, o essencial dos “tigres da Tasmânia” que existiam vivos, praticamente só eram vistos em cativeiro.
A maioria destes agora raros exemplares acabaria por ir morrendo aos poucos, por vezes devido a doenças contraídas, quer durante o transporte, quer já no próprio cativeiro, quando não à simples negligência dos respectivos tratadores.
O último exemplar conhecido vivo sobreviveu vários anos num jardim zoológico em Hobart, na Tasmânia. Acabou por ficar conhecido pelo nome de “Benjamin” e constitui o protagonista de quase todos os poucos filmes que chegaram até nós deste animal peculiar. Ainda hoje, não se sabe ao certo se este animal era macho ou fêmea. Acabaria por morrer em 7 de Setembro de 1936, marcando esta data a, segundo se presume, o momento da extinção de mais esta espécie animal.
Oficialmente, este animal encontra-se extinto, embora tenham surgido, de tempos a tempos, relatos não confirmados de ter sido visto um ou outro exemplar. No entanto, nunca foi comprovada a sua veracidade, supondo-se mesmo tratarem-se de boatos e encenações. Nalguns casos, as supostas testemunhas chegaram a tirar fotografias, mas aquilo que era possível visionar ou não seria suficientemente elucidativo ou tinha muitos contornos de montagem. Mesmo assim o mistério mantém-se aceso. A proliferação destes relatos pouco verosímeis resulta, em grande parte, de uma promessa de recompensa monetária importante, para quem conseguir localizar ou, melhor ainda, capturar um exemplar vivo e em bom estado. Acontece que, dada a natureza comportamental deste animal, só uma equipe devidamente apetrechada conseguiria fazer uma captura dentro dos requisitos exigidos.
Houve o caso de alguns caçadores de prémios pretenderem recorrer ao método mais simples de captura, a armadilha, o que, devido aos óbvios danos físicos que isto causaria aos animais, foi expressamente proibido nas zonas onde estes pudessem ser encontrados. Desta forma, a existência actual, ou não, do “tigre da Tasmânia” continua a ser um assunto em aberto.
Outra forma de tentar fazer renascer este animal supostamente extinto, segundo alguns especialistas em genética, seria através da clonagem, recorrendo a material de ADN proveniente de diversos exemplares conservados em muitos museus de História Natural existentes no mundo. Chegou mesmo, há poucos anos, a ser constituída uma equipa de trabalho, cuja missão é trazer de novo à vida o “lobo da Tasmânia”. Recorrer-se-ia à clonagem dos materiais genéticos recolhidos, tal como já havia sido feito, com algum sucesso, com a famosa ovelha “Dolly”. O exemplar utilizado como ponto de partida foi um feto relativamente bem conservado. Após algumas paragens momentâneas, este complexíssimo processo ainda está em curso.No entanto, os detractores desta ambiciosa missão, referem, com algum conhecimento de causa, que o DNA disponível se encontra em muito mau estado devido, entre outros aspectos, ao longo tempo decorrido desde a morte do exemplar escolhido. Mesmo assim, devido aos fabulosos progressos que têm sido conseguidos no campo da clonagem e da engenharia genética, é de supor, até certo ponto, uma possibilidade de sucesso.